===== DESENCANTAMENTO DO MUNDO ===== No [[lexico:e:escrito|escrito]] "A [[lexico:c:ciencia|Ciência]] como Profissão", depois de afirmar que "[[lexico:s:ser|ser]] superados no [[lexico:p:plano|plano]] científico é (...) [[lexico:n:nao|não]] somente o nosso [[lexico:d:destino|destino]], de todos nós, mas também o nosso [[lexico:o:objetivo|objetivo]]", Max [[lexico:w:weber|Weber]] se propõe o [[lexico:p:problema|problema]] do [[lexico:s:significado|significado]] da ciência. Trata-se do problema do significado de uma [[lexico:a:atividade|atividade]] que "não alcança e jamais poderá alcançar seu [[lexico:f:fim|fim]]": qual a [[lexico:o:obra|obra]] possuidora de [[lexico:s:sentido|sentido]] que o [[lexico:h:homem|homem]] de ciência acredita produzir "com essas criações sempre destinadas a envelhecer e deixando-se absorver por essa atividade dividida em setores especializados e que se projetam para o [[lexico:i:infinito|infinito]]"? Para Weber, "o [[lexico:p:progresso|progresso]] científico é fração, sem [[lexico:d:duvida|dúvida]] a mais importante, daquele [[lexico:p:processo|processo]] de intelectualização ao qual estamos sujeitos há séculos". E o significado [[lexico:p:profundo|profundo]] dessa intelectualização e [[lexico:r:racionalizacao|racionalização]] progressivas segundo Weber, está "na [[lexico:c:consciencia|consciência]] ou na [[lexico:f:fe|fé]] de que basta querer para poder: em [[lexico:p:principio|princípio]], qualquer [[lexico:c:coisa|coisa]] pode ser dominada pela [[lexico:r:razao|razão]]. O que significa o [[lexico:d:desencantamento-do-mundo|desencantamento do mundo]]. Não é mais preciso recorrer à [[lexico:m:magia|magia]] para dominar ou para obter as graças dos [[lexico:e:espiritos|espíritos]], como faz o selvagem para [[lexico:q:quem|quem]] existem tais potências. Isso é suprido pela razão e os meios técnicos. É sobretudo [[lexico:e:esse|esse]] o significado da intelectualização como tal". Admitido esse desencantamento do [[lexico:m:mundo|mundo]], Weber então se [[lexico:p:pergunta|pergunta]] qual será o significado da "ciência como [[lexico:v:vocacao|vocação]]". E escreve que a resposta mais [[lexico:s:simples|simples]] a essa [[lexico:i:interpretacao|interpretação]] a oferece Tolstoi: a ciência "é absurda, porque não responde à única pergunta importante para nós: o que devemos fazer, como devemos [[lexico:v:viver|viver]]?" [[lexico:a:alem|Além]] de pressupor a [[lexico:v:validade|validade]] das normas da [[lexico:l:logica|lógica]] e do [[lexico:m:metodo|método]], a ciência também deve pressupor que "o resultado do [[lexico:t:trabalho|trabalho]] científico é importante no sentido de ser ‘digno de ser conhecido’ (wissenswert)". Mas é evidente que, por seu turno, "esse [[lexico:p:pressuposto|pressuposto]] não pode ser demonstrado com os meios da ciência" e "menos ainda se pode demonstrar se o mundo por elas (as ciências) descrito é digno de [[lexico:e:existir|existir]]: se tem ‘significado’ ou se tem sentido existir nele". Com isso, as ciências naturais "não se preocupam". Apenas para exemplificar, a "ciência médica não se propõe a [[lexico:q:questao|questão]] de se e quando a [[lexico:v:vida|vida]] vale à [[lexico:p:pena|pena]] ser vivida. Todas as ciências naturais dão resposta a esta pergunta: o que devemos fazer se quisermos dominar tecnicamente a vida? Mas a questão de se queremos e devemos dominá-la tecnicamente e se isso, em última [[lexico:i:instancia|instância]], tem verdadeiramente significado é questão que elas deixam inteiramente suspensa ou então a pressupõem para os seus fins". Da mesma [[lexico:f:forma|forma]], as ciências históricas "nos ensinam a entender os fenômenos da [[lexico:c:civilizacao|civilização]] (Kulturerscheinungen) — políticos, artísticos, literários ou sociais — nas condições do seu surgimento. Elas pressupõem que haja [[lexico:i:interesse|interesse]] em participar, através de tal procedimento, na [[lexico:c:comunidade|comunidade]] dos ‘homens civis’ (Kulturmenschen). Mas elas não estão em condições de demonstrar ‘cientificamente’ que as [[lexico:c:coisas|coisas]] são assim e o [[lexico:f:fato|fato]] de elas o pressuporem não demonstra de [[lexico:m:modo|modo]] algum que isso seja evidente. E, com [[lexico:e:efeito|efeito]], não o é em [[lexico:a:absoluto|absoluto]]". Essencialmente, a ciência pressupõe a [[lexico:e:escolha|escolha]] da razão científica. E essa escolha não pode ser justificada cientificamente. A [[lexico:a:afirmacao|afirmação]] de que "a [[lexico:v:verdade|verdade]] científica é um [[lexico:b:bem|Bem]]" não é afirmação científica. Nem pode sê-lo, já que a ciência, embora pressupondo valores, não pode fundamentar