===== ESPÍRITO ===== gr. [[lexico:p:pneuma:start|pneuma]]; [[lexico:n:nous:start|noûs]] lat. [[lexico:s:spiritus:start|spiritus]] [[lexico:p:principio:start|princípio]] da [[lexico:v:vida:start|vida]] intelectual, [[lexico:i:inteligencia:start|inteligência]]. — A [[lexico:n:nocao:start|noção]] de espírito é mais precisa do que a de [[lexico:a:alma:start|alma]], que pode designar simultaneamente o princípio da vida e o do [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]] (no século XVII falava-se, sem [[lexico:d:duvida:start|dúvida]], dos "[[lexico:e:espiritos:start|espíritos]] animais", que em [[lexico:d:descartes:start|Descartes]] designavam o que se denomina atualmente de "influxos nervosos"; mas [[lexico:e:esse:start|esse]] [[lexico:s:sentido:start|sentido]] [[lexico:n:nao:start|não]] é mais muito usado). Em compensação, a noção de "espírito" é mais vasta que a de "[[lexico:c:consciencia:start|consciência]]", [[lexico:o:objeto:start|objeto]] da [[lexico:a:analise:start|análise]] psicológica. É uma noção reflexiva ou [[lexico:m:metafisica:start|metafísica]]: o espírito é o princípio de toda [[lexico:d:descoberta:start|descoberta]]; não é uma [[lexico:f:faculdade:start|faculdade]], mas um "[[lexico:a:ato:start|ato]]", do qual temos [[lexico:i:intuicao:start|intuição]] cada vez que compreendemos efetivamente [[lexico:a:alguma-coisa:start|alguma coisa]] em qualquer domínio que seja. O "espírito" opõe-se à "[[lexico:m:materia:start|matéria]]"; o "[[lexico:e:espiritualismo:start|espiritualismo]]" é a doutrina segundo a qual a matéria liga-se no fundo a uma [[lexico:f:forma:start|forma]] de [[lexico:e:energia:start|energia]] irrepresentável e de [[lexico:n:natureza:start|natureza]] espiritual ([[lexico:l:leibniz:start|Leibniz]]). Opõe-se ao "[[lexico:m:materialismo:start|materialismo]]", segundo o qual "o espírito é o mais elevado [[lexico:p:produto:start|produto]] da matéria" (Lênin). O "espírito" (do latim: spiritus) é um [[lexico:s:ser:start|ser]] imaterial, [[lexico:s:simples:start|simples]] e [[lexico:s:substancial:start|substancial]], capaz de possuir-se a [[lexico:s:si-mesmo:start|si mesmo]] mediante a [[lexico:a:autoconsciencia:start|autoconsciência]] e a livre [[lexico:a:autodeterminacao:start|autodeterminação]], [[lexico:b:bem:start|Bem]] como de [[lexico:c:compreender:start|compreender]] e de realizar valores supra-sensíveis (= espírito [[lexico:s:subjetivo:start|subjetivo]]). Sua [[lexico:i:imaterialidade:start|imaterialidade]] exclui não só o ser-matéria, mas também aquela. "íntima vinculação à matéria", mercê da qual, p. ex., a alma das plantas e dos animais não pode [[lexico:e:existir:start|existir]] nem operar sem a mais estreita [[lexico:u:uniao:start|união]] com o corpóreo ([[lexico:h:hilemorfismo:start|hilemorfismo]]). Sua simplicidade implica uma concentração tal de plenitude de ser e de [[lexico:f:forca:start|força]], que não permite que ele seja [[lexico:c:composto:start|composto]] de partes entre si separadas espacialmente nem de partes essenciais. Na simplicidade e na imaterialidade do espírito radicam, por um lado, a sua [[lexico:c:capacidade:start|capacidade]] de possuir-se pela autoconsciência (consciência) e, por [[lexico:o:outro:start|outro]] lado, a sua [[lexico:a:aptidao:start|aptidão]] para conhecer [[lexico:t:todo:start|todo]] [[lexico:e:ente:start|ente]] em sua [[lexico:v:verdade:start|verdade]], [[lexico:b:bondade:start|bondade]] e [[lexico:u:unidade:start|unidade]] e para realizar valores supra-sensíveis. Não coarctado em sua [[lexico:a:acao:start|ação]] a restritos domínios parciais da [[lexico:r:realidade:start|realidade]] (como