===== DOM ===== A [[lexico:e:etnografia|etnografia]] [[lexico:m:moderna|moderna]] desmentiu o preconceito marxiano, de [[lexico:a:acordo|acordo]] com o qual “nenhum [[lexico:o:objeto|objeto]] poderá [[lexico:t:ter|ter]] um [[lexico:v:valor|valor]] se [[lexico:n:nao|não]] for uma [[lexico:c:coisa|coisa]] [[lexico:u:util|útil]]”, e a [[lexico:i:ideia|ideia]] na qual ele se baseava, a de que o [[lexico:m:motivo|motivo]] [[lexico:p:psicologico|psicológico]] da [[lexico:v:vida|vida]] [[lexico:e:economica|econômica]] seria o [[lexico:p:principio|princípio]] utilitário. O exame das formas arcaicas da [[lexico:e:economia|economia]] mostrou que a [[lexico:a:atividade|atividade]] humana não é redutível à produção, à conservação e ao consumo, e que o [[lexico:h:homem|homem]] [[lexico:a:arcaico|arcaico]], pelo contrário, parece dominado, em toda a sua [[lexico:a:acao|ação]], por algo que pôde [[lexico:s:ser|ser]] definido, embora talvez com algum exagero, como princípio da [[lexico:p:perda|perda]] e do gasto improdutivo. Os estudos de [[lexico:m:mauss|Mauss]] sobre o potlach e sobre a prodigalidade [[lexico:r:ritual|ritual]] não revelam apenas (o que [[lexico:m:marx|Marx]] ignorava) que o dom, e não a permuta, é a [[lexico:f:forma|forma]] originária do intercâmbio, mas põem em [[lexico:e:evidencia|evidência]] uma [[lexico:s:serie|série]] de comportamentos (que vão desde o dom ritual até à [[lexico:d:destruicao|destruição]] dos [[lexico:b:bens|bens]] mais preciosos) que, do [[lexico:p:ponto|ponto]] de vista do [[lexico:u:utilitarismo|utilitarismo]] econômico, aparecem inexplicáveis, e em base aos quais se diria que o homem [[lexico:p:primitivo|primitivo]] só pode atingir a [[lexico:c:condicao|condição]] a que aspira mediante a destruição ou a [[lexico:n:negacao|negação]] da [[lexico:r:riqueza|riqueza]]. O homem arcaico também doa porque quer perder; e sua [[lexico:r:relacao|relação]] com os objetos não é regida pelo princípio da [[lexico:u:utilidade|utilidade]], mas por aquele do [[lexico:s:sacrificio|sacrifício]]. Por [[lexico:o:outro|outro]] lado, as pesquisas de Mauss mostram que, nas sociedades primitivas, a “coisa” nunca é simplesmente objeto de [[lexico:u:uso|uso]], mas, dotada de um poder, de um [[lexico:m:mana|mana]], como acontece com os seres vivos, está profundamente enredada na [[lexico:e:esfera|esfera]] religiosa. Onde a coisa foi subtraída à sua [[lexico:o:ordem|ordem]] sagrada originária, são sempre o dom e o sacrifício que intervém para restituí-la à mesma. Tal exigência predomina de forma tão [[lexico:u:universal|universal]] que um etnógrafo pôde afirmar que, nas culturas primitivas, os [[lexico:d:deuses|deuses]] existem apenas para proporcionar uma [[lexico:e:estrutura|estrutura]] à [[lexico:n:necessidade|necessidade]] humana de sacrifício e de [[lexico:a:alienacao|alienação]]. [AgambenE:83-84]