===== DOXA ===== dóxa: 1) [[lexico:o:opiniao|opinião]], 2) [[lexico:j:juizo|juízo]] 1. Opinião: a [[lexico:d:distincao|distinção]] entre o [[lexico:v:verdadeiro|verdadeiro]] [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]] ([[lexico:e:episteme|episteme]]) e um [[lexico:g:grau|grau]] inferior de cognição remonta a [[lexico:x:xenofanes|Xenófanes]] (frg. 34), mas a [[lexico:e:exposicao|exposição]] clássica dos [[lexico:p:pre-socraticos|pré-socráticos]] pode encontrar-se no poema de [[lexico:p:parmenides|Parmênides]] (frg. 8, versos 50-61) onde a [[lexico:s:sensacao|sensação]] ([[lexico:a:aisthesis|aisthesis]]) é relegada para a [[lexico:p:posicao|posição]] de «[[lexico:a:aparencia|aparência]]» ou «opinião» (doxa). A distinção baseia-se no [[lexico:e:estatuto|estatuto]] [[lexico:o:ontologico|ontológico]] do [[lexico:o:objeto|objeto]] da [[lexico:p:percepcao|percepção]] dos sentidos (aistheta) que, em [[lexico:v:virtude|virtude]] da sua exclusão do domínio do [[lexico:s:ser|ser]] verdadeiro (on), [[lexico:n:nao|não]] pode ser objeto do verdadeiro conhecimento. 2. A distinção surge de [[lexico:f:forma|forma]] idêntica, na [[lexico:e:epistemologia|epistemologia]] platônica, embora então a posição tivesse sido fortalecida pelos insistentes ataques dos [[lexico:s:sofistas|sofistas]] à aisthesis como relativa ([[lexico:v:ver|ver]] [[lexico:p:platao|Platão]], [[lexico:t:teeteto|Teeteto]] 166d-177a, referindo [[lexico:p:protagoras|Protágoras]]), Na Republica 467e-480a Platão põe a distinção de Parmênides como uma [[lexico:s:serie|série]] de correlativos epistemológicos e ontológicos: ao verdadeiro conhecimento corresponde a verdadeira [[lexico:r:realidade|realidade]], i. e., os eide, enquanto a [[lexico:i:ignorancia|ignorância]] tem como correlato o totalmente não-real. Entre os dois há um estágio intermediário: um quase conhecimento do quase-ser. Esta [[lexico:f:faculdade|faculdade]] intermédia ([[lexico:d:dynamis|dynamis]]) é doxa e os seus objetos são [[lexico:c:coisas|coisas]] sensíveis (aistheta) e as opiniões vulgarmente sustentadas da [[lexico:h:humanidade|humanidade]]. Os resultados são posteriormente esquematizados no Diagrama da Linha (Republica 509d-511e) onde o domínio da doxa é depois aperfeiçoado ao ser dividido em [[lexico:c:crenca|crença]] ([[lexico:p:pistis|pistis]]. q. v.) cujos objetos são os sensíveis, e «conhecimento das aparências» (eikasia), uma [[lexico:c:categoria|categoria]] de cognição introduzida pelo [[lexico:p:ponto|ponto]] de vista platônico da [[lexico:n:natureza|natureza]] da [[lexico:a:atividade|atividade]] produtiva (ver [[lexico:t:techne|techne]], [[lexico:m:mimesis|mimesis]]). 3. A [[lexico:d:dicotomia|dicotomia]] entre episteme e doxa permanece fundamental para Platão, se [[lexico:b:bem|Bem]] que ele traia um crescente [[lexico:i:interesse|interesse]] pelo [[lexico:m:mundo|mundo]] [[lexico:s:sensivel|sensível]] (ver [[lexico:a:aistheton|aistheton]], episteme). 