===== EIDÉTICA ===== [[lexico:h:husserl|Husserl]] demonstra ([[lexico:i:investigacoes-logicas|Investigações Lógicas]]; Ideen I) que [[lexico:e:esse|esse]] [[lexico:c:ceticismo|ceticismo]] apoiado no [[lexico:e:empirismo|empirismo]] suprime-se contradizendo-se. Com [[lexico:e:efeito|efeito]], o [[lexico:p:postulado|postulado]] de base para [[lexico:t:todo|todo]] empirismo consiste na [[lexico:a:afirmacao|afirmação]] de que a [[lexico:e:experiencia|experiência]] é a única [[lexico:f:fonte|fonte]] de [[lexico:v:verdade|verdade]] para qualquer [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]]: mas essa afirmação mesma deve [[lexico:s:ser|ser]] posta à [[lexico:p:prova|prova]] da experiência. Ora, a experiência, fornecendo apenas o [[lexico:c:contingente|contingente]] e o [[lexico:s:singular|singular]], [[lexico:n:nao|não]] pode fornecer à [[lexico:c:ciencia|ciência]] o [[lexico:p:principio|princípio]] [[lexico:u:universal|universal]] e [[lexico:n:necessario|necessário]] de uma afirmação [[lexico:s:semelhante|semelhante]]. O empirismo não pode ser compreendido pelo empirismo. Por [[lexico:o:outro|outro]] lado, é [[lexico:i:impossivel|impossível]] confundir por [[lexico:e:exemplo|exemplo]] o fluxo de estados subjetivos experimentados pelo matemático enquanto ele raciocina e o [[lexico:r:raciocinio|raciocínio]]: as operações do raciocínio são definíveis independentemente desse fluxo; pode-se apenas dizer que o matemático raciocina corretamente quando por esse fluxo [[lexico:s:subjetivo|subjetivo]] acede à [[lexico:o:objetividade|objetividade]] do raciocínio [[lexico:v:verdadeiro|verdadeiro]]. Mas essa objetividade [[lexico:i:ideal|ideal]] é definida por condições lógicas e a verdade do raciocínio (sua não-contradição) impõe-se tanto ao matemático como ao [[lexico:l:logico|lógico]]. O raciocínio verdadeiro é universalmente válido, o raciocínio [[lexico:f:falso|falso]] é maculado de [[lexico:s:subjetividade|subjetividade]], portanto instransmissível. Do mesmo [[lexico:m:modo|modo]] um [[lexico:t:triangulo|triângulo]] retângulo possui uma objetividade ideal no [[lexico:s:sentido|sentido]] que ele é o [[lexico:s:sujeito|sujeito]] de um conjunto de [[lexico:p:predicados|predicados]], inalienáveis sob [[lexico:p:pena|pena]] de perder o [[lexico:p:proprio|próprio]] triângulo retângulo. Para evitar o [[lexico:e:equivoco|equívoco]] da [[lexico:p:palavra|palavra]] "[[lexico:i:ideia|ideia]]", diremos que ele possui uma [[lexico:e:essencia|essência]], constituída por todos os predicados cuja supressão imaginária acarretaria a supressão do triângulo em [[lexico:p:pessoa|pessoa]]. Por exemplo, todo triângulo é por essência convexo. Mas, se permanecemos no nível dos "objetos" matemáticos, o [[lexico:a:argumento|argumento]] formalista, que faz desses objetos concepções convencionais, permanece poderoso; demonstrar-se-á por exemplo que os pretensos [[lexico:c:caracteres|caracteres]] essenciais do [[lexico:o:objeto|objeto]] matemático são na [[lexico:r:realidade|realidade]] dedutíveis a partir de axiomas. Por esse [[lexico:m:motivo|motivo]], Husserl amplia, a partir do segundo temo das Recherches logiques, sua [[lexico:t:teoria|teoria]] da essência para aplicá-la ao terreno favorito do empirismo, a [[lexico:p:percepcao|percepção]]. Quando dizemos "a parede é amarela" estarão implicadas nesse [[lexico:j:juizo|juízo]] as [[lexico:e:essencias|essências]]? E, por exemplo, a cor poderá ser tomada independentemente da superfície sobre a qual se "expõe"? Não, pois uma cor separada do [[lexico:e:espaco|espaço]] em que ela se dá seria impensável. Pois se, fazendo "variar" pela [[lexico:i:imaginacao|imaginação]] o objeto cor, retiramos a ele seu [[lexico:p:predicado|predicado]] "[[lexico:e:extensao|extensão]]", suprimimos a [[lexico:p:possibilidade|possibilidade]] do próprio objeto cor, chegamos a uma [[lexico:c:consciencia|consciência]] de [[lexico:i:impossibilidade|impossibilidade]]. Esta revela