===== CULTURA ===== [[lexico:f:formacao:start|formação]] [[lexico:s:social:start|social]] e intelectual de um [[lexico:i:individuo:start|indivíduo]] (cultura tem a mesma [[lexico:r:raiz:start|raiz]] de [[lexico:c:culto:start|culto]] e implica um [[lexico:r:respeito:start|respeito]] [[lexico:r:religioso:start|religioso]] da [[lexico:t:tradicao:start|tradição]]). [[lexico:f:forma:start|forma]] de [[lexico:c:civilizacao:start|civilização]]: "uma cultura". — Distinguem-se diversos tipos de cultura, no [[lexico:s:sentido:start|sentido]] de que cada [[lexico:s:sociedade:start|sociedade]] possui instituições particulares que exprimem, em [[lexico:g:geral:start|geral]], seu passado espiritual. Porém a [[lexico:n:nocao:start|noção]] de cultura conserva sempre sentido [[lexico:n:normativo:start|normativo]] e é sinônimo de [[lexico:h:humanismo:start|humanismo]]: [[lexico:n:nao:start|não]] se [[lexico:f:fala:start|fala]] de cultura bárbara (cultura antropófaga, ou cultura militar, fundada sobre a [[lexico:v:violencia:start|violência]]), mas de cultura indiana, ou chinesa, expressa tanto nos seus [[lexico:c:costumes:start|costumes]] civilizados quanto no seu acervo cultural propriamente [[lexico:d:dito:start|dito]] ([[lexico:l:literatura:start|literatura]], [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]], [[lexico:c:ciencia:start|ciência]]). [V. civilização.] Este [[lexico:t:termo:start|termo]], derivado do latim colere = cultivar, significa originariamente (1) o cuidado e aperfeiçoamento das aptidões propriamente humanas para [[lexico:a:alem:start|além]] do mero [[lexico:e:estado:start|Estado]] [[lexico:n:natural:start|natural]] (cultura como formação do [[lexico:e:espirito:start|espírito]]). A [[lexico:a:antiguidade:start|antiguidade]] e a Idade Média serviam-se, para exprimir esta [[lexico:i:ideia:start|ideia]], dos termos humanitas, civilitas. Nos séculos XVII e XVIII, o [[lexico:c:conceito:start|conceito]] ampliou-se. Então, entendia-se também por cultura (2) aquilo que o [[lexico:h:homem:start|homem]] acrescenta à [[lexico:n:natureza:start|natureza]], quer em [[lexico:s:si-mesmo:start|si mesmo]], quer noutros objetos (cultura como [[lexico:s:suma:start|suma]] de [[lexico:b:bens:start|bens]] culturais). Enquanto, segundo isto, natureza significa [[lexico:o:o-que-e:start|o que é]] [[lexico:i:inato:start|inato]] ao homem e, também o que existe fora deles em sua intervenção, a cultura abarca tudo quanto deve sua [[lexico:o:origem:start|origem]] à intervenção cônscia e livre do homem. Contudo, tanto a origem como o [[lexico:f:fim:start|fim]] encadeiam entre si natureza e cultura. Uma vez que a [[lexico:c:capacidade:start|capacidade]] humana criadora da cultura, embora possa aperfeiçoar-se ulteriormente, radica originariamente na natureza, a cultura é inata. A cultura encontra igualmente seu [[lexico:v:verdadeiro:start|verdadeiro]] fim no aperfeiçoamento da natureza do homem. A direção e [[lexico:m:medida:start|medida]] da [[lexico:a:atividade:start|atividade]] criadora da cultura são essencialmente determinadas por ela, Um [[lexico:d:desenvolvimento:start|desenvolvimento]] da cultura, orientado contra a [[lexico:e:essencia:start|essência]] do homem, não é verdadeira cultura, mas pseudo-cultura. Consoante a atuação cultural se endereça imediatamente à [[lexico:p:pessoa:start|pessoa]] do homem e à sua [[lexico:p:perfeicao:start|perfeição]] ou primariamente a objetos que subsistem independentes do homem, distinguimos cultura [[lexico:p:pessoal:start|pessoal]] ([[lexico:l:lingua:start|língua]], [[lexico:v:vida:start|vida]] social, ciência, [[lexico:m:moralidade:start|moralidade]], [[lexico:r:religiao:start|religião]], etc.) e cultura objetiva, [[lexico:r:real:start|real]] (de res = [[lexico:c:coisa:start|coisa]]) ([[lexico:t:tecnica:start|técnica]], [[lexico:a:arte:start|arte]]). Não obstante, as mais das [[lexico:a:atividades:start|atividades]] culturais distribuem-se por ambos os domínios. Enquanto a cultura em sentido lato inclui a religião e a moralidade, em sentido [[lexico:e:estrito:start|estrito]] (3) contrapõe-se a ambas, designando neste caso a [[lexico:c:criacao:start|criação]] cultura dirigida a objetivos intra-mundanos. A cultura meramente [[lexico:e:exterior:start|exterior]] e material denomina-se (na [[lexico:a:area:start|área]] [[lexico:l:linguistica:start|linguística]] alemã) civilização. Sua missão é servir de base e de [[lexico:p:pressuposicao:start|pressuposição]] à cultura interior. Na medida em que for estimulada a expensas desta, não passa de semi-cultura e é verdadeiramente hostil à cultura. Só os bens exteriores objetivos da cultura podem [[lexico:s:ser:start|ser]] transmitidos por herança. Os bens ideais e pessoais da mesma devem ser adquiridos de novo por cada [[lexico:g:geracao:start|geração]] ([[lexico:p:pedagogia:start|pedagogia]]). A [[lexico:p:posse:start|posse]] da cultura só se conserva pelo [[lexico:t:trabalho:start|trabalho]] cultural. A cultura nasce somente pela colaboração de muitos na [[lexico:c:comunidade:start|comunidade]] humana. Das contribuições culturais dos diversos povos origina-se uma cultura da [[lexico:h:humanidade:start|humanidade]] condicionada em sua [[lexico:p:possibilidade:start|possibilidade]] pela capacidade de [[lexico:f:falar:start|falar]], comum a todas as raças. Um mínimo de cultura é vitalmente [[lexico:n:necessario:start|necessário]] para o homem. (in. Culture; fr. Culture; al. Kultur; it. Cultura). [[lexico:e:esse:start|esse]] termo tem dois significados básicos. No primeiro e mais antigo, significa a formação do homem, sua melhoria e seu