===== DESEJO ===== (gr. [[lexico:e:epithymia:start|epithymia]]; lat. Cupiditas, in. Desire, fr. Désir, al. Begehren; it. Desiderio). [[lexico:t:tendencia:start|tendência]] tornada [[lexico:c:consciente:start|consciente]] de seu [[lexico:o:objeto:start|objeto]]. — O desejo distingue-se da [[lexico:n:necessidade:start|necessidade]], [[lexico:s:simples:start|simples]] incitação fisiológica. Por [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]], posso [[lexico:t:ter:start|ter]] necessidade de comer, experimentar cãibras no estômago sem [[lexico:s:saber:start|saber]] que o que [[lexico:e:experimento:start|experimento]] referem-se à [[lexico:f:falta:start|falta]] de alimento. O desejo relaciona-se em [[lexico:g:geral:start|geral]] a um objeto determinado: desejo beber vinho. O desejo, que supõe uma certa insatisfação, dá à [[lexico:v:vida:start|vida]] afetiva sua tonalidade, suscita os sentimentos e as paixões, está na base da [[lexico:v:vida-ativa:start|vida ativa]]. Todavia, sendo os desejos em [[lexico:n:numero:start|número]] [[lexico:i:infinito:start|infinito]], o [[lexico:h:homem:start|homem]] que se preocupasse em satisfazer a todos eles perderia [[lexico:t:todo:start|todo]] distanciamento em [[lexico:r:relacao:start|relação]] a si [[lexico:p:proprio:start|próprio]] e toda [[lexico:l:liberdade:start|liberdade]] ([[lexico:p:platao:start|Platão]]). O desejo que sofreu o controle do [[lexico:c:calculo:start|cálculo]] e da [[lexico:r:reflexao:start|reflexão]] torna-se [[lexico:a:ato:start|ato]] voluntário. Este [[lexico:n:nao:start|não]] é o [[lexico:i:impulso:start|impulso]] do desejo, mas o ato de [[lexico:v:vontade:start|vontade]] que é [[lexico:e:expressao:start|expressão]] da [[lexico:p:personalidade:start|personalidade]]. Durante séculos, utilizaram-se as expressões [[lexico:a:apetite:start|apetite]] e desejo para designar afecções ou movimentos da [[lexico:a:alma:start|alma]], entendida esta num [[lexico:s:sentido:start|sentido]] muito geral. Como o primeiro desses já caiu em desuso, preferimos referir-nos aos dois neste artigo. Para [[lexico:a:aristoteles:start|Aristóteles]], o desejo é uma das classes do apetite. O desejo não é necessariamente [[lexico:i:irracional:start|irracional]]; pode [[lexico:s:ser:start|ser]] e é muitas vezes, um ato deliberado ([[lexico:e:etica:start|ÉTICA]] A NICÔMACO), que tem como objeto algo que está em nosso poder de [[lexico:d:deliberacao:start|deliberação]]. Em rigor, aquilo a que se chama eleição ou preferência é é um “desejo deliberado”. Com estas análises, Aristóteles parecia rejeitar o contraste estabelecido por Platão entre desejo e [[lexico:r:razao:start|razão]] ([[lexico:r:republica:start|REPÚBLICA]]), mas deve ter-se em conta que a concepção platônica de desejo é mais complexa do que parece se considerarmos unicamente o [[lexico:t:texto:start|texto]] citado; com [[lexico:e:efeito:start|efeito]], Platão admitia não só a [[lexico:d:distincao:start|distinção]] entre desejos necessários e desejos desnecessários. Mas considerava ainda a [[lexico:p:possibilidade:start|possibilidade]] de um desejo que pertenceria exclusivamente à [[lexico:n:natureza:start|natureza]] da alma ([[lexico:f:filebo:start|Filebo]]). Era [[lexico:n:normal:start|normal]], no [[lexico:m:mundo:start|mundo]] antigo, a [[lexico:r:referencia:start|referência]] ao desejo como uma [[lexico:p:paixao:start|paixão]] da alma, embora não se deva dar sempre ao [[lexico:t:termo:start|termo]] paixão um sentido pejorativo. Quando se acentuava o [[lexico:c:carater:start|caráter]] [[lexico:r:racional:start|racional]] da alma, contudo, qualquer das suas paixões podia [[lexico:a:aparecer:start|aparecer]] como um [[lexico:o:obstaculo:start|obstáculo]] para a razão. Assim acontecia com os velhos estoicos; por exemplo, [[lexico:z:zenao:start|Zenão]] de Citio falava do desejo como uma das [[lexico:q:quatro:start|Quatro]] paixões juntamente com o temor, a [[lexico:d:dor:start|dor]] e o [[lexico:p:prazer:start|prazer]]. Na sua [[lexico:d:discussao:start|discussão]] da [[lexico:n:nocao:start|noção]] de [[lexico:c:concupiscencia:start|concupiscência]], S. Tomás ([[lexico:s:suma-teologica:start|Suma Teológica]])nega que a concupiscência, ou desejo estejam unicamente no apetite sensitivo. Isto não quer dizer que se estenda sem limites por todas as formas do apetite. O desejo pode ser [[lexico:s:sensivel:start|sensível]] ou racional, e aspira a um [[lexico:b:bem:start|Bem]] que não se possui. Mas não deve confundir-se o desejo com o [[lexico:a:amor:start|amor]] ou a deleitação. Em S. Tomás, a [[lexico:b:bondade:start|bondade]] ou [[lexico:m:maldade:start|maldade]] do desejo dependem do objeto considerado. Os autores modernos trataram do desejo fundamentalmente como uma das chamadas “paixões da alma”. O principal [[lexico:i:interesse:start|interesse]] que move esses autores é [[lexico:p:psicologico:start|psicológico]] (num