===== ESCOLÁSTICA ===== Ensinado pela [[lexico:e:escola:start|escola]]; [[lexico:r:relativo:start|relativo]] às escolas da Idade Média, cujas características eram o [[lexico:r:respeito:start|respeito]] à [[lexico:t:tradicao:start|tradição]] (de [[lexico:a:aristoteles:start|Aristóteles]]) e a [[lexico:r:recusa:start|recusa]] em [[lexico:p:por:start|pôr]] em [[lexico:q:questao:start|questão]] a [[lexico:f:fe-religiosa:start|fé religiosa]]. — A principal [[lexico:d:discussao:start|discussão]] da "escolástica" foi a dos "[[lexico:u:universais:start|universais]]", isto é, da [[lexico:r:realidade:start|realidade]] ou da não-realidade das [[lexico:i:ideias:start|ideias]] gerais. Sobre [[lexico:e:esse:start|esse]] [[lexico:p:ponto:start|ponto]] defrontaram-se nominalistas e racionalistas. (V. [[lexico:a:abelardo:start|Abelardo]], [[lexico:f:filosofia-arabe:start|filosofia árabe]], Averróis, [[lexico:a:avicena:start|Avicena]], [[lexico:h:historico:start|histórico]], [[lexico:n:nominalismo:start|nominalismo]], [[lexico:t:tomas-de-aquino:start|Tomás de Aquino]].) Escolástica deriva, etimologicamente, de schola, scholasticus (escola, mestre) e significa: [[lexico:c:ciencia:start|ciência]] da escola. Quanto ao [[lexico:o:objeto:start|objeto]] [[lexico:s:significado:start|significado]], designamos com este [[lexico:t:termo:start|termo]] a ciência filosófico-teológica cultivada nas escolas da Idade Média. Na [[lexico:e:exposicao:start|exposição]] que segue, referimo-nos tão-somente à [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]] escolástica. — Por seu [[lexico:c:carater:start|caráter]] peculiar, ela é primariamente [[lexico:f:filosofia-crista:start|filosofia cristã]] (filosofia cristã). A um [[lexico:t:tempo:start|tempo]], serve à [[lexico:t:teologia:start|teologia]] ([[lexico:a:ancilla-theologiae:start|ancilla theologiae]]) e é, mais e mais, uma autêntica [[lexico:l:luta:start|luta]] em torno das grandes questões da [[lexico:h:humanidade:start|humanidade]], uma ciência [[lexico:i:independente:start|independente]], com bases, problemas e métodos próprios. Em segundo [[lexico:l:lugar:start|lugar]], é predominantemente assunto de escola. Isto significa respeito à tradição, reserva ante as inovações precipitadas, crescimento [[lexico:o:organico:start|orgânico]], conservação de um patrimônio comum de doutrina e [[lexico:m:metodo:start|método]]. Contudo, neste quadro incrementam-se o progressivo [[lexico:d:desenvolvimento:start|desenvolvimento]] criador do patrimônio herdado, a [[lexico:f:fusao:start|fusão]] deste no [[lexico:a:autentico:start|autêntico]] [[lexico:p:progresso:start|progresso]] do [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]] [[lexico:p:proprio:start|próprio]] e um intercâmbio vivíssimo, por toda a [[lexico:p:parte:start|parte]], de multiformes e relevantes personalidades e direções; até mesmo um [[lexico:g:genio:start|gênio]] como S. Tomás de Aquino impõe profundas remodelações subsequentes. [[lexico:p:prova:start|prova]] de que a escolástica [[lexico:n:nao:start|não]] naufragou por entre os [[lexico:c:conceitos:start|conceitos]] mortos e as construções balofas, é o seu íntimo convívio com as correntes vitais da [[lexico:m:mistica:start|mística]] e sua não despicienda [[lexico:o:observacao:start|observação]] da [[lexico:n:natureza:start|natureza]]. De sua peculiaridade nasce o método escolástico para o ensino e produção [[lexico:e:escrita:start|escrita]]. A lectio (preleção) elucidava os textos tradicionais com explicações