===== ETERNIDADE ===== A busca dos arquétipos inconscientes em [[lexico:j:jung|Jung]], o [[lexico:r:retorno|retorno]] ao mais antigo em [[lexico:h:heidegger|Heidegger]], a [[lexico:s:seducao|sedução]] do arqueológico e do primigênio, são modos de surpreender a Eternidade através do [[lexico:t:tempo|tempo]], estabelecendo um contacto com o primordial, com o anterior ao tempo: Kerényi diz claramente que, na [[lexico:m:mitologia|mitologia]], o retorno ao [[lexico:a:arcaico|arcaico]] é o retorno ao Grund; o Grund, nos românticos, é o anterior ao tempo, é como a Eternidade no tempo. Há, porém, formas frustras patentes de procura da Eternidade no tempo. O Cristianismo dotou o [[lexico:h:homem|homem]] de um [[lexico:t:tempo-angustioso|tempo angustioso]], de uma [[lexico:c:consciencia|consciência]] histórica e de um [[lexico:s:sentimento|sentimento]] tão agudo de sua [[lexico:e:existencia|existência]], que todos os movimentos espirituais do Ocidente, ou têm como [[lexico:f:fim|fim]] avivar a consciência do tempo dramático, ou fugir a essa consciência, por [[lexico:m:meio|meio]] de heresias que apenas a confirmam. A [[lexico:u:utopia|utopia]] do paraíso terrestre no [[lexico:f:futuro|futuro]] é uma [[lexico:f:fuga|fuga]] à consciência angustiosa do tempo. O [[lexico:c:carater|caráter]] do [[lexico:m:marxismo|marxismo]], por [[lexico:e:exemplo|exemplo]], como heresia cristã, é visível, quando esta [[lexico:t:teoria|teoria]] propõe o fim da [[lexico:h:historia|história]], pela supressão da [[lexico:l:luta|luta]] de [[lexico:c:classe|classe]], dada como [[lexico:f:fundamento|fundamento]] da história; é o mesmo que propor um tempo sem tempo, ou um tempo sem história, de onde seja banida essa [[lexico:a:angustia|angústia]] do tempo da [[lexico:s:salvacao|salvação]]. Na sua comovente [[lexico:c:compaixao|compaixão]] do homem, quer libertar o homem, [[lexico:n:nao|não]] pela porta da Eternidade, mas pela eternização do tempo. Mas o paraíso extra-temporal no futuro, não é senão a inversão da [[lexico:p:perspectiva|perspectiva]] cristã do paraíso extra-temporal no passado. Todas as teorias progressistas operam esta inversão de perspectivas, porque a [[lexico:r:redencao|redenção]] do homem no paraíso terrestre futuro, se funda na [[lexico:i:ilusao|ilusão]] da [[lexico:p:possibilidade|possibilidade]] de suspender o tempo. Como o [[lexico:i:individuo|indivíduo]] vê que seu futuro não pode diferir muito de seu passado e como o futuro é o portador seguro da [[lexico:m:morte|morte]], ele consegue anular o tempo angustioso deslocando o [[lexico:p:ponto|ponto]] de [[lexico:r:referencia|referência]] para a coletividade, a [[lexico:h:humanidade|humanidade]], que viverá então um paraíso onde o tempo terá sido suspenso. Esta ilusão domina a [[lexico:c:civilizacao|civilização]] contemporânea, que traz na sua [[lexico:t:tecnica|técnica]], a marca frustra da angústia cristã. Mas a eternidade, não só não é sustação do tempo, como ainda é o [[lexico:p:principio|princípio]] graças ao qual o tempo transcorre e não pode deixar de transcorrer. Dissemos que o tempo não poderia passar, se não contivesse um [[lexico:e:elemento|elemento]] de Eternidade. Tal como nós mudamos, com a [[lexico:c:condicao|condição]] de permanecer (se não permanecêssemos, não mudaríamos, a cada [[lexico:m:mudanca|mudança]] seríamos [[lexico:o:outro|outro]]), assim também o tempo, só pode [[lexico:a:aparecer|aparecer]] como [[lexico:s:sucessao|sucessão]], a partir de um princípio intemporal, onde não há sucessão. Da [[lexico:p:presenca|presença]] da Eternidade no tempo vem a fascinação do [[lexico:e:eterno|eterno]]. Esta fascinação do Eterno dominou a [[lexico:f:filosofia-medieval|filosofia medieval]], com o desprezo do tempo sucessivo que é um tempo acidental e [[lexico:c:contingente|contingente]] na [[lexico:m:metafisica|Metafísica]]. Não foi pela sua indiferença pela [[lexico:e:emocao|emoção]] como [[lexico:f:faculdade|faculdade]] cognitiva; não foi só porque o tempo [[lexico:v:vivido|vivido]] não se deixa captar nas redes do [[lexico:s:silogismo|silogismo]]; não foi só em [[lexico:v:virtude|virtude]] do seu [[lexico:i:intelectualismo|intelectualismo]], que a [[lexico:e:escolastica|Escolástica]] desconheceu o tempo vivido, o tempo [[lexico:e:emocional|emocional]] de cada existência humana. Esta feição da Escolástica mostra que não há no Cristianismo somente o tempo angustioso, mas também a fascinação do Eterno, a fascinação do tempo [[lexico:r:ritual|ritual]]. O tempo angustioso, que sem [[lexico:d:duvida|dúvida]] é o tempo cristão, se liberta na Igreja medieval pela [[lexico:m:mediacao|mediação]] do tempo ritual. O [[lexico:r:reflexo|reflexo]] do Eterno, na [[lexico:v:vida|vida]] católica, se encontra no Ano Litúrgico, [[lexico:r:repeticao|repetição]] imutável dos mesmos ritos, em que o tempo simboliza a Eternidade. O [[lexico:m:misterio|mistério]] da Redenção se deu no tempo, mas está a repetir-se em cada vida e a cada [[lexico:m:momento|momento]], como um [[lexico:d:drama|drama]] que reproduz a eternidade e não o tempo. Por isso, no [[lexico:d:dogma|dogma]] católico, a missa é a reconstituição exata, dia por dia, do mesmo mistério, que repete no tempo o [[lexico:r:ritmo|ritmo]] da Eternidade. O [[lexico:r:rito|rito]] católico, imutável e [[lexico:u:universal|universal]], alheio ao suceder [[lexico:h:historico|histórico]], alheio à variação das interpretações, exprime o intemporal no tempo. Se foi portanto a [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] contemporânea e não a Filosofia medieval, que explicitou a [[lexico:e:essencia|essência]] angustiosa do tempo cristão, isto se deve a que a Cristandade medieval (e inclusive a [[lexico:p:patristica|patrística]], com [[lexico:s:santo|santo]] [[lexico:a:agostinho|Agostinho]] e outros platônicos), assumia o tempo sucessivo no tempo ritual, no tempo como ritmo. A [[lexico:d:descricao|descrição]] do tempo angustioso tinha como fim levar o cristão a imergir-se no [[lexico:c:corpo|corpo]] [[lexico:m:mistico|Místico]] por meio do tempo ritual. Por isso, o rito é [[lexico:e:essencial|essencial]] ao Catolicismo. Ele instaura, na [[lexico:p:polaridade|polaridade]] extrema da vida cristã, a conexão entre a [[lexico:e:esperanca|esperança]] e a angústia, entre a Eternidade e o tempo.