===== DESCRIÇÃO ===== (gr. syngraphe; lat. Descriptio; in. Description; fr. Description; al. Beschreibung; it. Descrizione). Os antigos já consideravam que a descrição era uma “[[lexico:d:definicao:start|definição]] insuficiente”. Descrevia-se aquilo que [[lexico:n:nao:start|não]] podia definir-se. Para a [[lexico:e:epoca:start|época]] [[lexico:m:moderna:start|moderna]], a descrição era um [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]] inferior, uma definição imperfeita; sobretudo na [[lexico:m:medida:start|medida]] em que imperou o [[lexico:r:racionalismo:start|racionalismo]] prevaleceu essa [[lexico:i:ideia:start|ideia]] da descrição. Em contrapartida, durante o século passado, investigaram-se os [[lexico:c:caracteres:start|caracteres]] próprios da [[lexico:o:operacao:start|operação]] descritiva. Estabeleceu-se, assim, uma [[lexico:d:distincao:start|distinção]] completa entre a descrição e outras operações cognoscitivas, tais como a definição, a [[lexico:d:demonstracao:start|demonstração]] e a [[lexico:e:explicacao:start|explicação]]. A descrição não era então nem a [[lexico:f:formula:start|fórmula]] de um [[lexico:j:juizo:start|juízo]] pelo qual se responde à [[lexico:p:pergunta:start|pergunta]] acerca do [[lexico:s:ser:start|ser]] de um [[lexico:s:sujeito:start|sujeito]], nem a indicação do seu [[lexico:f:fundamento:start|fundamento]], [[lexico:o:origem:start|origem]] [[lexico:l:logica:start|lógica]] ou [[lexico:o:ontologica:start|ontológica]], nem a [[lexico:m:manifestacao:start|manifestação]] conceptual de um [[lexico:d:desenvolvimento:start|desenvolvimento]], mas a indicação pura e [[lexico:s:simples:start|simples]] daquilo que aparece numa [[lexico:c:coisa:start|coisa]], das caraterísticas que, [[lexico:p:por-si:start|por si]] mesmas, se revelam de algo. As tendências positivistas acentuaram a importância de uma descrição dos fenômenos, de tal [[lexico:m:modo:start|modo]] que a descrição se converteu, por vezes, num modo de conhecimento [[lexico:p:postulado:start|postulado]] para todas as ciências, inclusive para as naturais, não só para aquelas que tradicionalmente eram consideradas como descritivas (botânica, [[lexico:o:ontologia:start|ontologia]]), mas também para as chamadas ciências explicativas ([[lexico:f:fisica:start|física]]). A [[lexico:f:fenomenologia:start|fenomenologia]] acentuou a importância da descrição do conteúdo [[lexico:i:intencional:start|intencional]], fazendo da descrição algo mais que o [[lexico:m:metodo:start|método]] das ciências; a descrição é então o [[lexico:u:unico:start|único]] método de abordagem daquilo que se dá enquanto se dá e tal [[lexico:c:como-se:start|como se]] dá. Esta [[lexico:i:ideia-da-fenomenologia:start|Ideia da Fenomenologia]] representava, pois, uma [[lexico:p:purificacao:start|purificação]] da operação descritiva, que em tal caso chega até às [[lexico:e:essencias:start|essências]] e não se limita a uma [[lexico:e:enumeracao:start|enumeração]] dos fenômenos como a postulada pelo [[lexico:p:positivismo:start|positivismo]]. A [[lexico:t:teoria:start|teoria]] das descrições de Bertrand [[lexico:r:russell:start|Russell]] foi exposta em PRINCIPIA MATHEMATICAE, sobe mais popular, no capítulo XVI da INTRODUÇÃO À [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]] [[lexico:m:matematica:start|MATEMÁTICA]]. Hoje em dia, constitui um capítulo indispensável em qualquer [[lexico:e:exposicao:start|exposição]] dos [[lexico:e:elementos:start|elementos]] da lógica [[lexico:s:simbolica:start|simbólica]]. Embora Russell tenha dividido as expressões em indefinidas (como “um tal”) e definidas (“como o tal”), referir-nos-emos unicamente às segundas. Notamos somente que, como afirmou Russell, há algo comum na definição de uma descrição indefinida (ou ambígua) e de uma descrição definida: que a definição que se procura é uma definição de proposições nas quais