===== ESSÊNCIA ===== A [[lexico:n:natureza:start|natureza]] própria a uma [[lexico:c:coisa:start|coisa]]; conjunto de suas características constitutivas. — A [[lexico:n:nocao:start|noção]] de essência opõe-se, num primeiro [[lexico:s:sentido:start|sentido]], a de "[[lexico:a:acidente:start|acidente]]": é o que constitui o fundo de uma [[lexico:r:realidade:start|realidade]], o [[lexico:c:carater:start|caráter]] [[lexico:e:essencial:start|essencial]] de uma coisa. Diz-se, por [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]], que a [[lexico:j:justica:start|justiça]] é, em essência, rigorosa, isto é, "por [[lexico:d:definicao:start|definição]]". Se fosse caridosa [[lexico:n:nao:start|não]] seria mais a justiça. Num segundo sentido, a essência (a natureza ou características de um [[lexico:s:ser:start|ser]]) opõe-se à "[[lexico:e:existencia:start|existência]]" (o [[lexico:f:fato:start|fato]] de ser). Essa última [[lexico:o:oposicao:start|oposição]], que se refere a [[lexico:s:santo:start|santo]] Tomás, e à [[lexico:d:distincao:start|distinção]] que ele havia estabelecido entre a "[[lexico:m:metafisica:start|metafísica]]"; que estuda as características ou a natureza do [[lexico:m:mundo:start|mundo]] e de [[lexico:d:deus:start|Deus]], e a "[[lexico:o:ontologia:start|ontologia]]", que estuda o fato da existência, é extremamente frequente na [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]] [[lexico:e:existencialista:start|existencialista]]: esta opõe a essência do [[lexico:h:homem:start|homem]], a [[lexico:i:ideia:start|ideia]] que podemos [[lexico:t:ter:start|ter]] de nós mesmos, à sua existência, que se reduz à livre iniciativa da [[lexico:l:liberdade:start|liberdade]]. Quando [[lexico:s:sartre:start|Sartre]] escreve que, para o homem, "a existência precede a essência", sublinha não ser a [[lexico:v:vida:start|vida]] do homem determinada de antemão e sim que ela se faz continuamente à [[lexico:m:medida:start|medida]] de nossas livres decisões voluntárias. A essência constitui primeiramente o pólo oposto à existência. Assim como a existência responde à [[lexico:q:questao:start|questão]] "se" um [[lexico:e:ente:start|ente]] existe, a essência responde à questão "que" é um ente; por isso a essência se denomina também [[lexico:q:quididade:start|quididade]] (do latim: quidditas). No [[lexico:a:aspecto:start|aspecto]] que estamos considerando, referimo-nos à essência individualmente determinada, ou seja, ao núcleo [[lexico:s:substancial:start|substancial]] do ente em sua concreta individualização (p. ex., "este" homem Pedro), porque o [[lexico:u:universal:start|universal]], enquanto tal, não pode [[lexico:e:existir:start|existir]]. A essência do [[lexico:f:finito:start|finito]], como finita que é, permanece aquém da plenitude do ser, nunca compreende mais do que um setor de suas possibilidades, ao passo que a essência de Deus abarca a plenitude infinita do ser: Ele é "o" [[lexico:p:proprio:start|próprio]] Ser (ipsum [[lexico:e:esse:start|esse]]). Consequentemente, a essência de Deus exclui toda distinção relativamente à existência; ao invés, o finito caracteriza-se por esta distinção, na qual a essência, como [[lexico:p:potencia:start|potência]] subjetiva, e o ser (a existência), como [[lexico:a:ato:start|ato]], constituem (como [[lexico:p:principios-do-ser:start|princípios do ser]]) o finito. Numa segunda acepção, o [[lexico:t:termo:start|termo]] denota o fundo essencial interno das [[lexico:c:coisas:start|coisas]], em oposição à sua [[lexico:f:forma:start|forma]] (configuração) [[lexico:e:exterior:start|exterior]]. Aqui, a essência é o ser próprio ou [[lexico:v:verdadeiro:start|verdadeiro]] das coisas, que produz, sustenta e torna [[lexico:i:inteligivel:start|inteligível]] a forma [[lexico:a:aparente:start|aparente]] das mesmas. Propriedades opostas diferenciam entre si os dois domínios. Enquanto a forma aparente está sujeita à individualização, à [[lexico:m:mudanca:start|mudança]] e, portanto, à [[lexico:a:ausencia:start|ausência]] de [[lexico:n:necessidade:start|necessidade]], a essência aparece como algo [[lexico:s:superior:start|superior]] à individualização, algo permanente e [[lexico:n:necessario:start|necessário]]. A doutrina platônica das [[lexico:i:ideias:start|ideias]] entusiasmou-se, ao interpretar esta [[lexico:d:dualidade:start|dualidade]]; e os sistemas filosóficos continuaram sempre discrepando neste [[lexico:p:particular:start|particular]]. O [[lexico:c:conceptualismo:start|conceptualismo]] absorve ou volatiliza a essência no [[lexico:f:fenomeno:start|fenômeno]] tornando, por isso, [[lexico:i:impossivel:start|impossível]] toda metafísica. O [[lexico:p:panteismo:start|panteísmo]], pelo contrário, dissolve, em última [[lexico:i:instancia:start|instância]], o fenômeno na essência ao fazer do ser [[lexico:a:absoluto:start|absoluto]] o fundo essencial [[lexico:i:imanente:start|imanente]] das