===== CRITICISMO ===== toda doutrina fundamentada unicamente sobre a auto-reflexão. (Opõe-se ao [[lexico:d:dogmatismo|dogmatismo]].) — [[lexico:k:kant|Kant]] foi o promotor do criticismo: substituiu a [[lexico:q:questao|questão]] da [[lexico:o:origem|origem]] do [[lexico:m:mundo|mundo]] (que era a da [[lexico:t:teologia|teologia]] e (que é, [[lexico:o:objeto|objeto]] da [[lexico:c:ciencia|ciência]]), analisa do [[lexico:f:fundamento|fundamento]] de nosso [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]]. Toda [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] que, em [[lexico:l:lugar|lugar]] de querer conhecer o mundo (que é o objeto da ciência), analisa nosso conhecimento do mundo, é uma filosofia [[lexico:c:critica|crítica]]. Vê-se que o criticismo remonta a [[lexico:p:platao|Platão]] e que sua [[lexico:v:vocacao|vocação]] é de [[lexico:s:ser|ser]] um [[lexico:i:idealismo|Idealismo]]. Os filósofos críticos, depois de Kant, foram principalmente [[lexico:f:fichte|Fichte]] (a filosofia crítica opõe-se então à [[lexico:f:filosofia-da-natureza|filosofia da natureza]], de [[lexico:s:schelling|Schelling]]), H. [[lexico:c:cohen|Cohen]] (para [[lexico:q:quem|quem]] ela se reduz à [[lexico:t:teoria|teoria]] [[lexico:l:logica|lógica]] do conhecimento), [[lexico:d:dilthey|Dilthey]] (que estende a [[lexico:r:reflexao|reflexão]] crítica ao domínio das [[lexico:c:ciencias-humanas|ciências humanas]]), [[lexico:h:husserl|Husserl]] (que fundamenta o conhecimento intelectual sobre a [[lexico:i:intuicao|intuição]], a crítica sobre a [[lexico:f:fenomenologia|fenomenologia]]), [[lexico:l:lask|Lask]] (que faz a [[lexico:s:sintese|síntese]] do criticismo e da fenomenologia). [V. Kant.] Em [[lexico:o:oposicao|oposição]] ao dogmatismo, que pressupõe sem exame a [[lexico:v:validade|validade]] de nosso conhecimento, especialmente do conhecimento metafísico, e ao [[lexico:c:ceticismo|ceticismo]], para o qual a [[lexico:d:duvida|dúvida]] [[lexico:u:universal|universal]] continua sendo a última [[lexico:p:palavra|palavra]], o criticismo em [[lexico:g:geral|geral]] (1) é aquela [[lexico:a:atitude|atitude]] mental, que torna dependente de uma prévia [[lexico:i:investigacao|investigação]] da [[lexico:c:capacidade|capacidade]] e limites do nosso conhecimento o [[lexico:d:destino|destino]] da filosofia especulativa, e principalmente o da [[lexico:m:metafisica|metafísica]]. Na maior [[lexico:p:parte|parte]] dos casos, o [[lexico:t:termo|termo]] "criticismo" (como frequentemente os terminados em -ismo) tem um [[lexico:s:sentido|sentido]] acessório censurável, denota um excesso de crítica, uma super-acentuação unilateral da atitude crítica. Na acepção (2) estrita, histórica, criticismo designa a filosofia, nomeadamente a [[lexico:e:epistemologia|epistemologia]], de Kant. Como muitos de seus [[lexico:c:conceitos|conceitos]] fundamentais passaram para o léxico filosófico universal, e o sentido dos mesmos dificilmente poderá ser compreendido, a [[lexico:n:nao|não]] ser dentro do arcabouço de [[lexico:t:todo|todo]] o edifício doutrinal, passamos a dar, numa [[lexico:v:visao|visão]] de relance, os pontos mais importantes de sua doutrina e uma [[lexico:i:interpretacao|interpretação]] de seus conceitos fundamentais, uma vez que estes não são objeto de [[lexico:e:estudo|estudo]] peculiar noutro lugar desta [[lexico:o:obra|obra]]. A confusão existente nas doutrinas metafísicas mostrou a Kant a [[lexico:n:necessidade|necessidade]] de preliminarmente inquirir se a nossa [[lexico:r:razao|razão]], em geral, é apta para o conhecimento metafísico. Dando a