===== ESCRITO ===== Numa célebre passagem, o autor do [[lexico:f:fedro|Fedro]], em [[lexico:m:meio|meio]] a um [[lexico:m:mito|mito]] egípcio, apresenta uma censura à [[lexico:p:palavra|palavra]] [[lexico:e:escrita|escrita]] que faz parecer questionável o [[lexico:m:motivo|motivo]] pelo qual ele, afinal, como [[lexico:f:filosofo|filósofo]] se serviu da escrita (Fedro 274c-275e). Pois a [[lexico:i:invencao|invenção]] desta teria um [[lexico:e:efeito|efeito]] de substituta da [[lexico:m:memoria|memória]], induzindo a “levar para casa por escrito” [[lexico:c:coisas|coisas]] incompreendidas, criando no leitor a [[lexico:i:ilusao|ilusão]] de possuir aquilo que está escrito, sem que o tenha compreendido, assimilado espiritualmente, sem que isso tenha sido “inscrito em sua [[lexico:a:alma|alma]]”, sem que tenha, pela [[lexico:c:compreensao|compreensão]], migrado para o [[lexico:i:intelecto|intelecto]]. Para [[lexico:c:comparar|comparar]]: por [[lexico:e:exemplo|exemplo]], o [[lexico:p:personagem|personagem]] literário professor Kien no romance Alto da [[lexico:f:fe|fé]], de Elias Canetti, lança mão do [[lexico:m:metodo|método]] de escrever num caderno tudo o que o aborrece, porque assim ele tira da cabeça essas banalidades incômodas e as exila no papel e finalmente perde o [[lexico:p:pensamento|pensamento]] delas. [[lexico:p:platao|Platão]] quer impedir justamente isto: simplesmente poder perder o [[lexico:p:pensamento-filosofico|pensamento filosófico]] (isso também pode incluir a concepção [[lexico:i:ideal|ideal]] da [[lexico:m:mania|mania]] filosófica, segundo a qual o [[lexico:i:individuo|indivíduo]], no melhor dos casos, [[lexico:n:nao|não]] tem o pensamento, mas este o tem). De resto, o escrito circula indiscriminadamente entre aqueles que o compreendem e os que não, ou não o compreendem ainda, ou não corretamente; e, do mesmo [[lexico:m:modo|modo]], o [[lexico:l:logos|Logos]] contido na escrita também não pode escolher [[lexico:q:quem|quem]] tomará por domicílio, mas o ganho para os que o levam consigo é pequeno, decepcionante e muitas vezes também enganador: estes se julgam sábios apenas por já possuírem o escrito e serem capazes de lê-lo. Mas nem eles nem o escrito, como logos fundido em letras, podem prestar contas (a expressão grega para isso, logon didonai, também significa algo como “dar ou reproduzir o sentido”). Tudo o que está escrito “assemelha-se bastante à pintura: as figuras pintadas comportam-se como seres vivos, mas se alguém as interrogar manter-se-ão solenemente silenciosas. E o mesmo acontece com os escritos. Poderias [[lexico:p:pensar|pensar]] que eles falam [[lexico:c:como-se|como se]] tivessem alguma compreensão, mas, se os interroga a [[lexico:r:respeito|respeito]] do que dizem, eles se limitam a repetir sempre a mesma [[lexico:c:coisa|coisa]]” (Fedro 275d). Daí também ocorre que o escrito, quando “ofendido ou injustamente insultado, sempre precisa do auxílio de seu autor, pois não é capaz de se defender nem de ajudar a [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]]” (Fedro 275e). Essa última [[lexico:s:situacao|situação]] é mostrada por Platão no [[lexico:t:teeteto|Teeteto]] por meio da célebre [[lexico:e:expressao|expressão]] de [[lexico:p:protagoras|Protágoras]] do [[lexico:h:homem|homem]] como “[[lexico:m:medida|medida]] de todas as coisas”: a expressão, tal como está escrita, crua e sem comentários, não pode prestar contas, é uma declaração fixa acerca do [[lexico:m:mundo|mundo]]; e nessa fixação condensada do mundo, que não fornece [[lexico:n:nada|nada]] sobre o [[lexico:s:sentido|sentido]], a [[lexico:f:frase|frase]] se iguala a uma doutrina esotérica, de [[lexico:s:sorte|sorte]] que devemos perguntar atônitos se porventura Protágoras não “era um poço de [[lexico:s:sabedoria|sabedoria]] e falou por [[lexico:e:enigmas|enigmas]] para a [[lexico:m:multidao|multidão]], na qual nos incluímos, mas disse a [[lexico:v:verdade|verdade]] em segredo para seus discípulos” (Teet. 152c). Como um mito (essa palavra não aparece aí), a frase de Protágoras é, num mau sentido, “crédula” e deve [[lexico:s:ser|ser]] aceita, ou não, com base na confiança na [[lexico:a:autoridade|autoridade]] do autor. Mas [[lexico:m:mal|mal]] se pode interrogá-lo. Não se pode interrogar o autor morto, nem a frase, e evidentemente é preciso se conformar com isso. Por isso, [[lexico:s:socrates|Sócrates]] passa a cuidar do [[lexico:d:dito|dito]] do filósofo “como um órfão” e a importar-se com ele, procurar entendê-lo, protegê-lo e [[lexico:f:falar|falar]] por ele como um tutor. Segue-se, portanto, uma desmontagem de Protágoras (Teet. 165e-168d), e a malignidade proposital de Sócrates não deixa de atingir seu efeito entre os ouvintes no [[lexico:d:dialogo|diálogo]]. De suas reações pode-se inferir sem dificuldade como lhes é desagradável que Sócrates tenha convertido o solene dito de [[lexico:s:sofista|sofista]] celebrado em [[lexico:v:vida|vida]] — e estimado por alguns dos interlocutores presentes que o conheceram pessoalmente — num órfão dependente de ajuda externa gentil, que balbucia coisas incompreensíveis e precisa muito mais de [[lexico:c:compaixao|compaixão]] e [[lexico:t:tolerancia|tolerância]] bem-intencionada do que de [[lexico:d:discussao|discussão]] intelectual de igual para igual. O [[lexico:s:significado|significado]] da [[lexico:c:critica|crítica]] de Platão à palavra escrita é esclarecido tanto por isso quanto por algumas passagens, por exemplo do [[lexico:p:politico|Político]] ou das Leis, que compreensivelmente dizem que não se deve seguir a letra das leis, mas seu [[lexico:e:espirito|espírito]], pois, gostaríamos de acrescentar, a letra mata, o espírito vivifica. [LéxicoPlatão:13-14]