o é a [[lexico:a:alma-sensitiva:start|alma sensitiva]] determinada somente aos [[lexico:b:bens:start|bens]] dos sentidos), mas absolutamente ordenado ao ser, o espírito possui uma abertura ilimitada de sua faculdade cognitiva ([[lexico:e:entendimento:start|entendimento]], [[lexico:r:razao:start|razão]]), votada à verdade enquanto tal, e, como [[lexico:c:consequencia:start|consequência]], uma capacidade ilimitada de sua [[lexico:v:vontade:start|vontade]] votada ao [[lexico:v:valor:start|valor]] como tal. Nesta amplitude de suas disposições naturais e da "[[lexico:s:soberania:start|soberania]]", nela implicada, sobre valores parciais delimitados, radica a aptidão para escolher livremente entre valores parciais limitados conhecidos e, com isso, para livremente se auto-determinar ([[lexico:l:liberdade-da-vontade:start|liberdade da vontade]]). Por [[lexico:u:ultimo:start|último]], a natureza do espírito, com sua capacidade nunca susceptível de ser totalmente preenchida pelos bens de uma [[lexico:e:existencia:start|existência]] limitada, exige uma ilimitada [[lexico:p:permanencia:start|permanência]] no ser: ele é feito para uma vida imortal ([[lexico:i:imortalidade:start|imortalidade]]). O espírito, enquanto [[lexico:s:sujeito:start|sujeito]] destas perfeições e possibilidades ontológicas, é uma [[lexico:e:essencia:start|essência]] substancial e sua [[lexico:p:perfeicao:start|perfeição]] fundamenta de maneira [[lexico:n:natural:start|natural]] o ser-pessoa ([[lexico:p:pessoa:start|pessoa]]). São vários os graus de perfeição do espírito. O espírito [[lexico:d:divino:start|divino]], [[lexico:i:infinito:start|infinito]], exclui toda potencialidade, todo ser e acontecer puramente acidentais e qualquer união com outro. Os seres criados puramente espirituais (de que nos [[lexico:f:fala:start|fala]] a [[lexico:r:revelacao:start|revelação]], mas cuja existência continua sendo [[lexico:p:problematica:start|problemática]] no terreno da pura [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]]) excluem também toda vinculação de seu ser, conhecer e querer, com o material. A alma espiritual humana, como forma substancia! do [[lexico:c:corpo:start|corpo]], tem uma [[lexico:r:relacao:start|relação]] [[lexico:e:essencial:start|essencial]] necessária com este, muito embora a união de [[lexico:f:fato:start|fato]] com o corpo não seja [[lexico:c:condicao:start|condição]] de sua existência ([[lexico:c:corpo-e-alma:start|corpo e alma]] [Relação entre], hilemorfismo). A alma, enquanto tal "forma", constitui juntamente com o corpo uma unidade de [[lexico:o:operacao:start|operação]] na [[lexico:e:esfera:start|esfera]] do [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]] e [[lexico:a:apetite:start|apetite]] sensoriais, estando outrossim, em suas operações espirituais, unida, ao menos indiretamente, às condições prévias de ditas operações, enquanto dura a união com o corpo; porque o entendimento elabora a maior [[lexico:p:parte:start|parte]] de seus conteúdos conceptuais a partir de imagens sensíveis, e o querer e a [[lexico:v:vivencia:start|vivência]] de valor estão ligados à alma toda sensitivo-espiritual (entendimento, pensamento, vontade). Desligada do corpo, a alma poderá manifestar mais livremente sua natureza espiritual na [[lexico:v:visao:start|visão]] [[lexico:i:intuitiva:start|intuitiva]] da própria essência e do [[lexico:s:ser-espiritual:start|ser espiritual]] alheio. A existência de seres espirituais terrestres, [[lexico:a:alem:start|além]] da alma humana, p. ex., espectros, duendes, é [[lexico:c:coisa:start|coisa]] do domínio da ingênua [[lexico:f:fantasia:start|fantasia]] criadora