===== ESSÊNCIAS ===== Antes de mais, a [[lexico:f:fenomenologia:start|fenomenologia]] toma para objetos, [[lexico:n:nao:start|não]] factos ou conjuntos de factos, mas essências. Trata da [[lexico:e:essencia:start|essência]] da [[lexico:p:percepcao:start|percepção]], da essência do [[lexico:j:juizo:start|juízo]], da [[lexico:v:vontade:start|vontade]], da [[lexico:c:coisa:start|coisa]], visível ou [[lexico:i:ideal:start|ideal]], etc. Não são generalidades empíricas, que agrupem factos em diferentes classes. Pelo contrário, apenas a essência fornece um [[lexico:d:direito:start|direito]] à [[lexico:g:generalizacao:start|generalização]]. Pode-se [[lexico:c:compreender:start|compreender]] historicamente a introdução da essência como [[lexico:o:objeto:start|objeto]] fenomenológico [[lexico:p:proprio:start|próprio]] a partir das primeiras reflexões de [[lexico:h:husserl:start|Husserl]] sobre as ciências apriorísticas dedutivas, cujas leis têm o [[lexico:c:carater:start|caráter]] da [[lexico:i:idealidade:start|idealidade]] e são leis de essência. A [[lexico:c:compreensao:start|compreensão]] da idealidade destas leis exige que formemos, numa [[lexico:e:evidencia:start|evidência]], a essência das unidades ideais da [[lexico:t:teoria:start|teoria]] como tal, dos seus [[lexico:c:conceitos:start|conceitos]], objeto, [[lexico:u:unidade:start|unidade]], [[lexico:p:pluralidade:start|pluralidade]], etc. Mas, precisamente, se a [[lexico:c:ciencia:start|ciência]] opera com essências, ela não o sabe. Ela contenta-se com definições, com fórmulas. A essência ela própria não é o seu objeto. Se ela se torna o da fenomenologia, é porque esta procede a uma [[lexico:c:conversao:start|conversão]] do «[[lexico:v:ver:start|ver]]», deixando-se guiar pelo [[lexico:s:sentido:start|sentido]] da ciência. A essência será «vista» como o «preenchimento» deste sentido, como a própria coisa que era [[lexico:v:visada:start|visada]]. Mas o fio condutor da ciência pura, que permite formar essências exactas, não é o [[lexico:u:unico:start|único]] [[lexico:m:modo:start|modo]] de [[lexico:a:acesso:start|acesso]] à essência. É um traço [[lexico:u:universal:start|universal]] da [[lexico:v:vida:start|vida]] pré-científica que toda a coisa possa [[lexico:s:ser:start|ser]] designada e nomeada; ela constitui um pólo de [[lexico:i:identidade:start|identidade]] a despeito das mudanças que pode sofrer. Este sentido [[lexico:i:identico:start|idêntico]] implica o preenchimento [[lexico:p:possivel:start|possível]] por uma essência. A coisa tem o seu «sentido de coisa», a cor vermelha tem o seu «sentido de vermelho», a percepção o seu «sentido de percepção», etc. A essência não é outra coisa senão a explicitação e o preenchimento destes sentidos numa evidência própria que Husserl chama [[lexico:e:eidetica:start|eidética]] ou [[lexico:v:visao:start|visão]] de essência. A essência desempenha na fenomenologia um duplo papel: no [[lexico:p:plano:start|plano]] estrutural, corresponde às «condições de possibilidades» da [[lexico:c:consciencia:start|consciência]] (correlativamente ao seu objeto) e, por isso, é inseparável do próprio facto, porque o facto tem a sua «essência de facto», a sua [[lexico:c:contingencia:start|contingência]] é uma «[[lexico:n:necessidade:start|necessidade]] de essência». Mas ela é também «um objeto de um novo [[lexico:t:tipo:start|tipo]]» (Idées, p. 21). Por este [[lexico:m:motivo:start|motivo]] corresponde--lhe uma «[[lexico:i:intuicao:start|intuição]] originária» e assume outra [[lexico:f:funcao:start|função]]: a de fornecer à evidência o seu [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de apoio mais seguro, na [[lexico:m:medida:start|medida]] em que ela lhe permite [[lexico:t:ter:start|ter]] presente sob o seu olhar o objeto visado, tal como ele é visado. O «preenchimento» pela essência é uma [[lexico:f:forma:start|forma]] eminente do preenchimento da [[lexico:i:intencao:start|intenção]] cognitiva. A partir das essências e das conexões de essências (por [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]], as que existem entre o som e