===== DAIMONION ===== vide [[lexico:d:daimon|daimon]] **O "daimonion" [[lexico:s:socratico|socrático]]** Entre as acusações contra [[lexico:s:socrates|Sócrates]] estava também a de que era culpado "de introduzir novos daimonia", novas entidades divinas. Em sua [[lexico:a:apologia|apologia]], Sócrates diz o seguinte a propósito da [[lexico:q:questao|questão]]: "A [[lexico:r:razao|razão]] (...) é aquela que muitas vezes e em diversas circunstâncias ouvistes dizer, ou seja, que em mim se verifica algo de [[lexico:d:divino|divino]] e [[lexico:d:demoniaco|demoníaco]], precisamente aquilo que Melito (o acusador), jocosamente, escreveu no seu [[lexico:a:ato|ato]] de acusação: é como uma [[lexico:v:voz|voz]] que se faz ouvir dentro de mim desde quando era menino e que, quando se faz ouvir, sempre me detém de fazer aquilo que estou a [[lexico:p:ponto|ponto]] de fazer, mas que nunca me exorta a fazer." Portanto, o daimonion socrático era "uma voz divina" que lhe vetava determinadas [[lexico:c:coisas|coisas]]: ele o interpretava como uma [[lexico:e:especie|espécie]] de sortilégio, que o salvou várias vezes dos perigos ou de experiências negativas. Os estudiosos ficaram muito perplexo diante desse daimonion. E as exegeses que dele foram propostas são as mais díspares. Alguns pensaram que Sócrates estivesse ironizando, outros falaram de voz da [[lexico:c:consciencia|consciência]], outros do [[lexico:s:sentimento|sentimento]] que perpassa o [[lexico:g:genio|gênio]]. E até se poderia incomodar a [[lexico:p:psiquiatria|psiquiatria]] para entender a "voz divina" como [[lexico:f:fato|fato]] [[lexico:p:patologico|patológico]] ou então chamar à cena as [[lexico:c:categorias|categorias]] da [[lexico:p:psicanalise|psicanálise]]. Mas é claro que, assim fazendo, estamos caindo no arbítrio. Se quisermos nos limitar aos fatos, devemos [[lexico:r:raciocinar|raciocinar]] como segue. Em primeiro [[lexico:l:lugar|lugar]], deve-se destacar que o daimonion [[lexico:n:nao|não]] tem [[lexico:n:nada|nada]] a [[lexico:v:ver|ver]] com o [[lexico:c:campo|campo]] das verdades filosóficas. Com [[lexico:e:efeito|efeito]], a "voz divina" interior não revela em [[lexico:a:absoluto|absoluto]] a Sócrates a "[[lexico:s:sabedoria|sabedoria]] humana" de que ele é portador, nem qualquer das propostas gerais ou particulares de sua [[lexico:e:etica|ética]]. Para Sócrates, os [[lexico:p:principios|princípios]] filosóficos extraem sua [[lexico:v:validade|validade]] do [[lexico:l:logos|Logos]] e não da divina [[lexico:r:revelacao|revelação]]. Em segundo lugar, Sócrates não relacionou com o daimonion nem mesmo a sua opção [[lexico:m:moral|moral]] de fundo, que, no entanto, ele considera provir de uma [[lexico:o:ordem|ordem]] divina: "Cabe-me fazer isto (fazer [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] e exortar os homens a cuidarem da [[lexico:a:alma|alma]]) porque fui ordenado por [[lexico:d:deus|Deus]], com vaticínios e sonhos, em [[lexico:s:suma|suma]], com qualquer daqueles modos pelos quais a [[lexico:s:sorte|sorte]] divina ordena, por vezes, o [[lexico:h:homem|homem]] a fazer [[lexico:a:alguma-coisa|alguma coisa]]." Já o daimonion não lhe "ordenava", mas lhe "vetava". Excluídos os campos da filosofia e da opção ética de fundo, resta apenas o campo dos eventos e [[lexico:a:acoes|ações]] particulares. E é exatamente a [[lexico:e:esse|esse]] campo que se referem todos os textos à [[lexico:d:disposicao|disposição]] sobre o daimonion socrático. Trata-se, portanto, de um fato que diz [[lexico:r:respeito|respeito]] ao [[lexico:i:individuo|indivíduo]] Sócrates e aos acontecimentos particulares de sua [[lexico:e:existencia|existência]]: era um "[[lexico:s:sinal|sinal]]" que, como dissemos, o impedia de fazer coisas particulares que lhe teriam acarretado prejuízos. A [[lexico:c:coisa|coisa]] da qual o afastou mais firmemente foi a [[lexico:p:participacao|participação]] ativa na [[lexico:v:vida|vida]] [[lexico:p:politica|política]], sobre o que ele diz: "Vós o sabeis [[lexico:b:bem|Bem]], atenienses, que, se há tempos [[lexico:e:eu|eu]] me houvesse metido a ocupar-me dos negócios do [[lexico:e:estado|Estado]] (coisa da qual o [[lexico:d:demonio|demônio]] me afasta), há tempos eu já estaria morto e não teria feito nada de [[lexico:u:util|útil]], nem para vós nem para mim." Em suma, o daimonion é algo que diz respeito à excepcional [[lexico:p:personalidade|personalidade]] de Sócrates, devendo [[lexico:s:ser|ser]] colocado no mesmo [[lexico:p:plano|plano]] de certos momentos de concentração muito intensa, bastante próximos aos arrebatamentos de [[lexico:e:extase|êxtase]] em que Sócrates mergulhava algumas vezes e que duravam longamente, coisa da qual nossas fontes falam expressamente. Portanto, o daimonion não deve ser relacionado com o [[lexico:p:pensamento|pensamento]] e a filosofia de Sócrates: ele [[lexico:p:proprio|próprio]] manteve as duas coisas distintas e separadas—e o mesmo deve fazer o [[lexico:i:interprete|intérprete]].