4. Juízo: o ponto de vista platônico da doxa, baseado como é na [[lexico:s:separacao|separação]] dos eide das coisas sensíveis, não encontra apoio na [[lexico:v:visao|visão]] aristotélica da realidade, mas há um [[lexico:o:outro|outro]] contexto dentro do qual a [[lexico:p:problematica|problemática]] da doxa pode ser tratada. A [[lexico:q:questao|questão]] da [[lexico:v:verdade|verdade]] e do [[lexico:e:erro|erro]] surge particularmente no domínio do juízo, [[lexico:p:problema|problema]] que também tem as suas [[lexico:o:origens|origens]] nas premissas de Parmênides acerca do ser (on. q. v.): uma vez que só o ser pode ser pensado ou nomeado, como é [[lexico:p:possivel|possível]] fazer um juízo [[lexico:f:falso|falso]], isto é, uma [[lexico:d:definicao|definição]] acerca do [[lexico:n:nao-ser|não-ser]] (frg. 3; fr. 8, verso 34)? No Soph. 263d-264d Platão mostra que, tal como há falsa [[lexico:a:assercao|asserção]] ou [[lexico:d:discurso|discurso]] ([[lexico:l:logos|Logos]]), assim também há falso juízo (doxa) que é a [[lexico:e:exteriorizacao|exteriorização]] deste discurso. As possibilidades do juízo falso são discutidas no Teeteto 187c-200d, mas uma vez que a posição verdadeira resulta da solução do problema do não-ser ([[lexico:m:me-on|me on]]; ver on, neteron), a [[lexico:a:analise|análise]] final não é apresentada antes do Soph. 263b-d: o erro ([[lexico:p:pseudos|pseudos]]) é um juízo (doxa) que não corresponde à realidade, quer à «realidade» da [[lexico:s:situacao|situação]] sensível quer à verdadeira realidade do [[lexico:e:eidos|eidos]] do qual o sensível participa. 5. O tratamento que [[lexico:a:aristoteles|Aristóteles]] faz da episteme e da doxa desloca-se para outro [[lexico:c:campo|campo]]. O conhecimento é ou [[lexico:i:imediato|imediato]] (ver noas) ou [[lexico:d:discursivo|discursivo]] ([[lexico:d:dianoia|dianoia]]). O [[lexico:u:ultimo|último]] pode ser descrito como episteme se procede de premissas que são necessárias, como doxa se as premissas são contingentes (Anal. post. I, 88b-89b), i. e., se pudessem ser de outro [[lexico:m:modo|modo]], e na verdade Aristóteles define a doxa como «aquilo que podia ser de outro modo» na [[lexico:m:metafisica|Metafísica]] 1039b. 6. Ao discutir os tipos de silogismos in Top. I, 100a-b Aristóteles trata a [[lexico:c:contingencia|contingência]] da doxa de um ângulo um tanto ou quanto diferente. Um [[lexico:s:silogismo-demonstrativo|silogismo demonstrativo]] ([[lexico:a:apodeixis|apodeixis]]) assenta em premissas que são verdadeiras e essenciais. Assim ele difere de um [[lexico:s:silogismo|silogismo]] dialético ([[lexico:d:dialektike|dialektike]]) cujas premissas são baseadas em endoxa, definidas [[lexico:a:agora|agora]] como opiniões que são aceites pela maioria ou pelos sábios. Para as implicações disto no [[lexico:m:metodo|método]] aristotélico ver [[lexico:e:endoxon|endoxon]]. 7. O ponto de vista epicurista da doxa compartilha os traços platônicos e aristotélicos. É a opinião, certo [[lexico:m:movimento|movimento]] espontâneo existente em nós que se aparenta com, mas difere da sensação (aisthesis). Para [[lexico:e:epicuro|Epicuro]] a aisthesis é verdadeira mas não necessariamente auto-evidente ([[lexico:e:enargeia|enargeia]]) e assim a doxa é capaz de se estender para [[lexico:a:alem|além]] da [[lexico:e:evidencia|evidência]] dos sentidos como, por [[lexico:e:exemplo|exemplo]], ao atribuir por [[lexico:m:meio|meio]] do seu juízo [[lexico:d:dados-dos-sentidos|dados dos sentidos]] à errada [[lexico:p:prolepsis|prolepsis]], e por isso é a [[lexico:f:fonte|fonte]] do erro e da [[lexico:f:falsidade|falsidade]] (D. L. X, 50-51).