de lendas, nunca porém demonstrada pelos fatos. Como portador (sujeito) do [[lexico:i:impulso:start|impulso]] tendente à realização de valores, o espírito subjetivo manifesta-se não só nas atitudes de valor e nas convicções relativamente estáveis, por ele formadas, como também nas obras do espírito: [[lexico:c:ciencia:start|ciência]], [[lexico:a:arte:start|arte]], [[lexico:t:tecnica:start|técnica]], indústria, instituições sociais, etc. (espírito [[lexico:o:objetivo:start|objetivo]] ). Quando o espírito [[lexico:h:humano:start|humano]], ao formar valores culturais, esquece em demasia, por [[lexico:e:efeito:start|efeito]] de excessivo espiritualismo, sua vinculação ao ser global do [[lexico:h:homem:start|homem]], esse exclusivismo traduz-se em formas defeituosas da vida cultural. Uma unilateral [[lexico:f:filosofia-da-vida:start|filosofia da vida]] (filosofia da vida) inferiu daí o [[lexico:d:direito:start|direito]] de proscrever o "espírito" com recriminações fantasticamente exageradas, tendo-o na conta de princípio inimigo da vida, e concebendo-o preferentemente como faculdade dos [[lexico:c:conceitos:start|conceitos]] (cf. L. [[lexico:k:klages:start|Klages]], Der Geist ais Widersacher der Seele, "O espírito como adversário da alma"). Na realidade, o que passa é que a alma espiritual humana é, ao mesmo [[lexico:t:tempo:start|tempo]], princípio da [[lexico:v:vida-sensitiva:start|vida sensitiva]] (alma, corpo e alma [relação entre]). Sendo assim, o espírito humano exterioriza-se, por assim dizer, no vital, opõe a si mesmo sua [[lexico:a:antitese:start|antítese]] a-espiritual, mas não só como algo oposto ao espiritual, senão como [[lexico:c:campo:start|campo]] de sua [[lexico:a:atividade:start|atividade]] e [[lexico:e:expressao:start|expressão]], unido porém radicalmente ao ser total do homem. Quando o sensível-vital se subtrai a esta unidade do homem global, para seguir unicamente sua própria [[lexico:t:tendencia:start|tendência]], atua de maneira destrutiva. Sendo o espírito aquilo que no homem há de mais elevado e o princípio formativo de todos os valores culturais e, além disso, superando, em [[lexico:v:virtude:start|virtude]] de sua imortalidade, o domínio total dos valores terrenos, o cultivo [[lexico:a:adequado:start|adequado]] da vida espiritual constitui a mais nobre [[lexico:t:tarefa:start|tarefa]] da [[lexico:f:formacao:start|formação]] humana. — Willwoll. Dada a [[lexico:m:multiplicidade:start|multiplicidade]] de significados do vocábulo Espírito, é recomendável utilizá-lo em [[lexico:g:geral:start|geral]], para designar todos os diversos modos de ser que, de algum [[lexico:m:modo:start|modo]], transcendem o vital. Em [[lexico:p:particular:start|particular]], convém restringi-lo para designar um dos conceitos fundamentais do [[lexico:i:idealismo-alemao:start|idealismo alemão]], que alcançou grande [[lexico:d:desenvolvimento:start|desenvolvimento]] com [[lexico:h:hegel:start|Hegel]] e se manifestou durante este século numa [[lexico:s:serie:start|série]] de doutrinas sobre o ser espiritual, quer como um modo de ser específico, quer como a maneira de ser própria do homem como “ser [[lexico:h:historico:start|histórico]]”. Referir-nos-emos às correntes mencionadas. Espírito foi um dos vocábulos mais abundantemente usados pelos idealistas alemães. Era importante dentro desse pensamento a [[lexico:i:ideia:start|ideia]] de uma [[lexico:c:contraposicao:start|contraposição]] entre Espírito e Natureza e, por outro lado, a ideia de uma conciliação dos dois mediante o Espírito. Hegel fala, por vezes, de ideia e de ideia absoluta [[lexico:c:como-se:start|como