os valores. A ciência não pode fundamentar valores, mas também não pode rejeitá-los: "Quem, vai querer experimentar ‘refutar cientificamente’ a [[lexico:e:etica|ética]] do Sermão da montanha ou, por [[lexico:e:exemplo|exemplo]], a [[lexico:m:maxima|máxima]] ‘não resista ao [[lexico:m:mal|mal]]’ ou então a [[lexico:i:imagem|imagem]] de dar a outra face? E, no entanto, está claro que, do [[lexico:p:ponto|ponto]] de vista [[lexico:m:mundano|mundano]], prega-se ali uma ética da [[lexico:f:falta|falta]] de [[lexico:d:dignidade|dignidade]]. É preciso escolher entre a dignidade religiosa, que é o [[lexico:f:fundamento|fundamento]] dessa ética, e a dignidade viril, que prega algo bem diferente: ‘Deves resistir ao mal, caso contrário também serás responsável se ele prevalecer’. Que alguém seja o [[lexico:d:diabo|diabo]] e [[lexico:o:outro|outro]] o [[lexico:d:deus|Deus]] é algo que depende do [[lexico:p:proprio|próprio]] [[lexico:c:comportamento|comportamento]] em [[lexico:r:relacao|relação]] ao fim [[lexico:u:ultimo|último]]. Cabe ao [[lexico:i:individuo|indivíduo]] decidir quem é deus e quem é diabo para ele. E assim ocorre em todos os ordenamentos da vida". O [[lexico:m:mestre|mestre]] não é chefe e a ética não é ciência: "A vida (...) só conhece a [[lexico:i:impossibilidade|impossibilidade]] de conciliar e resolver o antagonismo entre as posições últimas geralmente em relação à vida, vale dizer, a [[lexico:n:necessidade|necessidade]] de decidir por uma ou por outra. Se, nessas condições, vale à pena fazer da ciência ‘profissão’ e se ela própria constitui ‘profissão’ dotada de [[lexico:v:valor|valor]] objetivo — eis outro [[lexico:j:juizo|juízo]] de valor sobre o qual não é [[lexico:d:dado|dado]] pronunciar-se na sala de aula". Então, a qual dos valores em [[lexico:l:luta|luta]] devemos servir? Ou talvez a algum outro, quem sabe? Bem, é preciso dizer, sentencia Weber, que a resposta a essa pergunta "cabe a um profeta ou a um redentor". Mas, neste nosso mundo desencantado, não existe o invocado profeta ou redentor. E "os falsos profetas das cátedras", com seus sucedâneos, não bastam para cancelar o fato fundamental que o destino nos impõe de viver em [[lexico:e:epoca|época]] sem Deus e sem profetas. Para ele, "é o destino de nossa época, com a sua racionalização e intelectualização [[lexico:c:caracteristica|característica]] e, sobretudo, com o seu desencantamento do mundo, que precisamente os valores supremos e sublimes tenham se tornado estranhos ao grande [[lexico:p:publico|público]] para se refugiarem no [[lexico:r:reino|reino]] extramundano da vida [[lexico:m:mistica|mística]] ou na fraternidade das [[lexico:r:relacoes|relações]] imediatas e diretas entre os indivíduos". Para quem não está em condições de enfrentar firmemente esse destino da nossa época, Weber aconselha que volte em [[lexico:s:silencio|silêncio]], sem a costumeira [[lexico:c:conversao|conversão]] publicitária, mas sim pura e simplesmente, aos braços das antigas Igrejas, que estão ampla e misericordiosamente abertos, não lhe dificultando a vida. "Entretanto, é preciso cumprir — é inevitável — o ‘[[lexico:s:sacrificio|sacrifício]] do [[lexico:i:intelecto|intelecto]]’, de um modo ou de outro. Se ele for realmente capaz, não o censuraremos por isso". Em toda [[lexico:t:teologia|teologia]] "positiva", o crente chega a um ponto em que é válida a famosa máxima: "[[lexico:c:credo|credo]] non [[lexico:q:quod|quod]], sed quia absurdum". Para Weber, aí está o "sacrifício do intelecto": isso "leva o discípulo ao profeta e o crente à Igreja". E, sendo assim, Weber sustenta que "está claro que (...) a [[lexico:t:tensao|tensão]] entre a [[lexico:e:esfera|esfera]] dos valores da ‘ciência’ e a esfera da [[lexico:s:salvacao|salvação]] religiosa é insanável". O mundo da razão científica é mundo desencantado. E a simples probidade intelectual, diz Weber, nos impõe deixar claro que, hoje, todos os que vivem à espera de novos profetas e novos redentores encontram-se na mesma [[lexico:s:situacao|situação]] descrita no belíssimo canto da guarda idumeia durante o período do exílio, que se lê no oráculo de Isaías: De Seir chamam por mim: "Guarda, que resta da noite? Guarda, que resta da noite?" O guarda responde: "A manhã vem chegando, mas ainda é noite. Se quereis perguntar, perguntai! Vinde de novo!" Sendo assim, diz ainda Weber, nós "nos voltaremos para o nosso trabalho e cumpriremos a nossa ‘[[lexico:t:tarefa|tarefa]] cotidiana’, em nossa [[lexico:q:qualidade|qualidade]] de homens e na nossa atividade profissional. Isso é simples e fácil quando cada qual encontra e segue o [[lexico:d:demonio|demônio]] que puxa os fios da sua vida".