===== DUPLA VERDADE ===== (in. Double truth; fr. Double vérité; al. Doppelte Wahrheit; it. Doppia verita). Foi assim que os escolásticos latinos designaram a doutrina de Averróis sobre as [[lexico:r:relacoes:start|relações]] entre [[lexico:r:religiao:start|religião]] e [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]], sendo assim designadas depois todas as doutrinas semelhantes. Segundo Averróis "a religião dos filósofos consiste em aprofundar o [[lexico:e:estudo:start|estudo]] de tudo [[lexico:o:o-que-e:start|o que é]]; [[lexico:n:nao:start|não]] se poderia render a [[lexico:d:deus:start|Deus]] [[lexico:c:culto:start|culto]] melhor do que conhecer suas obras, que leva a conhecê-lo em toda a sua [[lexico:r:realidade:start|realidade]]" (Munk, Mélanges de phil. juive et árabe, p. 456). Por [[lexico:o:outro:start|outro]] lado, a [[lexico:p:pesquisa:start|pesquisa]] filosófica não pode [[lexico:s:ser:start|ser]] de todos e a religião do [[lexico:f:filosofo:start|filósofo]] não pode ser a religião do vulgo. A religião feita para a maioria segue e deve seguir um [[lexico:c:caminho:start|caminho]] "[[lexico:s:simples:start|simples]] e narrativo", que ilumine e dirija a [[lexico:a:acao:start|ação]]. Segundo Averróis, cabe à filosofia o [[lexico:m:mundo:start|mundo]] da [[lexico:e:especulacao:start|especulação]]; à religião, o mundo da ação (Destructio destruitionum, disp. 6, pp. 56, 79). [[lexico:c:como-se:start|como se]] vê, o [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de vista de Averróis [[lexico:n:nada:start|nada]] tem em comum com o [[lexico:f:fideismo:start|fideísmo]] grosseiro que contrapõe a [[lexico:v:verdade:start|verdade]] da [[lexico:r:razao:start|razão]] à verdade da [[lexico:f:fe:start|fé]] e se decida por esta num [[lexico:a:ato:start|ato]] de arbítrio ou de deferência à [[lexico:a:autoridade:start|autoridade]]. Mas depois a [[lexico:e:expressao:start|expressão]] [[lexico:d:dupla-verdade:start|dupla verdade]] serviu justamente para designar [[lexico:e:esse:start|esse]] fideísmo, fosse ele sincero ou insincero. Assim, no [[lexico:u:ultimo:start|último]] período da Escolás-tica, muitas proposições, consideradas [[lexico:d:demonstracao:start|demonstração]] [[lexico:i:impossivel:start|impossível]], são admitidas por fé; e Duns Scot delimita nitidamente a [[lexico:e:esfera:start|esfera]] da fé, que diz [[lexico:r:respeito:start|respeito]] à ação, e a esfera da filosofia, que diz respeito à especulação (Op. Ox., Prol., q. 3). Com Ockham e seus seguidores, essa [[lexico:p:posicao:start|posição]] torna-se ainda mais radical, visto reconhecer-se a [[lexico:i:impossibilidade:start|impossibilidade]] de demonstrar todas as proposições fundamentais da fé. Ockham afirmava peremptoriamente que "os artigos de fé não são [[lexico:p:principios:start|princípios]] de demonstração, nem conclusões, nem probabilidades" (Summa log., III, 1), querendo dizer que não são verdades evidentes, nem verdades demonstradas, nem proposições prováveis. Mas nem mesmo em Ockham se observa a [[lexico:a:atitude:start|atitude]] desconcertante que foi [[lexico:t:tipica:start|típica]] de muitos aver-roistas dos sécs. XIV e XV, consistente em declarar friamente, sem a mínima [[lexico:j:justificacao:start|justificação]], que se acredita no contrário daquilo que se demonstrou, pois assim quer a fé ou a religião. Dizia, p. ex., João de Jandun (séc. XIV): "Conquanto essa [[lexico:o:opiniao:start|opinião]] de Averróis não possa ser refutada com razões demonstrativas, [[lexico:e:eu:start|eu]] digo o contrário e afirmo que o [[lexico:i:intelecto:start|intelecto]] não é numericamente [[lexico:u:uno:start|uno]]"em todos os [[lexico:l:lugares:start|lugares]]... Mas isso não demonstro com nenhuma razão necessária porque não julgo [[lexico:p:possivel:start|possível]]; e se alguém sonhar fazê-lo, que se alegre (gaudeat). Essa conclusão, afirmo que é verdadeira e julgo indubitável unicamente pela fé" (De an., III, q. 7). E também a propósito de outros pontos fundamentais da fé cristã João de Jandun repete seu convite irônico: "alegre-se [[lexico:q:quem:start|quem]] souber demonstrá-lo". É difícil crer na sinceridade de [[lexico:s:semelhante:start|semelhante]] atitude, assim como é difícil acreditar na sinceridade de um Pomponazzi, que, depois de demonstrar a inconciliabilidade entre o [[lexico:d:destino:start|destino]] e o [[lexico:l:livre-arbitrio:start|livre-arbítrio]], declara explicitamente que é preciso crer na Igreja e portanto negar o destino (De [[lexico:f:fato:start|fato]], Perorat.): escapatória a que muitos recorreram entre os sécs. XVI e XVII. Na realidade, só esse ponto de vista (se assim se pode chamá-lo) deveria ser [[lexico:c:chamado:start|chamado]] de "dupla verdade", ao passo que para o outro, representado por Averróis, a verdade é uma só e a religião e a filosofia simplesmente a expressam de modos diferentes, uma para a especulação e outra para a ação. Numa [[lexico:f:forma:start|forma]] ou noutra, porém, a atitude da dupla verdade continua tendo, ainda hoje, seus defensores tácitos, tanto em filosofia quanto em religião e [[lexico:p:politica:start|política]]. Quando se acha que nem todas as verdades devem ser ditas e proclamadas, que algumas verdades podem ser perigosas para a "maioria", sendo, pois, [[lexico:n:necessario:start|necessário]] calar sobre elas ou ignorá-las oficialmente, está-se encarnando, ainda que inconscientemente, a atitude que a [[lexico:t:tradicao:start|tradição]] filosófica chamou de dupla verdade. Essa atitude pode caracterizar-se como [[lexico:c:crenca:start|crença]] no [[lexico:c:carater:start|caráter]] aristocrático àa. verdade, ou seja, de que a verdade realmente se destina a uns poucos e a "maioria" é incapaz de suportá-la. A doutrina da dupla verdade, defendida primeiramente pelo [[lexico:a:averroismo:start|averroísmo]] latino e, mais [[lexico:t:tarde:start|Tarde]], por Pomponazzi, declara que filosoficamente pode ser [[lexico:v:verdadeiro:start|verdadeiro]] o contrário daquilo que teologicamente é admitido como verdade de fé. De [[lexico:m:modo:start|modo]] [[lexico:i:identico:start|idêntico]], o [[lexico:m:modernismo:start|modernismo]], vai para [[lexico:m:meio:start|meio]] século, ensinava que a [[lexico:n:negacao:start|negação]] de determinadas verdades, p. ex., da ressurreição de Cristo, pela [[lexico:c:ciencia-historica:start|ciência histórica]] era perfeitamente compatível com a sua aceitação pela fé. Mas a verdade autêntica nunca pode contradizer a verdade. A doutrina da dupla verdade leva à conclusão de que o caráter de genuína verdade é denegado às doutrinas da fé e que a estas só resta o [[lexico:v:valor:start|valor]] de [[lexico:r:representacao:start|representação]] [[lexico:s:simbolica:start|simbólica]] ou pouco mais. — De Vries. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}