===== DETERMINISMO ===== O [[lexico:p:principio:start|princípio]] da [[lexico:c:ciencia:start|ciência]] segundo o qual "as mesmas [[lexico:c:causas:start|causas]] produzem os mesmos efeitos". — A [[lexico:i:ideia:start|ideia]] de determinismo é a de uma [[lexico:o:ordem:start|ordem]] imutável e constante nas [[lexico:r:relacoes:start|relações]] entre os fenômenos. Se solto uma pedra, elà cai no chão; postulo o determinismo quando passo de casos particulares para a [[lexico:l:lei:start|lei]] [[lexico:u:universal:start|universal]] e eterna da [[lexico:q:queda:start|Queda]] dos corpos. Distinguem-se duas concepções do determinismo: 1.° Aquela constância existe na [[lexico:n:natureza:start|natureza]], o determinismo é [[lexico:o:ontologico:start|ontológico]] (na [[lexico:r:realidade:start|realidade]]); 2.° Aquela constância é um [[lexico:p:postulado:start|postulado]] de nosso [[lexico:e:espirito:start|espírito]], um princípio metodológico. Num e noutro caso, o determinismo é provado quando o espírito [[lexico:h:humano:start|humano]] pode prever com [[lexico:c:certeza:start|certeza]]. Em microfísica fala-se de [[lexico:i:indeterminismo:start|indeterminismo]] (Heisenberg) quando a [[lexico:p:previsao:start|previsão]] [[lexico:n:nao:start|não]] pode [[lexico:s:ser:start|ser]] feita sobre um [[lexico:f:fenomeno:start|fenômeno]] (um elétron, por [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]]), mas apenas sobre um [[lexico:g:grupo:start|grupo]] de fenômenos (um feixe de elétrons): trata-se com [[lexico:e:efeito:start|efeito]] de um determinismo estatístico. Heisenberg mostra [[lexico:a:alem:start|além]] disso a [[lexico:i:impossibilidade:start|impossibilidade]] de se conhecer ao mesmo [[lexico:t:tempo:start|tempo]] a velocidade e a direção de um elétron. O que se pode [[lexico:c:compreender:start|compreender]] verificando que o raio luminoso que nos permite observar e determinar a [[lexico:p:posicao:start|posição]] de um elétron constitui ele [[lexico:p:proprio:start|próprio]] um feixe de elétrons que se choca com o elétron observado e o desloca. É a ligação entre o [[lexico:o:observador:start|observador]] e o observado, a [[lexico:a:alteracao:start|alteração]] introduzida pela [[lexico:o:observacao:start|observação]] no fenômeno observado, o que define o "indeterminismo". É preciso assinalar que não existe qualquer [[lexico:r:relacao:start|relação]] entre o [[lexico:p:problema:start|problema]] científico do determinismo e o problema meta-físico-teológico da [[lexico:l:liberdade:start|liberdade]] humana (ligada ao problema da [[lexico:p:predestinacao:start|predestinação]] ): porque se supomos que a natureza está submetida ao determinismo, tal [[lexico:h:hipotese:start|hipótese]] concorda tanto com o determinismo quanto com o indeterminismo (na [[lexico:m:medida:start|medida]] em que não conhecemos toda a natureza e vemos, portanto, [[lexico:c:contingencia:start|contingência]] onde ela não existe); o indeterminismo exprime então a [[lexico:l:limitacao:start|limitação]] de nosso [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]]. Por [[lexico:o:outro:start|outro]] lado, se supomos que a natureza não está submetida ao determinismo, esta hipótese concordará também tanto com o indeterminismo quanto com o determinismo, que se apresentará como um efeito estatístico, um [[lexico:p:produto:start|produto]] de nosso conhecimento. Permanece pois [[lexico:i:impossivel:start|impossível]] a resolução do problema metafísico do determinismo a partir da [[lexico:f:fisica:start|física]] [[lexico:m:moderna:start|moderna]]; e é desonesto apoiar-se sobre a micro-física para tirar conclusões a favor ou contra a liberdade humana. É a doutrina oposta ao indeterminismo, segundo a qual todas as direções de nossa [[lexico:v:vontade:start|vontade]] são univocamente determinadas pela constelação dos [[lexico:m:motivos:start|motivos]] influentes e da momentânea, [[lexico:c:consciente:start|consciente]] e [[lexico:i:inconsciente:start|Inconsciente]], [[lexico:s:situacao:start|situação]] psíquica. Muitas