que se consignavam em comentários. O aprofundamento global de cada questão efetuava-se em [[lexico:f:forma:start|forma]] de [[lexico:d:dialogo:start|diálogo]] conduzido segundo regras determinadas: as disputas, das quais saíam as colectâneas de quaestiones (questões). A [[lexico:e:estrutura:start|estrutura]] da [[lexico:q:quaestio:start|quaestio]] escolástica compreende, primeiramente, a exposição das razões pró e contra, que empostam problematicamente a questão e, de ordinário, se apoiam em autoridades; em seguida, o desenvolvimento e a [[lexico:d:demonstracao:start|demonstração]] da solução positiva e, finalmente, a resposta às objeções propostas. Muitas vezes, os comentários aproveitam também este [[lexico:e:esquema:start|esquema]], com o [[lexico:f:fim:start|fim]] de anexar aos textos ideias próprias, após a exposição independente das questões, e valem-se dele, de [[lexico:m:modo:start|modo]] especial, as grandes Sumas teológicas para apresentarem, em amplos moldes, as linhas, de sua vasta [[lexico:s:sistematica:start|sistemática]]. A par disso usava-se também uma forma livre, p. ex., na [[lexico:s:suma:start|suma]] filosófica ("Summa contra Gentiles") do Aquinense, em breves trabalhos de [[lexico:i:investigacao:start|investigação]] (opuscula), dedicados a pesquisas especiais. Características do método escolástico são sempre a [[lexico:p:posicao:start|posição]] nítida da questão, a clareza de conceitos, a [[lexico:a:argumentacao:start|argumentação]] [[lexico:l:logica:start|lógica]] e a [[lexico:t:terminologia:start|terminologia]] sem ambiguidades. Três fontes concorreram para o nascimento da escolástica. Dentre os escritores da [[lexico:p:patristica:start|Patrística]], S. [[lexico:a:agostinho:start|Agostinho]] exerceu [[lexico:i:influencia:start|influência]] imensa. O [[lexico:n:neoplatonismo:start|neoplatonismo]] atua através de S. Agostinho, do Pseudo-Areopagita, de [[lexico:p:proclo:start|Proclo]] e da filosofia arábico-judaica. Mas o cunho, que lhe é peculiar provém de Aristóteles, primeiramente conhecido através de [[lexico:b:boecio:start|Boécio]], e cujas obras completas foram sucessivamente vertidas para latim desde meados do século XII. Acrescentem-se a isto os comentários gregos e árabes (especialmente de Avicena e Averróis) e as demais obras da filosofia arábico-judaica. Na [[lexico:e:evolucao:start|evolução]] da filosofia escolástica distinguimos três períodos: escolástica primitiva, apogeu da escolástica, e escolástica tardia. O [[lexico:c:caminho:start|caminho]] foi preparado pela pré-escolástica, a qual só transmite o existente, o que está presente; nela sobressai, no século IX, João [[lexico:e:escoto-eriugena:start|Escoto Eriúgena]] com um [[lexico:s:sistema:start|sistema]] idealista de [[lexico:t:tendencia:start|tendência]] panteísta. A escolástica primitiva abarca os derradeiros anos do século XI e século XII; abre com S. Anselmo de Cantuaria, o "pai da escolástica". No primeiro [[lexico:p:plano:start|plano]], surge o [[lexico:p:problema:start|problema]] dos universais, ao qual comunicou grande [[lexico:i:impulso:start|impulso]] Pedro Abelardo, que procura encontrar uma via média entre o nominalismo e o ultra-realismo. Entre as escolas desta [[lexico:e:epoca:start|época]], importa mencionar principalmente a de S. Vítor e a de Chartres. [[lexico:a:alem:start|Além]] das novas fontes descobertas, possibilitam o apogeu da escolástica a fundação das [[lexico:u:universidades:start|universidades]] (especialmente a de Paris) e a [[lexico:a:atividade:start|atividade]] científica das Ordens mendicantes. O agostinianismo da antiga escola fransciscana (com Alexandre de Hales e S. [[lexico:b:boaventura:start|Boaventura]]) e da escola dominicana é sobrepujado pelo [[lexico:a:aristotelismo:start|aristotelismo]] cristão da nova direção da escola dominicana. Coube a S. [[lexico:a:alberto-magno:start|Alberto Magno]] a empresa de unir Aristóteles com a herança agostiniana, empresa que foi completada por S. Tomás de Aquino, o mentor e mais potente sistematizador da grande escolástica. De cunho aristotélico é igualmente a nova escola fransciscana, muito embora continue trilhando a linha agostiniana; esta nova direção tem seu ponto de partida no crítico João [[lexico:d:duns-scotus:start|Duns Scotus]] e, por tal [[lexico:m:motivo:start|motivo]], se denomina [[lexico:s:scotismo:start|scotismo]]. Em [[lexico:o:oposicao:start|oposição]] a estas correntes cristãs surge um aristotelismo filosófico [[lexico:p:puro:start|puro]] particularmente o [[lexico:a:averroismo:start|averroísmo]] a-cristão de Siger de Brabant. A escolástica tardia, dos séculos XIV e XV, é constituída por escolas de diversas Ordens religiosas e realiza trabalhos importantes no domínio da investigação da natureza (como, aliás, anteriormente, S. Alberto Magno e Rogério [[lexico:b:bacon:start|Bacon]]). Também a mística alemã possa por uma fase de inflorescência; nela, [[lexico:m:mestre:start|mestre]] [[lexico:e:eckhart:start|Eckhart]] admite o neoplatonismo. Todavia, como [[lexico:r:regra:start|regra]] [[lexico:g:geral:start|geral]], começa a faltar o ímpeto criador; o pensamento perde-se em sutilezas formalísticas; especialmente Guilherme de [[lexico:o:occam:start|Occam]] atua de modo dissolvente, com o seu nominalismo. A escolástica assim degenerada defronta-se com o [[lexico:h:humanismo:start|humanismo]]; as críticas deste ainda hoje perduram, sem todavia afetarem a escolástica clássica. A escolástica tem, certamente, suas limitações; a [[lexico:e:epistemologia:start|epistemologia]] é pouco desenvolvida e sua [[lexico:c:compreensao:start|compreensão]] da [[lexico:h:historia:start|história]] é quase nula. Contudo sua importância permanece imorredoura, porque ela é que elabora sistematicamente, pela vez primeira, a filosofia cristã, assentando-lhe os alicerces. Seu [[lexico:c:conceito:start|conceito]] não violenta, como [[lexico:f:formalismo:start|formalismo]] morto, o [[lexico:d:dado:start|dado]] [[lexico:c:concreto:start|concreto]], mas elucida-o intrinsecamente em sua estrutura [[lexico:e:essencial:start|essencial]]. Por isso, a filosofia cristã de todos os tempos só pode converter-se em realidade, mediante ulterior ampliação orgânica da escolástica ([[lexico:n:neo-escolastica:start|neo-escolástica]]). — Lotz. Do latim, schola, escola, e scholasticus, mestre-escola e o que se ensina na escola. A filosofia chamada cristã compreende a patrística, a medieval, que é escolástica, e a escolástica pós-medieval. A patrística é a filosofia dos primeiros padres da Igreja que, em luta com o [[lexico:p:paganismo:start|paganismo]] e as heresias, utilizam a [[lexico:f:filosofia-grega:start|filosofia grega]] e especialmente o [[lexico:p:platonismo:start|platonismo]] e o neoplatonismo, na formulação, elucidação e defesa do [[lexico:d:dogma:start|dogma]]. No [[lexico:m:mundo:start|mundo]] romano, até a [[lexico:c:conversao:start|conversão]] de Constantino, no século IV, os cristãos representavam a oposição, a [[lexico:n:negacao:start|negação]] do