se]] fossem o mesmo que o Espírito. E, em certa [[lexico:m:medida:start|medida]], são o mesmo, só que a ideia é o [[lexico:a:aspecto:start|aspecto]] [[lexico:a:abstrato:start|abstrato]] da realidade concreta e viva do Espírito. A dificuldade de circunscrever a noção de Espírito deve-se a que, de certa maneira, o o Espírito é tudo. Ora, antes de ser tudo ou, mais propriamente, “a verdade de tudo”, o Espírito começa por ser uma verdade parcial que precisa de se completar. O Espírito aparece como o objeto e o sujeito da consciência de si. Mas o Espírito não é algo particular e muito menos uma [[lexico:s:substancia:start|substância]] particular: o Espírito é o [[lexico:u:universal:start|universal]] que se desenvolve a si mesmo. A “[[lexico:f:fenomenologia-do-espirito:start|fenomenologia do espírito]]” é a [[lexico:d:descricao:start|descrição]] da [[lexico:h:historia:start|história]] desse auto-desenvolvimento, no decurso do qual se encontram os objetos em, por e também contra os quais se realiza o Espírito. Ao atingir o último [[lexico:e:estadio:start|estádio]] do seu desenvolvimento, o Espírito reconhece-se como uma verdade que é tal só por que absorveu o [[lexico:e:erro:start|erro]], a [[lexico:n:negatividade:start|negatividade]] e a parcialidade. A filosofia é, de certo modo, “[[lexico:f:filosofia-do-espirito:start|Filosofia do Espírito]]”. Apoiando-se explicitamente em Hegel, mas por [[lexico:r:reacao:start|reação]] contra ele, Benedetto [[lexico:c:croce:start|Croce]] tentou uma [[lexico:f:fenomenologia:start|fenomenologia]] do Espírito na qual a [[lexico:a:absorcao:start|absorção]] dos diferentes graus por uma [[lexico:s:sintese:start|síntese]] não equivaleriam a uma supressão, mas precisamente a uma [[lexico:a:afirmacao:start|afirmação]] do distinto. Os diferentes graus do Espírito estão, segundo Croce, implicados entre si; constituem um [[lexico:c:circulo:start|círculo]] no qual não pode indicar-se qual é a [[lexico:r:realidade-primaria:start|realidade primária]], porque qualquer [[lexico:g:grau:start|grau]] se apoia nos restantes e, ao mesmo tempo, completa-os. Pode considerar-se o Espírito no seu aspecto [[lexico:t:teorico:start|teórico]] ou [[lexico:p:pratico:start|prático]]: no primeiro, é consciência do individual, e é este o [[lexico:t:tema:start|tema]] da [[lexico:e:estetica:start|estética]], ou consciência do universal [[lexico:c:concreto:start|concreto]], e é este o tema da [[lexico:l:logica:start|lógica]]; no segundo, pode-se considerá-lo como querer do individual, ou [[lexico:e:economia:start|economia]], ou como querer do universal, ou [[lexico:e:etica:start|ética]]. (gr pneuma, noûs; in. Mind, Spirit; fr. Esprit; al. Geist; it. Spirito). Podem-se distinguir os seguintes significados: 1) Alma [[lexico:r:racional:start|racional]] ou [[lexico:i:intelecto:start|intelecto]] em geral; esse é o [[lexico:s:significado:start|significado]] predominante na [[lexico:f:filosofia-moderna:start|filosofia moderna]] e contemporânea, bem como na [[lexico:l:linguagem:start|linguagem]] comum. 2) Pneuma ou [[lexico:s:sopro:start|sopro]] animador, admitido pela [[lexico:f:fisica:start|física]] estoica, passando desta a várias doutrinas antigas e modernas. É o significado originário do [[lexico:t:termo:start|termo]], do qual derivaram todos os outros. Esse significado ainda permanece nas expressões em que espírito significa "aquilo que vivifica". [[lexico:k:kant:start|Kant]] usou o termo nesse sentido em sua [[lexico:t:teoria:start|teoria]] estética: "No significado estético, espírito é o princípio vivificante do [[lexico:s:sentimento:start|sentimento]]. Mas