vezes, ela estriba numa falsa [[lexico:c:compreensao:start|compreensão]] da doutrina indeterminista da [[lexico:l:liberdade-da-vontade:start|liberdade da vontade]], [[lexico:c:como-se:start|como se]] esta designasse uma [[lexico:p:potencia:start|potência]] endereçada a querer sem [[lexico:c:causa:start|causa]] nem [[lexico:m:motivo:start|motivo]] (indeterminismo exagerado). Comumente, o determinismo apela, antes de tudo, paru a [[lexico:l:lei-de-causalidade:start|lei de causalidade]], não se limita porém a concebê-la como exigindo uma causa suficiente para [[lexico:t:todo:start|todo]] efeito (única [[lexico:f:forma:start|forma]] em que apresenta o [[lexico:c:carater:start|caráter]] de lei universal e necessária do [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]]) ([[lexico:p:principio-de-causalidade:start|princípio de causalidade]]), mas pretende [[lexico:v:ver:start|ver]] nela que todo efeito deve [[lexico:e:estar:start|estar]] univocamente predeterminado em sua causa total (o que não está demonstrado que se aplica a todo o domínio do [[lexico:r:real:start|real]]) (lei de [[lexico:c:causalidade:start|causalidade]]). Procedendo mais empiricamente, o determinismo interpreta a [[lexico:c:consciencia:start|consciência]] da liberdade como um [[lexico:j:juizo:start|juízo]] errôneo, oriundo do desconhecimento dos móbiles inconscientes (tendências determinantes). Desconhece também que não consideramos como "livremente queridas", por lhes desconhecermos a causa-ção, mas sim como "enigmáticas", vivências que estribam em processos inconscientes de complexos, como p. ex., inspirações científicas e artísticas, falhas de [[lexico:m:memoria:start|memória]], etc. Uma ulterior fundamentação empírica do determinismo alude ao [[lexico:f:fato:start|fato]] de que, conhecendo [[lexico:b:bem:start|Bem]] o caráter, os hábitos, as inclinações e as situações motivais, podemos predizer as decisões da vontade, de outros homens, bem como invoca a [[lexico:r:regularidade:start|regularidade]], assinalada pela [[lexico:e:estatistica:start|estatística]] [[lexico:m:moral:start|moral]], de muitas [[lexico:a:acoes:start|ações]] "livres", regularidade essa que trai uma lei operante. Não obstante, estas alusões mostram apenas que não há querer isento de motivos e que os homens, via de [[lexico:r:regra:start|regra]], seguem de [[lexico:b:bom:start|Bom]] grado suas inclinações e caráter e evitam conflitos com aquelas e com este; contudo tais argumentos não dirimem a [[lexico:q:questao:start|questão]] de [[lexico:s:saber:start|saber]] se esta evitação de conflitos é necessária ou livre. O determinismo procura salvar os [[lexico:c:conceitos:start|conceitos]] de [[lexico:r:responsabilidade:start|responsabilidade]], castigo, etc. (liberdade da vontade), destituídos de [[lexico:s:sentido:start|sentido]] caso se suprima a liberdade, afirmando que precisamente considera responsável e punível o "caráter" do [[lexico:h:homem:start|homem]] culpado (com o que, não haveria [[lexico:d:distincao:start|distinção]] entre este e o psicopata) e interpretando o castigo como recurso meramente intimidativo, ou seja, como [[lexico:m:meio:start|meio]] para proteger a [[lexico:s:sociedade:start|sociedade]] contra o homem a-social (o que anularia a [[lexico:d:dignidade:start|dignidade]] da [[lexico:p:personalidade:start|personalidade]] [[lexico:e:etica:start|ética]] e converteria o homem em mero ser de adestramento). — Consequentes com as bases de seus sistemas, são deterministas o [[lexico:m:materialismo:start|materialismo]] e o [[lexico:m:monismo:start|monismo]], o [[lexico:p:panteismo:start|panteísmo]], o [[lexico:p:positivismo:start|positivismo]], o [[lexico:e:empirismo:start|empirismo]] e todos os matizes do [[lexico:p:pragmatismo:start|pragmatismo]], bem como o [[lexico:r:racionalismo:start|racionalismo]] estreme e o estreme [[lexico:b:biologismo:start|biologismo]]. — Do [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de vista da [[lexico:f:filosofia-natural:start|filosofia natural]], entende-se por determinismo a