statu [[lexico:q:quo:start|quo]], do [[lexico:p:politeismo:start|politeísmo]] tradicional e da [[lexico:e:escravidao:start|escravidão]], sustentáculo econômico do Império. Perseguidos e martirizados, eram compelidos, no [[lexico:t:trabalho:start|trabalho]] de catequese, a fazer do pensamento uma arma de defesa e propagação da [[lexico:f:fe:start|fé]]. Embora contenha [[lexico:e:elementos:start|elementos]] filosóficos, a patrística é essencialmente [[lexico:a:apologetica:start|apologética]], sendo a primeira [[lexico:r:reflexao:start|reflexão]] sobre o dogma em um mundo não ainda cristão. Na Idade Média, a [[lexico:s:situacao:start|situação]] histórica se altera radicalmente, pois o mundo no qual pensam os cristãos é um mundo cristão, quer dizer, determinado pelo cristianismo na [[lexico:t:totalidade:start|totalidade]] de suas manifestações. Há uma [[lexico:c:crenca:start|crença]] vigente, que é ponto de [[lexico:r:referencia:start|referência]] para o pensamento e [[lexico:c:criterio:start|critério]] da [[lexico:v:verdade:start|verdade]]. As divergências ocorrem em um mesmo contexto espiritual, e não põem em questão, não criticam o [[lexico:f:fundamento:start|fundamento]] desse mundo, o conteúdo da [[lexico:r:revelacao:start|revelação]], o dogma. As exigências que se apresentam aos cristãos filósofos não são mais as mesmas pois o [[lexico:p:pressuposto:start|pressuposto]] de que partem não é o paganismo, mas o próprio cristianismo. Trata-se [[lexico:a:agora:start|agora]] de [[lexico:p:pensar:start|pensar]] em um mundo já convertido, já configurado em [[lexico:f:funcao:start|função]] das crenças e dos valores cristãos. A filosofia pode, então, deixar de [[lexico:s:ser:start|ser]] apologética para tornar-se docente, magisterial ou escolástica. Com as invasões bárbaras, a "[[lexico:c:cultura:start|cultura]]", representada especialmente pelos livros, refugiou-se nos mosteiros, abadias e conventos, motivo pelo qual se costuma dizer que a Igreja salvou a cultura na Idade Média, absorvendo os "bárbaros", como a [[lexico:g:grecia:start|Grécia]] absorveu culturalmente Roma. Após o longo interregno que se segue à [[lexico:m:morte:start|morte]] de [[lexico:s:santo:start|santo]] Agostinho (430), o [[lexico:c:chamado:start|chamado]] [[lexico:r:renascimento:start|Renascimento]] carolíngio assinala o advento de nova época na história do pensamento cristão. As "capitulares" de 787 recomendam, em [[lexico:t:todo:start|todo]] o Império, a restauração das antigas escolas e a fundação de novas. As que então se inauguram incluem as monacais, junto aos mosteiros, interiores, para religiosos, e exteriores, para leigos; as catedrais, junto à sede dos bispados, umas para clérigos e outras para seculares, e as palatinas, junto às cortes, religiosas, mas abertas a clérigos e leigos. Devem ser mencionadas, entre as monacais, as beneditinas, de Fulda, na Alemanha, e de York, na Inglaterra; as de Saint Martin de Tours e Fleury-sur-Loire, na França; entre as catedrais, as de Laon, Reims e Chartres, Cluny e Auxerre. Quanto aos programas de ensino, compreendiam as artes chamadas liberais, que se desdobravam em [[lexico:t:trivium:start|Trivium]], [[lexico:g:gramatica:start|gramática]], [[lexico:r:retorica:start|retórica]] e [[lexico:d:dialetica:start|dialética]], e [[lexico:q:quadrivium:start|quadrivium]], [[lexico:a:aritmetica:start|aritmética]], [[lexico:g:geometria:start|geometria]], [[lexico:a:astronomia:start|astronomia]] e [[lexico:m:musica:start|música]]; ciências