aquilo com que esse princípio vivifica a alma, a matéria de que se serve, é o que confere impulso finalista à faculdade do sentimento e a insere num [[lexico:j:jogo:start|jogo]] que se alimenta de si mesmo e fortifica as [[lexico:f:faculdades:start|faculdades]] de que resulta" (Crít. do [[lexico:j:juizo:start|Juízo]], § 49; Antr., § 71 b). Foi com esse sentido que a [[lexico:p:palavra:start|palavra]] espírito permaneceu no [[lexico:u:uso:start|uso]] corrente, em que às vezes se contrapõe a "letra", para indicar o que vivifica ou, sem [[lexico:m:metafora:start|metáfora]], o significado [[lexico:a:autentico:start|autêntico]] de alguma coisa. Nesse sentido, foi também empregada por [[lexico:m:montesquieu:start|Montesquieu]] no título da sua [[lexico:o:obra:start|obra]], O [[lexico:e:espirito-das-leis:start|espírito das leis]]. 3) [[lexico:s:substancias:start|Substâncias]] incorpóreas, ou seja, [[lexico:a:anjos:start|anjos]], demônios e almas dos mortos. Era nesse sentido que [[lexico:l:locke:start|Locke]] empregava a palavra spirit (reservando mind a espírito no significado le) e dizia: "Com [[lexico:e:excecao:start|exceção]] de algumas pouquíssimas [[lexico:i:ideias:start|ideias]] que obtemos mediante a [[lexico:r:reflexao:start|reflexão]] e tudo o que, a partir delas, podemos reunir a [[lexico:r:respeito:start|respeito]] do Pai de todos os espírito, o [[lexico:e:eterno:start|eterno]] e [[lexico:i:independente:start|independente]] autor deles, de nós e de todas as [[lexico:c:coisas:start|coisas]], até mesmo da existência de outros espírito, não temos informação segura a não ser por via de revelação" (Ensaio, IV, 3, 27). E Kant, em Sonhos de um [[lexico:v:visionario:start|visionário]] esclarecidos por sonhos da metafísica (1766), entendia Geist no mesmo sentido: "espírito é um ser dotado de razão. Não é, pois, um [[lexico:d:dom:start|dom]] maravilhoso [[lexico:v:ver:start|ver]] espírito, já que [[lexico:q:quem:start|quem]] vê homens vê seres dotados de razão. Mas prossigamos: esse ser que no homem é dotado de razão é apenas uma parte do homem; e essa parte, que o vivifica, é um espírito" (Träume eines Geistersehers, I, 1). Como Locke, Kant é cético sobre a existência do espírito nesse sentido e, em todo caso, julga [[lexico:i:impossivel:start|impossível]] demonstrá-la. Também com esse sentido, a palavra espírito permaneceu no uso corrente (v. anjos; [[lexico:d:demonio:start|demônio]]; [[lexico:e:espiritismo:start|espiritismo]]). 4) Matéria sutil ou impalpável que é a força animadora das coisas. Esse significado, derivado do [[lexico:e:estoicismo:start|estoicismo]], encontra-se com frequência nos magos do [[lexico:r:renascimento:start|Renascimento]], sobretudo em Agripa (De oceulta [[lexico:p:philosophia:start|philosophia]], I, 14) e em [[lexico:p:paracelso:start|Paracelso]] (Meteor, pp. 79 ss.). 5) Em relação mais estreita com o significado le, esse termo às vezes significa [[lexico:d:disposicao:start|disposição]] ou [[lexico:a:atitude:start|atitude]], como nas célebres expressões de [[lexico:p:pascal:start|Pascal]] "espírito de [[lexico:g:geometria:start|geometria]]" e "espírito de finura" e em expressões correntes como "espírito [[lexico:r:religioso:start|religioso]]", "espírito esportivo", etc. Desses cinco significados, o [[lexico:u:unico:start|único]] estritamente vinculado à problemática da filosofia [[lexico:m:moderna:start|moderna]] é o primeiro. Foi Descartes quem introduziu e impôs esse significado. "Portanto, a rigor, não sou mais que uma coisa que pensa, um espírito, um intelecto ou uma razão, termos cujo significado antes me era desconhecido" (Méd., II). E