aparece a [[lexico:e:expressao:start|expressão]] “o tal” ou a expressão “um tal”, não uma definição da própria expressão isolada. Esta advertência é necessária, sobretudo no caso das expressões definidas; com [[lexico:e:efeito:start|efeito]], toda [[lexico:a:a-gente:start|a gente]] estará de [[lexico:a:acordo:start|acordo]] em que uma expressão tal como “um cão não é nenhum [[lexico:o:objeto:start|objeto]] definido que possa definir-se por [[lexico:s:si-mesmo:start|si mesmo]], em contrapartida, há pensadores para os quais uma expressão como “o cão” pode definir-se isoladamente. Isto é, na [[lexico:o:opiniao:start|opinião]] de Russell, um [[lexico:e:erro:start|erro]] grave, devido ao [[lexico:f:fato:start|fato]] de se esquecer a [[lexico:d:diferenca:start|diferença]] entre um [[lexico:n:nome:start|nome]] e uma descrição definida. Pelo que atrás se apontou, já se pode [[lexico:c:compreender:start|compreender]] que as descrições (que entenderemos desde [[lexico:a:agora:start|agora]] como definidas ou não ambíguas) são expressões que se iniciam com o artigo o (ou a). Assim, por [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]], “o rei da Suécia “, “o autor do [[lexico:d:dom:start|dom]] Quixote”são descrições. Cada uma dessas expressões pretende designar uma [[lexico:e:entidade:start|entidade]]. Assim, “o rei da Suécia” pretende designar o rei da Suécia. “o autor do Dom Quixote” pretende designar o autor do Dom Quixote, etc. Se considerarmos agora enunciados onde aparecem descrições como as anteriores, verificamos que uns enunciados são verdadeiros e outros falsos. A teoria das descrições tem de estabelecer certas condições que permitam [[lexico:v:ver:start|ver]] se um [[lexico:e:enunciado:start|enunciado]] onde aparece uma descrição é [[lexico:v:verdadeiro:start|verdadeiro]] ou [[lexico:f:falso:start|falso]]. Estas condições são: a) deve haver, pelo menos, um tal; b) deve haver, em [[lexico:s:suma:start|suma]], um tal; c) o tal em [[lexico:q:questao:start|questão]] deve ser tal e qual. A introdução de descrições é importante porque elimina os nomes próprios e aclara a [[lexico:n:nocao:start|noção]] de [[lexico:e:existencia:start|existência]]. Uma descrição definida e um nome [[lexico:p:proprio:start|próprio]] não são a mesma coisa; a descrição não é um simples [[lexico:s:simbolo:start|símbolo]], enquanto o nome o é. Por este [[lexico:m:motivo:start|motivo]], uma expressão como “Cervantes é o autor do Dom Quixote” não é a mesma coisa que uma expressão como “Cervantes é Cervantes”. Mas enquanto podemos perguntar por exemplo, se Cervantes existiu, não podemos perguntar se “Cervantes é um nome. Ao eliminar o nome próprio e ao substituí-lo pela descrição, não é [[lexico:p:possivel:start|possível]] formular questões acerca da existência. Daí que Russell conclua que “só pode ser afirmada significativamente a existência de descrições.” [[lexico:e:esse:start|esse]] [[lexico:t:termo:start|termo]] foi introduzido pelos estoicos, pois a sua noção permanecera estranha a [[lexico:a:aristoteles:start|Aristóteles]]. Segundo os estoicos, a descrição é "um [[lexico:d:discurso:start|discurso]] que conduz à coisa através de suas marcas" (D.L., VII, 1, 60). Isso estabelece a diferença entre descrição e definição, pois enquanto esta declara a [[lexico:e:essencia:start|essência]], que é [[lexico:u:universal:start|universal]], a descrição conduz à coisa [[lexico:s:singular:start|singular]], faz [[lexico:r:referencia:start|referência]] à [[lexico:i:individualidade:start|individualidade]] da coisa, àquilo que a distingue das outras. A partir de [[lexico:b:boecio:start|Boécio]] (De differentiis topicis, II, P. L., 64s, col. 1187), a descrição começou a ser caracterizada, em [[lexico:r:relacao:start|relação]] à definição, pelo [[lexico:u:uso:start|uso]] de caracteres acidentais, muito comum nela. Os lógicos medievais extraíram seu [[lexico:c:conceito:start|conceito]] de Dialectica (cap. 14) de João Damasceno (séc. VTII): "A descrição compõe-se de acidentes, de caracteres próprios e acidentais, como p. ex.: o [[lexico:h:homem:start|homem]] é capaz de rir, anda ereto e tem unhas largas. Esse é o conceito que também se repete em Lógica de [[lexico:p:pedro-hispano:start|Pedro Hispano]]: "A descrição é o discurso que significa [[lexico:o:o-que-e:start|o que é]] o ser de uma coisa mediante caracteres acidentais" (Summ. log., 5. 