da natureza, [[lexico:f:filosofia-e-teologia:start|filosofia e teologia]]. A escola, assim como a corporação, é uma [[lexico:c:comunidade:start|comunidade]] de trabalho, que funciona em estreita colaboração com a Igreja, o que lhe assegura organização estável e continuidade de pensamento. A "escolástica" torna-se, assim, um patrimônio comum, um [[lexico:s:saber:start|saber]] tradicional que se transmite e enriquece de [[lexico:g:geracao:start|geração]] em geração. O ensino é, em geral, ministrado na forma de [[lexico:l:leitura:start|leitura]], lectio, e comentário de textos. Além das Sagradas Escrituras, entre os livros mais estudados devem mencionar-se o [[lexico:o:organon:start|Organon]], de Aristóteles, traduzido em parte, o [[lexico:t:timeu:start|Timeu]], de [[lexico:p:platao:start|Platão]], os comentários de [[lexico:p:porfirio:start|Porfírio]] e Boécio às obras desses filósofos, as obras de Cícero e de Séneca, os textos dos Padres, Orígenes, Clemente de [[lexico:a:alexandria:start|Alexandria]], Santo [[lexico:a:ambrosio:start|Ambrósio]], Pedro Lombardo e, de modo especial, Santo Agostinho, que, até o século XIII, domina o pensamento medieval. À [[lexico:s:simples:start|simples]] leitura comentada dos textos, acrescentou-se, com o tempo, a discussão, quaestio, e a elaboração de trabalhos e composições pessoais. Tal [[lexico:m:modalidade:start|modalidade]] de prática docente suscita diversos gêneros literários, característicos da escolástica: os comentaria, [[lexico:e:exegese:start|exegese]] dos textos; as quaestiones, que incluíam as quaestiones disputatae e as quaestiones quodlibetales, compilação dos debates, registrando os argumentos apresentados e as soluções encontradas; os trabalhos individuais, dissertações e monografias, opuscula; e, finalmente, as grandes sínteses que procuravam sistematizar a totalidade do saber, as sumas, teológicas e filosóficas, entre as quais devem ser mencionadas, por sua excepcional importância, a [[lexico:s:suma-teologica:start|Suma Teológica]] e a Suma contra os Gentios» de Santo Tomás de Aquino. Filosofia de clérigos, de religiosos, que floresce não só em um mundo cristão, mas no seio da própria Igreja, sob seu magistério e jurisdição, a escolástica, além das características formais, que acabamos de apontar, apresenta outras, mais importantes, porque relativas a seu conteúdo e [[lexico:s:significacao:start|significação]]. Surgindo em um mundo cristão, seus pressupostos são as crenças básicas em que esse mundo se fundamenta, radicalmente distintas das que configuravam o mundo antigo, greco-romano. Os problemas que se apresentam à filosofia são suscitados pela revelação. As ideias de [[lexico:d:deus:start|Deus]], [[lexico:u:uno:start|uno]] e trino ao mesmo tempo, de [[lexico:c:criacao:start|criação]] do mundo a partir do [[lexico:n:nada:start|nada]], de [[lexico:i:imortalidade:start|imortalidade]] [[lexico:p:pessoal:start|pessoal]], do [[lexico:h:homem:start|homem]] à [[lexico:i:imagem:start|imagem]] e [[lexico:s:semelhanca:start|semelhança]] de Deus, a [[lexico:n:nocao:start|noção]] de história, implícita no [[lexico:r:relato:start|relato]] bíblico, criação, [[lexico:p:pecado-original:start|pecado original]], [[lexico:r:redencao:start|redenção]] e [[lexico:j:juizo:start|juízo]] final, são ideias religiosas que provocam uma [[lexico:e:especulacao:start|especulação]] tipicamente [[lexico:m:metafisica:start|metafísica]] ou filosófica. A noção de "filosofia cristã", no entanto, embora constantemente