===== ESPECULAÇÃO ===== Este vocábulo relaciona-se etimologicamente com o [[lexico:v:verbo:start|verbo]] latino speculari, que significa "espiar", "esquadrinhar"; por aqui se vê que implica a [[lexico:d:descoberta:start|descoberta]] de algo [[lexico:o:oculto:start|oculto]]. De [[lexico:f:fato:start|fato]], no âmbito filosófico especulação designa um [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]] criador, o qual, enquanto tal, [[lexico:n:nao:start|não]] recebe de maneira exclusivamente passiva os dados da [[lexico:e:experiencia:start|experiência]], mas, mercê do poder da [[lexico:m:mente:start|mente]] ([[lexico:a:a-priori:start|a priori]]) penetra ativamente até seus últimos fundamentos. Este pensamento supera essencialmente tanto a experiência quanto a elucidação fenomenológica do [[lexico:d:dado:start|dado]] ([[lexico:t:transcendencia:start|transcendência]]) e constitui o núcleo da [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]]. Contudo, a especulação lança raízes no experimentado, porque só aí encontra seu [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de partida; por isso, seus resultados, embora nunca diretamente acessíveis à experiência humana, são também confirmados ou desmentidos de maneira indireta por ela. — Precisando mais, diremos que a especulação investiga a [[lexico:e:essencia:start|essência]] íntima do experimentado até chegar ao [[lexico:s:ser:start|ser]] metafísico e, ao mesmo [[lexico:t:tempo:start|tempo]], torna compreensíveis as leis absolutas da essência e do ser. Assim, apreende os [[lexico:p:principios:start|princípios]] constitutivos ([[lexico:p:principios-do-ser:start|princípios do ser]]) e as [[lexico:c:causas:start|causas]] últimas de tudo quanto podo verificar-se na experiência e, de [[lexico:m:modo:start|modo]] especial, seu mais [[lexico:p:profundo:start|profundo]] [[lexico:f:fundamento:start|fundamento]] de [[lexico:u:unidade:start|unidade]]: [[lexico:d:deus:start|Deus]]. A partir de Deus, empenha-se em conceber numa concepção unitária [[lexico:t:todo:start|todo]] o existente e enquadrá-lo, quanto [[lexico:p:possivel:start|possível]], num [[lexico:s:sistema:start|sistema]]. Quanto ao [[lexico:m:metodo:start|método]], a especulação serve-se principalmente do [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]] [[lexico:e:essencial:start|essencial]] ([[lexico:c:conhecimento-da-essencia:start|conhecimento da essência]]), da [[lexico:a:analise:start|análise]], da [[lexico:s:sintese:start|síntese]] a priori e da [[lexico:d:deducao:start|dedução]]. Neste [[lexico:p:particular:start|particular]], é decisiva a [[lexico:v:visao:start|visão]] profunda, viva e criadora, que, as mais das vezes, se antecipa à conceituação e ao [[lexico:r:raciocinio:start|raciocínio]] explícitos e só posteriormente é articulada por estes. Dita visão nasce da adequada [[lexico:d:disposicao:start|disposição]] do [[lexico:h:homem:start|homem]] total e não é dada a todos na mesma [[lexico:m:medida:start|medida]]. A especulação degenera, quando esta visão e sua inserção na [[lexico:t:totalidade:start|totalidade]] do ser [[lexico:h:humano:start|humano]] desaparecem, e se começa então a combinar arbitrariamente [[lexico:c:conceitos:start|conceitos]] rígidos, como ocorreu com frequência no derradeiro período da [[lexico:e:escolastica:start|escolástica]]. Esta e o [[lexico:m:moderno:start|moderno]] [[lexico:r:racionalismo:start|racionalismo]] fizeram cair no descrédito a especulação, a ponto de hoje só se lhe conhecer a caricatura. Para isso contribuiu também [[lexico:k:kant:start|Kant]], limitando a [[lexico:r:razao:start|razão]] [[lexico:t:teoretica:start|teorética]] ao domínio da experiência possível e suprimindo, como "especulações" ocas que só produzem [[lexico:i:ilusao:start|ilusão]] [[lexico:t:transcendental:start|transcendental]], os esforços encaminhados a transcendê-la. Pelo contrário, [[lexico:h:hegel:start|Hegel]] opera