===== ETHOS ===== éthos: [[lexico:c:carater|caráter]], [[lexico:m:modo|modo]] de [[lexico:v:vida|vida]] habitual [[lexico:h:heraclito|Heráclito]]: «o ethos de um [[lexico:h:homem|homem]] é o seu [[lexico:d:daimon|daimon]]», Diels, frg. 119. Em [[lexico:p:platao|Platão]] é um resultado do [[lexico:h:habito|hábito]] (Leis 792e), é mais [[lexico:m:moral|moral]] do que intelectual ([[lexico:d:dianoia|dianoia]]) em [[lexico:a:aristoteles|Aristóteles]] ([[lexico:e:ethica-nichomacos|Ethica Nichomacos]] 1139a). Tipos de ethos em vários períodos da vida são descritos por Aristóteles, Rhet. II, caps. 12-14. No [[lexico:e:estoicismo|estoicismo]] o ethos é a [[lexico:f:fonte|fonte]] do [[lexico:c:comportamento|comportamento]], SVF I, 203. Para Aristóteles seria insensato e mesmo ridículo (geloion) querer demonstrar a [[lexico:e:existencia|existência]] do ethos, assim como é ridículo querer demonstrar a existência da [[lexico:p:physis|physis]]. Physis e ethos são duas formas primeiras de [[lexico:m:manifestacao|manifestação]] do [[lexico:s:ser|ser]], ou da sua [[lexico:p:presenca|presença]], [[lexico:n:nao|não]] sendo o ethos senão a transcrição da physis na peculiaridade da [[lexico:p:praxis|praxis]] ou da [[lexico:a:acao|ação]] humana e das estruturas histórico-sociais que dela resultam. No ethos está presente a [[lexico:r:razao|razão]] profunda da physis que se manifesta no [[lexico:f:finalismo|finalismo]] do [[lexico:b:bem|Bem]] e, por [[lexico:o:outro|outro]] lado, ele rompe a [[lexico:s:sucessao|sucessão]] do mesmo que caracteriza a physis como domínio da [[lexico:n:necessidade|necessidade]], com o advento do diferente no [[lexico:e:espaco|espaço]] da [[lexico:l:liberdade|liberdade]] [[lexico:a:aberto|aberto]] pela praxis. Embora enquanto [[lexico:a:autodeterminacao|autodeterminação]] da praxis o ethos se eleve sobre a physis, ele reinstaura, de alguma maneira, a necessidade da [[lexico:n:natureza|natureza]] ao fixar-se na constância do hábito ([[lexico:h:hexis|hexis]]). Demonstrar a [[lexico:o:ordem|ordem]] da praxis, articulada em hábitos ou [[lexico:v:virtudes|virtudes]], não segundo a necessidade transiente da physis, mas segundo o finalismo [[lexico:i:imanente|imanente]] do [[lexico:l:logos|Logos]] ou da razão, eis o propósito de uma [[lexico:c:ciencia|ciência]] do ethos tal como Aristóteles se propõe constituí-la, coroando a [[lexico:t:tradicao|tradição]] socrático-platônica. A [[lexico:e:etica|Ética]] alcança, assim, seu [[lexico:e:estatuto|estatuto]] de [[lexico:s:saber|saber]] autônomo, e passa a ocupar um [[lexico:l:lugar|lugar]] preponderante na tradição cultural e filosófica do Ocidente. O [[lexico:t:termo|termo]] ethos é uma transliteração dos dois vocábulos gregos ethos (com eta inicial) e ethos (com épsilon inicial). É importante distinguir com exatidão os matizes peculiares a cada um desses termos. Por outro lado, se a eles acrescentarmos o vocábulo hexis, de [[lexico:r:raiz|raiz]] diferente, teremos definido um núcleo semântico a partir do qual será [[lexico:p:possivel|possível]] traçar as grandes linhas da Ética como ciência do ethos. A primeira acepção de ethos (com eta inicial) designa a morada do homem (e do [[lexico:a:animal|animal]] em [[lexico:g:geral|geral]]). O ethos é a casa do homem. O homem habita sobre a [[lexico:t:terra|Terra]], acolhendo-se ao recesso seguro do ethos. Este [[lexico:s:sentido|sentido]] de um lugar de estada permanente e habitual, de um abrigo protetor, constitui a raiz [[lexico:s:semantica|semântica]] que dá [[lexico:o:origem|origem]] à [[lexico:s:significacao|significação]] do ethos como [[lexico:c:costume|costume]], [[lexico:e:esquema|esquema]] praxeológico durável, [[lexico:e:estilo|estilo]] de vida e ação. A [[lexico:m:metafora|metáfora]] da morada e do abrigo indica justamente que, a partir do ethos, o espaço do [[lexico:m:mundo|mundo]] torna-se habitável para o homem. O domínio da physis ou o [[lexico:r:reino|reino]] da necessidade é rompido pela abertura do espaço [[lexico:h:humano|humano]] do ethos no qual irão inscrever-se os [[lexico:c:costumes|costumes]], os hábitos, as normas e os interditos, os valores e as [[lexico:a:acoes|ações]]. Por conseguinte, o espaço do ethos enquanto espaço humano, não é [[lexico:d:dado|dado]] ao homem, mas por ele [[lexico:c:construido|construído]] ou incessantemente reconstruído. Nunca a casa do ethos está pronta e acabada para o homem, e [[lexico:e:esse|esse]] seu [[lexico:e:essencial|essencial]] inacabamento é o [[lexico:s:signo|signo]] de uma presença a um [[lexico:t:tempo|tempo]] próxima e infinitamente distante, e que Platão designou como a presença exigente do Bem, que está [[lexico:a:alem|além]] de [[lexico:t:todo|todo]] ser ([[lexico:o:ousia|ousia]]) ou para além do que se mostra acabado e completo. É, pois, no espaço do ethos que o logos torna-se [[lexico:c:compreensao|compreensão]] e [[lexico:e:expressao|expressão]] do ser do homem como exigência radical de [[lexico:d:dever-ser|dever-ser]] ou do bem. Assim, na aurora da [[lexico:f:filosofia-grega|filosofia grega]], Heráclito entendeu o ethos na sua [[lexico:s:sentenca|sentença]] célebre: ethos anthropo daimon. O ethos é, na concepção heraclítica, regido pelo logos, e é nessa [[lexico:o:obediencia|obediência]] ao logos que se dão os primeiros passos em direção à Ética como saber [[lexico:r:racional|racional]] do ethos. assim como irá entendê-la a tradição filosófica do Ocidente. A segunda acepção de ethos (com épsilon inicial) diz [[lexico:r:respeito|respeito]] ao comportamento que resulta de um constante repetir-se dos mesmos atos. É, portanto, o que ocorre frequentemente ou quase sempre (pollakis), mas não sempre ([[lexico:a:aei|aei]]), nem em [[lexico:v:virtude|virtude]] de uma necessidade [[lexico:n:natural|natural]]. Daqui a [[lexico:o:oposicao|oposição]] entre ethei e physei, o habitual e o natural. O ethos, nesse caso, denota uma constância no agir que se contrapõe ao [[lexico:i:impulso|impulso]] do [[lexico:d:desejo|desejo]] ([[lexico:o:orexis|orexis]]). Essa constância do ethos como [[lexico:d:disposicao|disposição]] permanente é a manifestação e como que o vinco [[lexico:p:profundo|profundo]] do ethos como costume, seu fortalecimento e o relevo dado às suas peculiaridades. O modo de agir ([[lexico:t:tropos|tropos]]) do [[lexico:i:individuo|indivíduo]], expressão da sua [[lexico:p:personalidade|personalidade]] ética, deverá traduzir, finalmente, a articulação entre o ethos como caráter e o ethos como hábito. Mas, se o ethos (com épsilon inicial) designa o [[lexico:p:processo|processo]] [[lexico:g:genetico|genético]] do hábito ou da disposição habitual para agir de uma certa maneira, o termo dessa [[lexico:g:genese|gênese]] do ethos – sua [[lexico:f:forma|forma]] acabada e o seu fruto – é [[lexico:d:designado|designado]] pelo termo hexis, que significa o hábito como possessão estável, como [[lexico:p:principio|princípio]] [[lexico:p:proximo|próximo]] de uma ação posta sob o senhorio do [[lexico:a:agente|agente]] e que exprime a sua [[lexico:a:autarkeia|autarkeia]], o seu domínio de [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]], o seu bem. Entre o processo de [[lexico:f:formacao|formação]] do hábito e o seu termo como disposição permanente para agir de [[lexico:a:acordo|acordo]] com as exigências de realização do bem ou do melhor, o ethos se desdobra como espaço da realização do homem, ou ainda como lugar privilegiado de inscrição da sua praxis. Enquanto ação ética, a praxis humana é a atualização imanente ([[lexico:e:energeia|energeia]]) de um processo estruturado segundo uma circularidade causal de momentos, e essa constitui exatamente o primum notum, a [[lexico:e:evidencia|evidência]] primeira e fundadora da [[lexico:r:reflexao|reflexão]] ética. O ethos como costume, ou na sua [[lexico:r:realidade|realidade]] histórico-social, é princípio e [[lexico:n:norma|norma]] dos atos que irão plasmar o ethos como hábito (ethos-hexis). Há pois, uma circularidade entre os três momentos: costume (ethos), ação (praxis), hábito (ethos-hexis), na [[lexico:m:medida|medida]] em que o costume é fonte das ações tidas como éticas e a [[lexico:r:repeticao|repetição]] dessas ações acaba por plasmar os hábitos. A praxis, por sua vez, é mediadora entre os momentos constitutivos do ethos como costume e hábito, num ir e vir que se descreve exatamente como [[lexico:c:circulo|círculo]] dialético: a universalidade abstrata do ethos como costume inscreve-se na particularidade da praxis como [[lexico:v:vontade|vontade]] subjetiva, e é universalidade concreta ou [[lexico:s:singularidade|singularidade]] do [[lexico:s:sujeito|sujeito]] ético no ethos como hábito ou virtude. A ação ética procede do ethos como do seu princípio [[lexico:o:objetivo|objetivo]] e a ele retoma como a seu [[lexico:f:fim|fim]] realizado na forma do [[lexico:e:existir|existir]] virtuoso.