coisas. No centro, encontra-se a nossa concepção, segundo a qual, às coisas corresponde um fundo essencial imanente próprio, que, ao mesmo [[lexico:t:tempo:start|tempo]], representa uma [[lexico:p:participacao:start|participação]] do [[lexico:f:fundamento:start|fundamento]] [[lexico:u:ultimo:start|último]] [[lexico:t:transcendente:start|transcendente]], do Ser absoluto e, por tal [[lexico:m:motivo:start|motivo]], reflete também analogicamente as propriedades deste. Nosso [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]] apreende por [[lexico:a:abstracao:start|abstração]] o fundo imanente essencial no [[lexico:c:conceito-universal:start|conceito universal]] e, mediante [[lexico:r:raciocinio:start|raciocínio]] na [[lexico:d:demonstracao:start|demonstração]] da [[lexico:e:existencia-de-deus:start|existência de Deus]], o fundamento último transcendente. O fundamento essencial imanente pode ser considerado do [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de vista metafísico ou [[lexico:f:fisico:start|físico]]. A essência metafísica só designa o núcleo íntimo, sem o qual esta essência seria suprimida; a essência [[lexico:f:fisica:start|física]] inclui outrossim, as propriedades essenciais (propriedades) que necessariamente se seguem daquele núcleo e sem as quais esta essência não poderia realizar-se fisicamente. — LOTZ. O termo essência refere-se, em [[lexico:g:geral:start|geral]], àquilo em que algo consiste e entendeu-se de maneiras muito diferentes. Na medida em que [[lexico:p:platao:start|Platão]] considerou as ideias e as formas como modelos e “realidades verdadeiras”, viu-as como [[lexico:e:essencias:start|essências]], mas só a partir de [[lexico:a:aristoteles:start|Aristóteles]] se obtém uma ideia apropriada da essência. Com [[lexico:e:efeito:start|efeito]], a partir das análises de Aristóteles, considera-se como essência o quê de uma coisa, isto é, não o que a coisa seja (ou o fato de ser a coisa), mas [[lexico:o:o-que-e:start|o que é]]. Por [[lexico:o:outro:start|outro]] lado, considera-se que a essência é certo [[lexico:p:predicado:start|predicado]] por [[lexico:m:meio:start|meio]] do qual se diz o que a coisa é, ou se define a coisa. No primeiro caso, temos a essência como algo de [[lexico:r:real:start|real]]. No segundo, como algo de [[lexico:l:logico:start|lógico]] ou conceptual. Os dois sentidos estão estreitamente relacionados, mas tende-se a [[lexico:v:ver:start|ver]] o primeiro a partir do segundo. Por isso, o [[lexico:p:problema:start|problema]] da essência foi muitas vezes o problema da predicação. Naturalmente, nem todos os [[lexico:p:predicados:start|predicados]] são essenciais. Dizer “Pedro é um [[lexico:b:bom:start|Bom]] estudante” não é enunciar a essência de Pedro, pois “é um bom estudante” pode considerar-se como um predicado acidental de Pedro. Dizer “Pedro é homem” é expressar o ser essencial de Pedro. Mas expressa também o ser essencial de Paulo, António, etc. Para se ver o que Pedro é dever-se-ia encontrar uma [[lexico:d:diferenca:start|diferença]] que o demarcasse essencialmente em [[lexico:r:relacao:start|relação]] a Paulo, Antônio, João, etc. Ora, dada a dificuldade de encontrar definições essenciais para indivíduos, tendeu-se a reservar as definições essenciais para classes de indivíduos. Por exemplo, dizer “o homem é um [[lexico:a:animal:start|animal]] [[lexico:r:racional:start|racional]]” foi considerado como uma definição essencial (necessária e suficiente), pois expressa o [[lexico:g:genero:start|gênero]] [[lexico:p:proximo:start|próximo]] e a diferença específica, de [[lexico:m:modo:start|modo]] que não pode confundir-se o homem com nenhuma outra [[lexico:c:classe:start|classe]] de indivíduos. Devido a isso, muitos autores, a partir de Aristóteles, afirmaram que a essência só se predica de [[lexico:u:universais:start|universais]]. Contudo, isto não é completamente satisfatório. Dizer que a essência é uma [[lexico:e:entidade:start|entidade]] abstrata (um universal) equivale a adoptar uma determinada [[lexico:p:posicao:start|posição]] [[lexico:o:ontologica:start|ontológica]] que não pode ser subscrita por todos os filósofos. Pode, pois, também voltar-se à realidade e alegar que a essência é um [[lexico:c:constitutivo:start|constitutivo]] metafísico de qualquer realidade. As respostas dadas ao problema da essência dependeram em grande [[lexico:p:parte:start|parte]] do fato de se ter sublinhado o aspecto lógico ou o aspecto metafísico. Assim, se define a essência como um predicado, pergunta-se se é necessário ou suficiente. Se se define como um universal, pode perguntar-se se trata de um gênero, de uma [[lexico:e:especie:start|espécie]] ou de ambos. Se é um constitutivo metafísico, pode considerar-se como uma ideia, como uma forma, como um modo de [[lexico:c:causa:start|causa]], etc. Por outro lado, do ponto de vista metafísico, pode considerar-se a essência