refinamento. F. [[lexico:b:bacon:start|Bacon]] considerava a cultura nesse sentido como "a geórgica do espírito" (De augm. scient., VII, 1), esclarecendo assim a origem metafórica desse termo. No segundo [[lexico:s:significado:start|significado]], indica o [[lexico:p:produto:start|produto]] dessa formação, ou seja, o conjunto dos modos de [[lexico:v:viver:start|viver]] e de [[lexico:p:pensar:start|pensar]] cultivados, civilizados, polidos, que também costumam ser indicados pelo [[lexico:n:nome:start|nome]] de civilização. A passagem do primeiro para o segundo significado ocorreu no séc. XVIII por [[lexico:o:obra:start|obra]] da filosofia iluminista, o que se [[lexico:n:nota:start|nota]] [[lexico:b:bem:start|Bem]] neste trecho de [[lexico:k:kant:start|Kant]]: "Num ser [[lexico:r:racional:start|racional]], cultura é a capacidade de escolher seus fins em geral (e portanto de ser livre). Por isso, só a cultura pode ser o fim [[lexico:u:ultimo:start|último]] que a natureza tem condições de apresentar ao [[lexico:g:genero:start|gênero]] [[lexico:h:humano:start|humano]]" (Crít. do [[lexico:j:juizo:start|Juízo]], § 83). Como "fim", a cultura é produto (mais que produzir-se) da "geórgica da [[lexico:a:alma:start|alma]]". No mesmo sentido, [[lexico:h:hegel:start|Hegel]] dizia: "Um [[lexico:p:povo:start|povo]] faz progressos em si, tem seu desenvolvimento e seu crepúsculo. O que se encontra aqui, sobretudo, é a [[lexico:c:categoria:start|categoria]] da cultura, de sua exageração e de sua degeneração: para um povo, esta última é produto ou [[lexico:f:fonte:start|fonte]] de ruína" (Phil. der Geschicbte, ed. Lasson, p. 43). 1. No significado [[lexico:r:referente:start|referente]] à formação da pessoa humana individual, essa [[lexico:p:palavra:start|palavra]] corresponde ainda hoje ao que os gregos chamavam [[lexico:p:paideia:start|paideia]] e que os latinos, na [[lexico:e:epoca:start|época]] de Cícero e Varrão, indicavam com a palavra humanitas, [[lexico:e:educacao:start|educação]] do homem como tal, ou seja, educação devida às "boas artes" peculiares do homem, que o distinguem de todos os outros animais (Aulo Gélio, Noct. Att., XIII, 17). As boas artes eram a [[lexico:p:poesia:start|poesia]], a eloquência, a filosofia etc, às quais se atribuía [[lexico:v:valor:start|valor]] [[lexico:e:essencial:start|essencial]] para aquilo que o homem é e deve ser, portanto para a capacidade de formar o homem verdadeiro, o homem na sua forma genuína e perfeita. Para os gregos, a cultura nesse sentido foi a busca e a realização que o homem faz de si, isto é, da verdadeira [[lexico:n:natureza-humana:start|natureza humana]]. E teve dois [[lexico:c:caracteres:start|caracteres]] constitutivos: 1o estreita conexão com a filosofia, na qual se incluíam todas as formas da [[lexico:i:investigacao:start|investigação]]; 2o estreita conexão com a vida social. Em primeiro [[lexico:l:lugar:start|lugar]], para os gregos, o homem só podia realizar-se como tal através do [[lexico:c:conhecimento-de-si-mesmo:start|conhecimento de si mesmo]] e de seu [[lexico:m:mundo:start|mundo]], portanto mediante a busca da [[lexico:v:verdade:start|verdade]] em todos os domínios que lhe dissessem respeito. Em segundo lugar, o homem só podia realizar-se como tal na vida em comunidade, na. polis-, a [[lexico:r:republica:start|República]] de [[lexico:p:platao:start|Platão]] é a [[lexico:e:expressao:start|expressão]] [[lexico:m:maxima:start|máxima]] da estreita ligação que os gregos estabeleciam entre a formação dos indivíduos e a vida da comunidade; e a [[lexico:a:afirmacao:start|afirmação]] de [[lexico:a:aristoteles:start|Aristóteles]] de que o homem é por natureza um [[lexico:a:animal:start|animal]] [[lexico:p:politico:start|político]] tem o mesmo significado. Mas num e noutro [[lexico:a:aspecto:start|aspecto]], a natureza humana de que se fala não é um [[lexico:d:dado:start|dado]], um [[lexico:f:fato:start|fato]], uma [[lexico:r:realidade:start|realidade]] empírica ou material já existente, independentemente do [[lexico:e:esforco:start|esforço]] de realização que é a cultura. Só existe como fim ou termo do [[lexico:p:processo:start|processo]] de formação cultural; é, em outros termos, uma realidade [[lexico:s:superior:start|superior]] às [[lexico:c:coisas:start|coisas]] ou aos fatos, é uma ideia no sentido platônico, um [[lexico:i:ideal:start|ideal]], uma forma que os homens devem procurar realizar e encarnar em si mesmos. Esse conceito [[lexico:c:classico:start|clássico]] de cultura como processo de formação especificamente humana evidentemente excluía qualquer atividade infra-humana ou ultra-humana. Excluía, em primeiro lugar, as atividades utilitárias: artes, ofícios e, em geral, o trabalho manual que se indicava depreciativamente pelo termo [[lexico:b:banausia:start|banausia]], que cabia ao [[lexico:e:escravo:start|escravo]] ("[[lexico:i:instrumento:start|instrumento]] animado") porque não distinguia o homem do animal, que também age no sentido de obter seu alimento e satisfazer às outras necessidades. Excluía também qualquer atividade ultra-humana, que não estivesse voltada para a realização do homem no mundo, mas para um [[lexico:d:destino:start|destino]] ultraterreno. Pelo primeiro aspecto, o ideal clássico de cultura foi aristocrática, pelo segundo, foi naturalista; por ambos, foi contemplativo e viu na "vida teórica", inteiramente dedicada à busca da [[lexico:s:sabedoria:start|sabedoria]] superior, o fim último da cultura. Na Idade Média esse conceito foi parcialmente conservado e modificado: manteve-se o [[lexico:c:carater:start|caráter]] aristocrático