com a [[lexico:p:proposicao:start|proposição]] especulativa que supera a [[lexico:c:contradicao:start|contradição]] e exprime a síntese: contudo, também ele, exagerando a especulação, desacredita-a. Em [[lexico:a:aristoteles:start|Aristóteles]], especulação e [[lexico:t:theoria:start|theoria]] coincidem claramente. A theoria investiga o [[lexico:e:ente:start|ente]] de maneira intuitivo-contemplativa e contrapõe-se tanto à [[lexico:a:acao:start|ação]] [[lexico:m:moral:start|moral]] quanto à [[lexico:c:criacao:start|criação]] do artífice ou do [[lexico:a:artista:start|artista]]. Hoje estabelece-se uma [[lexico:d:diferenca:start|diferença]] entre especulação e [[lexico:t:teoria:start|teoria]]: a especulação é só uma [[lexico:p:parte:start|parte]] da teoria, uma vez que esta, [[lexico:a:alem:start|além]] da penetração especulativa, abarca igualmente sua fundamentação fenomenológica. A [[lexico:c:ciencia:start|ciência]] [[lexico:a:atual:start|atual]] emprega o [[lexico:t:termo:start|termo]] teoria em [[lexico:s:sentido:start|sentido]] restrito e, frequentemente, alheio ao sentido de especulação. — Lotz. Aos significados destes termos, que já figuram nos artigos [[lexico:c:contemplacao:start|contemplação]] e teoria, podem juntar-se outros significados complementares. O vocábulo latino designa a ação de observar, em particular, a partir de um ponto elevado. No seu sentido originário, não significa, portanto, “imaginar algo sem [[lexico:t:ter:start|ter]] fundamento para isso” (um sentido pejorativo a que depois iremos referir-nos), mas antes “perscrutar algo sumária e atentamente”. Na medida em que especulação se equipara a teoria, ocupa a [[lexico:c:categoria:start|categoria]] suprema na [[lexico:c:classificacao-das-ciencias:start|classificação das ciências]] proposta por Aristóteles. Ao mesmo conhecimento [[lexico:t:teorico:start|teórico]], contemplativo ou especulativo se refere Aristóteles ao dizer que é o melhor e mais grato ([[lexico:m:metafisica:start|Metafísica]]) ou ao fundar a [[lexico:f:felicidade:start|felicidade]] na contemplação ([[lexico:e:etica-a-nicomaco:start|Ética a Nicômaco]]). Depressa no [[lexico:m:mundo:start|mundo]] romano adquire especulação um leve matiz depreciativo, pois, tratando-se de uma [[lexico:a:atitude:start|atitude]] desinteressada, é “pouco cívica”: enquanto se especula, descuram-se os assuntos públicos, que eram, para os romanos, absolutamente preeminentes. Os filósofos medievais estabeleceram amiúde uma [[lexico:d:distincao:start|distinção]] entre a especulação e outras [[lexico:a:atividades:start|atividades]] teóricas, fundada na [[lexico:r:relacao:start|relação]] entre especular e refletir fielmente como um espelho. Daí que se interpretasse a especulação como “modo de refletir”, isto é, “refletir contemplativamente”. Distinguiu-se entre especulação, contemplação e [[lexico:m:meditacao:start|meditação]]. Mediante a contemplação, considera-se Deus como é em [[lexico:s:si-mesmo:start|si mesmo]]; mediante a especulação, considera-se Deus tal [[lexico:c:como-se:start|como se]] reflete nas [[lexico:c:coisas:start|coisas]] criadas, tal como a [[lexico:i:imagem:start|imagem]] se reflete no espelho; mediante a meditação, põe-se a [[lexico:a:alma:start|alma]] em [[lexico:t:tensao:start|tensão]] para alcançar a contemplação. Era muito comum, fosse qual fosse a doutrina, constituir a especulação um [[lexico:e:estado:start|Estado]] intermédio que leva à contemplação. Muitos autores modernos opuseram-se à especulação e a tudo [[lexico:o:o-que-e:start|o que é]] especulativo, considerando-o como algo infundado e sem nenhum alcance [[lexico:p:pratico:start|prático]] (e até teórico). [[lexico:b:bacon:start|Bacon]] considerou-a como [[lexico:a:atividade:start|atividade]] da razão na qual esta se nutre a si mesma à [[lexico:s:semelhanca:start|semelhança]] das “aranhas” que extraem tudo da sua própria [[lexico:s:substancia:start|substância]]. [[lexico:d:descartes:start|Descartes]] também a desdenhou pelas escassas consequências que tem para aqueles que a exercem ([[lexico:d:discurso:start|discurso]] do Método). Mas a especulação teve também grande importância no racionalismo moderno. Perante esta confiança na razão especulativa, Kant elaborou a sua doutrina do conhecimento, que tinha, entre outros, o [[lexico:o:objetivo:start|objetivo]] de delimitar as possibilidades da razão e mostrar que nenhum conhecimento é admissível se não estiver dentro dos limites da experiência possível. Segundo Kant, o “conhecimento da [[lexico:n:natureza:start|natureza]]” difere do “conhecimento teórico”, que “é especulativo se refere a um [[lexico:o:objeto:start|objeto]], ou aos conceitos de um objeto, que não pode ser alcançado mediante nenhuma experiência” ([[lexico:c:critica-da-razao-pura:start|Crítica da Razão Pura]]). Parece, pois, que, com Kant, se põe definitivamente limites à especulação ou razão especulativa. Contudo, pouco depois, considerou-se que o termo especulativo é o [[lexico:u:unico:start|único]] capaz de qualificar a “[[lexico:e:especie:start|espécie]] [[lexico:s:superior:start|superior]] do conhecimento”. O autor que mais se distinguiu nesta linha foi Hegel. Segundo ele, a razão ou “pensamento especulativo” é o único que permite unir e conciliar os opostos manifestados no [[lexico:p:processo:start|processo]] dialéctico. O pensamento especulativo supera as tensões reveladas pelo pensamento dialéctico. O que parece claro ao [[lexico:e:entendimento:start|entendimento]] é contraditório; só o racional-especulativo acaba e (absorve) com as contradições. a [[lexico:o:oposicao:start|oposição]] ao especulativo e à razão especulativa manifestou-se, por um lado, dentro da [[lexico:e:escola:start|escola]] hegeliana (sobretudo com [[lexico:f:feuerbach:start|Feuerbach]] e [[lexico:m:marx:start|Marx]]) e, depois, na maioria das tendências filosóficas do século passado. Assim, podem classificar-se de anti-especulativas as tendências positivas, analíticas, linguísticas, empiristas, neokantianas, etc. O mesmo acontece com tendências como o [[lexico:e:existencialismo:start|existencialismo]], o [[lexico:h:historicismo:start|historicismo]], etc. (gr. theoria; lat. Speculatio; in. Speculation; fr. Spéculation; al. Spekulation; it. Speculazione). O termo tem dois significados: 1a contemplação ou conhecimento desinteressado; 2a conhecimento ultra-empírico ou sem base na experiência. No primeiro [[lexico:s:significado:start|significado]], a especulação se contrapõe à ação; no segundo, à experiência, ou ao conhecimento "[[lexico:n:natural:start|natural]]". 1) Os antigos entenderam por especulação a atividade cognoscitiva não utilizada para um [[lexico:f:fim:start|fim]] qualquer, mas como fim em si mesma. O [[lexico:c:conceito:start|conceito]] de especulação, nesse sentido, foi fixado por Aristóteles, que qualificou de especulativas (ou teoréticas) as ciências naturais, porquanto "consideram a substância que tem em si mesma o [[lexico:p:principio:start|princípio]] do [[lexico:m:movimento:start|movimento]] e do repouso". Com [[lexico:e:efeito:start|efeito]], uma ciência desse [[lexico:g:genero:start|gênero]] não é prática nem produtiva. A atividade produtiva tem princípio na mente ou na habilidade do artista, e a atividade prática na [[lexico:d:decisao:start|decisão]] de [[lexico:q:quem:start|quem]] age. "Logo, se todo pensamento é prático, produtivo ou teórico as ciências naturais são especulativas e consideram o que tem em si [[lexico:c:capacidade:start|capacidade]] de mover-se" (Met., VI, I, 1025 b 18). O objeto das ciências especulativas é o [[lexico:n:necessario:start|necessário]], já que só o necessário, que não pode ser diferente do que é, não dá o que fazer ao homem. E só na especulação o homem encontra felicidade. "Quanto maior a especulação, maior também a felicidade, e