como uma parte da coisa juntamente com a existência. Levanta-se aqui o problema da relação entre a essência e a existência, tão abundantemente tratado pelos filósofos medievais, e, em particular pelos filósofos escolásticos - incluindo os escolásticos Árabes. O termo essência ligou-se muitas vezes ao termo ser. Assim, em Santo [[lexico:a:agostinho:start|Agostinho]], para o qual “essência se diz daquilo que é ser... as demais coisas que se acham essências ou [[lexico:s:substancias:start|substâncias]] implicam acidentes que provocam nelas alguma mudança” (SOBRE A [[lexico:t:trindade:start|trindade]]). Assim se afirma que Deus é [[lexico:s:substancia:start|substância]] ou, como este [[lexico:n:nome:start|nome]] lhe convém mais, essência. Enquanto caráter fundamental do ser, a essência corresponde aqui só a Deus. Segundo S. Tomás, a essência diz-se daquilo pelo qual e no qual a coisa tem o ser (Sobre o Ente e a Essência). Estas definições da essência parecem primeiramente “metafísicas”, mas podem também caraterizar-se logicamente se se sublinhar que a essência pode conceber-se como algo que constitui a coisa e que este algo se expressa indicando mediante que termos se define essencialmente a coisa. [[lexico:c:como-se:start|como se]] afirmou, uma das questões mais graves é a da relação entre a essência e a existência. Das muitas opiniões a esse [[lexico:r:respeito:start|respeito]], vamos destacar algumas fundamentais. S. Tomás e os autores que ele influenciou afirmam que há distinção real entre a essência e a existência nos entes criados, mas isto não significa que a essência seja um mero acidente acrescentado à existência. Assim S. Tomás opunha-se à [[lexico:t:teoria:start|teoria]] de [[lexico:a:avicena:start|Avicena]].. Para este e para os escolásticos cristãos que seguiram a sua doutrina, a essência deve ser tomada em si mesma e não na coisa ou no [[lexico:e:entendimento:start|entendimento]]. Na coisa, a essência é aquilo pelo qual a coisa é. No entendimento, é aquilo que é mediante definição em si mesma, a essência é o que é. Di-lo Duns Escoto quando afirma que essência pode ser considerada em si mesma ([[lexico:e:estado:start|Estado]] metafísico), no qual [[lexico:s:singular:start|singular]] (estado físico ou real) ou no [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]] (estado lógico). Metafisicamente considerada, a essência distingue-se da existência só por uma distinção [[lexico:f:formal:start|formal]]. [[lexico:s:suarez:start|Suárez]] não admitiu uma distinção real entre [[lexico:e:essencia-e-existencia:start|essência e existência]], mas distinção de [[lexico:r:razao:start|razão]]. [[lexico:a:averroes:start|Averroes]] tendeu a não admitir nenhuma distinção. De modo parecido, Guilherme de Ocam afirmou que a essência e a existência não são duas realidades distintas: quer em Deus, quer na criatura não se distinguem entre si a essência e a existência mais do que aquilo que cada uma difere de si mesma. “essência” e “existência” são dois termos que significam a mesma coisa, mas uma significa-a à maneira de um [[lexico:v:verbo:start|verbo]], e a outra à maneira de um nome. Alguns dos problemas referidos passaram para a [[lexico:f:filosofia-moderna:start|filosofia moderna]]. Imediatamente, os grandes escolásticos modernos ocuparam-se da questão da essência seguindo, [[lexico:r:regra:start|regra]] geral, algumas das grandes vias medievais (tomista, escotista, occamista), mas contribuindo com particularizações que nem sempre se encontram nos escolásticos medievais. Assim, por exemplo, Suárez, que rejeita as posições tomista e escotista e se inclina para a distinção de razão, defende que não pode considerar-se a existência como realmente distinta da essência já que, de contrário, teríamos na coisa o modo de ser que lhe não pertence pela sua própria natureza. Parte considerável da [[lexico:d:discussao:start|discussão]] sobre as essências, na filosofia [[lexico:m:moderna:start|moderna]], especialmente entre os grandes filósofos do século XVII, girou em torno da natureza das essências e da relação entre a essência e a existência. Particularmente importante é a noção de essência em [[lexico:l:leibniz:start|Leibniz]]; toda a essência, afirma repetidamente, tende [[lexico:p:por-si:start|por si]] mesma à existência. São possíveis as essências que possuem um [[lexico:c:conatus:start|conatus]] que as leva a realizar-se sempre que estejam fundadas num ser necessário e existente. A razão desta [[lexico:p:propensao:start|propensão]] para existir está, para Leibniz, no [[lexico:p:principio:start|princípio]] da [[lexico:r:razao-suficiente:start|razão suficiente]]. A noção de essência desempenha um papel [[lexico:c:capital:start|capital]] na filosofia de [[lexico:h:hegel:start|Hegel]], segundo este autor, o Absoluto aparece primeiro como ser e depois como essência. “A essência é a [[lexico:v:verdade:start|verdade]] do