na resposta às segundas objeções ele esclarece, em forma de [[lexico:d:definicao:start|definição]], o significado do termo: "A substância na qual reside imediatamente o pensamento aqui é chamada de espírito. Embora esse [[lexico:n:nome:start|nome]] seja [[lexico:e:equivoco:start|equívoco]], porque às vezes é atribuído também ao vento e aos licores sutilíssimos, não conheço nenhum outro mais [[lexico:a:apropriado:start|apropriado]]" (II Rép., def. VI). Embora nessa expressão de Descartes a noção de substância sirva de intermediária entre o significado novo e o antigo (substância incorpórea) do termo, seu uso em Descartes acaba por tomá-la equivalente a consciência. Substância pensante, consciência, intelecto ou razão são, portanto, [[lexico:s:sinonimos:start|sinônimos]] de espírito. Locke, como se disse, usava o termo mind no mesmo sentido (cf., p. ex., Ensaio, II, 1, 5). Leibniz dizia: "O conhecimento das verdades necessárias e eternas é o que nos distingue dos simples animais e nos dota de razão e ciência, elevando-nos ao conhecimento de nós mesmos e de [[lexico:d:deus:start|Deus]]. É isso o que em nós se chama alma racional ou espírito" (Monad., § 29). [[lexico:b:berkeley:start|Berkeley]], por sua vez, adotou esse termo e estabeleceu suas equivalências: "Esse ser ativo e perceptivo é o que chamo de mind, spirit, soul (alma) ou myself ([[lexico:e:eu:start|eu]])" (Principles of Human Knowledge, I, § 2). [[lexico:h:hume:start|Hume]] entendia esse termo como alma, intelecto ou eu (Treatise, I, 4, 2, ed. Selby-Bigge, p. 207). Essas equivalências mantêm-se constantes no uso posterior do termo: assim, os problemas a que ele dá [[lexico:o:origem:start|origem]] são os vinculados às noções de alma, consciência, intelecto, razão e eu. Nesses verbetes, encontrar-se-á a indicação dos problemas que tiveram origem na noção de espírito em suas diversas especificações. Aqui basta recordar que alguns dos empregos paradoxais às vezes encontrados na filosofia contemporânea se referem na realidade ao significado tradicional instituído por Descartes. Assim, quando L. Klages contrapôs espírito a alma, entendeu por espírito o conjunto de [[lexico:a:atividades:start|atividades]] racionais, confrontadas com as tendências instintivas representadas pela alma (Der Geist ais Widersacher der Seele, 1929). Por outro lado, G. Santayana entendeu espírito no sentido — também cartesiano — de consciência: "Por espírito entendo não só a intuição passiva implícita em ser [[lexico:d:dado:start|dado]] de essência, mas também o entendimento e a [[lexico:c:crenca:start|crença]] que pode acompanhar a [[lexico:p:presenca:start|presença]] da essência" (Scepticism and [[lexico:a:animal:start|animal]] Faith, cap. 26, Dover Publ., p. 272). De resto, chega a ser supérfluo advertir que, na expressão "[[lexico:c:ciencias-do-espirito:start|ciências do espírito]]", difundida por [[lexico:d:dilthey:start|Dilthey]], entende-se por espírito a atividade racional do homem (v. [[lexico:c:classificacao-das-ciencias:start|classificação das ciências]]). Foi só com Hegel que se teve uma [[lexico:e:especificacao:start|especificação]] diferente da noção de espírito, com as noções de espírito objetivo e espírito [[lexico:a:absoluto:start|absoluto]]. Se por espírito subjetivo ele entende o espírito [[lexico:f:finito:start|finito]], ou seja, alma, intelecto ou razão (espírito no significado cartesiano do termo) (Enc., § 386), por espírito objetivo ele entende as instituições fundamentais do [[lexico:m:mundo:start|mundo]] humano, quais sejam, direito, [[lexico:m:moralidade:start|moralidade]] e [[lexico:e:eticidade:start|eticidade]], e