===== EU TRANSCENDENTAL ===== (in. [[lexico:t:transcendental|transcendental]] [[lexico:e:ego|ego]]; fr. Moi transcendental; al. Transzendentales [[lexico:i:ich|Ich]]; it. Io trascendentale). O mesmo que [[lexico:e:eu|eu]] [[lexico:a:absoluto|absoluto]] (v. Eu). Elevado o [[lexico:c:campo|campo]] fenomenológico à [[lexico:o:ordem|ordem]] [[lexico:e:essencial|essencial]], nem por isso se pode afirmar que a epoché tenha alcançado a realização plena. É certo que o [[lexico:m:mundo|mundo]] material, as esferas ideais da [[lexico:c:ciencia|ciência]], compreendendo a [[lexico:l:logica|lógica]] e a [[lexico:m:matematica|matemática]] — a [[lexico:m:mathesis-universalis|mathesis universalis]] — , [[lexico:d:deus|Deus]], já se encontram «fora de circuito». Chegados a este [[lexico:p:ponto|ponto]], mesmo depois de feita a chamada [[lexico:r:reducao-eidetica|redução eidética]], só podemos afirmar que se encontra concluído o [[lexico:p:processo|processo]] da epoché psicológica ou da [[lexico:t:tese|tese]] psicológica da epoché. Estabelecendo um paralelo com o [[lexico:p:pensamento|pensamento]] de [[lexico:d:descartes|Descartes]], podemos afirmar que nas primeira e segunda [[lexico:m:meditacoes-metafisicas|meditações metafísicas]] se desenvolve um processo redutivo em que, graças ao descobrimento de uma [[lexico:a:atitude|atitude]] dubitativa, se alcança o [[lexico:c:cogito|cogito]] indubitável e que mutatis mutandis podemos [[lexico:c:comparar|comparar]] [[lexico:e:esse|esse]] processo à fase husserliana da epoché psicológica. Na [[lexico:v:verdade|verdade]] esta [[lexico:n:nao|não]] põe ainda entre parêntesis» a [[lexico:e:existencia|existência]] «[[lexico:n:natural|natural]]» ou «mundana» do eu, nem dos seus atos ou vivências, que por isso conservam ainda um [[lexico:c:carater|caráter]] [[lexico:p:psicologico|psicológico]]. É que o mundo natural não é apenas o mundo [[lexico:e:exterior|exterior]]. Eu sou também uma [[lexico:r:realidade|realidade]] concreta mundana. Em novo [[lexico:g:grau|grau]] de [[lexico:r:reflexao|reflexão]] devo orientar a [[lexico:m:mente|mente]] para mim mesmo e para a minha [[lexico:i:imanencia|imanência]]. Se quero atingir o terreno firme das evidências apodíticas tenho que [[lexico:p:por|pôr]] também em suspenso a própria existência do eu e dos seus atos. Deste [[lexico:m:modo|modo]] atinjo o eu absoluto, o [[lexico:e:eu-transcendental|eu transcendental]] e, com ele, o terreno genuinamente filosófico. «A [[lexico:e:epoche-fenomenologica|epoché fenomenológica]] reduziu o meu eu natural e [[lexico:h:humano|humano]] e a minha [[lexico:v:vida-psiquica|vida psíquica]] — lê-se nas Meditações Cartesianas — ao meu eu transcendental fenomenológico, campo da auto-experiência transcendental fenomenológica». «A [[lexico:f:fenomenologia|fenomenologia]] põe fora de circuito a realidade da [[lexico:n:natureza|natureza]], mesmo a realidade do [[lexico:c:ceu|céu]] e da [[lexico:t:terra|Terra]], dos homens e dos animais, do [[lexico:p:proprio|próprio]] eu e do eu alheio, mas retém, por assim dizer, a [[lexico:a:alma|alma]], o [[lexico:s:sentido|sentido]] de tudo isso», afirma [[lexico:h:husserl|Husserl]] num [[lexico:t:texto|texto]] inédito de lições de 1909. Esse sentido, esse [[lexico:v:valor|valor]] de [[lexico:s:ser|ser]], é haurido de mim mesmo, eu transcendental. *[[lexico:n:nota|nota]]: Manuscrito FI 17, pp. 75-76. Citado em J. Fragata, A [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] de Husserl como [[lexico:f:fundamento|fundamento]] da filosofia. Braga, 1959, pp. 113, nota 92. A existência, que o fenomenólogo põe fora de circuito, é uma «[[lexico:c:crenca|crença]]» (Glauben) em que repousa a [[lexico:a:atitude-natural|atitude natural]] e de que é [[lexico:p:prototipo|protótipo]] o modo de existência que atribuímos à [[lexico:c:coisa|coisa]] material. Executada a [[lexico:r:reducao|redução]], a existência eliminada mantem-se presente na [[lexico:c:consciencia|consciência]] reduzida, mas apenas qua cogitatum. Cf. H. L. Van Breda, L’itineraire husserlien de la Phénomenologie pure à la phénoménologie transcendentale, Die Welt des Menschen — Die Welt der Philosophie, Festschrift für Jan Patocka, herausgegeben von Walter Biemel und dem Husserl-Archiv zu Löwen, «Phaenomenologica, 72», Den Haag, M. Nijhoff, 1976, pp. 309 e segs.* Este domínio da [[lexico:e:experiencia|experiência]], para ser investigado, deve revelar uma certa [[lexico:e:estrutura|estrutura]]. Ora Husserl interpreta [[lexico:f:fenomeno|fenômeno]] (Phänomen) como aquilo que possui a dupla [[lexico:s:significacao|significação]] de [[lexico:a:aparencia|aparência]] (Erscheinung) e o que aparece (Erscheinendes) e é absolutamente [[lexico:d:dado|dado]]; esta significação dupla introduz uma primeira [[lexico:d:distincao|distinção]]. A consciência, que a qualquer nível fenomenológico é sempre definida como [[lexico:i:intencional|intencional]], como consciência de, está [[lexico:a:agora|agora]] absolutamente dada; o de é também dado absolutamente, correspondendo-lhe um cogitatum indubitável, por se dar na imanência do cogito. Assim, pode o campo da [[lexico:i:investigacao|investigação]] transcendental resumir-se no [[lexico:e:esquema|esquema]] ego — cogito — cogitatum, em que estes três [[lexico:e:elementos|elementos]] se dão em [[lexico:u:unidade|unidade]]. [Morujão]