ser” (A [[lexico:c:ciencia-da-logica:start|Ciência da Lógica]]). A essência aparece como o [[lexico:m:movimento:start|movimento]] próprio, [[lexico:i:infinito:start|infinito]], do ser. A essência é o ser em e para [[lexico:s:si-mesmo:start|si mesmo]], ou seja, o ser em absoluto. A essência é o [[lexico:l:lugar:start|lugar]] intermédio entre o ser e o [[lexico:c:conceito:start|conceito]]. “O seu movimento efetua-se do ser para o conceito”, e assim se tem a [[lexico:t:triade:start|tríade]]: ser, essência, conceito. Ao mesmo tempo, a essência desenvolve-se dialeticamente em três fases: primeiro aparece em si como [[lexico:r:reflexao:start|reflexão]] e é essência [[lexico:s:simples:start|simples]] em si; segundo, aparece como essência que emerge para a existência; [[lexico:t:terceiro:start|terceiro]], revela-se como essência que forma uma [[lexico:u:unidade:start|unidade]] com o seu aparecimento. A esta última fase da essência, antes de passar ao conceito, chama-lhe Hegel “efetividade”. Das doutrinas contemporâneas sobre a essência, deve destacar-se a de [[lexico:h:husserl:start|Husserl]] e a dos fenomenólogos, as essências não são, para a [[lexico:f:fenomenologia:start|fenomenologia]], realidades propriamente metafísicas. Mas também não são [[lexico:c:conceitos:start|conceitos]], operações mentais, etc. São “unidades ideais de [[lexico:s:significacao:start|significação]]” - ou “significação” - que surgem à [[lexico:c:consciencia:start|consciência]] [[lexico:i:intencional:start|intencional]] quando esta procura descrever perfeitamente o [[lexico:d:dado:start|dado]]. As essências, em sentido fenomenológico, são intemporais e apriorísticas. Distinguem-se, pois, dos fatos, que são temporais e aposteriorísticos. As essências na fenomenologia, são também universais, mas, em vez de serem abstratas, são concretas. Deve ter-se em conta que as essências não têm realidade ou existência, mas [[lexico:i:idealidade:start|idealidade]]. As essências de que falamos podem ser formais ou materiais. As primeiras são essências que não têm conteúdo e que valem para todos os objetos; quer ideais quer reais. As segundas são essências com conteúdo limitado, referidas a uma [[lexico:e:esfera:start|esfera]] e válidas apenas para essa esfera. A diferença entre essências formais e essências materiais não se funda na sua natureza, mas no raio da sua aplicação. 1) A substância enquanto substância primeira, ([[lexico:o:ousia:start|ousia]] próte), o ser individual, [[lexico:m:materia:start|matéria]]; 2) o indispensável de uma coisa, a substância segunda (formal) (ousia deutera). Assim essência é o "fundo" do ser, metafisicamente considerado. Os escolásticos consideram essência: todos os [[lexico:e:elementos:start|elementos]] que, ao ser dados, põem como dada a coisa, sem que se possa suprimir nenhum deles. O gênero é essência da espécie. O ser [[lexico:h:humano:start|humano]] (humanitas), essência do [[lexico:i:individuo:start|indivíduo]] homem, tal ou qual. Podemos fazer uma distinção entre essência, em sentido lógico e em sentido metafísico. Metafisicamente, a essência é o substancial, pelo qual se entende tanto o substancial individual (fático) como o geral (formal). Este caráter dual da essência, já foi exposto por Aristóteles. Logicamente, a essência é o que determina um [[lexico:o:objeto:start|objeto]] no [[lexico:p:processo:start|processo]] da definição, e só então se pode [[lexico:f:falar:start|falar]], propriamente, de uma distinção entre a essência e a existência. [[lexico:t:tomas-de-aquino:start|Tomás de Aquino]] dizia: "A essência é o que dá existência à realidade. Por isso convém que a essência, pela qual a realidade se chama ente, não seja tão somente a forma, nem tampouco a matéria, mas ambas, ainda quando apenas a forma seja, à sua maneira, a causa’ de seu ser". Husserl afirma, como já o faziam Duns Scot e Suarei, a inseparabilidade da essência e da existência. Quer evitar, assim a forma apriorística, abstrata, vazia. É a generalidade concreta. (NA: Este [[lexico:t:tema:start|tema]] analisaremos e discutiremos oportunamente ao estudarmos os [[lexico:p:principios:start|princípios]] do ser.) As ciências eidéticas, de que ele [[lexico:f:fala:start|fala]], são as que se fundam nas essências. As ciências fáticas são as experimentais. Todas as ciências de fatos têm fundamentos essenciais teóricos nas ontologias eidéticas. (gr. ti estin; lat. essentia; in. Essence; fr. Essence; al. Wesen; it. Essenza). Por este termo, entende-se Em geral qualquer resposta à [[lexico:p:pergunta:start|pergunta]]: o quê? P. ex., nas expressões "[[lexico:q:quem:start|quem]] foi [[lexico:s:socrates:start|Sócrates]]? Um [[lexico:f:filosofo:start|filósofo]]", "O que é o açúcar? Uma coisa branca e doce", "O que é o homem? Um animal racional", as [[lexico:p:palavras:start|palavras]] "um filósofo", "uma coisa branca e doce", "um animal racional" exprimem a