12). Ockham dizia no mesmo [[lexico:s:sentido:start|sentido]]: "A descrição é um discurso sucinto [[lexico:c:composto:start|composto]] de caracteres acidentais e próprios" (Summa log., I, 27); definição quase idêntica era aceita e difundida pela Lógica de [[lexico:p:port-royal:start|Port-Royal]] (II, 16) e por Jungius (Logica hamburgensís, I, 1, 48). Dessa doutrina tradicional a lógica contemporânea aceita só o [[lexico:s:significado:start|significado]] [[lexico:g:geral:start|geral]], isto é, o [[lexico:r:reconhecimento:start|reconhecimento]] do [[lexico:c:carater:start|caráter]] individualizante da descrição. Mas choca-se com a dificuldade representada pelo fato de a descrição ser constituída por proposições que têm sentido (no sentido de Frege), [[lexico:c:conotacao:start|conotação]], mas não significado, de-notação, que consiste na referência a um objeto existente. Frases como "O autor da Divina [[lexico:c:comedia:start|Comédia]] era italiano", "O [[lexico:a:atual:start|atual]] rei da França é careca", "Pégaso era o cavalo alado capturado por Belerofonte" não parecem fazer nenhuma referência a qualquer objeto ou entidade, ou seja, não denotam [[lexico:n:nada:start|nada]]; as duas últimas, aliás, descrevem objetos inexistentes, quais sejam, "o atual rei da França" e "Pégaso". Para evitar esse inconveniente, Russell (On Denoting, 1905, agora em Logic and Knowledge, 1956, p. 39 ss.; [[lexico:p:principia-mathematica:start|Principia Mathematica]], I, p. 36) propôs interpretar essas frases descritivas como se dissessem: "Há uma entidade x que é o autor da Divina Comédia e é italiano", "Há uma entidade xque agora é rei da França e é careca", "Há uma entidade x que é um cavalo alado e foi capturado por Belerofonte". Desse [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de vista, para ser verdadeira a [[lexico:n:negacao:start|negação]] de uma das frases descritivas acima (p. ex., "O atual rei da França não é careca") deveria significar "É falso que há uma entidade que agora é rei da França e é careca", o que parece nada [[lexico:t:ter:start|ter]] a ver com o sentido da [[lexico:f:frase:start|frase]]. Frege admitira que toda expressão acabada deve pressupor a referência a um objeto, ou seja, um denotado, mas considerara possível que na [[lexico:l:linguagem:start|linguagem]] comum, assim como na linguagem matemática, existam expressões que têm apenas sentido e não significado, que são indeterminadas em termos de significado (Über Sinn und Bedeutung, 1892, em [[lexico:a:aritmetica:start|Aritmética]] e lógica, p. 327), e Carnap aceitou substancialmente esse ponto de vista (Meaning and Necessity, 1957, §§ 7-8). Quine, por [[lexico:o:outro:start|outro]] lado, aceitou a [[lexico:i:interpretacao:start|interpretação]] de Russel, mesmo admitindo que o [[lexico:c:compromisso:start|compromisso]] [[lexico:o:ontologico:start|ontológico]] expresso pela frase "Há [[lexico:a:alguma-coisa:start|alguma coisa]] que..." não faz referência necessária ao [[lexico:m:mundo:start|mundo]] da [[lexico:e:experiencia:start|experiência]], mas pode também referir-se a formas de existência mental ou mítica (From a Logical Point of View, cap. I). Nesses termos, o [[lexico:p:problema:start|problema]] da descrição tem conexões estreitas com o da [[lexico:n:natureza:start|natureza]] do significado. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}