doutrina da [[lexico:d:determinacao:start|determinação]] unívoca de todos os acontecimentos naturais. VIDE lei de causalidade, [[lexico:r:relacao-de-indeterminacao:start|relação de indeterminação]] — Acerca do determinismo econômico, [[lexico:m:marxismo:start|marxismo]]. — Willwoll. Costuma definir-se o determinismo como a doutrina segundo a qual todos e cada um dos acontecimentos do [[lexico:u:universo:start|universo]] estão submetidos às leis naturais. Estas leis são de caráter causal. Com efeito, se fossem de caráter [[lexico:t:teleologico:start|teleológico]] não teríamos o determinismo, mas uma doutrina diferente - doutrinas tais como as do [[lexico:d:destino:start|destino]] e da predestinação, que foram aplicadas às almas e não aos acontecimentos naturais. [[lexico:b:bergson:start|Bergson]] afirmou que um determinismo [[lexico:e:estrito:start|estrito]] e um teleologismo estrito têm as mesmas consequências: ambos afirmam que há um encadeamento rigoroso de todos os fenômenos e, portanto, nem numa doutrina nem na outra pode afirmar-se a [[lexico:e:existencia:start|existência]] da [[lexico:c:criacao:start|criação]] e da liberdade. Embora a observação de Bergson seja em [[lexico:p:parte:start|parte]] verdadeira, note-se que o [[lexico:t:termo:start|termo]] determinismo se usa mais propriamente em relação com causas eficientes do que em relação com causas finais. Além disso, as doutrinas deterministas modernas, às quais nos referiremos aqui principalmente, estão ligadas a uma concepção mecanicista do universo, a tal ponto que, por vezes, se identificaram determinismo e [[lexico:m:mecanicismo:start|mecanicismo]]. Caraterístico do determinismo [[lexico:m:moderno:start|moderno]] é aquilo a que pode chamar-se o seu [[lexico:u:universalismo:start|universalismo]]; uma doutrina determinista costuma referir-se a todos os acontecimentos do universo. A relação entre determinismo e mecanicismo pode então compreender-se melhor, pois o determinismo se aplica mais facilmente à realidade enquanto concebida mecanicisticamente. A doutrina determinista não é susceptível de [[lexico:p:prova:start|prova]]; tão pouco o é a doutrina oposta ao determinismo, por cuja [[lexico:r:razao:start|razão]] o determinismo é considerado habitualmente como uma hipótese. Alguns pensam que se trata de uma hipótese [[lexico:m:metafisica:start|metafísica]]; outros, de uma hipótese científica. Certos autores declaram que, embora a doutrina determinista não possa provar-se, isso se deve ao caráter [[lexico:f:finito:start|finito]] da [[lexico:m:mente:start|mente]] humana e à impossibilidade de [[lexico:t:ter:start|ter]] em conta todos os fatores ou, melhor dizendo, estados do universo. A doutrina determinista pode admitir-se com o aplicável a todos os acontecimentos do universo ou, então, pode admitir-se como aplicável só a uma parte da realidade. [[lexico:k:kant:start|Kant]], por exemplo, afirmava o determinismo em relação ao [[lexico:m:mundo:start|mundo]] dos fenômenos, mas não em relação ao mundo numênico da liberdade. Muitas das dificuldades apresentadas pela doutrina determinista obedecem a uma [[lexico:a:analise:start|análise]] insuficiente do que se entende pelo termo determinismo. Regra [[lexico:g:geral:start|geral]], deram-se deste termo definições demasiado gerais. Quando examinamos com mais pormenor e rigor de que [[lexico:m:modo:start|modo]] se entende uma doutrina determinista e dentro de um contexto bem especificado, concluímos que é pouco [[lexico:r:razoavel:start|razoável]] [[lexico:f:falar:start|falar]], sem mais, de determinismo e de anti-determinismo [[lexico:u:universais:start|universais]] e, naturalmente, de “determinismo geral”. Muitas das doutrinas qualificadas de deterministas são o resultado de transferir para “a realidade”(ou “a natureza”) o modo como se entendeu a [[lexico:e:estrutura:start|estrutura]] da [[lexico:m:mecanica:start|mecânica]] clássica. (in. Determinism; fr. Déterminisme; al. Determinismus; it. Determinismo). [[lexico:e:esse:start|esse]] termo relativamente recente (Kant é um