empregada, a rigor, representa uma [[lexico:c:contradicao:start|contradição]] nos termos, pois o cristianismo é [[lexico:r:religiao:start|religião]] e a filosofia [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]] [[lexico:r:racional:start|racional]]. Historicamente, porém, a escolástica consiste nesse [[lexico:p:paradoxo:start|paradoxo]], de uma filosofia que pretende ser, ao mesmo tempo, racional e religiosa, motivo por que seu problema mais grave é o das [[lexico:r:relacoes:start|relações]] entre a [[lexico:r:razao:start|razão]] e a fé. Que [[lexico:l:liberdade:start|liberdade]] terá a razão, se o dogma limita [[lexico:a:a-priori:start|a priori]] seus movimentos, e se o critério da verdade não é nem a [[lexico:e:experiencia:start|experiência]] nem a concordância da razão consigo mesma? Se a reflexão só é filosófica na [[lexico:m:medida:start|medida]] em que consiste em uma problematização radical, que tudo põe em questão, como conciliá-la com o repertório de dogmas que representam, por [[lexico:h:hipotese:start|hipótese]], uma verdade indiscutível, revelada por uma [[lexico:i:instancia:start|instância]] meta ou trans-racional? Há, sem [[lexico:d:duvida:start|dúvida]], um conteúdo filosófico na [[lexico:o:obra:start|obra]] dos padres e dos escolásticos, que deve ser levado em conta pela [[lexico:h:historia-da-filosofia:start|história da filosofia]]. Todavia, como escreve [[lexico:h:hegel:start|Hegel]], "o conteúdo não repousa em [[lexico:s:si-mesmo:start|si mesmo]], não é justificado pelo próprio pensamento, mas encontra sua última [[lexico:j:justificacao:start|justificação]] na doutrina da Igreja. O pensamento devia demonstrar [[lexico:p:por-si:start|por si]] mesmo aquilo de que a Igreja, por seu método próprio, já havia estabelecido a Verdade". A rigor, portanto, não há uma filosofia cristã, mas uma filosofia que "se desenvolve no interior do cristianismo" e, obedecendo às exigências da razão e da história, evolui na [[lexico:c:condicao:start|condição]] subalterna de ancilla theologiae, e do [[lexico:c:compromisso:start|compromisso]] que consiste em distinguir duas verdades, uma [[lexico:n:natural:start|natural]] e outra [[lexico:s:sobrenatural:start|sobrenatural]], a primeira acessível à [[lexico:l:luz-natural:start|luz natural]] da razão e a segunda à [[lexico:l:luz:start|luz]] sobrenatural da fé, verdades que, por serem distintas, não poderiam contradizer-se, para a condição de instância última e única, que tudo julga, põe em questão e critica, pois como escreve Hegel "a razão nada de estranho pode tolerar junto dela, e muito menos acima dela". A essas etapas da evolução da filosofia no interior do cristianismo correspondem, historicamente, as fases de [[lexico:f:formacao:start|formação]], do século IX ao XII, de apogeu, no século XIII, e [[lexico:d:decadencia:start|decadência]], do século XIV ao XVII, da filosofia escolástica. Da submissão à fé, representada pela Igreja, instância heterônoma em face da razão, e da posição de compromisso, a filosofia evolui, acompanhando a [[lexico:d:desintegracao:start|desintegração]] do feudalismo e o advento do mundo burguês, até alcançar, com [[lexico:d:descartes:start|Descartes]] e o [[lexico:i:idealismo-alemao:start|idealismo alemão]], sua plena [[lexico:a:autonomia:start|autonomia]]. A história da escolástica apresenta-se, assim, como a história da razão humana, em determinado [[lexico:m:momento:start|momento]] de sua evolução, exprimindo, inicialmente, a. [[lexico:a:alienacao:start|alienação]], na