essência das coisas a que se faz [[lexico:r:referencia:start|referência]] nas respectivas perguntas. Algumas dessas respostas limitam-se a indicar uma [[lexico:q:qualidade:start|qualidade]] do objeto (p. ex., a de ser branco e doce), ou um caráter (como o de ser filósofo) que o objeto também poderia não ter. Outras, como p. ex. a que afirma que o homem é um animal racional, parecem indicar algo a mais, um caráter que qualquer coisa chamada "homem" não pode não possuir e que, por isso, é um caráter necessário do objeto definido. Nesse último caso, a resposta à pergunta o quê? não enunciou simplesmente a essência da coisa, mas sua essência necessária ou sua substância, e pode ser assumida como sua definição. Portanto, deve-se distinguir: 1) a essência de uma coisa, que é qualquer resposta que se possa dar à pergunta o quê? 2) a essência necessária ou substância, que é a resposta (à mesma pergunta) que enuncia o que a coisa não pode não ser e que é o porquê da coisa, como quando se diz que o homem é um animal racional, pretendendo-se dizer que o homem é homem porque é racional. Os fundamentos que expusemos foram estabelecidos pela primeira vez por Aristóteles, que é o fundador da teoria da essência, assim como é fundador da teoria da substância. É verdade que Aristóteles encontrava os precedentes dessa teoria em Platão, que por sua vez a atribuía a Sócrates. "Enquanto [[lexico:e:eu:start|eu]] te pedia que me definisses a [[lexico:v:virtude:start|virtude]] inteira", censura Sócrates a Menon, "tu evitas dizer-me o que ela é e afirmas que toda [[lexico:a:acao:start|ação]] é virtude, se realizada com uma parte de virtude, como se tu já houvesses [[lexico:d:dito:start|dito]] o que é a virtude na sua inteireza e eu devesse reconhecê-la mesmo depois de a reduzires a cacos" (Men., 79 b). Nessas palavras, exigir que Menon diga o que é a virtude em sua inteireza é exigir que ele enuncie a essência necessária, ou o que a virtude não pode não ser em qualquer circunstância. É a isso, exatamente, que Aristóteles dará o nome de substância. Mas nem toda essência, ou seja, nem toda resposta à pergunta o quê? é uma definição desse [[lexico:t:tipo:start|tipo]]. Diz Aristóteles: "Quem indica a essência ora indica a substância, ora uma qualidade, ora uma de outras [[lexico:c:categorias:start|categorias]]. Quando, referindo-se a um homem, se diz que ele é um homem ou um animal, entende-se sua essência como substância. Mas quando, referindo-se à cor branca, diz-se que é branca ou é uma cor, entende-se a essência como qualidade. Igualmente, quando se faz referência à [[lexico:g:grandeza:start|grandeza]] de um côvado, afirmando que ela é a grandeza de um côvado, entende-se que sua essência é [[lexico:q:quantidade:start|quantidade]]. O mesmo se diga nos outros casos" (Top., I, 9, 103 b 27). Em outro trecho, Aristóteles contrapõe nitidamente a essência substancial à essência: "O [[lexico:e:enunciado:start|enunciado]] sempre se refere a [[lexico:a:alguma-coisa:start|alguma coisa]], assim como a [[lexico:a:afirmacao:start|afirmação]], e é sempre verdadeiro ou [[lexico:f:falso:start|falso]]; mas o [[lexico:i:intelecto:start|intelecto]] não é assim, sendo verdadeiro quando enuncia a essência segundo a essência substancial, e não verdadeiro quando a enuncia relativamente a alguma coisa" (De an., III, 6, 430 b 26). Com isso, ele não põe no mesmo [[lexico:p:plano:start|plano]] todas as respostas que podem ser dadas à pergunta "o quê?" Se à pergunta "O que és?" um homem responde "músico", sua resposta não exprime realmente o que ele é por si mesmo, sempre e necessariamente, ou seja, na sua substância. De fato, ele poderia muitíssimo [[lexico:b:bem:start|Bem]] não ser músico, e, havendo começado a sê-lo, pode deixar de sê-lo. Mas, se responder que é "um animal racional", então estará expressando o que não pode não ser ou o que é necessariamente como homem. Exprime, portanto, o que Aristóteles chama de to ti en einai ([[lexico:q:quod:start|quod]] [[lexico:q:quid:start|quid]] erat esse), que é a substância considerada à parte de seu aspecto material (Met, VII, 7, 1032 b 14). Esta segunda resposta é a única que pode valer como definição da essência do homem, ao passo que todas as outras possíveis determinações de essência não valem como definição porque não dizem o que o homem é de per si ou necessariamente (Ibid., VII, 4,1029 b 13). Também por isso só a essência necessária ou substância é o verdadeiro objeto do [[lexico:s:saber:start|saber]] ou da [[lexico:c:ciencia:start|ciência]]. Sobre estes fundamentos Aristóteles assenta a [[lexico:e:estrutura:start|estrutura]] necessária da realidade, que é o objeto específico da teoria da substância. As considerações precedentes mostram que a teoria da essência, embora diferente da teoria da substância, pode conduzir a ela e ser considerada uma [[lexico:p:propedeutica:start|propedêutica]] dela. Portanto, não é de estranhar que, na [[lexico:e:evolucao:start|evolução]] histórica do termo, seu [[lexico:s:significado:start|significado]] muitas vezes tenha sido [[lexico:i:identico:start|idêntico]] ao de essência substancial ou substância. Mesmo a [[lexico:l:linguagem:start|linguagem]] comum, na qual frequentemente se sedimenta o significado filosófico de uma longa [[lexico:t:tradicao:start|tradição]], emprega esse termo quase exclusivamente no sentido de essência necessária. Deveremos então ter em [[lexico:m:mente:start|mente]] a distinção entre os dois significados já enunciados, que Aristóteles ilustrou perfeitamente: 1a a essência como resposta à pergunta "o quê?"; 2a a essência como substância. 