===== DIÁLOGOS ===== VIDE [[lexico:d:dialogos-platonicos|diálogos platônicos]] O convívio íntimo com as nossas aporias e a aceitação da [[lexico:p:possibilidade|possibilidade]] de [[lexico:e:equivoco|equívoco]] como um traço inelutável dos limites de toda [[lexico:i:inteligencia|inteligência]] humana talvez [[lexico:n:nao|não]] fosse tudo o que de melhor pudéssemos colher ao frequentarmos as interrogações de [[lexico:s:socrates|Sócrates]] nos Diálogos de [[lexico:p:platao|Platão]]. Talvez algo assim tão [[lexico:b:bom|Bom]] colhêssemos ao recolhermos os diversos indícios, diversamente espalhados pelos Diálogos, de um [[lexico:p:principio|princípio]] de [[lexico:e:equivalencia|equivalência]] estrutural entre o [[lexico:d:discurso|discurso]] filosófico e o mitológico. As páginas de Platão surpreendem e registram a elaboração interminável e a paulatina conquista do discurso filosófico, tanto quanto compreendem e testemunham o perene vigor do discurso [[lexico:m:mitico|mítico]] ou mitológico; e estabelecem um princípio de equivalência estrutural que permite passar da clara (in-)[[lexico:c:compreensao|compreensão]] de um à clara (in-)compreensão do [[lexico:o:outro|outro]]. Quais são esses indícios e qual é [[lexico:e:esse|esse]] princípio? Alguns dos muitos indícios desse princípio são, em resumidas [[lexico:p:palavras|palavras]], a [[lexico:a:atribuicao|atribuição]] de epítetos tradicionais da [[lexico:n:nocao|noção]] mítica de [[lexico:d:deuses|deuses]] à noção filosófica de idéa / eîdos (v. [[lexico:i:idea|idea]] / [[lexico:e:eidos|eidos]]; cf. [[lexico:f:fedon|Fédon]] 79 d, 80 a, 81 a; Rep. 517 d), e inversamente a atribuição à noção mítica de Deuses de qualificações próprias da noção filosófica de idéa / eîdos, a [[lexico:s:saber|saber]], o [[lexico:b:bem|Bem]] e a [[lexico:f:forma|forma]] [[lexico:s:simples|simples]] e inalterável (cf. Rep. 379 a – 382 e). Em Fédon, as formas inteligíveis se dizem divinas, imortais, imperecíveis. Em [[lexico:r:republica|República]], os týpoi perì theologías impõem critérios para se [[lexico:f:falar|falar]] a respeitos dos Deuses, de [[lexico:m:modo|modo]] que esses sejam compreendidos à maneira das formas inteligíveis: [[lexico:t:todo|todo]] [[lexico:d:deus|Deus]] é bom, Deus é simples e o menos propenso de todos os seres a mudar de forma, etc. Há muitos outros indícios, mas bastem-nos por ora essas atribuições recíprocas e complementares dos epítetos e propriedades de umas a outras noções, de modo a estabelecer-se entre as noções míticas e filosóficas, por diversas que sejam elas próprias e as regras diversas dos discursos diversos a que diversa-mente pertencem, um princípio de equivalência estrutural, cujas consequências, por igual equivalentes, podem-se observar tanto em um quanto em outro de ambos os diversos discursos. Uma dessas consequências é que às aporias dialéticas, que se leem por [[lexico:e:exemplo|exemplo]] na primeira [[lexico:p:parte|parte]] de [[lexico:p:parmenides|Parmênides]], correspondem as aporias mitológicas, que se leem por exemplo em Eutifronte; e, portanto, há de encontrar-se para umas e outras um mesmo padrão de configuração estrutural e assim um mesmo padrão de (caso haja) solução das aporias. Outra dessas consequências, a que [[lexico:a:agora|agora]] nos interessa mais de perto, é que uma mesma [[lexico:r:relacao|relação]] se estabelece, por um lado, entre a noção mítica de Deuses como [[lexico:f:fundamento|fundamento]] [[lexico:t:transcendente|transcendente]] e as imagens com que se indicam e se pensam a noção mítica de fundamento transcendente, e por outro lado, entre a noção filosófica de formas inteligíveis como fundamento transcendente e as imagens com que se podem indicar e [[lexico:p:pensar|pensar]] essas formas inteligíveis. Uma mesma [[lexico:p:percepcao|percepção]] da [[lexico:i:imagem|imagem]] [[lexico:s:sensivel|sensível]] se torna [[lexico:p:possivel|possível]] tanto no interior do discurso filosófico quanto no interior do discurso mitológico, porque uma mesma concepção de [[lexico:v:verdade|verdade]], não como [[lexico:p:produto|produto]] do [[lexico:p:pensamento|pensamento]], mas com [[lexico:f:fonte|fonte]] originária da forma mesma de pensar, observa-se tanto dentro do discurso filosófico quanto dentro do discurso mitológico. E quando se [[lexico:f:fala|fala]] de concepção de verdade, em termos míticos, fala-se também de concepção de [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]] e de [[lexico:s:ser|ser]]; e isso, [[lexico:d:dado|dado]] esse princípio de equivalência estrutural, vale também para o discurso filosófico nos Diálogos.