encontra-se mais felicidade naquilo em que há maior especulação. Isso não acontece por [[lexico:a:acaso:start|acaso]], mas pela própria natureza da especulação, que tem [[lexico:v:valor:start|valor]] em si mesma, de [[lexico:s:sorte:start|sorte]] que a felicidade é uma espécie de especulação" (Et. Nic, X, 8, 1178 b 28). Essa exaltação da especulação, que constitui um dos modos fundamentais de entender a [[lexico:f:funcao:start|função]] da filosofia, foi herdada sobretudo pelo [[lexico:m:misticismo:start|misticismo]] neoplatônico. [[lexico:p:plotino:start|Plotino]] reduziu todas as atividades à especulação e afirmou que a própria [[lexico:g:geracao:start|geração]] das coisas naturais é especulação: especulação de Deus (Enn., III, 8, 5). O misticismo medieval identifica especulação com contemplação, que é o [[lexico:g:grau:start|grau]] mais alto da ascensão [[lexico:m:mistica:start|mística]] antes do [[lexico:e:extase:start|êxtase]] (cf. Ricardo de São Vítor, De contemplatione, I. 3), mas [[lexico:t:tomas-de-aquino:start|Tomás de Aquino]] a identifica com a meditação, que é o grau anterior (S. Th., II, 2, q. 180, a. 3, ad 2°). Em todos esses usos, todavia, o significado de contemplação desinteressada é predominante e fundamental. 2) Kant introduziu um novo significado do termo, que é o predominante no [[lexico:u:uso:start|uso]] moderno: "O conhecimento teórico é especulativo quando se refere a um objeto ou ao conceito de um objeto a que não se pode chegar com nenhuma experiência. A especulação contrapõe-se, por isso. ao conhecimento natural, que só se refere a objetos ou [[lexico:p:predicados:start|predicados]] que podem ser dados em uma experiência possível" (Crít. R. Pura, O [[lexico:i:ideal:start|ideal]] da [[lexico:r:razao-pura:start|razão pura]], seç. VII). [[lexico:e:esse:start|esse]] significado permaneceu inalterado na [[lexico:t:tradicao:start|tradição]], mesmo porque Hegel adotou-o, modificando seu [[lexico:s:sinal:start|sinal]], ou seja, considerando [[lexico:a:autentico:start|autêntico]] apenas o conhecimento especulativo. Chamou de especulativo ou [[lexico:p:positivo:start|positivo]] [[lexico:r:racional:start|racional]] o [[lexico:t:terceiro:start|terceiro]] [[lexico:m:momento:start|momento]] da [[lexico:d:dialetica:start|dialética]], o da síntese, em que se tem "a unidade das determinações na sua oposição". Essa unidade significa que "a filosofia [[lexico:n:nada:start|nada]] tem a [[lexico:v:ver:start|ver]] com meras abstrações ou [[lexico:p:pensamentos:start|Pensamentos]] formais, mas apenas com pensamentos concretos", ou seja, com pensamentos que são ao mesmo tempo realidades (Ibid., § 82). Além disso, é da filosofia especulativa a [[lexico:d:demonstracao:start|demonstração]] da [[lexico:n:necessidade:start|necessidade]] de seus objetos (Enc., § 9). Assim, em Hegel, o [[lexico:a:adjetivo:start|adjetivo]] especulativo indica o ponto de vista que considera a [[lexico:r:realidade:start|realidade]] como [[lexico:r:racionalidade:start|racionalidade]], a racionalidade como [[lexico:r:real:start|real]], e ambas como necessidade. O adjetivo que Kant empregava para designar o que está além da experiência possível, portanto do conhecimento [[lexico:e:efetivo:start|efetivo]], é usado por Hegel para designar o conhecimento efetivo que, como tal, está além da experiência e das separações que nesta aparecem. Os significados de especulação e de especulativo fixaram-se nessa [[lexico:a:alternativa:start|alternativa]]. Entende-se por especulação um conhecimento que não encontra fundamento ou [[lexico:j:justificacao:start|justificação]] na experiência ou na [[lexico:o:observacao:start|observação]]: por um lado, esse é um [[lexico:m:motivo:start|motivo]] para declarar ilusório ou quimérico tal conhecimento, por [[lexico:o:outro:start|outro]] (mas cada vez menos), motivo para julgá-lo superior. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}