1) O significado geral e fundamental desse termo pode ser admitido também por filósofos que não compartilham a teoria da substância. Mas os estoicos, que não admitiram a teoria da substância, evitaram (ao que saibamos) o termo "essência". Para eles, a definição não manifesta a essência de uma coisa, mas foi definida (por Crisipo) como "resposta" (apodosis). Com isso, deram a entender que qualquer resposta à pergunta "o quê?" pode ser considerada definição da coisa sobre a qual se faz a pergunta. Com efeito, diziam que a [[lexico:d:descricao:start|descrição]] "é um [[lexico:d:discurso:start|discurso]] que conduz à coisa através de suas pegadas" (Diógenes Laércio, VII, 1, 60), vendo assim nos enunciados linguísticos um modo de orientar-se em relação às coisas, e não a [[lexico:e:expressao:start|expressão]] da substância das coisas. Desse ponto de vista, nem sequer se apresenta a [[lexico:p:possibilidade:start|possibilidade]] de passar da teoria da essência para a teoria da substância. Uma [[lexico:p:proposicao:start|proposição]] ou um enunciado qualquer [[lexico:n:nada:start|nada]] exprime que possa referir-se à substância e, portanto, declarar-se essencial ou acidental em relação a ela, dedutível ou não dedutível dela, mas exprime simplesmente um estado de fato, que, se é como se diz, verifica a proposição ou, se não é, torna-a falsa. P. ex., a proposição "é dia" é verdadeira se é dia; falsa, se não é dia (Diógenes Laércio, VII, 65). Em outros termos, a relação predicativa (ou o significado [[lexico:p:predicativo:start|predicativo]] de ser) deve ser entendida, desse ponto de vista, como uma relação de fato que remete à [[lexico:i:identidade:start|identidade]] verificável entre o objeto significado pelo [[lexico:s:sujeito:start|sujeito]] e o objeto significado pelo predicado, e não como uma relação de [[lexico:i:inerencia:start|inerência]] ou pertinência, ou como uma relação qualquer que implique conexão substancial ou necessária. Quando, a partir do séc. XIII, começou a prevalecer a [[lexico:o:orientacao:start|orientação]] estoica da [[lexico:l:logica:start|lógica]], até então quase obliterada pela orientação aristotélica, aparecendo o que se chamou de via moderna, ou terminista (em oposição à via antiga, aristotélica), o significado da cópula foi explicitamente definido em oposição ao significado que fora atribuído à cópula com base na teoria da substância. Assim, Alberto da Saxônia, depois de distinguir o significado [[lexico:e:existencial:start|existencial]] do significado predicativo do verbo é, diz a propósito deste último: "Quando o verbo aparece como terceiro constituinte , significa certa composição do predicado em relação ao sujeito, graças à qual sujeito e predicado estão pelo mesmo objeto" (Log., I, 6). Essa doutrina será repetida com frequência durante o séc. XIV (cf., p. ex., Buridan, Sophisrnata, cap. 2, concl. 10), mas é Ockham que mostra claramente seu significado, ao mesmo tempo [[lexico:p:polemico:start|polêmico]] e [[lexico:p:positivo:start|positivo]]: "Proposições como ‘Sócrates é homem’ ou ‘Sócrates é animal’ não significam que Sócrates tem [[lexico:h:humanidade:start|humanidade]] ou animalidade, nem significam que a humanidade ou a animalidade está em Sócrates, nem que Sócrates é homem ou animal, nem que o homem ou o animal é uma parte da substância ou da essência de Sócrates, ou uma parte do conceito ou da substância de Sócrates. Significam apenas que Sócrates é na realidade um homem e é na realidade animal, não no sentido de que Sócrates é esse predicado ‘homem’ e esse predicado ‘animal’, mas no sentido de que existe alguma coisa pela qual estão o predicado homem e o predicado animal: como quando acontece que esses dois predicados estão por Sócrates" (Summa log., II, 2). Essa [[lexico:c:contraposicao:start|contraposição]] da teoria da [[lexico:s:suposicao:start|suposição]] à teoria da inerência é apenas um aspecto da contraposição da teoria da essência à teoria da substância. E tal contraposição na realidade é a mesma entre a formulação da lógica estoica e a da [[lexico:l:logica-aristotelica:start|lógica aristotélica]]: a primeira fundada na enunciabilidade das situações de fato ("É dia" é