e contemplativo, mas transformou-se radicalmente seu caráter naturalista. As artes do Trívio ([[lexico:g:gramatica:start|gramática]], [[lexico:r:retorica:start|retórica]], [[lexico:d:dialetica:start|dialética]]) e do [[lexico:q:quadrivio:start|Quadrívio]] ([[lexico:a:aritmetica:start|aritmética]], [[lexico:g:geometria:start|geometria]], [[lexico:a:astronomia:start|astronomia]], [[lexico:m:musica:start|música]]), que ainda eram chamadas de "liberais" (segundo o conceito [[lexico:g:grego:start|grego]], as únicas dignas dos homens livres), constituíam a base e o preâmbulo da cultura medieval, cujo [[lexico:o:objetivo:start|objetivo]] foi, porém, a preparação do homem para os deveres religiosos e para a vida ultraterrena. O instrumento principal dessa preparação foi a filosofia, à qual se atribuiu a [[lexico:f:funcao:start|função]] específica de tornar acessíveis ao homem as verdades reveladas pela religião, de fazê-lo [[lexico:c:compreender:start|compreender]] essas verdades na medida de suas possibilidades intelectuais, de fornecer-lhe as armas para a defesa dessas verdades contra as tentações da heresia e da descrença. Assim, a filosofia acabou exercendo função eminente na cultura medieval, mas bem diferente da que exercera no mundo grego: deixou de ser o [[lexico:c:complexo:start|complexo]] de investigações autônomas que o homem organiza e [[lexico:d:disciplina:start|disciplina]] com os instrumentos naturais de que dispõe (sentidos e [[lexico:i:inteligencia:start|inteligência]]) para [[lexico:t:ter:start|ter]] valor subalterno e instrumental ([[lexico:p:philosophia:start|philosophia]] [[lexico:a:ancilla-theologiae:start|ancilla theologiae]]), para a [[lexico:c:compreensao:start|compreensão]], a defesa e, sempre que [[lexico:p:possivel:start|possível]], a [[lexico:d:demonstracao:start|demonstração]] da verdade religiosa. Só mais [[lexico:t:tarde:start|Tarde]], a partir do séc. XII, começou a reivindicar, ao lado dessa função instrumental, um [[lexico:c:campo:start|campo]] [[lexico:p:proprio:start|próprio]] e específico de investigação, se bem que, também este, submetido às regras da [[lexico:f:fe:start|fé]]. Contudo permaneceram na Idade Média o caráter aristocrático e o caráter contemplativo, típicos do ideal clássico: este último, aliás, acentuou-se e estendeu-se como preparação e prenuncio da [[lexico:c:contemplacao:start|contemplação]] beatífica da alma que se alçou à pátria celeste. O [[lexico:r:renascimento:start|Renascimento]], na tentativa de redescobrir o significado genuíno do ideal clássico de cultura, quis restabelecer seu caráter naturalista: concebeu a cultura como formação do homem em seu mundo, como a formação que permite ao homem viver da forma melhor e mais perfeita no mundo que é seu. A própria religião, segundo esse [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de vista, é [[lexico:e:elemento:start|elemento]] integrante da cultura não porque prepare para outra vida, mas porque ensina a viver bem nesta. O Renascimento, além disso, modificou o caráter contemplativo do ideal clássico, insistindo no caráter ativo da "sabedoria" humana. Pico delia Mirandola e Carlos Bovillo insistiram no conceito de que é através da sabedoria que o homem chega à realização completa e torna-se um [[lexico:m:microcosmo:start|microcosmo]] no qual o próprio [[lexico:m:macrocosmo:start|macrocosmo]] encontra a perfeição. "O sapiente", diz Bovillo (De sapiente, 8), "conquista-se, toma posse e continua na posse de si mesmo, ao passo que o insipiente permanece devedor da natureza, oprimido pelo homem [[lexico:s:substancial:start|substancial]] e jamais pertence a si mesmo." Desse ponto de vista, a [[lexico:v:vida-ativa:start|vida ativa]] já não é estranha ao ideal de cultura; com a vida ativa, o trabalho passa a fazer [[lexico:p:parte:start|parte]] desse ideal, sendo, pois, resgatado de seu caráter puramente utilitário e servil. O Renascimento, contudo, manteve o caráter aristocrático da cultura: ela é "[[lexico:s:sapiencia:start|sapiência]]" e, como tal, reservada a poucos: o sapiente destaca-se do restante da humanidade, tem seu próprio [[lexico:s:status:start|status]] metafísico e [[lexico:m:moral:start|moral]], diferente dos outros homens. A primeira tentativa de eliminar o caráter aristocrático da cultura coube ao [[lexico:i:iluminismo:start|Iluminismo]]. Este teve dois aspectos essenciais: em primeiro lugar, procurou estender a [[lexico:c:critica:start|crítica]] racional a todos os objetos possíveis de investigação e considerou, portanto, como [[lexico:e:erro:start|erro]] ou preconceito tudo o que não passasse pelo crivo dessa crítica. Em segundo lugar, propôs-se a difusão máxima da cultura, que deixou de ser considerada patrimônio dos doutos para ser instrumento de renovação da vida social e individual. A [[lexico:e:enciclopedia:start|Enciclopédia]] francesa foi a maior, expressão dessa segunda [[lexico:t:tendencia:start|tendência]], mas foi somente um dos meios pelos quais o Iluminismo procurou difundir a cultura entre todos os homens e torná-la [[lexico:u:universal:start|universal]]. Esse ideal de universalidade da cultura permaneceu, caracterizando, até nossos dias, um aspecto essencial da cultura, não obstante á poderosa [[lexico:i:influencia:start|influência]] do [[lexico:r:romantismo:start|Romantismo]]; este, por seu caráter reacionário e antiliberal, procurou de várias formas retornar ao conceito aristocrático de cultura. Entretanto, domínio da cultura alargava-se: as novas disciplinas científicas que se formavam e adquiriam [[lexico:a:autonomia:start|autonomia]] mostravam-se ipso facto