===== DIFERENÇA ===== O diferente é a [[lexico:c:caracteristica:start|característica]] do individual. As [[lexico:c:coisas:start|coisas]] individuais são distinguidas porque diferem, pois se tudo fosse homogeneamente igual [[lexico:n:nao:start|não]] haveria o [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]] dos corpos. Ora, o [[lexico:s:semelhante:start|semelhante]] não é uma [[lexico:c:categoria:start|categoria]] do [[lexico:i:identico:start|idêntico]]. Pois dizemos que [[lexico:a:alguma-coisa:start|alguma coisa]] é idêntica, quando é absolutamente igual a si mesma. Analisemos este [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de magna importância e [[lexico:i:interesse:start|interesse]] para a [[lexico:c:compreensao:start|compreensão]] de futuros temas a serem examinados. No início, dissemos: "em face de uma [[lexico:s:serie:start|série]] definida de fatos semelhantes que nos parecem idênticos (pois na [[lexico:r:realidade:start|realidade]] não há fatos idênticos), damos-lhe uma [[lexico:d:denominacao:start|denominação]] comum; eis o [[lexico:c:conceito:start|conceito]]". Não podemos prosseguir na [[lexico:a:analise:start|análise]] deste ponto, em que estudemos [[lexico:o:o-que-e:start|o que é]] idêntico e o que é [[lexico:i:identidade:start|identidade]]. Dizem alguns filósofos que dois fatos são idênticos, quando não há entre eles nenhuma diferença. Alegam outros filósofos que não podemos [[lexico:c:compreender:start|compreender]], que é impensável a diferença pura. Há, assim, uma [[lexico:a:antinomia:start|antinomia]] fundamental entre o diferente e o idêntico. (Antinomia, no [[lexico:s:sentido:start|sentido]] [[lexico:c:classico:start|clássico]], é a [[lexico:o:oposicao:start|oposição]] entre dois termos que parecem verdadeiros). Desprezamos, aqui, outras acepções dadas ao [[lexico:t:termo:start|termo]] idêntico, preferindo, por ora apenas a que demos acima. [[lexico:m:mfsdic:start|MFSDIC]] [[lexico:a:aristoteles:start|Aristóteles]] distinguiu entre diferença e [[lexico:a:alteridade:start|alteridade]]. A diferença entre duas coisas implica [[lexico:d:determinacao:start|determinação]] daquilo em que diferem. Assim, por [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]], entre uma bola branca e uma bola preta há diferença, que se determina, neste caso, pela cor. A alteridade não implica, em contrapartida, uma determinação; assim, um cão é um [[lexico:s:ser:start|ser]] diferente de um gato. Contudo, a diferença não é incompatível com a alteridade, e vice-versa. Assim, a [[lexico:t:terra:start|Terra]] é diferente do [[lexico:s:sol:start|sol]], porquanto diferem em que, sendo ambos corpos celestes, um não tem [[lexico:l:luz:start|luz]] própria e o [[lexico:o:outro:start|outro]] tem. Mas, ao mesmo [[lexico:t:tempo:start|tempo]], a terra é uma [[lexico:c:coisa:start|coisa]] diferente do sol e o sol uma coisa diferente da terra ([[lexico:m:metafisica:start|METAFÍSICA]]). A [[lexico:n:nocao:start|noção]] de diferença desempenhou um papel importante em metafísica, em [[lexico:l:logica:start|lógica]] e nas duas disciplinas ao mesmo tempo. Do ponto de vista metafísico, tratou-se o [[lexico:p:problema:start|problema]] da diferença em estreita [[lexico:r:relacao:start|relação]] com o problema da [[lexico:d:divisao:start|divisão]] como divisão [[lexico:r:real:start|real]]. A diferença opõe-se à [[lexico:u:unidade:start|unidade]], mas não se pode entender sem certa unidade, e isto num duplo sentido: a unidade numérica das coisas distintas e a unidade do [[lexico:g:genero:start|gênero]] de que são diferentes as coisas distintas. A diferença, tal como a alteridade - pode considerar-se como um dos “gêneros do ser” ou uma das [[lexico:c:categorias:start|categorias]]. Assim acontece em [[lexico:p:platao:start|Platão]], ao introduzira alteridade como gênero supremo, e em [[lexico:p:plotino:start|Plotino]], ao introduzir como gênero supremo a diferença - neste caso equivale a “o outro”. Do ponto de vista [[lexico:l:logico:start|lógico]], a noção de diferença usou-se ao formular-se de um [[lexico:m:modo:start|modo]] mais [[lexico:g:geral:start|geral]] de estabelecer uma [[lexico:d:definicao:start|definição]]: uma das condições de qualquer definição clássica satisfatória é a chamada “diferença específica”. Ao mesmo tempo metafísica e logicamente, a noção de diferença foi considerada como um dos [[lexico:p:predicaveis:start|predicáveis]]. A maioria dos escolásticos aceitou uma [[lexico:c:classificacao:start|classificação]] de tipos de diferença: a diferença comum, que separa acidentalmente uma coisa de outra (por exemplo, o [[lexico:h:homem:start|homem]] de pé de um homem sentado); a diferença própria, embora separe também acidentalmente uma coisa de outra o faz por [[lexico:m:meio:start|meio]] de uma [[lexico:p:propriedade:start|propriedade]] inseparável da coisa (por exemplo, um