===== ÉTICA ===== ÉTICA (A) demonstrada pelo [[lexico:m:metodo|método]] geométrico, principal [[lexico:o:obra|obra]] de [[lexico:s:spinoza|Spinoza]] (1677). [[lexico:e:esse|esse]] difícil tratado, ordenado em definições, axiomas, demonstrações e corolários (como um tratado de [[lexico:g:geometria|geometria]] e diretamente inspirado, aliás, na "geometria [[lexico:g:genetica|genética]]" de [[lexico:h:hobbes|Hobbes]]), [[lexico:p:parte|parte]] do [[lexico:p:principio|princípio]] de que a [[lexico:e:existencia|existência]], em seu [[lexico:c:carater|caráter]] [[lexico:a:absoluto|absoluto]], é um [[lexico:f:fato|fato]] [[lexico:r:racional|racional]], penetrável à [[lexico:r:razao|razão]]. Pela [[lexico:a:analise|análise]] do [[lexico:p:pensamento|pensamento]] [[lexico:h:humano|humano]], leva-nos a conceber essa existência absoluta, a realizá-la em nós, superando todas as nossas paixões e atingindo por isso mesmo a [[lexico:f:felicidade|felicidade]] mais pura (ou [[lexico:b:beatitude|beatitude]]). Sua [[lexico:d:diferenciacao|diferenciação]] dos "três gêneros de [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]]" em [[lexico:c:conhecimento-sensivel|conhecimento sensível]], conceituai e intuitivo ([[lexico:r:racionalidade|racionalidade]] [[lexico:s:superior|superior]]) é célebre. A Ética é, com a [[lexico:c:critica|Crítica]] de [[lexico:k:kant|Kant]], a obra que mais profundamente marcou e inspirou toda a [[lexico:m:metafisica|metafísica]] alemã ([[lexico:f:fichte|Fichte]], [[lexico:s:schelling|Schelling]], [[lexico:h:hegel|Hegel]]), que determina, ela própria, a [[lexico:e:epoca|época]] filosófica [[lexico:a:atual|atual]]. Na França, suscitou os comentários de J. [[lexico:l:lagneau|Lagneau]], L. [[lexico:b:brunschvicg|Brunschvicg]] e principalmente de M. Guéroult. Este [[lexico:s:sistema|sistema]] é um sistema da [[lexico:s:substancia|substância]], o [[lexico:p:puro|puro]] sistema da substância. Já vimos o que era a substância: o que resta após termos dissipado as aparências, separado as partes, afastado a [[lexico:q:qualidade|qualidade]] ou o [[lexico:a:acidente|acidente]]. Para uma [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] materialista, esse resto da [[lexico:o:operacao|operação]] [[lexico:n:nao|não]] é [[lexico:n:nada|nada]], é o nada; para uma filosofia idealista, ao contrário, é tudo, é o [[lexico:t:todo|todo]], a razão e o princípio do [[lexico:s:ser|ser]], o [[lexico:p:proprio|próprio]] ser. O ser é pois a substância, e a substância das [[lexico:s:substancias|substâncias]], o ser dos seres não pode ser senão uma substância primeira ou um ser primeiro isto é, [[lexico:d:deus|Deus]]. Posto isto, é [[lexico:i:impossivel|impossível]] que essa [[lexico:r:realidade|realidade]] inicial, que essa realidade única seja de outra [[lexico:o:ordem|ordem]] que não a do pensamento. Nenhuma [[lexico:e:especie|espécie]] de [[lexico:c:corpo|corpo]], nenhum conglomerado de [[lexico:m:materia|matéria]], nenhuma matéria poderia convir a [[lexico:s:semelhante|semelhante]] [[lexico:d:definicao|definição]]. Foi o que concluiu com acerto um historiador e um [[lexico:t:teorico|teórico]] da substância, Louis Prat: "Só do pensamento se pode dizer que é concebido em si e [[lexico:p:por-si|por si]]. Nele se identificam pensamento e [[lexico:a:atributo|atributo]], sem o que a [[lexico:i:ideia|ideia]] da substância se confundiria com a ideia abstrata da [[lexico:c:coisa|coisa]] ou do ser e não exprimiria mais nada." Portanto, só a substância pode [[lexico:e:existir|existir]] essencialmente. Mas será ela que confere a si mesma esse ser, ou pelo contrário recebê-lo-á de fora? Confundir-se-á com ele ou não será senão um [[lexico:a:aspecto|aspecto]] ou [[lexico:c:consequencia|consequência]] dele? A resposta de Spinoza, dada logo nas primeiras linhas da Ética, é decisiva e arrasta consigo todo o resto: "Por [[lexico:c:causa|causa]] de si entendo aquilo cuja [[lexico:e:essencia|essência]] envolve a existência, em outras [[lexico:p:palavras|palavras]], aquilo cuja [[lexico:n:natureza|natureza]] não pode ser concebida senão como existente". Esta [[lexico:q:questao|questão]] da existência e da essência era clássica e [[lexico:s:santo|santo]] Tomás já a debatera no seu opúsculo De [[lexico:e:ente|ente]] et essentia. Limitava-se, porém, a diferenciações formais e o seu tratado era antes um tratado de [[lexico:l:logica|lógica]]. Com Spinoza mergulhamos no fundo e no vivo da questão, com todas as suas consequências. A substância, conforme a terceira definição do primeiro livro da Ética, é "o que existe em si e é concebido por si, isto é, aquilo cujo [[lexico:c:conceito|conceito]] não necessita, para a sua [[lexico:f:formacao|formação]], do conceito de outra coisa". A substância é o ser: mas donde possui ela esse ser, de si mesma ou de fora? Se não o possui de si mesma temos de remontar a uma outra, a uma primeira substância cuja essência se identificará com a existência, e essa primeira substância será Deus. Observemo-lo desde logo: deste princípio deriva fatalmente toda a doutrina metafísica de Spinoza, que é um [[lexico:p:panteismo|panteísmo]] integral. Se a substância é tal o [[lexico:m:mundo|mundo]] não poderá ser senão substância e o que dele se manifestar sob a [[lexico:f:forma|forma]] corporal nada mais será do que [[lexico:m:manifestacao|manifestação]] ou derivação — [[lexico:a:aparencia|aparência]], em [[lexico:s:suma|suma]]. E, se existe uma substância primeira, todas as outras só poderão ser variações ou "modificações" dela. E assim é, com [[lexico:e:efeito|efeito]]. Como poderia uma coisa infinitamente una e [[lexico:s:simples|simples]] produzir algo que não estivesse nela, algo que não fosse ela própria? Filosofia da substância, filosofia do ser, [[lexico:o:ontologia|ontologia]] pura. Isto se vê ainda pela [[lexico:i:ideia-de-deus|ideia de Deus]] que nela se encontra e por esta [[lexico:p:prova|prova]] de Deus, que não passa de um [[lexico:d:desenvolvimento|desenvolvimento]] e de um aprofundamento da de Santo Anselmo... e de [[lexico:d:descartes|Descartes]]: Se Deus não existe, diz o [[lexico:t:teorema|teorema]] XI, "a sua essência não envolve a existência" — [[lexico:o:o-que-e|o que é]] [[lexico:a:absurdo|absurdo]]. Acrescenta o escólio: "Pois, [[lexico:d:dado|dado]] que poder existir é uma [[lexico:f:forca|força]], segue-se que quanto mais realidade comportar a natureza de uma coisa, tanto mais força terá essa coisa por si mesma para existir; portanto, o ser absolutamente [[lexico:i:infinito|infinito]], ou Deus, tem absolutamente de [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]] o poder infinito de existir, e por conseguinte existe absolutamente." Seja qual for o [[lexico:v:valor|valor]] da [[lexico:d:demonstracao|demonstração]], retenhamos o princípio: Deus como foco de toda realidade, Deus como única realidade. Nada pode existir que não venha de Deus e que, de algum [[lexico:m:modo|modo]], não seja Deus. Spinoza repete-o formalmente no teorema XXVIII: "Afora a substância e os modos não existe nada, e os modos nada mais são do que as afecções dos atributos de Deus." A mesma [[lexico:f:fatalidade|fatalidade]] panteística é estendida à natureza, com igual [[lexico:p:precisao|precisão]] nas fórmulas: "todas as [[lexico:c:coisas|coisas]] são determinadas pela [[lexico:n:necessidade|necessidade]] da natureza de Deus a existir e a agir de certo modo" (teorema XXIX); há uma natureza naturante, que é "o que existe em si e é concebido por si" — ou por outra, a substância; e há uma natureza naturada, que é "tudo o que resulta da própria natureza de Deus". O mundo, pois, nada é senão Deus, uma vasta modificação de Deus. Vamos descobrir o mesmo quando passarmos aos corpos e às almas. Antes de lá chegar, notemos o caráter desse sistema que se edifica com uma espécie de [[lexico:f:fatalismo|fatalismo]] ou de necessidade implacável. É um sistema acima de tudo [[lexico:l:logico|lógico]] em que, conforme já verificamos, tudo se deduz de definições primeiras e dessa dupla concepção do que é "por si" e do que não é "por si", sendo portanto derivado ou produzido. O mundo se edifica na pura [[lexico:a:abstracao|abstração]], pois só no domínio do [[lexico:a:abstrato|abstrato]] é que são possíveis tais construções. Objetarão talvez que o [[lexico:p:ponto|ponto]] de partida é a [[lexico:o:onipotencia|onipotência]] e a [[lexico:b:bondade|bondade]] de Deus, que estas [[lexico:i:ideias|ideias]] são qualitativas e que Spinoza possuía a sua dose de [[lexico:p:piedade|piedade]]. Não o negamos. Mas também é [[lexico:v:verdade|verdade]] que a operação pertence à ordem da [[lexico:i:inteligencia|inteligência]], que a inteligência se exerce aí com a sua [[lexico:m:maxima|máxima]] [[lexico:s:sutileza|sutileza]], de forma impecável, e que se trata em última análise de um [[lexico:j:jogo|jogo]], um jogo que no panteísmo, e mormente no panteísmo spinozista, atinge o ápice do refinamento mas nem assim consegue satisfazer sozinho a [[lexico:a:alma|alma]], que necessita, para ser tocada, de outra espécie de valor. Sem [[lexico:f:falar|falar]] em argumentações dessa mesma ordem, lógicas e próprias para contradizer esta, pois a inteligência ainda se presta a todas as [[lexico:c:causas|causas]] e nada deixa [[lexico:s:subsistir|subsistir]] do que ela própria edifica sem procurar uma base em outra parte.