como novos [[lexico:e:elementos:start|elementos]] constitutivos do ideal de cultura, elementos indispensáveis para a formação de uma vida humana equilibrada e rica. "Ser culto" já não significava dominar apenas as artes liberais da tradição clássica, mas conhecer em certa medida a [[lexico:m:matematica:start|matemática]], a [[lexico:f:fisica:start|física]], as ciências naturais, além das disciplinas históricas e filológicas que haviam formado. O conceito de cultura começou então a significar "enciclopedismo", isto é, [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]] geral e sumário de todos os domínios do [[lexico:s:saber:start|saber]]. A partir do início deste século percebeu-se a insuficiência desse ideal enciclopedista, que, no entanto, era fruto da multiplicação e da [[lexico:e:especificacao:start|especificação]] dos campos de [[lexico:p:pesquisa:start|pesquisa]] e de suas respectivas disciplinas. Em 1908, [[lexico:c:croce:start|Croce]] lamentava que nos cinquenta anos anteriores houvesse prevalecido "o [[lexico:t:tipo:start|tipo]] do homem que tem não poucos conhecimentos, mas não tem conhecimento, que fica limitado a pequeno [[lexico:c:circulo:start|círculo]] de fatos ou se perde em [[lexico:m:meio:start|meio]] a fatos dos í mais variados tipos, e que, assim limitado ou perdido, continua [[lexico:p:privado:start|privado]] de uma diretriz ou, [[lexico:c:como-se:start|como se]] diz, de uma fé". Croce porém, achava que esse [[lexico:m:mal:start|mal]] não era devido à especificação das disciplinas, mas ao predomínio do [[lexico:p:positivismo:start|positivismo]], que privilegiara a cultura "naturalista e matemática". E propunha como solução uma cultura que fosse "harmoniosa cooperação entre Filosofia e [[lexico:h:historia:start|História]], entendidas no seu significado amplo e verdadeiro". Mas essa solução era sugerida pelo espírito [[lexico:p:polemico:start|polêmico]] antipositivista e . pela [[lexico:o:orientacao:start|orientação]] [[lexico:t:tipica:start|típica]] da filosofia crociana, na qual a cultura científica e o próprio [[lexico:e:espirito-cientifico:start|espírito científico]] não encontram lugar. Na realidade, o [[lexico:p:problema:start|problema]] da cultura agravou-se ainda mais nos cinquenta anos transcorridos após o diagnóstico de Croce. Não só o processo de multiplicação e especificação das correntes de pesquisa e, portanto, das disciplinas (naturalistas e não-naturalistas) ampliou-se até assumir proporções gigantescas, como também a crescente industrialização do mundo contemporâneo torna indispensável a formação de competências específicas, possíveis apenas por meio de treinamento especializado, que confina o indivíduo num campo extremamente restrito de atividade e [[lexico:e:estudo:start|estudo]]. O que a sociedade mais exige de cada um dos seus membros é o desempenho na [[lexico:t:tarefa:start|tarefa]] ou na função que lhe foi confiada; e o desempenho não depende tanto da posse de uma cultura geral desinteressada quanto de conhecimentos específicos e aprofundados em algum ramo particularíssimo de determinada disciplina. Ora, essa [[lexico:s:situacao:start|situação]], determinada por condições histórico-sociais cuja [[lexico:m:mudanca:start|mudança]] ou cujo fim não é possível prever, não pode ser ignorada ou "minimizada por aqueles que se ocupam do problema da cultura. Portanto, é perfeitamente inútil erigir-se, com espírito profético, contra ela, contrapondo-lhe o ideal clássico de cultura em sua pureza e perfeição, como formação desinteressada do homem aristocrático para a [[lexico:v:vida-contemplativa:start|vida contemplativa]]. Por [[lexico:o:outro:start|outro]] lado, também seria inútil ignorar ou minimizar os defeitos gravíssimos de uma cultura reduzida a [[lexico:p:puro:start|puro]] treinamento técnico em determinado campo e restringida ao [[lexico:u:uso:start|uso]] profissional de conhecimentos utilitários. É óbvio que dificilmente uma coisa dessas poderia ser chamada de "cultura", porque esta palavra designa, como se viu, um ideal de formação humana completa, a realização do homem em sua forma autêntica ou em sua natureza humana. Competências específicas, habilidades particulares, destreza e [[lexico:p:precisao:start|precisão]] no uso dos instrumentos, materiais ou conceituais, são coisas úteis, aliás indispensáveis, à vida do homem em sociedade e da sociedade no seu conjunto, mas não podem, nem de longe, substituir a cultura entendida como formação equilibrada e harmônica do homem como tal. E, de fato, a [[lexico:e:experiencia:start|experiência]] revela todos os dias os inconvenientes gravíssimos da educação incompleta e especializada, sobretudo nos países onde, por fortes exigências sociais, ela foi levada mais a fundo. O primeiro inconveniente é o permanente desequilíbrio da [[lexico:p:personalidade:start|personalidade]], que pende para uma única direção e fica centrada em torno de poucos interesses, tornando-se incapaz de enfrentar situações ou problemas que se situem um pouco além desses interesses. Esse desequilíbrio, já gravíssimo do ponto de vista individual (pode produzir, como de fato muitas vezes produz, em certos limites, diversas formas de neuroses), também é grave do ponto de vista social, pois impede ou limita muito a [[lexico:c:comunicacao:start|comunicação]] entre os homens, fecha cada um em seu próprio mundo restrito, sem [[lexico:i:interesse:start|interesse]] nem [[lexico:t:tolerancia:start|tolerância]] por aqueles que estão fora dele. O segundo inconveniente é que ele não dá armas para enfrentar as exigências que nascem da própria especialização