dos primeiros a empregá-lo em Religion, I, Obs. ger., [[lexico:n:nota:start|nota]]) compreende dois significados: 1) [[lexico:a:acao:start|ação]] condicionante ou necessitante de uma causa ou de um grupo de causas; 2) a doutrina que reconhece a universalidade do princípio causal e portanto admite também a determinação necessária das ações humanas a partir de seus motivos. No primeiro sentido, fala-se, p. ex., de "determinismo das leis", "determinismos sociais", etc, para indicar conexões de natureza causal ou condicional. No segundo sentido, fala-se da [[lexico:d:disputa:start|disputa]] entre determinismo e indeterminismo, entre [[lexico:q:quem:start|quem]] admite e quem nega a necessitação causal no mundo em geral e, em [[lexico:p:particular:start|particular]], no homem. O [[lexico:e:estudo:start|estudo]] dos problemas referentes ao 1) [[lexico:s:significado:start|significado]] de determinismo deve ser visto nos verbetes causa, [[lexico:c:condicao:start|condição]] e [[lexico:n:necessidade:start|necessidade]]. No 2) sentido, a [[lexico:p:palavra:start|palavra]] determinismo foi utilizada para designar o [[lexico:r:reconhecimento:start|reconhecimento]] e o alcance universal da necessidade causal, que constitui uma ordem [[lexico:r:racional:start|racional]], mas não finalista, e portanto não se presta a ser designada pelo velho [[lexico:n:nome:start|nome]] de destino. O determinismo vincula-se, por isso, ao mècanicismo, que é a [[lexico:t:tendencia:start|tendência]] dominante da ciência do séc. XIX, assim como da [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]] correspondente a essa fase da ciência. determinismo é a [[lexico:c:crenca:start|crença]] na [[lexico:e:extensao:start|extensão]] universal do mecanicismo, ou seja, na extensão do mecanicismo ao homem. Como Kant já viu (na nota citada), o determinismo [[lexico:a:autentico:start|autêntico]] é na [[lexico:v:verdade:start|verdade]] um [[lexico:p:predeterminismo:start|predeterminismo]], a crença de que o motivo determinante da ação humana está no [[lexico:m:momento:start|momento]] precedente, de tal modo que não está em poder do homem no momento em que se efetua. O determinismo, enquanto mècanicismo, é na realidade predeterminação da ação em seus antecedentes. A partir da segunda metade do séc. XVIII, a polêmica entre determinismo e indeterminismo deu-se entre os filósofos da ciência, por um lado, e os filósofos da consciência, por outro, parecendo que a ciência não podia deixar de reconhecer a [[lexico:v:validade:start|validade]] do princípio de causa (v. causalidade) e que, por outro lado, a consciência era [[lexico:t:testemunho:start|testemunho]] irrefutável da liberdade do homem (v. indeterminismo). Uma das primeiras dissertações de Kant, Novos esclarecimentos sobre os primeiros [[lexico:p:principios-do-conhecimento:start|princípios do conhecimento]] metafísico (1755), destinada a defender a [[lexico:d:dimensao:start|dimensão]] universal do princípio de causalidade, pode ser considerada uma das primeiras defesas do determinismo (cf. especialmente Prop. IX, Confutatio dubiorum). Mas talvez muito mais eficaz tenha sido a defesa feita por Priestley no segundo volume de suas Inquirições sobre a [[lexico:m:materia:start|matéria]] e sobre o espírito (1777), intitulado Doutrina da necessidade filosófica. Nessa [[lexico:o:obra:start|obra]], Priestley afirmava claramente que os motivos influenciam a vontade com a mesma certeza e necessidade com que a [[lexico:f:forca:start|força]] da gravidade age sobre uma pedra, e que, embora o homem frequentemente se censure por não ter agido de outro modo, o exame de sua [[lexico:c:conduta:start|conduta]] demonstra que isso era impossível e que ele só poderia ter agido daquele modo (The Doctrine of Philosophical Necessity, 2a ed., 1782, pp. 37, 90 ss.). Essas são teses repetidas com frequência na filosofia positivista do séc. XIX. O determinismo científico foi formulado de modo [[lexico:c:classico:start|clássico]] por Claude [[lexico:b:bernard:start|Bernard]], em sua Introdução ao estudo