este exame o [[lexico:n:nome|nome]] de [[lexico:c:critica-da-razao-pura|Crítica da razão pura]], pretende com isso indicar desde logo uma importante [[lexico:p:pressuposicao|pressuposição]], que ele estabelece já tacitamente desde o início: toda metafísica, e em geral todo conhecimento universal absolutamente válido, deve fundamentar-se num "conhecimento [[lexico:p:puro|puro]]", numa "[[lexico:r:razao-pura|razão pura]]", isto é, num conhecimento ou razão [[lexico:i:independente|independente]] da [[lexico:e:experiencia|experiência]] ([[lexico:s:sensacao|sensação]]). Todos os conteúdos conscienciais que se verificam mediante uma "afeção", um "ser afetado" dos sentidos, ou seja, mediante uma [[lexico:i:impressao|impressão]] que os sentidos recebem das [[lexico:c:coisas|coisas]] em si, são e permanecem meramente sensíveis, meramente "empíricos" e acidentais: Kant afastou para longe a [[lexico:i:ideia|ideia]] de que o [[lexico:e:entendimento|entendimento]], por [[lexico:m:meio|meio]] de uma [[lexico:a:abstracao|abstração]] criadora possa extrair daqueles um conteúdo intelectual. Donde procedem pois os conhecimentos absolutamente necessários, tais como surgem nos [[lexico:j:juizos-sinteticos-a-priori|juízos sintéticos a priori]] (síntese) da [[lexico:m:matematica|matemática]] e, como Kant admite, também da [[lexico:c:ciencia-natural|ciência natural]] "pura" ? Uma "[[lexico:i:intuicao-intelectual|intuição intelectual]]" puramente espiritual, como [[lexico:f:fonte|fonte]] dos mesmos conhecimentos, não vem ao caso, porque nosso entendimento não é um "entendimento intuitivo" (tal é, para Kant, apenas a [[lexico:i:inteligencia|inteligência]] divina, na [[lexico:m:medida|medida]] em que faz brotar de si as [[lexico:c:coisas-reais|coisas reais]]). Ao nosso entendimento pertence tão-somente a [[lexico:e:espontaneidade|espontaneidade]] do [[lexico:p:pensamento|pensamento]], isto é, a unificação (a síntese) ativa da [[lexico:m:multiplicidade|multiplicidade]] dada na intuição [[lexico:s:sensorial|sensorial]] em [[lexico:o:ordem|ordem]] à [[lexico:u:unidade|unidade]] de um objeto, o que acontece pelo [[lexico:f:fato|fato]] de o [[lexico:m:multiplo|múltiplo]] ser reduzido a um só [[lexico:c:conceito|conceito]]. Deve, portanto, haver "conceitos puros", que se baseiem no entendimento independentemente de toda experiência ([[lexico:a:a-priori|a priori]]) e sejam o fundamento [[lexico:p:primitivo|primitivo]] da necessidade e da universalidade incondicionadas dos conhecimentos científicos: tais conceitos são as [[lexico:c:categorias|categorias]]. Mas também a [[lexico:i:intuicao-sensivel|intuição sensível]], caracterizada por sua [[lexico:r:receptividade|receptividade]] (capacidade de receber impressões), em oposição à intuição intelectual criadora e ao pensamento, deve basear-se em formas da "intuição pura", porque, p. ex., na [[lexico:g:geometria|geometria]], [[lexico:r:relacoes|relações]] espaciais intuitivas são conhecidas como absolutamente necessárias. Surge, assim, para Kant a [[lexico:t:tarefa|tarefa]] de descobrir, por meio de uma investigação [[lexico:t:transcendental|transcendental]] de nossas [[lexico:f:faculdades|faculdades]] cognitivas, o [[lexico:n:numero|número]] completo das formas a priori da intuição e do pensamento. A [[lexico:e:estetica-transcendental|Estética transcendental]] realiza [[lexico:e:esse|esse]] propósito, no que tange à [[lexico:s:sensibilidade|sensibilidade]], cujas formas apriorísticas se deduz serem as intuições de [[lexico:e:espaco|espaço]] e de [[lexico:t:tempo|tempo]]. A [[lexico:a:analitica-transcendental|Analítica