===== ENCANTAMENTO ===== 36. Se a «[[lexico:c:coisa|coisa]]» é opacidade, o «[[lexico:s:simbolo|símbolo]]» é [[lexico:t:transparencia|transparência]], ou trans-aparência, ou ainda, trans-aparição do que as [[lexico:c:coisas|coisas]] [[lexico:n:nao|não]] deixavam transparecer. O [[lexico:d:drama|drama]] [[lexico:d:diabolico|diabólico]] do nosso agir quotidiano deixa as coisas como são e como estão; enquanto o drama [[lexico:r:ritual|ritual]], ao manipular as «coisas» a seu [[lexico:m:modo|modo]], desencanta-as. Encantado é o solidificado, [[lexico:c:corpo|corpo]] só corpo. O encantamento de anseios ainda [[lexico:m:mal|mal]] definidos são instituições [[lexico:b:bem|Bem]] ou mal regulamentadas, mas regulamentadas, em qualquer dos casos. Encantamento do [[lexico:e:eros|Eros]], com ou sem [[lexico:s:sexo|sexo]], é o sexo sem Eros; encantamento da [[lexico:l:liberdade|liberdade]] individual é [[lexico:c:constituicao|constituição]] regendo os deveres da coletividade. [[lexico:q:quem|quem]] poderá distinguir e enumerar tudo quanto a [[lexico:a:acao|ação]] premente e urgente tem vindo encantando através dos tempos? Encantamento da criança é o adulto bem firmado em suas convicções. Encantamento do [[lexico:c:caos|caos]] é um Cosmos. Encantamento de todos os «possíveis» são «realidades», e nisto se diz tudo quanto do encantamento «coisístico» se possa dizer. Desencantar as «coisas», quebrar-lhes o encanto, é dissolver-lhes os contornos rígidos, fundir-lhes a solidez de uma [[lexico:m:morte|morte]] [[lexico:a:aparente|aparente]] nas águas santas da [[lexico:m:metamorfose|metamorfose]]. É o que faz [[lexico:t:todo|todo]] e qualquer drama ritual. É esta a sua [[lexico:r:razao|razão]] de [[lexico:s:ser|ser]]: primeiro, todas as «coisas» transferir para uma [[lexico:s:situacao|situação]] ou [[lexico:c:condicao|condição]] de liminaridade, em que já não são «coisas», mas ainda não são «[[lexico:s:simbolos|símbolos]]»; e depois, mostrar nos símbolos, quando o forem, que o ser-origem das coisas tem suas raízes na [[lexico:e:excessividade|excessividade]] Caótica do Ser. Por [[lexico:f:fim|fim]], vem o mais difícil, nesta outra [[lexico:f:forma|forma]] de contar o [[lexico:m:mito-da-caverna|mito da caverna]]: demonstrar que o [[lexico:c:caminho|caminho]] percorrido na ascensão não é o do mais [[lexico:c:concreto|concreto]] para o mais [[lexico:a:abstrato|abstrato]], portanto, que há um «mais» (e não um «menos») no símbolo, que não havia na coisa, e mais um «mais», no ser-origem, acrescido à coisa que se converteu em símbolo, do que havia no [[lexico:p:proprio|próprio]] símbolo, e assim por diante, até que se veja claramente visto, por todo o caminho percorrido de cima para baixo, como a [[lexico:o:originalidade|originalidade]] da [[lexico:o:origem|origem]] de todas as [[lexico:o:origens|origens]] que, por sua vez, são origens de todo o originado se vai estreitando de tal modo que, no patamar inferior, se pôde [[lexico:v:ver|ver]] no originado-homem a origem de todo o [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]] de um [[lexico:m:mundo|mundo]] fragmentado em «coisas» separadas. [EudoroMito:123-124]