===== ESPETÁCULO ===== [[lexico:t:todo|todo]] [[lexico:r:representar|representar]], de [[lexico:a:acordo|acordo]] com a sua [[lexico:p:possibilidade|possibilidade]], é um representar para alguém. O [[lexico:f:fato|fato]] de se [[lexico:t:ter|ter]] em [[lexico:m:mente|mente]] essa possibilidade como tal é que produz a peculiaridade do [[lexico:c:carater|caráter]] lúdico da [[lexico:a:arte|arte]]. O [[lexico:e:espaco|espaço]] fechado do [[lexico:m:mundo|mundo]] do [[lexico:j:jogo|jogo]] deixa cair aqui, ao mesmo [[lexico:t:tempo|tempo]], uma parede. A [[lexico:r:representacao|representação]] do [[lexico:c:culto|culto]] (Kultspiel) e teatral (Schauspiel) [[lexico:n:nao|não]] representam evidentemente do mesmo [[lexico:m:modo|modo]] e num mesmo [[lexico:s:sentido|sentido]], como representa a criança que brinca. Elas não são absorvidas de todo, pelo fato de que elas representam, mas, ao mesmo tempo, aludem, para [[lexico:a:alem|além]] de si mesmas, àquelas que, como espectadores, aí tomam [[lexico:p:parte|parte]]. O jogo já não é mais, aqui, um mero representar-se de um [[lexico:m:movimento|movimento]] ordenado, nem mesmo o mero representar, no qual se revela a criança que brinca, mas é, “representando para...” Essa indicação, própria a todo representar, também será resgatada aqui, tornando-se constitutiva para o [[lexico:s:ser|ser]] da arte. Os jogos, em [[lexico:g:geral|geral]], de acordo com a sua [[lexico:n:natureza|natureza]], por mais que sejam representações, e por mais que neles os jogadores se representem, não são representados para alguém, ou seja, mesmo quando representam. E nem mesmo aqueles jogos como os esportivos, que são jogados diante de espectadores, têm em mente a estes. De fato, ficam ameaçados de perder seu peculiar caráter lúdico como competição, justamente ao se transformarem numa competição de espetáculo. Justamente algo assim é a procissão, que é uma parte da [[lexico:a:atividade|atividade]] cúltica e é mais do que um espetáculo, porque, de acordo com seu sentido [[lexico:p:proprio|próprio]], abrange toda a [[lexico:c:comunidade|comunidade]] de um culto. E, não obstante, o [[lexico:a:ato|ato]] cúltico é uma verdadeira representação para a comunidade, e, da mesma [[lexico:f:forma|forma]], o espetáculo teatral é um [[lexico:p:processo|processo]] lúdico que, por sua natureza, exige a [[lexico:p:presenca|presença]] do espectador. A representação de [[lexico:d:deus|Deus]] no culto, a representação do [[lexico:m:mito|mito]] no jogo são, portanto, jogos, apenas no sentido de que os jogadores participantes, por assim dizer, revelam-se no jogo [[lexico:r:representativo|representativo]], encontrando nisso, intensificada, sua auto-representação elevada, mas ultrapassando-se, saem de si para adentrar no fato de que os atores representam uma [[lexico:t:totalidade|totalidade]] de sentidos para o espectador. Portanto, não se trata absolutamente da [[lexico:a:ausencia|ausência]] de uma quarta parede que modificaria o jogo em um espetáculo. Antes, o fato de [[lexico:e:estar|estar]] [[lexico:a:aberto|aberto]] para o espectador também perfaz a inteireza da representação (Spiel). O espectador apenas consuma o que a representação (Spiel) é como tal. [[lexico:e:esse|esse]] é o [[lexico:p:ponto|ponto]] em que a [[lexico:d:determinacao|determinação]] do jogo se mostra, com toda a sua importância, como um processo medial. Já vimos que o jogo não tem o seu ser na [[lexico:c:consciencia|consciência]] ou no [[lexico:c:comportamento|comportamento]] do jogador, mas atrai este à sua [[lexico:e:esfera|esfera]] e preenche-o com o seu [[lexico:e:espirito|espírito]]. O jogador experimenta o jogo como uma [[lexico:r:realidade|realidade]] que o sobrepuja. Isso vale, com mais [[lexico:p:propriedade|propriedade]] ainda, onde o jogo é propriamente “entendido” como sendo uma tal realidade — e tal é o caso quando o jogo aparece como representação para o espectador. Mesmo o espetáculo continua sendo jogo, isto é, tem a [[lexico:e:estrutura|estrutura]] do jogo, estrutura de ser um mundo fechado em [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]]. Mas o espetáculo cúltico ou profano, por mais que seja um mundo fechado em si, que o representa, é como que aberto para o lado do espectador. Somente nele é que ganha o seu inteiro [[lexico:s:significado|significado]]. Como em todo jogo, os atores representam seus papéis, e assim o jogo torna-se representação, mas o próprio jogo é o conjunto de atores (Spielern) e espectadores. De fato, experimenta de modo mais próprio, aquele, e representa-se do modo como é “intensionado”, àquele que não participa no jogo mas assiste. Neles, o jogo (representação) é alçado igualmente à sua [[lexico:i:idealidade|idealidade]]. Isso significa, para os jogadores, que não irão simplesmente preencher seus papéis como em todo e qualquer jogo (representação) — antes representam seus papéis diante de outros, eles os representam para o espectador. Sua forma de [[lexico:p:participacao|participação]] no jogo não é mais, nesse caso, determinada pelo fato de que são absorvidos totalmente nele, mas pelo fato de que joga (representa) seu papel em [[lexico:r:relacao|relação]] a, e tendo em vista o conjunto do espetáculo, em que [[lexico:q:quem|quem]] deve ser absorvido não são eles, mas o espectador. É uma [[lexico:m:mudanca|mudança]] total, que acontece ao jogo como jogo, quando se torna espetáculo. Isso coloca o espectador no [[lexico:l:lugar|lugar]] do jogador (ator). É ele — e não o jogador (ator) — para quem e em quem se joga (representa) o jogo (espetáculo). Naturalmente, isso não quer dizer que também o jogador (ator) não poderá vir a experimentar o sentido do todo em que ele, representando, desempenha seu papel. O espectador tem somente uma primazia [[lexico:m:metodica|metódica]]: pelo fato de o jogo ser realizado para ele, torna-se visível que possui em si um conteúdo de sentido, que deve ser entendido e que, por isso, é separável do comportamento do jogador (ator). No fundo, aqui se anula a [[lexico:d:diferenca|diferença]] entre jogador (ator) e espectador. A exigência de se ter em mente o jogo mesmo, no seu conteúdo de sentido, é igual para ambos. Isso é imprescindível mesmo onde a comunidade dos jogadores (atores) se fecha contra todos os espectadores, por [[lexico:e:exemplo|exemplo]], por combaterem a institucionalização [[lexico:s:social|social]] da [[lexico:v:vida|vida]] artística, como na chamada [[lexico:m:musica|música]] caseira, que quer ser um musicar num sentido mais próprio, porque esta é feita para os próprios músicos e não para o [[lexico:p:publico|público]]. Quem faz música dessa maneira esforça-se, na [[lexico:v:verdade|verdade]], para que a música “saia” [[lexico:b:bem|Bem]], isto significa porém: para alguém que — ouvi-la-ia, se realmente estivesse lá. A representação da arte, de acordo com a sua natureza, é de tal maneira que é para alguém, mesmo quando não há ninguém que sequer a ouça ou assista. [GadamerVM:2.1.1]