sujeição ao dogma, em seguida, a [[lexico:c:consciencia:start|consciência]] da alienação, na doutrina das duas verdades, e, finalmente, a negação da alienação (da negação), na [[lexico:r:ruptura:start|ruptura]] definitiva da razão e da fé, e na [[lexico:a:afirmacao:start|afirmação]] de que o [[lexico:r:real:start|real]], em sua totalidade, natureza e história, é racional e de que nada pode resistir à [[lexico:f:forca:start|força]] da razão. A decadência da escolástica, a partir do século XIII, exacerba os [[lexico:c:caracteres:start|caracteres]] formais já apontados. Desde que, com Guilherme de Occam, as verdades da fé são consideradas inacessíveis à razão, a filosofia, que procura [[lexico:c:compreender:start|compreender]] e [[lexico:e:explicar:start|explicar]] essas verdades, torna-se um formalismo oco, discussão no [[lexico:v:vazio:start|vazio]] de textos e temas que perderam a vigência histórica. O ensino livresco, o emprego abusivo do [[lexico:s:silogismo:start|silogismo]], o [[lexico:v:verbalismo:start|verbalismo]] das fórmulas abstratas, a complacência no debate gratuito e inconsequente, o [[lexico:d:dogmatismo:start|dogmatismo]] estéril, tornam-se, na decadência, características da escolástica que, desde então, passa a assumir [[lexico:c:conotacao:start|conotação]] pejorativa. "Toda filosofia, escreve Gilson, engendra sua escolástica... Toda filosofia digna desse [[lexico:n:nome:start|nome]] parte do real e a ele retorna, toda escolástica parte de uma filosofia e a ela retorna. A filosofia degenera em escolástica sempre que, em lugar de refletir sobre o concreto existente, a fim de aprofundá-lo, penetrá-lo e esclarecê-lo, cada vez mais, aplica-se a fórmulas propostas para esclarecê-lo, [[lexico:c:como-se:start|como se]] tais fórmulas, e não o que iluminam, fossem a própria realidade". A [[lexico:t:transformacao:start|transformação]] da filosofia em escolástica, no mau [[lexico:s:sentido:start|sentido]], corresponde, pois, à esclerose do pensamento que se esvazia de conteúdo, perde o contato com a realidade e se torna mero [[lexico:j:jogo:start|jogo]] intelectual, ocioso e inconclusivo. (in. Scholasticism; fr. Scolastique; al. Scholastik; it. Scolastica). 1. Em sentido próprio, a filosofia cristã da Idade Média. Nos primeiros séculos da Idade Média, era chamado de scholasticus o professor de artes liberais e, depois, o docente de filosofia ou teologia que lecionava primeiramente na escola do convento ou da catedral, depois na Universidade. Portanto, literalmente, escolástica significa filosofia da escola. Como as formas de ensino medieval eram duas (lectio, que consistia no comentário de um [[lexico:t:texto:start|texto]], e [[lexico:d:disputatio:start|disputatio]], que consistia no exame de um problema através da discussão dos argumentos favoráveis e contrários), na escolástica a atividade literária assumiu predominantemente a forma de Comentários ou de coletâneas de questões (v. questão). O problema fundamental da escolástica é levar o homem a compreender a verdade revelada. A escolástica é o exercício da atividade racional (ou, na prática, o [[lexico:u:uso:start|uso]] de alguma filosofia determinada, neoplatônica ou aristotélica) com vistas ao [[lexico:a:acesso:start|acesso]] à verdade religiosa, à sua demonstração ou ao seu esclarecimento nos limites em que isso é [[lexico:p:possivel:start|possível]], aprestando um arsenal defensivo contra a incredulidade e as heresias. A escolástica, portanto, não é uma filosofia