das disciplinas. De fato, quanto mais a fundo é levada essa especialização, tanto mais numerosos se tornam os problemas que surgem nos pontos de contato ou de intersecção entre disciplinas diferentes; e esses problemas não podem ser enfrentados no domínio de uma só delas e apenas com os instrumentos que ela oferece. Em outros termos, a própria especialização, que é por certo uma exigência imprescindível do mundo [[lexico:m:moderno:start|moderno]], requer, em certa altura de seu desenvolvimento, encontros e colaboração entre disciplinas especializadas diversas: encontros e colaboração que vão muito além das competências específicas e exigem capacidade de comparação e de [[lexico:s:sintese:start|síntese]], que a especialização não oferece. Certamente, esses inconvenientes e problemas não têm a mesma gravidade em todos os países. Em geral, pode-se dizer que onde o desenvolvimento industrial e econômico foi mais rápido esses problemas são mais agudos. Mas mesmo onde isso não ocorreu, esses problemas acabam surgindo mais cedo ou mais tarde (previsivelmente, mais cedo do que tarde) com a mesma gravidade, no [[lexico:m:momento:start|momento]] em que, devido às crescentes exigências do desenvolvimento científico e industrial, a especialização alcançar um estágio adiantado. De qualquer forma, o problema fundamental da cultura contemporânea é sempre o mesmo: conciliar as exigências da especialização (inseparáveis do desenvolvimento maduro das atividades culturais) com a exigência de formação humana, total ou, pelo menos, suficientemente equilibrada. É para tentar solucionar esse problema que hoje se discute a noção de "cultura geral", que deveria acompanhar todos os graus e formas de educação, até a mais especializada. Mas está claro que a solução do problema será apenas [[lexico:a:aparente:start|aparente]] enquanto não se tiver uma ideia clara do que é "cultura geral". Não se trata, obviamente, de contrapor um [[lexico:g:grupo:start|grupo]] de disciplinas a outro e de impor, p. ex., as disciplinas históricas ou humanísticas como "cultura geral", em [[lexico:o:oposicao:start|oposição]] à especialização das disciplinas "naturalistas". Isso seria impróprio principalmente porque mesmo as disciplinas chamadas "[[lexico:h:humanistas:start|humanistas]]" não escapam à premência da especialização e também exigem treinamento especializado para serem entendidas e proficuamente cultivadas. Também é óbvio que a cultura geral não pode ser constituída por noções vazias e superficiais, que não suscitariam interesse e, portanto, não contribuiriam para enriquecer a personalidade do indivíduo e sua capacidade de comunicar-se com os outros. Contudo, é possível indicar de maneira aproximada as características de uma cultura geral que, como a clássica paideia, esteja preocupada com a formação total e autêntica do homem. Em primeiro lugar, é uma cultura "aberta", ou seja, não fecha o homem num âmbito estreito e circunscrito de [[lexico:i:ideias:start|ideias]] e crenças. O homem "culto" é, em primeiro lugar, o homem de espírito [[lexico:a:aberto:start|aberto]] e livre, que sabe entender as ideias e as crenças alheias ainda que não possa aceitá-las ou reconhecer sua [[lexico:v:validade:start|validade]]. Em segundo lugar, e por [[lexico:c:consequencia:start|consequência]], uma cultura viva e formativa deve [[lexico:e:estar:start|estar]] aberta para o [[lexico:f:futuro:start|futuro]], mas ancorada no passado. Nesse sentido, o homem culto é aquele que não se desarvora diante do novo nem foge dele, mas sabe considerá-lo em seu justo valor, vinculando-o ao passado e elucidando suas semelhanças e disparidades. Em [[lexico:t:terceiro:start|terceiro]] lugar, a cultura se funda na possibilidade de abstrações operacionais, isto é, na capacidade de efetuar escolhas ou abstrações que permitam confrontos, avaliações globais e, portanto, orientações de natureza relativamente estável. Em outros termos: não há cultura sem as ideias que comumente chamamos "ideias gerais", mas estas não devem nem podem ser impostas ou aceitas, arbitrária ou passivamente, pelo homem culto na forma de [[lexico:i:ideologias:start|ideologias]] institucionalizadas; devem poder formar-se de [[lexico:m:modo:start|modo]] autônomo, sendo continuamente co-mensuradas com as situações reais. É claro que, para a formação de uma cultura com essas características formais, são igualmente necessários o enfoque histórico-humanístico do passado e o espírito crítico e [[lexico:e:experimental:start|experimental]] da pesquisa científica, assim como é necessário o uso disciplinado e rigoroso das abstrações, próprio da filosofia, além da capacidade de formar projetos de vida a longo prazo, que também é fruto do espírito filosófico. Desse ponto de vista, o problema da cultura geral não se coloca como formulação de um curriculum de estudos [[lexico:u:unico:start|único]] para todos, que compreenda disciplinas de informação genérica, mas como o problema de encontrar, para cada grupo ou [[lexico:c:classe:start|classe]] de atividades especializadas, e a partir delas, um [[lexico:p:projeto:start|projeto]] de trabalho e de estudo coordenado com essas disciplinas ou que as complemente, que enriqueça os horizontes do indivíduo e mantenha ou reintegre o equilíbrio de sua personalidade. 