a [[lexico:i:intensidade:start|intensidade]], a [[lexico:e:extensao:start|extensão]] e a cor, e, mais geralmente, as que dizem [[lexico:r:respeito:start|respeito]] às leis formais analíticas e às leis materiais sintéticas), a fenomenologia revaloriza a velha [[lexico:p:palavra:start|palavra]] [[lexico:o:ontologia:start|ontologia]], estabelecendo uma maneira rigorosa de caracterizar «regiões» de ser a partir das suas propriedades «eidéticas». [Schérer] Husserl demonstra (Rech. logiques. Ideen I) que [[lexico:e:esse:start|esse]] [[lexico:c:ceticismo-psicologista:start|ceticismo psicologista]], apoiado no [[lexico:e:empirismo:start|empirismo]], suprime-se contradizendo-se. Com [[lexico:e:efeito:start|efeito]], o [[lexico:p:postulado:start|postulado]] de base para [[lexico:t:todo:start|todo]] empirismo consiste na [[lexico:a:afirmacao:start|afirmação]] de que a [[lexico:e:experiencia:start|experiência]] é a única [[lexico:f:fonte:start|fonte]] de [[lexico:v:verdade:start|verdade]] para qualquer [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]]: mas essa afirmação mesma deve ser posta à [[lexico:p:prova:start|prova]] da experiência. Ora, a experiência, fornecendo apenas o [[lexico:c:contingente:start|contingente]] e o [[lexico:s:singular:start|singular]], não pode fornecer à ciência o [[lexico:p:principio:start|princípio]] universal e [[lexico:n:necessario:start|necessário]] de uma afirmação [[lexico:s:semelhante:start|semelhante]]. O empirismo não pode ser compreendido pelo empirismo. Por [[lexico:o:outro:start|outro]] lado, é [[lexico:i:impossivel:start|impossível]] confundir por exemplo o fluxo de estados subjetivos experimentados pelo matemático enquanto ele raciocina e o [[lexico:r:raciocinio:start|raciocínio]]: as operações do raciocínio são definíveis independentemente desse fluxo; pode-se apenas dizer que o matemático raciocina corretamente quando por esse fluxo [[lexico:s:subjetivo:start|subjetivo]] acede à [[lexico:o:objetividade:start|objetividade]] do raciocínio [[lexico:v:verdadeiro:start|verdadeiro]]. Mas essa objetividade ideal é definida por condições lógicas e a verdade do raciocínio (sua não-contradição) impõe-se tanto ao matemático como ao [[lexico:l:logico:start|lógico]]. O raciocínio verdadeiro é universalmente válido, o raciocínio [[lexico:f:falso:start|falso]] é maculado de [[lexico:s:subjetividade:start|subjetividade]], portanto instransmissível. Do mesmo modo um [[lexico:t:triangulo:start|triângulo]] retângulo possui uma objetividade ideal no sentido que ele é o [[lexico:s:sujeito:start|sujeito]] de um conjunto de [[lexico:p:predicados:start|predicados]], inalienáveis sob [[lexico:p:pena:start|pena]] de perder o próprio triângulo retângulo. Para evitar o [[lexico:e:equivoco:start|equívoco]] da palavra "[[lexico:i:ideia:start|ideia]]", diremos que ele possui uma essência, constituída por todos os predicados cuja supressão imaginária acarretaria a supressão do triângulo em [[lexico:p:pessoa:start|pessoa]]. Por exemplo, todo triângulo é por essência convexo. Mas, se permanecemos no nível dos "objetos" matemáticos, o [[lexico:a:argumento:start|argumento]] formalista, que faz desses objetos concepções convencionais, permanece poderoso; demonstrar-se-á por exemplo que os pretensos [[lexico:c:caracteres:start|caracteres]] essenciais do objeto matemático são na [[lexico:r:realidade:start|realidade]] dedutíveis a partir de axiomas. Por esse motivo, Husserl amplia, a partir do segundo temo das Recherches logiques, sua teoria da essência para aplicá-la ao terreno favorito do empirismo, a percepção. Quando dizemos "a parede é amarela" estarão implicadas nesse juízo as essências? E, por exemplo, a cor poderá ser tomada independentemente da superfície sobre a qual se "expõe"? Não, pois uma cor separada do [[lexico:e:espaco:start|espaço]] em que ela se dá seria impensável. Pois se, fazendo "variar" pela [[lexico:i:imaginacao:start|imaginação]] o objeto cor, retiramos a ele seu [[lexico:p:predicado:start|predicado]] "extensão", suprimimos a [[lexico:p:possibilidade:start|possibilidade]] do próprio