===== EPISTEME ===== episteme: 1) [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]] ([[lexico:v:verdadeiro|verdadeiro]] e científico) (oposto a [[lexico:d:doxa|doxa]]); 2) um [[lexico:c:corpo|corpo]] organizado de conhecimento, uma [[lexico:c:ciencia|ciência]]; 3) conhecimento [[lexico:t:teoretico|teorético]] (oposto a [[lexico:p:praktike|praktike]] e [[lexico:p:poietike|poietike]]) 1. O [[lexico:m:materialismo|materialismo]] dos [[lexico:p:pre-socraticos|pré-socráticos]] [[lexico:n:nao|não]] lhes permitiu distinguir entre tipos de conhecimento; mesmo [[lexico:h:heraclito|Heráclito]], que insistiu em que o seu [[lexico:l:logos|Logos]] que está [[lexico:o:oculto|oculto]], apenas podia [[lexico:s:ser|ser]] compreendido pela [[lexico:i:inteligencia|inteligência]], foi, quando chegou à [[lexico:e:explicacao|explicação]] do [[lexico:n:nous|noûs]], um materialista radical: o conhecimento era a [[lexico:s:sensacao|sensação]] do [[lexico:t:tipo|tipo]] semelhante-conhece-semelhante ([[lexico:v:ver|ver]] [[lexico:h:homoios|homoios]]). Heráclito aderiu, por certo, à [[lexico:o:ordem|ordem]] permanente do [[lexico:u:universo|universo]], rodeado como estava por um óbvio [[lexico:p:processo|processo]] de [[lexico:m:mudanca|mudança]], mas os filósofos subsequentes preferiram realçar o [[lexico:e:elemento|elemento]] da mudança («tudo flui»; ver [[lexico:r:rhoe|rhoe]]), e a [[lexico:c:consequente|consequente]] falência do conhecimento dos sentidos (ver [[lexico:p:platao|Platão]], Crát. 402a; [[lexico:a:aristoteles|Aristóteles]], [[lexico:p:physica|Physica]] VIII, 253b). Um dos que propôs esta denegrição da [[lexico:a:aisthesis|aisthesis]] foi [[lexico:c:cratilo|Crátilo]] (ver Aristóteles, [[lexico:m:metafisica|Metafísica]] 1010a) que teve uma [[lexico:i:influencia|influência]] formativa no jovem Platão (idem 987a). 2. As teorias da [[lexico:p:percepcao|percepção]] sensualista caíram em descrédito, e quando [[lexico:s:socrates|Sócrates]] descreve este processo no [[lexico:f:fedon|Fédon]] 96b, não está satisfeito com ele; mas o processo de [[lexico:f:fato|fato]] sugere que a [[lexico:d:distincao|distinção]] entre doxa e episteme era pré-socrática. No contexto do Fédon a [[lexico:d:diferenciacao|diferenciação]] não parece ser mais do que uma distinção entre os níveis da [[lexico:c:conviccao|convicção]]; mas o verdadeiro pai da distinção radical que aparece de Platão em diante é [[lexico:p:parmenides|Parmênides]], [[lexico:p:pre-socratico|pré-socrático]] não preocupado em «salvar os fenômenos», cujo poema opõe ao [[lexico:m:mundo|mundo]] da percepção e da [[lexico:o:opiniao|opinião]] o [[lexico:r:reino|reino]] do [[lexico:p:puro|puro]] ser e do puro [[lexico:p:pensamento|pensamento]] ([[lexico:n:noema|noema]], frg. 8, versos 34-36, 50-51). Este é também o reino dos eide de Platão, imutáveis, eternos, a base do verdadeiro conhecimento (episteme). [[lexico:e:eidos|eidos]] e episteme estão ligados desde a sua primeira e implícita aparição no [[lexico:m:menon|Ménon]] (como [[lexico:c:corolario|corolário]] da [[lexico:a:anamnesis|anamnesis]]), através de um [[lexico:a:argumento|argumento]] [[lexico:s:semelhante|semelhante]] no Fédon 75b-76 que insiste fortemente em que o verdadeiro conhecimento (episteme) das Formas não pode vir através dos sentidos e assim devemos nascer com ele. A [[lexico:a:afirmacao|afirmação]] mais ampla da [[lexico:d:disposicao|disposição]] episteme/eide vs. doxa/aistheta é dada na Republica 476a-480a, e ilustrada no sequente Diagrama da Linha (509d-511e) e na [[lexico:a:alegoria-da-caverna|alegoria da caverna]] (514a-521b). A sensação (aisthesis) reafirma a sua pretensão de ser conhecimento verdadeiro no [[lexico:t:teeteto|Teeteto]] 186d; isto é rejeitado tal como o alternativo «verdadeiro [[lexico:j:juizo|juízo]] acompanhado de uma explicação» (logos), ibid. 187b, mas também isto é classificado e criticado (ibid. 201c-210d). A resposta desenrola-se na sequela, o [[lexico:s:sofista|sofista]]: o [[lexico:u:unico|único]] conhecimento verdadeiro é um conhecimento dos eide e o seu [[lexico:m:metodo|método]] é dialético ([[lexico:d:dialektike|dialektike]]). Mesmo numa [[lexico:o:obra|obra]] posterior como o [[lexico:t:timeu|Timeu]] a distinção entre episteme e doxa e os seus objetos diferenciados, é salientada (29b-d). 3. Os eide platônicos transcendentes são substituídos pela variedade (ver eidos) [[lexico:i:imanente|imanente]] de Aristóteles, e a mudança é acompanhada por uma [[lexico:s:substituicao|substituição]] no [[lexico:o:objeto|objeto]] da episteme. Para Aristóteles o verdadeiro [[lexico:c:conhecimento-cientifico|conhecimento científico]] é um conhecimento de [[lexico:c:causas|causas]] ([[lexico:a:aitia|aitia]]), que são necessariamente verdadeiras (Anal. post. I, 76b), enquanto a opinião (doxa) é acerca do [[lexico:c:contingente|contingente]] ([[lexico:s:symbebekos|symbebekos]], ibid. I, 88b). A episteme é conhecimento demonstrativo (ver [[lexico:a:apodeixis|apodeixis]], ibid. I, 71b), silogístico, e o conhecimento dos sentidos é uma [[lexico:c:condicao|condição]] necessária para ela (ibid. I, 81a-b; ver epagogé). Isto está tudo num contexto [[lexico:l:logico|lógico]]; as causas supramencionadas são as premissas de um [[lexico:s:silogismo|silogismo]] e as causas da conclusão. Aristóteles toma a episteme de um [[lexico:p:ponto|ponto]] de vista [[lexico:o:ontologico|ontológico]] no início da Metafísica; também aqui a episteme é um conhecimento de causas, mas estas aitia são causas do ser, e o conhecimento das causas supremas é o tipo mais alto de episteme, a [[lexico:s:sabedoria|sabedoria]] ([[lexico:s:sophia|Sophia]]); para episteme como [[lexico:a:atividade|atividade]] mental, ver [[lexico:n:noesis|noesis]]. 4. Na Metafísica 1025b-1026a Aristóteles dá a sua decomposição de episteme no [[lexico:s:sentido|sentido]] de um corpo organizado de conhecimento [[lexico:r:racional|racional]] com o seu [[lexico:p:proprio|próprio]] objeto; o alinhamento é o seguinte: episteme: praktike (ver [[lexico:p:praxis|praxis]]), poietike (ver [[lexico:t:techne|techne]]), theoretike (ver [[lexico:t:theoria|theoria]]) theoretike: mathematike (ver [[lexico:m:mathematika|mathematika]]), physike (ver [[lexico:c:choriston|choriston]]), [[lexico:t:theologike|theologike]] (ver [[lexico:t:theologia|theologia]]) Para uma outra [[lexico:d:divisao|divisão]] posterior, ver [[lexico:p:philosophia|philosophia]]; para a «divisão das ciências» platônicas, ver techne. 5. Aristóteles usa com frequência apenas episteme para episteme theoretike em contraste com a «ciência» prática ou produtiva, v. g. [[lexico:e:ethica-nichomacos|Ethica Nichomacos]] VI, 1139b; ver praxis, techne.