a essência. Há, portanto, nos juízos dos limites à nossa [[lexico:f:fantasia|fantasia]], que nos são fixados pelas próprias [[lexico:c:coisas|coisas]] de que há juízo e que a Fantasia mesma revela graças ao [[lexico:p:processo|processo]] da variação. O processo da variação imaginária dá-nos a própria essência, o ser do objeto. O objeto (Objekt) é "uma [[lexico:c:coisa|coisa]] qualquer" por exemplo o [[lexico:n:numero|número]] dois, a [[lexico:n:nota|nota]] dó, o [[lexico:c:circulo|círculo]], uma [[lexico:p:proposicao|proposição]] qualquer, um [[lexico:d:dado|dado]] [[lexico:s:sensivel|sensível]] (Ideen I). Fazemo-lo "variar" arbitrariamente, obedecendo apenas à [[lexico:e:evidencia|evidência]] [[lexico:a:atual|atual]] e vivida do [[lexico:e:eu|eu]] posso ou não posso. A essência ou [[lexico:e:eidos|eidos]] do objeto é constituído pelo [[lexico:i:invariante|invariante]] que permanece [[lexico:i:identico|idêntico]] através das variações. Assim, se se opera a variação sobre o objeto como coisa sensível, obtém-se como ser mesmo da coisa: o conjunto espaço-temporal, provido de [[lexico:q:qualidades-segundas|qualidades segundas]], colocado como [[lexico:s:substancia|substância]] e [[lexico:u:unidade|unidade]] causai. A essência se experimenta pois numa [[lexico:i:intuicao|intuição]] vivida; a "[[lexico:v:visao|visão]] das essências" (Wesenschau) não possui qualquer [[lexico:c:carater|caráter]] metafísico, a teoria das essências não se enquadra num [[lexico:r:realismo|realismo]] platônico em que a [[lexico:e:existencia|existência]] da essência seria afirmada, a essência é somente aquilo em que a "própria coisa" me é revelada numa doação originária. Tratava-se exatamente, como o queria o empirismo, de voltar "[[lexico:a:as-proprias-coisas|às próprias coisas]]" (zu den Sachen selbst), de suprimir toda opção [[lexico:m:metafisica|metafísica]]. Mas o empirismo era ainda metafísico quando confundia essa exigência do [[lexico:r:retorno|retorno]] às coisas com a exigência de fundar todo o conhecimento na experiência, considerando como conhecimento indiscutível que só a experiência nos dá as próprias coisas: há um preconceito [[lexico:e:empirico|empírico]], pragmatista. Na realidade, a última fonte de [[lexico:d:direito|direito]] para qualquer afirmação [[lexico:r:racional|racional]] está no "[[lexico:v:ver|ver]]" (sehen) em [[lexico:g:geral|geral]], isto é, na consciência doadora originária (Ideen). Não pressupomos [[lexico:n:nada|nada]], diz Husserl, "nem mesmo o [[lexico:c:conceito|conceito]] de [[lexico:f:filosofia|Filosofia]]". E quando o [[lexico:p:psicologismo|psicologismo]] pretende identificar o eidos, obtido pela variação, com o conceito cuja [[lexico:g:genese|gênese]] é psicológica e empírica, respondemos apenas que, se ele quer se limitar à intuição originária tomando-a como sua [[lexico:l:lei|lei]], seus conhecimentos a [[lexico:r:respeito|respeito]] são menores do que ele pretende. O número dois é talvez, considerado como conceito, [[lexico:c:construido|construído]] a partir da experiência, mas na [[lexico:m:medida|medida]] em que eu obtenho desse número o eidos por variação, eu afirmo que este eidos é "anterior" a qualquer teoria da construção do número e a prova é que toda [[lexico:e:explicacao|explicação]] [[lexico:g:genetica|genética]] se apóia sempre no [[lexico:s:saber|saber]] atual da "[[lexico:a:alguma-coisa|alguma coisa]]" que a gênese deve [[lexico:e:explicar|explicar]]. A [[lexico:i:interpretacao|interpretação]] empirista da [[lexico:f:formacao|formação]] do número dois pressupõe a [[lexico:c:compreensao|compreensão]] originária desse número. Esta compreensão é portanto uma [[lexico:c:condicao|condição]] para toda ciência empírica; o eidos que ela nos oferece é apenas um [[lexico:p:puro|puro]] [[lexico:p:possivel|possível]], mas existe uma anterioridade desse possível em [[lexico:r:relacao|relação]] ao [[lexico:r:real|real]] de que trata a ciência empírica.