===== ELEOS ===== A [[lexico:r:reproducao|reprodução]] imitadora (μίμησις ) da [[lexico:t:tragedia|tragédia]] como distorção do [[lexico:s:sentido|sentido]] do [[lexico:s:sofrimento|sofrimento]] (λύπη ). A [[lexico:c:compaixao|compaixão]] (ἔλεος) patológica dessa «distorção» «O [[lexico:p:poeta|poeta]] faz nascer uma má [[lexico:c:constituicao|constituição]] na [[lexico:e:existencia|existência]] [[lexico:p:particular|particular]] de cada um» [Rep., 605b7]. Como resultado desta má constituição (κακή πολιτεία ), os melhores podem [[lexico:s:ser|ser]] pervertidos [Rep., 605c7]. Esta «perversão» e «distorção» das situações (πράξεις ) humanas podem resultar da [[lexico:a:atencao|atenção]] prestada aos poetas. É o que acontece quando procuram [[lexico:r:representar|representar]] a [[lexico:s:situacao|situação]] aflitiva em que se encontra qualquer um dos heróis, e a circunstância em que ele se encontra, quando se está a queixar do que lhe sucedeu [Rep., 605d2]. O que nessa altura se passa, de uma [[lexico:f:forma|forma]] extraordinária, é que nos regozijamos e nos abandonamos a eles, seguindo o que se passa com compaixão e avidez. Então, achamos que o poeta que nos deixa assim dispostos de uma forma extrema (μάλιστα ) é [[lexico:b:bom|Bom]] [Rep., 605d3-5. Cf. Marta Nussbaum, «Tragedy and Self-Sufficiency: Plato and Aristotle on Fear and Pity», OSiAP, pp. 107-160, p. 125.]. A [[lexico:r:representacao|representação]] mimética das [[lexico:a:acoes|ações]] humanas cria uma situação absolutamente paradoxal. As situações aflitivas que levam a lamentos pesarosos e a um sofrimento agudo fazem que nos regozijemos, que nos abandonemos a [[lexico:e:esse|esse]] [[lexico:e:espetaculo|espetáculo]] e o gozemos, sentindo um [[lexico:p:prazer|prazer]] intenso. O sofrimento «reproduzido mimeticamente» dá prazer. Ou seja, o sentido da situação em que se encontra alguém que sofre [[lexico:n:nao|não]] é só percebido à distância. Por essa «distância mimética» dá-se uma perturbação tal que o sentido da situação é completamente distorcido , ἐν τοῖς ὀδυρμοῖς e, por [[lexico:o:outro|outro]] lado, ο χαίρειν com que acolhemos esses πάθη.]. A distância a que nos encontramos da situação é quase inultrapassável. Se, quando a situação de [[lexico:d:depressao|depressão]] (λύπη) nos sucede a nós, há uma enorme dificuldade em sabermos de que [[lexico:m:modo|modo]] nos devemos e podemos comportar, ora abandonando-nos ao [[lexico:p:pathos|pathos]] (πάθος), ora mantendo a calma, essa dificuldade é então acrescida, quando tomamos em consideração aquilo que acontece não a nós mas a um outro. Isto é, se, «quando um cuidado e [[lexico:p:preocupacao|preocupação]] particulares nos sucedem a cada um de nós, fingimos que é o contrário que se passa, e tentamos passar [[lexico:b:bem|Bem]], dominar o sucedido, achando que é esta a forma de [[lexico:c:comportamento|comportamento]] corajosa e a outra [sc., a que se abandona ao sofrimento] efeminada» [Rep., 605d7]; se achamos mais valorosa a [[lexico:d:disposicao|disposição]] da [[lexico:t:tranquilidade|tranquilidade]], relativamente às situações adversas por que passamos, do que o lamento queixoso, como é, então, sentirmos uma forma de prazer (ἡδονή ) ao [[lexico:v:ver|ver]] «outro» nessa situação? [«Aquela parte da alma que era violentamente constrangida no momento em que é afetada pelas adversidades particulares que lhe sobrevêm e tem necessidade [à letra, tem fome] de chorar e de se lamentar amargamente e de saciar-se até à satisfação — porque é da sua [[lexico:n:natureza|natureza]] o desejar este [[lexico:t:tipo|tipo]] de [[lexico:c:coisas|coisas]] —, é a que é preenchida pelos poetas, e a que faz regozijar; por outro lado, a que por natureza é a melhor de nós, uma vez que não foi suficientemente educada pelo [[lexico:l:logos|Logos]] nem pelo [[lexico:h:habito|hábito]], afrouxa a guarda à sua [[lexico:p:parte|parte]] queixosa, na [[lexico:m:medida|medida]] em que tem em vista as afetações alheias, e não é [[lexico:n:nada|nada]] vergonhoso elogiar e [[lexico:t:ter|ter]] [[lexico:p:pena|pena]] de um outro [[lexico:h:homem|homem]] qualquer que se diz bom, quando este se lamenta de uma forma extemporânea» (Rep., 606a3-b3). Mario Puelma, «Der Dichter und die Wahrheit in der griechischen Poetik von Homer bis [[lexico:a:aristoteles|Aristóteles]]», MH, 46, (1989), pp. 65-100: «Der Dichter schmeichelt mit seinen mimetischen Bildem der sinnlichen Welt nur dem vernunftlosen Seelenteil, in der das Triebhafte vor dem verniinftig Einsichtsvollen herrscht» (p. 84). Wolfgang Hiibner, «[[lexico:h:hermes|Hermes]] ais musischer Gorr», Philologus, 130, 1986, 2, pp. 153-174: «O modo como Hermes diz a [[lexico:v:verdade|verdade]] é o da dupla [[lexico:n:negacao|negação]], a qual «kann das diskursive Denken nur im Paradox formulieren, und damit ist die Grenze dessen, was sich denken oder noch irgenwie die Worte fassen lässit, erreicht» (p. 174).] [CaeiroArete:90-91]