===== ESCRAVO ===== VIDE [[lexico:e:escravos|escravos]] “Já no [[lexico:t:tempo|tempo]] de Sólon, a [[lexico:e:escravidao|escravidão]] era considerada pior que a [[lexico:m:morte|morte]]” (Robert Schlaifer, “Greek theories of slavery from Homer to Aristotle”, Harvard studies in classical philology , XLVII). Desde então, a philopsychia (“o [[lexico:a:amor|amor]] à [[lexico:v:vida|vida]]”) e a covardia passaram a [[lexico:s:ser|ser]] identificadas com o servilismo. Assim, [[lexico:p:platao|Platão]] pôde acreditar [[lexico:t:ter|ter]] demonstrado o servilismo [[lexico:n:natural|natural]] dos escravos pelo [[lexico:f:fato|fato]] de estes [[lexico:n:nao|não]] terem preferido a morte à escravidão ([[lexico:r:republica|República]], 386A). Na resposta de [[lexico:s:seneca|Sêneca]] às queixas dos escravos pode-se encontrar ainda um [[lexico:r:reflexo|reflexo]] tardio dessa [[lexico:a:atitude|atitude]]: “Com a [[lexico:l:liberdade|liberdade]] tão ao alcance de nossas [[lexico:m:maos|mãos]], existe ainda alguém que seja escravo?” (Ep. 77. 14); ou ainda em sua [[lexico:f:frase|frase]] vita si moriendi virtus abest, servitus est – “sem a [[lexico:v:virtude|virtude]] que sabe como morrer, a vida é escravidão” (77. 13). Para que se compreenda a atitude dos antigos em [[lexico:r:relacao|relação]] à escravidão, convém lembrar que a maioria dos escravos era de inimigos derrotados e que geralmente só uma pequena percentagem era constituída de escravos natos. E enquanto na República Romana os escravos eram, em sua [[lexico:t:totalidade|totalidade]], trazidos de fora das fronteiras do domínio romano, os escravos gregos eram geralmente da mesma nacionalidade que os seus senhores; haviam demonstrado sua [[lexico:n:natureza|natureza]] escrava por não terem cometido [[lexico:s:suicidio|suicídio]] e, como a [[lexico:c:coragem|coragem]] era a virtude [[lexico:p:politica|política]] par excellence, haviam demonstrado com isso sua indignidade “natural”, sua incapacidade de serem cidadãos. A atitude em relação aos escravos mudou no Império Romano, não só devido à [[lexico:i:influencia|influência]] do [[lexico:e:estoicismo|estoicismo]], mas porque uma proporção muito maior da população escrava era escrava de nascimento. Mas, mesmo em Roma, Virgílio considerava que labos era intimamente ligado à morte inglória (Eneida, vi). [ArendtCH, 5, Nota] O fato de que o [[lexico:h:homem|homem]] livre se diferencie do escravo por [[lexico:m:meio|meio]] da coragem parece ter sido o [[lexico:t:tema|tema]] de um poema do [[lexico:p:poeta|poeta]] cretense Híbrias: “Minhas riquezas são a lança, a espada e o [[lexico:b:belo|belo]] escudo (...). Mas aqueles que não ousam valer-se da lança, da espada e do belo escudo que protege o [[lexico:c:corpo|corpo]] prostram-se de joelhos, assombrados, e me chamam de Senhor e Grande Rei” (citado por Eduard Meyer, Die Sklaverei im Altertum , p. 22). [ArendtCH, 5, Nota] [[lexico:b:bom|Bom]] [[lexico:e:exemplo|exemplo]] disso é a [[lexico:o:observacao|observação]] de Sêneca, que, ao discutir a [[lexico:u:utilidade|utilidade]] de ter escravos altamente instruídos (que sabem de cor todos os clássicos) para um senhor supostamente um tanto ignorante, comenta: “O que a casa sabe, o senhor sabe” (Ep. 27. 6, citado por Barrow, Slavery in the Roman Empire, p. 61). [ArendtCH, 5, Nota] A tão citada observação de Homero – de que [[lexico:z:zeus|Zeus]] retira metade da [[lexico:e:excelencia|excelência]] ([[lexico:a:arete|arete]]) de um homem no dia em que ele sucumbe à escravidão (Odisseia, xvii, 320 ss.) – é colocada na boca de Eumeu, ele mesmo um escravo, significando uma mera [[lexico:a:afirmacao|afirmação]] objetiva, e não uma [[lexico:c:critica|crítica]] ou um [[lexico:j:julgamento|julgamento]] [[lexico:m:moral|moral]]. O escravo perde a excelência porque perde a [[lexico:a:admissao|admissão]] ao domínio [[lexico:p:publico|público]], onde a excelência pode se revelar. [ArendtCH, 6, Nota] [[lexico:e:esse|esse]] é também o [[lexico:m:motivo|motivo]] pelo qual é [[lexico:i:impossivel|impossível]] “traçar o perfil de qualquer escravo que viveu (...). Até alcançarem a liberdade e a notoriedade, todos os escravos são tipos obscuros, mais que pessoas” (Barrow, Slavery in the Roman Empire, p. 156). [ArendtCH, 6, Nota] Barrow (Slavery in the Roman Empire, p. 168), em uma esclarecedora [[lexico:d:discussao|discussão]] sobre a admissão de escravos nos colégios romanos, que proporcionava, [[lexico:a:alem|além]] de “boas [[lexico:r:relacoes|relações]] durante a vida e a [[lexico:c:certeza|certeza]] de um enterro decente (...), a [[lexico:g:gloria|glória]] final de um epitáfio; e o escravo encontrava um [[lexico:p:prazer|prazer]] melancólico neste [[lexico:u:ultimo|último]]”. [ArendtCH, 7, Nota] Existe [[lexico:p:prova|prova]] suficiente dessa [[lexico:d:diferenca|diferença]] de estimativa da [[lexico:r:riqueza|riqueza]] e da [[lexico:c:cultura|cultura]] em Roma e na [[lexico:g:grecia|Grécia]]. Mas é [[lexico:i:interessante|interessante]] observar como essa estimativa coincide sistematicamente com a [[lexico:p:posicao|posição]] dos escravos. Os escravos romanos desempenharam um papel muito maior na cultura romana que o dos escravos gregos na Grécia, onde, por [[lexico:o:outro|outro]] lado, o papel destes últimos na vida [[lexico:e:economica|econômica]] foi muito mais importante (cf. Westermann, em Pauly-Wissowa, p. 984). [ArendtCH, 8, Nota]