2. No segundo significado, essa palavra hoje é especialmente usada por sociólogos e antropólogos para indicar o conjunto dos [[lexico:m:modos-de-vida:start|modos de vida]] criados, adquiridos e transmitidos de uma geração para a outra, entre os membros de determinada sociedade. Nesse significado, cultura não é a formação do indivíduo em sua humanidade, nem sua maturidade espiritual, mas é a formação coletiva e anônima de um grupo social nas instituições que o definem. Nesse sentido, esse termo talvez tenha sido usado pela primeira vez por [[lexico:s:spengler:start|Spengler]], que com ele entendeu "[[lexico:c:consciencia:start|consciência]] pessoal de uma [[lexico:n:nacao:start|nação]] inteira"; consciência que, em sua [[lexico:t:totalidade:start|totalidade]], ele ., entendeu [[lexico:o:organismo:start|organismo]] vivo; e, como todos os j organismos, nasce, cresce e morre. "Cada cultura, : cada surgimento, cada [[lexico:p:progresso:start|progresso]] e cada declínio, cada um de seus graus e de seus períodos internamente necessários, tem [[lexico:d:duracao:start|duração]] determinada, sempre igual, sempre recorrente com forma de [[lexico:s:simbolo:start|símbolo]]" (Untergang des Abendlandes, I, p. 147). Do conceito da cultura assim entendida, Spengler distinguia o conceito de civilização, que é o aperfeiçoamento e o fim de uma cultura, a realização e, portanto, o esgotamento de ) suas possibilidades constitutivas. "A civilização", diz Spengler, "é o destino inevitável da cultura. Nela se atinge o ápice a partir do qual podem ser resolvidos os problemas últimos e mais difíceis da [[lexico:m:morfologia:start|morfologia]] histórica. As civilizações são os estados extremos e mais refinados aos quais pode chegar uma [[lexico:e:especie:start|espécie]] humana superior. São um fim: são o devindo que sucede ao [[lexico:d:devir:start|devir]], a [[lexico:m:morte:start|morte]] que sucede à vida; cristalização que sucede à [[lexico:e:evolucao:start|evolução]]. São um termo irrevogável ao qual se chega por [[lexico:n:necessidade:start|necessidade]] interna" (Ibid., Intr., § 12). Essas observações, cuja validade é comprometida pela falacidade da [[lexico:a:analogia:start|analogia]] entre organismo humano e grupo humano, sugerida a Spengler por seu [[lexico:b:biologismo:start|biologismo]] [[lexico:e:explicito:start|explícito]], só tiveram [[lexico:s:sucesso:start|sucesso]] entre os representantes do pro-fetismo contemporâneo. Mostraram, porém, a [[lexico:u:utilidade:start|utilidade]] de um termo como cultura para indicar o conjunto dos modos de vida de um grupo humano determinado, sem [[lexico:r:referencia:start|referência]] ao [[lexico:s:sistema:start|sistema]] de valores para os quais estão orientados esses modos de vida. cultura, em outras [[lexico:p:palavras:start|palavras]], é um termo com que se pode designar tanto a civilização mais progressista quanto as formas de vida social mais rústicas e primitivas. Nesse significado neutro, esse termo é empregado por filósofos, sociólogos e antropólogos contemporâneos. Tem ainda a [[lexico:v:vantagem:start|vantagem]] de não privilegiar um modo de vida em [[lexico:r:relacao:start|relação]] a outro na [[lexico:d:descricao:start|descrição]] de um [[lexico:t:todo:start|todo]] cultural. De fato, para um antropólogo, um modo rústico de cozer um alimento é um produto cultural tanto quanto uma sonata de Beethoven. As muitas definições de cultura hoje em dia só fazem dar expressões diversas a esses pontos básicos. Segundo Malinowski, a cultura é "um [[lexico:c:composto:start|composto]] integral de instituições parcialmente autônomas e coordenadas" que, em seu conjunto, tende a satisfazer toda a amplitude de "necessidades fundamentais, instrumentais e integrativas do grupo social (A Scientific Theory of Culture, 1944). Segundo Kluckhohn e Kelly, a cultura é "um sistema [[lexico:h:historico:start|histórico]] de projetos de vida explícitos e implícitos que tendem a ser compartilhados por todos os membros de um grupo ou por membros especialmente designados" (R. Linton, The Science of [[lexico:m:man:start|Man]] in the World Crisis, 1945). Para Coon, é "a [[lexico:s:soma:start|soma]] total das coisas que as pessoas fazem como resultado do fato de terem sido assim ensinadas" (The Story of Man, 1954). Para Linton, é "um grupo organizado de respostas aprendidas, características de determinada sociedade" (The Tree of Culture, 1955). O caráter global (mas nem por isso [[lexico:s:sistematico:start|sistemático]]) de uma cultura, na medida em que corresponde às necessidades fundamentais de um grupo humano, a [[lexico:d:diversidade:start|diversidade]] dos modos como as várias cultura correspondem a essas necessidades e o caráter de aprendizado ou transmissão da cultura, todos esses são traços característicos expressos por essas definições e que se repetem em quase todas as definições que hoje podem ser consideradas válidas. Até o Iluminismo a cultura era pensada em oposição à natureza. De um lado o homem, ativo, criador de formas, do outro os seres naturais, comprazendo-se em sua própria inércia. No campo da ciência etnológica, o problema começa a ser suscitado no século XIX. É de Tylor a [[lexico:d:definicao:start|definição]]: "Cultura. .. tomada em seu sentido etnográfico amplo é este complexo total que inclui conhecimento, [[lexico:c:crenca:start|crença]], arte, moral, leis, costumes e quaisquer capacidades e hábitos adquiridos pelo homem como membro da sociedade". Definição não posta nos quadros de um ciência, pois multívoca, cada elemento remetendo a outro sem uma fundamentação. Entretanto, permanece até nossos dias, vários autores acrescendo a linha de descritividade, sempre de modo [[lexico:e:equivoco:start|equívoco]]. Kluckhohn, por [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]], juntamente com Kroeber: "Cultura consiste em padrões explícitos e implícitos, de e para o [[lexico:c:comportamento:start|comportamento]] [[lexico:a:adquirido:start|adquirido]] e transmitido por [[lexico:s:simbolos:start|símbolos]], constituindo as realizações distintas dos grupos humanos, incluindo sua expressão em artefatos; o núcleo essencial da cultura consiste em ideias tradicionais (isto é, historicamente derivadas e selecionadas) e especialmente em valores que lhes são conectes; por um lado, sistemas culturais podem ser considerados como produtos da [[lexico:a:acao:start|ação]] e, por outro, como elementos condicionantes da ação ulterior". Os mesmos problemas encontram-se num manual clássico de [[lexico:a:antropologia:start|antropologia]], que define cultura a partir de detalhes empíricos retirados da experiência empírica de outros livros. No seu capítulo 9, a natureza (sic) da cultura é teorizada a partir do seguinte subtitulamento: "a diversidade do comportamento humano", "o conceito de cultura",, "outros significados de cultura", "culturas e subculturas", "cultura e comportamento", "padrões de cultura", "a [[lexico:i:integracao:start|integração]] da cultura: a [[lexico:a:analise:start|análise]] de Benedict", "a integração da cultura: temas", "cultura explícita e implícita", "cultura é apreendida", "o papel do comportamento [[lexico:s:simbolico:start|simbólico]] na cultura" e "diversidade e [[lexico:u:unidade:start|unidade]] na cultura". Também nesta linha não fundamenta-dora, a definição de um [[lexico:t:teorico:start|teórico]] soviético contemporâneo, num colóquio oficial: "O conjunto das informações não hereditárias, acumuladas, conservadas e transmitidas pelas várias coletividades da sociedade humana". Poder-se-iam citar ao menos mais trinta obras similares, da "[[lexico:o:ordem:start|ordem]] de inflação literária" (Lacan) e que pouco acrescentam ao saber. Os exemplos pseudo-fundamentam uma ciência quando esta mesma ciência não expõe seus fundamentos, não os pensa. É verdade que se afirma que "na medida em que a [[lexico:l:linguagem:start|linguagem]] ordinária e certos usos eruditos de- palavras ordinárias constituem o principal veículo das representações comuns da sociedade, é uma crítica [[lexico:l:logica:start|lógica]] e lexicológica da linguagem comum que aparece, indubitavelmente, como a preliminar mais indispensável à elaboração controlada das noções científicas". Mas parece que os chamados "culturalistas" não fizeram muito mais que colocar em forma, logicamente controlada ou formalizada, ideias do [[lexico:s:senso-comum:start|senso comum]] e [[lexico:h:hipoteses:start|hipóteses]] eruditas ultrapassadas ([[lexico:v:ver:start|ver]] a crítica de [[lexico:s:sartre:start|Sartre]] ao [[lexico:p:pragmatismo:start|pragmatismo]] sociológico e antropológico americano. A tarefa principal seria discutir a respeito da validade ou não do termo "cultura". Mas aqui, sem referências a uma ciência constituída, podem-se tomar duas perspectivas mais adequadas do problema. Estableta acha que a primeira [[lexico:p:pergunta:start|pergunta]] deve ser a respeito da função do conceito de cultura. Perguntar sobre seus status científico, que implica em: "uma definição unívoca, escapando ao [[lexico:j:jogo:start|jogo]] das conotações equívocas da língua ordinária, e produzida, portanto, por uma configuração teórica determinada; um [[lexico:p:protocolo:start|protocolo]] de [[lexico:o:observacao:start|observação]] rigorosa; um campo de aplicação delimitado". 1 — Mostra que, se se toma o problema da oposição natureza/cultura, pode-se chegar, por exemplo, com [[lexico:l:levi-strauss:start|Lévi-Strauss]] a definir a [[lexico:o:originalidade:start|originalidade]] de um domínio, ou com Max [[lexico:w:weber:start|Weber]] a proclamar uma [[lexico:m:metodologia:start|metodologia]] inexistente nas ciências da natureza. Neste nível pergunta-se sobre o instrumento conceituai da [[lexico:e:etnologia:start|etnologia]]. 2 — Se se toma a linha de um Lin-ton, por exemplo, para [[lexico:q:quem:start|quem]] a cultura é "um "conjunto dos modelos de comportamento atualizados numa sociedade definida", nota-se uma observação rigorosa. Aqui há que referenciar os modelos de comportamento, seus reagrupamentos, o estudo de sua [[lexico:d:distribuicao:start|distribuição]] espacial e [[lexico:t:temporal:start|temporal]]. Mas o campo de aplicação não está claramente definido, pois o cultural se distribui em todas as instâncias de uma formação social: econômicas, políticas, religiosas etc. Establet pergunta se nesta teorização "cultura" não se confunde com a noção de "formação social". Como por exemplo em Ruth Benedict, "onde a cultura é a forma de uma sociedade, unificada pelos valores [[lexico:d:dominantes:start|dominantes]]" . 3 — Em outros casos distingue-se "cultura" de "sociedade". Quando se opõe "social" e "cultural", o "social" aparece como o "conjunto das estruturas objetivas que repartem os meios de produção e o poder entre os indivíduos e os grupos sociais, e que determinam as práticas sociais, econômicas e políticas". Mas, o indivíduo se comportará não apenas de [[lexico:a:acordo:start|acordo]] com seu lugar na [[lexico:e:estrutura:start|estrutura]] social (esta pertinência determina um certo comportamento gerido por normas). O indivíduo é sempre social, mas as normas que segue não se determinam unicamente pelas leis que determinam a estratificação social. E, por outro lado, também as normas que o indivíduo segue são sociais, gerais, e são dadas em sistema. Ao mesmo [[lexico:t:tempo:start|tempo]] que a estrutura "social" é "relação de forças", esta outra estruturação que se manifesta em sua dependência é "relação de sentido", é o "cultural". Establet mostra que "se o cultural exprime o social é mascarando-o". O social tem [[lexico:p:primado:start|primado]] sobre o cultural, já que este último é um sistema significante que não poderia se auto-significar. Constituindo sistema, o cultural tem uma autonomia relativa em relação ao social. A [[lexico:c:correspondencia:start|correspondência]] nunca é termo a termo (elemento social com elemento cultural) e, além disto, qualquer sistema é sempre relativamente autônomo. A ênfase que esta análise marxista dará é ao social como [[lexico:r:regulador:start|regulador]] das características culturais dos vários grupos sociais. A cultura dominante é que determinará a [[lexico:d:divisao:start|divisão]] cultural da sociedade, já que a axiologização dos diversos níveis é dada pelas [[lexico:r:relacoes:start|relações]] de sentido que se estabelecem numa sociedade. Logo, a cultura dominante é estatuída pela classe dominante, ela é que ditará os níveis diferenciais de uma cultura mais ampla, de todas as classes sociais. Com isto se identifica a cultura pela pertinência ao ideológico. A cultura, mesmo sendo [[lexico:s:sistematica:start|sistemática]], pertence a este nível: "Na [[lexico:i:ideologia:start|ideologia]] os homens exprimem, de fato, não suas relações à sua [[lexico:c:condicao:start|condição]] de [[lexico:e:existencia:start|existência]], mas o modo pelo qual vivem sua relação às suas condições de existência" ([[lexico:a:althusser:start|Althusser]]). Deste ponto de vista o cultural aparece determinado pelo [[lexico:m:modo-de-producao:start|modo de produção]] social, pois ele só faz expressá-lo. Uma outra [[lexico:p:perspectiva:start|perspectiva]] marxista quer ver o problema de modo distinto. Lévi-Strauss diz que "toda cultura pode ser considerada como um conjunto de sistemas simbólicos em cujo primeiro nível situam-se a língua, as regras matrimoniais, as relações econômicas, a arte, a ciência, a religião. Todos esses sistemas visam exprimir certos aspectos das realidades física e social e, mais ainda,, as relações que ambos os tipos de realidade mantêm entre si e que os próprios sistemas simbólicos mantêm uns com os outros. Estudando o problema do parentesco, Lévi-Strauss mostra como o homem pode ter seu domínio delimitado, desde que ele intervém na cultura-A proibição do incesto existe universalmente, é um [[lexico:a:ato:start|ato]] pelo qual o homem afirma o [[lexico:r:reconhecimento:start|reconhecimento]] de sua relação com o outro. Quando se proibe a um homem de casar com sua própria irmã ou filha se afirma ao mesmo tempo seu [[lexico:d:direito:start|direito]] de casar-se com a irmã ou filha de um outro que terá também direitos recíprocos. Esta [[lexico:o:operacao:start|operação]] de [[lexico:r:reciprocidade:start|reciprocidade]] fundamenta o surgimento do homem como tal, desde que só se é homem quando se pertence ao sistema cujo [[lexico:m:movel:start|móvel]] é a reciprocidade. Esta reciprocidade é sempre dada na sociedade e pode ser estudada nas instituições sociais. O [[lexico:p:principio:start|princípio]] de reciprocidade é sempre dado, mesmo quando as instituições que se organizam através dele são fluidas. A análise da reciprocidade mostra que os homens não trocam as coisas em si (cuja inexistência, da coisa em si, já foi definitivamente provada por Kant) mas sua forma [[lexico:s:simbolica:start|simbólica]], isto é, o modo pelo qual os homens se representam as coisas. Por exemplo, "um sistema de parentesco não consiste nos elos objetivos da filiação ou consanguinidado dados entre os indivíduos só existe na consciência dos homens, é um sistema [[lexico:a:arbitrario:start|arbitrário]] de representações, não o desenvolvimento espontâneo de uma situação de fato". A cultura consiste em sistemas simbólicos e estes podem ser nnalisados tão profundamente até "atingir um nível onde se torne possível a passagem de um (sistema simbólico) ao outro: cu seja, elaborar uma espécie de [[lexico:c:codigo:start|código]] universal capaz de exprimir as propriedades comuns às estruturas específicas dependentes de cada aspecto". Lévi-Strauss se [[lexico:r:recusa:start|recusa]] a confundir cultura com ideologia. A análise cultural se faz independentemente do valor que os homens acrescentam ao simbólico e que seria o [[lexico:o:objeto:start|objeto]] próprio da análise da ideologia. O valor é sobreacrescentado ao simbólico no [[lexico:p:plano:start|plano]] [[lexico:v:vivido:start|vivido]], necessariamente, e está [[lexico:s:sujeito:start|sujeito]] às relações de produção. Quando, por exemplo, se matam búfalos numa [[lexico:f:familia:start|família]] e estes são repartidos organizadamente, isto é, delimitam-se as partes do búfalo que devem ser repartidas, o social aparece como o determinante do modo de repartição, isto é, a cultura se situa no nível de sentido que depende da estruturação do nível de forças. Mas do ponto de vista estrutural sobre o que é cultura, o cultural aparece como a necessidade de repartir. Não se poderia pensar, no nível teoricamente constituído, de uma [[lexico:d:determinacao:start|determinação]] do social sobre o cultural, pois este já vem dado. Esta [[lexico:a:antinomia:start|antinomia]] não é de fácil resolução, mormente quando as teorias se colocam com toda sua articulação ([[lexico:i:impossivel:start|impossível]] num verbete) . O maior problema em aberto seria [[lexico:e:explicar:start|explicar]] a autonomia relativa dos sistemas simbólicos e mostrar como o social articula uma autonomia. (Chaim Katz - [[lexico:d:dcc:start|DCC]]) {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}