autônoma, como, p. ex., a filosofia grega: seu dado ou sua [[lexico:l:limitacao:start|limitação]] é o ensinamento [[lexico:r:religioso:start|religioso]], o dogma. Para exercer essa [[lexico:t:tarefa:start|tarefa]], não confia apenas nas forças da razão, mas chama em seu socorro a tradição religiosa ou filosófica, recorrendo às chamadas auctoritates. Auctoritas é a [[lexico:d:decisao:start|decisão]] de um concilio, uma [[lexico:m:maxima:start|máxima]] bíblica, a sententia de um padre da Igreja ou mesmo de um grande [[lexico:f:filosofo:start|filósofo]] pagão, árabe ou judaico. O recurso à [[lexico:a:autoridade:start|autoridade]] é a [[lexico:m:manifestacao:start|manifestação]] [[lexico:t:tipica:start|típica]] do caráter comum e supra-individual da investigação escolástica, em que cada pensador quer sentir-se apoiado pela [[lexico:r:responsabilidade:start|responsabilidade]] coletiva da tradição eclesiástica. A escolástica medieval costuma ser distinguida em três grandes períodos: 1) a alta escolástica, que vai do séc. IX ao fim do séc. XII, caracterizada pela confiança na [[lexico:h:harmonia:start|harmonia]] intrínseca e [[lexico:s:substancial:start|substancial]] entre fé e razão e na coincidência de seus resultados; 2) o florescimento da escolástica, que vai de 1200 aos primeiros anos do séc. XIV, época dos grandes sistemas, em que a harmonia entre fé e razão é considerada parcial, apesar de não se considerar possível a oposição entre ambas; 3S dissolução da escolástica, que vai dos primeiros decênios do séc. XIV até o Renascimento, período em que o [[lexico:t:tema:start|tema]] básico é a oposição entre fé e razão. Esse conceito da escolástica foi extraído da obra fundamental de M. Grabman, Die [[lexico:g:geschichte:start|Geschichte]] der scholastichen Methode (1909, reimpr. 1956). Não faltaram tentativas de considerar a escolástica como uma [[lexico:s:sintese:start|síntese]] doutrinária completa, na qual confluíam e fundiam-se contribuições individuais (p. ex., por parte de De Wulf, Histoire de la philosophie médiévale, 1900, e ed. seguintes), mas essas tentativas não têm base histórica e reduzem-se a alijar da escolástica grande [[lexico:n:numero:start|número]] de autores e a estabelecer concordâncias e uniformidades fictícias entre os outros (cf. [[lexico:a:abbagnano:start|Abbagnano]], Storia della fil., 2- ed., 1958, 1, § 171, e a bibliografia correspondente). 2. Por [[lexico:e:extensao:start|extensão]], pode-se chamar de escolástica qualquer filosofia que assuma a tarefa de ilustrar e defender racionalmente determinada tradição ou revelação religiosa. Para isso, via de regra, essa escolástica lança mão de uma filosofia já estabelecida e famosa; de tal [[lexico:s:sorte:start|sorte]] que, nesse sentido, a escolástica é a utilização de determinada filosofia para a defesa e a [[lexico:i:ilustracao:start|ilustração]] de determinada tradição religiosa (v. filosofia). Nesse sentido genérico são muitas as escolástica, tanto na [[lexico:a:antiguidade:start|antiguidade]] quanto no mundo [[lexico:m:moderno:start|moderno]]: na Antiguidade o neo-platonismo, o [[lexico:n:neopitagorismo:start|neopitagorismo]], etc.; na Idade Média, a filosofia dos árabes e dos judeus; no mundo moderno, são escolásticas as filosofias de [[lexico:m:malebranche:start|Malebranche]], de [[lexico:b:berkeley:start|Berkeley]], da [[lexico:d:direita-hegeliana:start|direita hegeliana]], de Rosmini, de muitos espiritualistas, etc. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}