===== DESENRAIZAMENTO ===== Mas há outros indícios mais graves do perigo de que o [[lexico:h:homem|homem]] possa [[lexico:e:estar|estar]] disposto e realmente esteja a [[lexico:p:ponto|ponto]] de converter-se naquela [[lexico:e:especie|espécie]] [[lexico:a:animal|animal]] da qual, desde [[lexico:d:darwin|Darwin]], ele imagina descender. Se, para concluir, voltarmos uma vez mais à [[lexico:d:descoberta|descoberta]] do [[lexico:p:ponto-arquimediano|ponto arquimediano]] e aplicá-lo, como Kafka advertiu que [[lexico:n:nao|não]] o fizéssemos, ao [[lexico:p:proprio|próprio]] homem e ao que ele está fazendo neste planeta, torna-se imediatamente evidente que todas as suas [[lexico:a:atividades|atividades]], vistas de um ponto de [[lexico:o:observacao|observação]] suficientemente remoto no [[lexico:u:universo|universo]], apareceriam não como atividades, mas como processos, de [[lexico:s:sorte|sorte]] que, como disse recentemente um cientista, a [[lexico:m:moderna|moderna]] motorização pareceria um [[lexico:p:processo|processo]] de [[lexico:m:mutacao|mutação]] biológica no qual os corpos humanos começam gradualmente a [[lexico:s:ser|ser]] revestidos por uma carapaça de aço. Para o [[lexico:o:observador|observador]] situado no universo, tal mutação não seria mais nem menos misteriosa que aquela que ocorre hoje diante de nossos olhos naqueles pequenos organismos vivos que combatemos com antibióticos e que misteriosamente produzem novas variedades para resistir a nós. Pode-se [[lexico:v:ver|ver]] quão profundamente arraigado é [[lexico:e:esse|esse]] [[lexico:u:uso|uso]] do ponto arquimediano contra nós mesmos nas próprias metáforas que dominam atualmente o [[lexico:p:pensamento|pensamento]] científico. O [[lexico:m:motivo|motivo]] pelo qual os [[lexico:c:cientistas|cientistas]] podem [[lexico:f:falar|falar]] da “[[lexico:v:vida|vida]]” do [[lexico:a:atomo|átomo]] – no qual cada partícula tem, aparentemente, a “[[lexico:l:liberdade|liberdade]]” de comportar-se como quiser, e onde as leis que governam esses movimentos são as mesmas leis estatísticas que, segundo os cientistas sociais, governam o [[lexico:c:comportamento|comportamento]] [[lexico:h:humano|humano]] e fazem a [[lexico:m:multidao|multidão]] comportar-se como tem de se comportar, por mais “livre” em suas opções que pareça cada partícula individual –, o motivo, em outras [[lexico:p:palavras|palavras]], pelo qual o comportamento da partícula infinitamente pequena é não apenas [[lexico:s:semelhante|semelhante]], em sua [[lexico:f:forma|forma]], ao [[lexico:s:sistema|sistema]] planetário, tal como aparece a nós, mas se assemelha às formas de vida e de comportamento na [[lexico:s:sociedade|sociedade]] humana é, naturalmente, que observamos essa sociedade e vivemos nela [[lexico:c:como-se|como se]] estivéssemos tão longe de nossa própria [[lexico:e:existencia|existência]] humana como estamos do infinitamente pequeno e do imensamente grande, os quais, mesmo que pudessem ser percebidos pelos instrumentos mais refinados, estão demasiado afastados de nós para fazer [[lexico:p:parte|parte]] de nossa [[lexico:e:experiencia|experiência]]. [ArendtCH:C45]