corvo, que é negro, distingue-se de um cisne, que é branco); diferença maximamente próxima, que distingue essencialmente uma coisa, pois a diferença se funda numa propriedade [[lexico:e:essencial:start|essencial]] ou supostamente essencial (por exemplo [[lexico:r:racional:start|racional]] é considerada a diferença do homem). Alguns escolásticos distinguiram entre diferença e [[lexico:d:diversidade:start|diversidade]]; assim, S. Tomás, quando afirmou ([[lexico:s:suma:start|suma]] CONTRA OS GENTIOS), seguindo Aristóteles, que o diferente se diz relacionalmente, pois tudo o que é diferente o é em [[lexico:v:virtude:start|virtude]] de algo; o que é diverso, em contrapartida, é-o pelo [[lexico:f:fato:start|fato]] de não ser o mesmo que outra coisa dada. Examinou-se o problema da diferença muitas vezes à base de uma análise do sentido de diferir. Duas coisas, diz Ocam, podem diferir específica ou necessariamente. Duas coisas diferem numericamente quando são da mesma [[lexico:n:natureza:start|natureza]], mas uma não é a outra, como num [[lexico:t:todo:start|todo]] as partes da mesma natureza são numericamente distintas, ou como duas coisas são “todos” que não formam o mesmo ser. diferem especificamente quando pertencem a duas espécies. Pode falar-se também de um diferir quanto à [[lexico:r:razao:start|razão]], quando a diferença se aplica só a termos ou a [[lexico:c:conceitos:start|conceitos]]. [[lexico:k:kant:start|Kant]] considera as noções de identidade e de diferença como noções [[lexico:t:transcendentais:start|transcendentais]]. A identidade e a diferença são “conceitos de [[lexico:r:reflexao:start|reflexão]]”, não se aplicam às coisas em si, mas aos fenômenos. Analogamente, [[lexico:h:hegel:start|Hegel]] considera como conceitos de reflexão a identidade e a diferença, mas num sentido diferente do de Kant, enquanto a reflexão se distingue da imediatez. Hegel define a diferença como diferença de [[lexico:e:essencia:start|essência]]. Por isso, “o outro da essência é o outro em e para [[lexico:s:si-mesmo:start|si mesmo]] e não o outro que é simplesmente o outro em relação com algo fora dele” (A [[lexico:c:ciencia-da-logica:start|CIÊNCIA DA LÓGICA]]). Sendo a diferença algo em e para si mesmo, está intimamente ligada à identidade: em rigor, o que determina a diferença determina a identidade, e vice-versa. A diferença distingue-se da diversidade, pois nesta torna-se explícita a [[lexico:p:pluralidade:start|pluralidade]] da diferença. [[lexico:h:heidegger:start|Heidegger]] falou, em várias ocasiões, da [[lexico:d:diferenca-ontologica:start|diferença ontológica]]. Trata-se, em [[lexico:s:substancia:start|substância]] da diferença entre ser e [[lexico:e:ente:start|ente]], que supera todas as demais diferenças. Por outro lado, pode conceber-se a diferença [[lexico:o:ontologica:start|ontológica]] como uma diferença no ser; neste sentido, diferença está também intimamente relacionada ontologicamente com a identidade. (gr. diaphora; lat. differentia; in. Difference; fr. Différence; al. Differenz; it. Differenzà). Determinação da alteridade. A alteridade não implica, em si, nenhuma determinação; p. ex., "aé outra coisa que não b". A diferença implica uma determinação: a é diferente de b na cor ou na [[lexico:f:forma:start|forma]], etc. Isso significa: as coisas só podem diferir se têm em comum a coisa em que diferem: p. ex., a cor, a configuração, a forma, etc. Segundo Aristóteles, que estabeleceu claramente essas distinções, as coisas diferem em gênero se têm a [[lexico:m:materia:start|matéria]] em comum e não se transformam uma na outra (p. ex., se são coisas que pertencem a diferentes categorias); diferem em [[lexico:e:especie:start|espécie]] se pertencem ao mesmo gênero (Met, X, 3, 1054 a 23). A diferença foi incluída por [[lexico:p:porfirio:start|Porfírio]] entre as [[lexico:q:quinque-voces:start|quinque voces]] (lit., cinco [[lexico:p:palavras:start|palavras]]), ou seja, entre os cinco predicáveis maiores. Porfírio chamou de constitutiva a diferença quanto à espécie, e de divisiva a diferença quanto ao gênero: p. ex., a [[lexico:r:racionalidade:start|racionalidade]] é a diferença que constitui a espécie humana e separa a espécie humana das outras do mesmo gênero. Distinguiu também: diferença comum, que consiste em um [[lexico:a:acidente:start|acidente]] separável e existe, p. ex., entre [[lexico:s:socrates:start|Sócrates]] sentado e Sócrates não sentado; diferença própria, que existe quando uma coisa difere da outra por um acidente inseparável, como, p. ex., a racionalidade (Isag., 9-10). Essas distinções foram reproduzidas na lógica medieval ([[lexico:p:pedro-hispano:start|Pedro Hispano]], Summ. log., 2.11, 2.12). São até hoje aceitas comumente, tanto em [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]] quanto fora dela. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}