verdadeiro se for dia); a segunda fundada na enunciabilidade da substância ("O homem é animal racional" porque a [[lexico:r:racionalidade:start|racionalidade]] é a essência necessária do homem). Depois disso, é fácil seguir as etapas principais dessa linha de [[lexico:i:interpretacao:start|interpretação]] da noção de essência na filosofia moderna e contemporânea. O problema criado pela desvinculação entre teoria da essência e teoria da substância é o da possibilidade de certa [[lexico:h:hierarquia:start|hierarquia]] entre as determinações se atribuídas a uma entidade qualquer, visto que nenhuma dessas determinações pode ser considerada necessária. Parece, p. ex., que no significado da [[lexico:p:palavra:start|palavra]] "homem" está muito mais implícita a "racionalidade" do que a [[lexico:d:determinacao:start|determinação]] de "bípede". Mas como pode isso acontecer se não existem determinações necessárias ou substanciais, se não se pode dizer que a racionalidade é "inerente" ao homem? A resposta que a teoria da essência dá a este problema está contida na noção de essência nominal. [[lexico:h:hobbes:start|Hobbes]], p. ex., diz que a essência é simplesmente "o caráter (accidens) graças ao qual damos nome ao objeto" (De corp., 8, § 23). Essa doutrina é exposta e defendida por [[lexico:l:locke:start|Locke]], graças a quem se torna predominante na filosofia do [[lexico:i:iluminismo:start|Iluminismo]]. Locke diz que a essência "nada mais é que a ideia abstrata à qual é associado o nome de uma espécie; por isso, tudo o que está contido nessa ideia é essencial à espécie". E acrescenta: "Embora esta seja toda a essência das substâncias naturais que conhecemos ou com a qual as distinguimos em tantas espécies eu lhe darei o nome particular de essência nominal, para distingui-la da [[lexico:c:constituicao:start|constituição]] real das substâncias, de que depende essa essência nominal juntamente com todas as propriedades da espécie dada; por isso poderá ser chamada de essência real’ (Ensaio, III, 6, 2). A essência real é a substância no genuíno sentido aristotélico, como constituição ou forma que deveria [[lexico:e:explicar:start|explicar]] todas as qualidades ou [[lexico:c:caracteres:start|caracteres]] de uma realidade e mostrá-los em suas interconexões necessárias (Ibid., 4, 9), mas, segundo Locke, tal essência real é inacessível ao homem. A doutrina da essência nominal foi a base da lógica moderna. [[lexico:s:stuart-mill:start|Stuart Mill]] repete-a dizendo: "Proposição essencial é a proposição puramente verbal que afirma de uma coisa, sob um nome particular, só o que é afirmado sobre ela pelo próprio fato de chamá-lo por esse nome, e que, por isso, não dá nenhuma informação ou só a dá em relação ao nome, não à coisa" (Log., I, VI, § 4). Com poucas variantes, essa doutrina é repetida na lógica contemporânea. C. I. Lewis diz: "Tradicionalmente, diz-se que [[lexico:t:todo:start|todo]] [[lexico:a:atributo:start|atributo]] exigido para a aplicação de um termo pertence à essência da coisa nomeada. Sem [[lexico:d:duvida:start|dúvida]], não tem significado falar da essência de uma coisa, a não ser relativamente ao fato de ela ser denominada por um termo particular" (Analysis of Knowledge and Valuation, p. 41). E Quine, sublinhando a diferença entre a doutrina aristotélica da essência como substância e a "doutrina do significado", observa: "Deste último ponto de vista, pode-se concordar (ainda que só para discutir) que no significado da palavra ‘homem’ está implícita a racionalidade, mas não o fato de ter duas pernas; contudo, pode-se considerar que ter duas pernas está [[lexico:i:implicito:start|implícito]] no significado de ‘bípede’, ao passo que a racionalidade não. Do ponto de vista da doutrina do significado, não faz sentido dizer de um indivíduo real, que é ao mesmo tempo homem e bípede, que sua racionalidade é essencial e que o fato de ter duas pernas é acidental ou vice-versa. Para Aristóteles, as coisas têm essência, mas só as formas linguísticas têm significado. Significado é aquilo que a essência se torna quando se divorcia do objeto de referência e se casa com a palavra" (From a Logical Point of View, II, 1). Por outro lado, mesmo utilizando amplamente a noção de essência em sua [[lexico:o:obra:start|obra]] A [[lexico:v:visao:start|visão]] lógica do mundo (onde, aliás, fala em "essência constitutivas"), Carnap reduz o significado de essência de um objeto ao [[lexico:c:criterio-de-verdade:start|critério de verdade]] das proposições das quais os signos desse objeto possam fazer parte (Aufbau, § 161). Pode-se dizer, portanto, que a teoria da essência sé resolve inteiramente na teoria do significado. Por essência hoje não se entende nada mais do que a regra do [[lexico:u:uso:start|uso]] correto de um termo. Embora não tenha em mira uma teoria do significado, o uso que Santayana fez desse termo essência vincula-se a este