sentido muito amplo do termo). Assim acontece com [[lexico:d:descartes:start|Descartes]], quando escreve que “a paixão do desejo é uma agitação da alma causada pelos [[lexico:e:espiritos:start|espíritos]] que a dispõem a querer para o porvir [[lexico:c:coisas:start|coisas]] que se representam como convenientes para ela” (AS PAIXÕES DA ALMA). Também em [[lexico:l:locke:start|Locke]]: “a [[lexico:a:ansiedade:start|ansiedade]] que um homem encontra em si por [[lexico:c:causa:start|causa]] da [[lexico:a:ausencia:start|ausência]] de algo cujo gozo presente leva consigo a [[lexico:i:ideia:start|ideia]] de deleite é aquilo a que chamamos desejo, o qual é maior ou menor, consoante essa ansiedade seja mais ou menos veemente” (ENSAIO). [[lexico:s:semelhante:start|semelhante]] ansiedade não é, em si mesma, má; em rigor, pode ser o incentivo para a destreza humana. Espinosa não estabelece nenhuma distinção entre apetite e desejo: “o desejo é o apetite acompanhado da [[lexico:c:consciencia:start|consciência]] de [[lexico:s:si-mesmo:start|si mesmo]]” (ÉTICA). [[lexico:h:hegel:start|Hegel]], por seu lado, afirma que “a consciência de si mesmo é o [[lexico:e:estado:start|Estado]] de desejo em geral” ([[lexico:f:fenomenologia-do-espirito:start|fenomenologia do espírito]]). A [[lexico:c:condicao:start|condição]] do desejo e do [[lexico:t:trabalho:start|trabalho]] (ou [[lexico:e:esforco:start|esforço]]) aparece no [[lexico:p:processo:start|processo]] em que a consciência volta a si mesma no decurso das suas transformações como consciência feliz. Para [[lexico:s:sartre:start|Sartre]], o desejo não é pura [[lexico:s:subjetividade:start|subjetividade]], tão-pouco é pura [[lexico:a:apetencia:start|apetência]], análoga à do [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]]. A [[lexico:i:intencionalidade:start|intencionalidade]] do desejo não se esgota num “para algo”. O desejo é algo que “[[lexico:e:eu:start|eu]] faço a mim próprio” ao mesmo [[lexico:t:tempo:start|tempo]] que estou fazendo ao [[lexico:o:outro:start|outro]] desejado, como desejado. Por isso Sartre diz que o desejo - que exemplifica no desejo sexual - tem um [[lexico:i:ideal:start|ideal]] [[lexico:i:impossivel:start|impossível]], porque aspira a possuir a [[lexico:t:transcendencia:start|transcendência]] do outro “como pura transcendência e, contudo, com [[lexico:c:corpo:start|corpo]]”, isto é, porque aspira a “reduzir o outro à sua simples fatuidade, já que se encontra então no [[lexico:m:meio:start|meio]] do meu mundo” e, ao mesmo tempo, quer que“esta [[lexico:f:felicidade:start|felicidade]] seja uma perpétua [[lexico:a:apresentacao:start|apresentação]] da sua transcendência aniquiladora” (O [[lexico:s:ser-e-o-nada:start|Ser e o Nada]]) [[lexico:e:esse:start|esse]] termo pode ter dois significados: 1) geral, de apetite, de [[lexico:p:principio:start|princípio]] que impele um ser vivo à [[lexico:a:acao:start|ação]]; para tal [[lexico:s:significado:start|significado]], v. apetite; 2) mais restrito, de [[lexico:a:apetite-sensivel:start|apetite sensível]], pelo qual corresponde ao [[lexico:g:grego:start|grego]] epithymia ao latim cupiditas. Nesse sentido, segundo Aristóteles, o desejo é "o apetite do que é agradável" (De an., II, 3, 414 b 6). Analogamente, Descartes o definiu como "a agitação da alma causada pelos espíritos que a dispõem a querer no [[lexico:f:futuro:start|futuro]] as coisas que a ela se afiguram convenientes" (Pass. de l’âme, § 86). Equivalente a esta é a [[lexico:d:definicao:start|definição]] de [[lexico:s:spinoza:start|Spinoza]]: "[[lexico:t:tristeza:start|tristeza]] ligada à falta da [[lexico:c:coisa:start|coisa]] que amamos" (Et., III, 36, scol). Esses significados repetem-se ao longo da [[lexico:h:historia-da-filosofia:start|história da filosofia]]. Na [[lexico:l:literatura:start|literatura]] contemporânea essa [[lexico:p:palavra:start|palavra]] assumiu alguns significados novos. [[lexico:d:dewey:start|Dewey]] definiu o desejo como "[[lexico:a:atividade:start|atividade]] que procura agir no sentido de romper o dique que a retém. O objeto que se apresenta no [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]] como meta do desejo é o objeto do [[lexico:a:ambiente:start|ambiente]] que, se estivesse presente, garantiria a reunificação da atividade e a restauração de sua [[lexico:u:unidade:start|unidade]]" (Human Nature and Conduct, pp. 249 ss.). [[lexico:h:heidegger:start|Heidegger]] vinculou o desejo à natureza do homem como ser projetante: "O ser para as possibilidades manifesta-se em geral como [[lexico:p:puro:start|puro]] desejo. No desejo, o [[lexico:s:ser-ai:start|ser-aí]] projeta seu ser para possibilidades que não somente não são captadas na ocupação, como também não se examina seriamente nem se espera a sua realização (Sein und Zeit, § 41). {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}