por espírito absoluto entende o mundo da arte, da [[lexico:r:religiao:start|religião]] e da filosofia. Nessas duas concepções, o espírito deixou de ser atividade subjetiva para tornar-se realidade histórica, mundo de valores. Enquanto espírito objetivo é o mundo das instituições jurídicas, sociais e históricas que culmina na eticidade (que compreende as três principais instituições históricas: [[lexico:f:familia:start|família]], [[lexico:s:sociedade:start|sociedade]] civil e [[lexico:e:estado:start|Estado]]), espírito absoluto é o mundo da Autoconsciência, que se revela a si mesma nas produções superiores, que são a arte, a religião e a filosofia (Ibid., §§ 486, 553). Para Hegel, as três formas de espírito sâo manifestações da Ideia, da Razão infinita, mas é só no espírito objetivo e no espírito absoluto que a Ideia ou Razão se realiza plenamente ou chega à [[lexico:m:manifestacao:start|manifestação]] acabada ou adequada. Essas noções caracterizam o [[lexico:i:idealismo:start|Idealismo]] romântico de inspiração hegeliana, que identificou espírito com sujeito absoluto ou eu universal, como o fez Gentile (Teoria generale dello S., 1920), ou com [[lexico:c:conceito:start|conceito]], em sua universalidade ou concretude, que é a Razão absoluta, como o fez Croce (Lógica. 1920, pp. 26 ss.). Mesmo fora do idealismo, todavia, a noção do espírito objetivo, como mundo de instituições histórico-sociais, de valores institucionalizados ou de formas de vida, foi acolhida e estudada. De fato, foi aceita por Dilthey, que por ela entendeu "a conexão estrutural das unidades vivas, que continua nas comunidades" e criticou o [[lexico:c:carater:start|caráter]] absoluto e dogmático dessa noção em Hegel (Gesammelte Schriften, VII, p. 150; cf. P. Rosse, Lo storicismo tedesco contemporâneo 1956, pp. 104-105). Nesse sentido limitado, a noção foi aceita por espírito Spranger, que entendeu como ciência do espírito a [[lexico:d:disciplina:start|disciplina]] que cuida das formações ultra-pessoais ou coletivas da vida histórica (Lebensformen, 1914, p. 7). Foi aceita igualmente por N. [[lexico:h:hartmann:start|Hartmann]], que considerou o espírito objetivo como uma [[lexico:s:superestrutura:start|superestrutura]] que se eleva acima do mundo [[lexico:o:organico:start|orgânico]]. Ao espírito objetivo pertenceriam todas as produções espirituais: letras, artes, técnicas, religiões, mitos, ciências, filosofias, etc. Ele é o [[lexico:v:verdadeiro:start|verdadeiro]] [[lexico:p:protagonista:start|protagonista]] da história, segundo Hartmann (Das Problem desgeistigen Seins, 1931, P- 262). Acima do espírito Objetivo, Hartmann situa o espírito vivo, que seria a unidade do espírito objetivo e da consciência [[lexico:p:pessoal:start|pessoal]] (Ibid., p. 259). Por certo Hartmann ainda está muito [[lexico:p:proximo:start|próximo]] da inspiração hegeliana. Mas o caráter [[lexico:i:impessoal:start|impessoal]] e objetivo do espírito também é ressaltado por [[lexico:d:dewey:start|Dewey]], que parte de pressupostos filosóficos diferentes: "Toda a história da ciência, da arte e da [[lexico:m:moral:start|moral]] demonstra que o espírito que aparece nos indivíduos não é, como tal, espírito individual. É em si mesmo um [[lexico:s:sistema:start|sistema]] de crenças, de reconhecimentos e de ignorâncias, de aceitações e de recusas, de expectativas e de apreciações de significados, e foi instituído sob a [[lexico:i:influencia:start|influência]] do [[lexico:c:costume:start|costume]] e da [[lexico:t:tradicao:start|tradição]]" (Experience and Nature, 1926, p. 218). {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}