seu significado. As essência são os objetos da [[lexico:a:atividade:start|atividade]] cognoscitiva: constituem um [[lexico:r:reino:start|reino]] infinito de que faz parte tudo o que pode ser percebido, imaginado, pensado ou, de algum modo, experimentado; não existem em nenhum [[lexico:e:espaco:start|espaço]] ou tempo, não têm substância nem lados ocultos, mas seu ser resolve-se em seu [[lexico:a:aparecer:start|aparecer]] (The Realm of Essences, 1927). As essência constituem um dos termos do [[lexico:d:dualismo:start|dualismo]] metafísico de Santayana: o outro é a existência, que ele identifica com a matéria. Mas justamente por se distinguirem da existência, e portanto de qualquer forma de ação ou de [[lexico:e:energia:start|energia]], as essência não se concatenam entre si e não implicam nenhuma necessidade nem nenhuma forma de ser, mas permanecem puros objetos de [[lexico:i:intuicao:start|intuição]]. Esta doutrina das essência de Santayana pode ser considerada a última utilização metafísica da teoria da essência. 2) A teoria da essência como substância pode ser caracterizada como a que restringe o uso da palavra essência para indicar a essência necessária ou substancial. Aristóteles, como se viu, não identificara as duas coisas, embora se possa dizer que para ele a "verdadeira" essência de uma coisa, que a define em seu modo de ser, é a essência necessária. A identificação de essência com substância encontra-se já em [[lexico:p:plotino:start|Plotino]], que a relaciona com o estado das coisas no mundo inteligível, ou seja, no Nous [[lexico:d:divino:start|divino]], mas não só com esse estado. Diz: "Aqui, tudo está na unidade, de tal modo que são idênticos a coisa e o porquê da coisa... Na verdade, o que poderia impedir esta identidade e impedir que ela constitua a substância de cada ser? Assim é necessariamente, como vê quem procura [[lexico:c:compreender:start|compreender]] a essência necessária" (Enn., VI, 7, 2). No séc. XIII, ao procurar esclarecer a confusa [[lexico:t:terminologia:start|terminologia]] com que a [[lexico:f:filosofia-medieval:start|filosofia medieval]] até aquele [[lexico:m:momento:start|momento]] traduzira os termos aristotélicos, Tomás de Aquino fixava os significados seguintes, que implicam a [[lexico:r:reducao:start|redução]] da doutrina da essência à da substância: "essência significa algo que é comum a todas as naturezas em virtude das quais entes diferentes são colocados em diferentes gêneros e espécies, assim como a humanidade é a essência do homem, e assim por diante. Mas, como aquilo em virtude do que a coisa se constitui no gênero e na espécie é o que se entende como a definição que indica o que a coisa é, os filósofos substituíram a palavra essência por quididade, esse é o motivo pelo qual o Filósofo, no VII da Metafísica, frequentemente fala do quod quid erat esse, vale dizer, aquilo em virtude do que alguma coisa é o que é." A quididade, acrescenta Tomás de Aquino, também é chamada de forma ou natureza, entendendo-se por este último termo "a essência da coisa segundo a [[lexico:o:ordem:start|ordem]] ou a ordenação que ela tem para a sua própria atuação, porquanto coisa nenhuma há desprovida de uma atuação própria. O termo quididade, porém, é assumido como aquilo que é significado pela definição; o termo essência significa que por ela e nela a coisa tem ser" (De ente et essentia, 1). Esta última distinção não se mantém inalterada em Tomás de Aquino, que, em outro trecho, entende por essência "propriamente o que é significado pela definição" (S. Th., I, q. 29, a. 2). Mas durante muitos séculos essas determinações tomistas serviram de fundamento para todas as teorias da substância, que devem ser estudadas em seu lugar próprio, o verbete substância. Embora não conduza para uma teoria da substância, a acepção que Husserl atribui ao termo essência tem conexão com este seu segundo significado: "essência caracterizou sobretudo o que se encontra no ser próprio de um indivíduo como seu quid. Mas cada quid pode ser ‘posto em ideia’. Uma visão empírica ou individual pode ser transformada em visão da essência ([[lexico:i:ideacao:start|ideação]]), possibilidade que, esta sim, não deve ser entendida como empírica, mas como essencial. O objeto intuído consistirá, portanto, na correspondente essência pura ou [[lexico:e:eidos:start|eidos]], que pode ser tanto uma [[lexico:c:categoria:start|categoria]] superior quanto uma particularização, até à concretude completa" (Ideen, I, § 3). Para Husserl, essência é a essência necessária ou substancial de Aristóteles; é captada por um ato de intuição, [[lexico:a:analogo:start|análogo]] à [[lexico:p:percepcao:start|percepção]] [[lexico:s:sensivel:start|sensível]] (Ibid., § 23). Esta talvez seja a utilização mais moderna do antigo conceito aristotélico de essência substancial (v. definição; ser). {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}