da medicina [[lexico:e:experimental:start|experimental]] (1865). "O princípio [[lexico:a:absoluto:start|absoluto]] das ciências experimentais", dizia ele, "é um determinismo [[lexico:n:necessario:start|necessário]] e consiste nas condições dos fenômenos. Se um fenômeno [[lexico:n:natural:start|natural]] qualquer é [[lexico:d:dado:start|dado]], um experimentador nunca poderá admitir que houve uma variação na [[lexico:e:expressao:start|expressão]] do fenômeno sem que, ao mesmo tempo, tenham sobrevindo condições novas em sua [[lexico:m:manifestacao:start|manifestação]]. Além disso, ele tem certeza apriori de que essas variações são determinadas por relações rigorosas e matemáticas. A [[lexico:e:experiencia:start|experiência]] mostra-nos apenas a forma dos fenômenos, mas a relação de um fenômeno com uma causa determinada é necessária e [[lexico:i:independente:start|independente]] da experiência, é forçosamente [[lexico:m:matematica:start|matemática]] e absoluta. Nós chegamos assim a ver que o princípio do criterium das ciências experimentais no fundo é [[lexico:i:identico:start|idêntico]] ao das ciências matemáticas porque, de um lado e de outro, esse princípio é expresso por uma relação de causalidade necessária e absoluta" (Introduction à l’étude de la médecine expérimentale, I, 2, 7). Explicitamente, Bernard estendia esse princípio também aos seres vivos (Ibid., II, 1, 5), e as próprias [[lexico:p:palavras:start|palavras]] com que se exprimia mostram, de um lado, o caráter de [[lexico:a:axioma:start|axioma]] racional (mais que de exigência empírica) que ele via no princípio do "determinismo absoluto", e, de outro lado, o rigor com que esse princípio era aplicado ao [[lexico:c:campo:start|campo]] da [[lexico:p:pesquisa:start|pesquisa]] experimental. Entretanto, foram precisamente os progressos experimentais da ciência — em particular os da ciência experimental mais adiantada e amadurecida, a física — que levaram a abandonar aquilo que Claude Bernard chamava de "princípio do criterium experimental". Primeiro a [[lexico:t:teoria:start|teoria]] da relativa-de e depois a mecânica quântica puseram em crise a [[lexico:n:nocao:start|noção]] de causalidade necessária e, por conseguinte, a de "determinismo absoluto". Em 1930, Heisenberg, descobridor do princípio de in-determinação e um dos fundadores da moderna física quântica, escrevia: "O [[lexico:c:conceito:start|conceito]] de universo que deriva da experiência quotidiana foi abandonado pela primeira vez na [[lexico:t:teoria-da-relatividade:start|teoria da relatividade]] de [[lexico:e:einstein:start|Einstein]]. Por ela, vê-se que os conceitos usuais só podem ser aplicados a acontecimentos nos quais a velocidade de propagação da [[lexico:l:luz:start|luz]] pode ser considerada praticamente infinita... As experiências com o mundo [[lexico:a:atomico:start|atômico]] obrigam-nos a uma [[lexico:r:renuncia:start|renúncia]] ainda mais profunda dos conceitos até [[lexico:a:agora:start|agora]] habituais. Com efeito, nossa [[lexico:d:descricao:start|descrição]] usual da natureza e, em especial, a ideia de causalidade rigorosa nos eventos da natureza repousam na [[lexico:a:admissao:start|admissão]] de que é [[lexico:p:possivel:start|possível]] observar um fenômeno sem influenciá-lo de modo perceptível... Na física atômica, porém, a cada observação geralmente está ligada uma perturbação finita e até certo ponto incontrolável, o que era de se esperar desde o princípio na física das menores unidades existentes. Como, por outro lado, toda descrição espácio-temporal de um [[lexico:e:evento:start|evento]] [[lexico:f:fisico:start|físico]] está ligada à observação do evento, segue-se que a descrição espácio-temporal dos eventos e a lei causal clássica representam dois aspectos causais que se excluem mutuamente nos acontecimentos físicos" (Diephysikalischen Prinzipien der Quantentheorie, 1930, IV, § 3). Quase ao mesmo tempo, Max Planck, descobridor do quantum de ação, escrevia que, para poder salvar a hipótese do determinismo rigoroso, era necessário [[lexico:p:pensar:start|pensar]] num Espírito [[lexico:i:ideal:start|ideal]], capaz de abranger todos os processos físicos que se desenvolvem simultaneamente e, portanto, de predizer com certeza e em todos os detalhes qualquer [[lexico:p:processo:start|processo]] físico. Naturalmente, do ponto de vista de um espírito desses, o princípio de [[lexico:i:indeterminacao:start|indeterminação]], do fato de o homem precisar intervir nos processos naturais para poder observá-los, não valeria, visto ser ele, por hipótese, independente da natureza (Der Kausalbegriff in der Physik, 1932, pp. 24-25). Mas essa hipótese, como é óbvio, não tem nenhum [[lexico:f:fundamento:start|fundamento]] científico ou filosófico. De Broglie, outro [[lexico:p:protagonista:start|protagonista]] da física contemporânea, afirmava que os argumentos de Von Neumann (v. causalidade) provaram que: "As leis de [[lexico:p:probabilidade:start|probabilidade]] enunciadas pela mecânica ondulatória e quântica sobre os fenômenos elementares, leis bem provadas pela experiência, não têm a forma que deveriam ter se fossem devidas à nossa [[lexico:i:ignorancia:start|ignorância]] dos valores exatos de certas variáveis ocultas. O [[lexico:u:unico:start|único]] [[lexico:c:caminho:start|caminho]] que ainda estava [[lexico:a:aberto:start|aberto]] ao restabelecimento do determinismo em escala atômica parece, portanto, fechar-se diante de nós" (Physique et Microphysique, X; trad. it., p. 209). Desse modo, o [[lexico:a:abandono:start|abandono]] da causalidade necessária e da doutrina do determinismo absoluto, que transformara a causalidade necessária em princípio universal do [[lexico:c:conhecimento-cientifico:start|conhecimento científico]], parece sancionado pelas maiores autoridades científicas do nosso tempo. Todavia, esse abandono não é, automaticamente, a aceitação do indeterminismo, ou seja, do reconhecimento do [[lexico:a:acaso:start|acaso]] e do arbítrio absoluto nos fenômenos naturais. Assim como o abandono da noção de causa coincide com o [[lexico:u:uso:start|uso]] cada vez mais amplo e consciente da noção de condição, também o abandono da noção de determinismo absoluto, paralela à primeira, coincide com a aceitação de uma forma de determinismo que se vai esclarecendo paralelamente ao esclarecimento do conceito de condição. Ao declarar inutilizável o conceito de causa, a física contemporânea insistiu na [[lexico:p:possibilidade:start|possibilidade]] de previsão [[lexico:p:provavel:start|provável]]; e ao declarar, por isso mesmo, a queda do determinismo absoluto, tende a adotar um determinismo restrito ou, como diz o próprio De Broglie, "fraco" ou "imperfeito", fundado no reconhecimento de que "nem todas as possibilidades são igualmente prováveis" e de que "todo [[lexico:e:estado:start|Estado]] de um [[lexico:s:sistema:start|sistema]] microscópico comporta certas tendências que se expressam pelas diferentes probabilidades das diversas possibilidades nele contidas" (Ibid., p. 212). Em sentido [[lexico:a:analogo:start|análogo]], no domínio das [[lexico:c:ciencias-sociais:start|ciências sociais]], Gurvitch falou do determinismo como de uma [[lexico:s:simples:start|simples]] "contingência coerente" ou "[[lexico:c:coerencia:start|coerência]] [[lexico:c:contingente:start|contingente]]", que nunca é unívoca, mas sempre se caracteriza por constituir uma situação intermediária entre os opostos do [[lexico:c:continuo:start|contínuo]] e do [[lexico:d:descontinuo:start|descontínuo]], do [[lexico:q:quantitativo:start|quantitativo]] e do qualitativo, do heterogêneo e do homogêneo, etc. (Déterminismes sociaux, 1955, pp. 28 ss.). Portanto, a palavra determinismo não foi abandonada, mas sofreu uma [[lexico:t:transformacao:start|transformação]] radical na [[lexico:l:linguagem:start|linguagem]] científica e filosófica contemporânea. Não designa mais o ideal de causalidade necessária e de previsão infalível, mas o [[lexico:m:metodo:start|método]] de conexão condicional e de previsão provável. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}