objeto cor, chegamos a uma consciência de [[lexico:i:impossibilidade:start|impossibilidade]]. Esta revela a essência. Há, portanto, nos juízos dos limites à nossa [[lexico:f:fantasia:start|fantasia]], que nos são fixados pelas próprias [[lexico:c:coisas:start|coisas]] de que há juízo e que a Fantasia mesma revela graças ao [[lexico:p:processo:start|processo]] da variação. O processo da variação imaginária dá-nos a própria essência, o ser do objeto. O objeto (Objekt) é "uma coisa qualquer" por exemplo o [[lexico:n:numero:start|número]] dois, a [[lexico:n:nota:start|nota]] dó, o [[lexico:c:circulo:start|círculo]], uma [[lexico:p:proposicao:start|proposição]] qualquer, um [[lexico:d:dado:start|dado]] [[lexico:s:sensivel:start|sensível]] (Ideen I). Fazemo-lo "variar" arbitrariamente, obedecendo apenas à evidência [[lexico:a:atual:start|atual]] e vivida do [[lexico:e:eu:start|eu]] posso ou não posso. A essência ou [[lexico:e:eidos:start|eidos]] do objeto é constituído pelo [[lexico:i:invariante:start|invariante]] que permanece idêntico através das variações. Assim, se se opera a variação sobre o objeto como coisa sensível, obtém-se como ser mesmo da coisa: o conjunto espaço-temporal, provido de [[lexico:q:qualidades-segundas:start|qualidades segundas]], colocado como [[lexico:s:substancia:start|substância]] e unidade causai. A essência se experimenta pois numa intuição vivida; a "visão das essências" (Wesenschau) não possui qualquer caráter metafísico, a teoria das essências não se enquadra num [[lexico:r:realismo:start|realismo]] platônico em que a [[lexico:e:existencia:start|existência]] da essência seria afirmada, a essência é somente aquilo em que a "própria coisa" me é revelada numa doação originária. Tratava-se exatamente, como o queria o empirismo, de voltar "[[lexico:a:as-proprias-coisas:start|às próprias coisas]]" (zu den Sachen selbst), de suprimir toda opção [[lexico:m:metafisica:start|metafísica]]. Mas o empirismo era ainda metafísico quando confundia essa exigência do [[lexico:r:retorno:start|retorno]] às coisas com a exigência de fundar todo o conhecimento na experiência, considerando como conhecimento indiscutível que só a experiência nos dá as próprias coisas: há um preconceito [[lexico:e:empirico:start|empírico]], pragmatista. Na realidade, a última fonte de direito para qualquer afirmação [[lexico:r:racional:start|racional]] está no "ver" (sehen) em [[lexico:g:geral:start|geral]], isto é, na consciência doadora originária (Ideen). Não pressupomos [[lexico:n:nada:start|nada]], diz Husserl, "nem mesmo o [[lexico:c:conceito:start|conceito]] de [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]]". E quando o [[lexico:p:psicologismo:start|psicologismo]] pretende identificar o eidos, obtido pela variação, com o conceito cuja [[lexico:g:genese:start|gênese]] é psicológica e empírica, respondemos apenas que, se ele quer se limitar à intuição originária tomando-a como sua [[lexico:l:lei:start|lei]], seus conhecimentos a respeito são menores do que ele pretende. O número dois é talvez, considerado como conceito, [[lexico:c:construido:start|construído]] a partir da experiência, mas na medida em que eu obtenho desse número o eidos por variação, eu afirmo que este eidos é "anterior" a qualquer teoria da construção do número e a prova é que toda [[lexico:e:explicacao:start|explicação]] [[lexico:g:genetica:start|genética]] se apoia sempre no [[lexico:s:saber:start|saber]] atual da "[[lexico:a:alguma-coisa:start|alguma coisa]]" que a gênese deve [[lexico:e:explicar:start|explicar]]. A [[lexico:i:interpretacao:start|interpretação]] empirista da [[lexico:f:formacao:start|formação]] do número dois pressupõe a compreensão originária desse número. Esta compreensão é portanto uma [[lexico:c:condicao:start|condição]] para toda ciência empírica; o eidos que ela nos oferece é apenas um [[lexico:p:puro:start|puro]] possível, mas existe uma anterioridade desse possível em [[lexico:r:relacao:start|relação]] ao [[lexico:r:real:start|real]] de que trata a ciência empírica. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}