transcendental]] investiga o "entendimento" julgador e deduz das diversas classes de juízos os conceitos puros do entendimento ou categorias. Como tais conceitos não são abstraídos de um objeto [[lexico:d:dado|dado]], a validade dos mesmos não pode fundamentar-se na experiência; pelo contrário, sua [[lexico:j:justificacao|justificação]] {"[[lexico:d:deducao|dedução]]") só pode ser transcendental, isto é, eles são apresentados como [[lexico:p:principios|princípios]] constitutivos do conhecimento; sem eles não pode haver "objeto" do conhecimento, isto é, não pode haver unidade universalmente válida de uma multiplicidade sensorial, nem [[lexico:j:juizo|juízo]] universalmente válido. A [[lexico:c:condicao|condição]] suprema de todo [[lexico:c:conhecimento-objetivo|conhecimento objetivo]] é a [[lexico:a:apercepcao|apercepção]] transcendental, ou a [[lexico:a:autoconsciencia|autoconsciência]], à qual são referidos todos os conteúdos conscienciais; e por tal [[lexico:m:motivo|motivo]] ela é a suprema condição de toda unidade objetiva. Da [[lexico:d:deducao-transcendental|dedução transcendental]] infere-se a [[lexico:l:limitacao|limitação]] de nosso conhecimento ao mundo dos sentidos, o qual, enquanto tal, não existe em si, mas unicamente como mundo de fenômenos, constituído por nossa intuição espacial e [[lexico:t:temporal|temporal]]. Porque, sem a [[lexico:m:materia|matéria]] [[lexico:s:sensivel|sensível]], as categorias são conceitos ocos, pelos quais podemos, sem dúvida, [[lexico:p:pensar|pensar]], de maneira inteiramente indeterminada, a [[lexico:c:coisa|coisa]] em si, nunca porém "conhecê-la", isto é, determiná-la em sua [[lexico:e:essencia|essência]], em sua maneira de ser. Contudo o conceito de coisa em si e de todo o mundo [[lexico:i:inteligivel|inteligível]], ou seja, do mundo [[lexico:r:real|real]], cognoscível apenas mediante uma intuição intelectual, continua sendo um "conceito [[lexico:l:limite|limite]]" [[lexico:n:necessario|necessário]] para "delimitar as pretensões da sensibilidade" (visto que, se não houvesse coisa alguma por detrás dos fenômenos, estes mesmos seriam o ser [[lexico:u:ultimo|último]], [[lexico:i:incondicionado|incondicionado]]). Portanto, segundo Kant, o [[lexico:e:ente|ente]] em si não está [[lexico:s:sujeito|sujeito]] às condições da sensibilidade (espaço e tempo). Isto aplica-se também ao [[lexico:e:eu|eu]] em si e ao seu "[[lexico:c:carater|caráter]] inteligível", o qual, na livre atuação própria, sem qualquer [[lexico:s:sucessao|sucessão]] temporal, põe o "caráter [[lexico:e:empirico|empírico]]" do [[lexico:i:individuo|indivíduo]] e a [[lexico:s:serie|série]] inteira das [[lexico:a:acoes|ações]] empíricas temporais entre si enlaçadas com rigorosa necessidade causal. Sendo assim, devido aos resultados da [[lexico:a:analitica|analítica]] transcendental, toda metafísica científica se torna [[lexico:i:impossivel|impossível]]. A [[lexico:d:dialetica|dialética]] transcendental, que se lhe segue, mediante a investigação dos conceitos da razão ou [[lexico:i:ideias|ideias]] orientadoras do pensamento raciocinante, discute explicitamente com a metafísica racionalista coeva, procurando apresentar como [[lexico:i:ilusao|ilusão]] transcendental os argumentos racionais por ela invocados. Estas ideias deduzidas (bastante artificiosamente) dos modos de [[lexico:r:raciocinio|raciocínio]], são: a ideia cosmológica, ou ideia do mundo como súmula de todos os fenômenos; a ideia psicológica, ou ideia do eu como unidade incondicionada do sujeito pensante; e a ideia teológica ou, [[lexico:i:ideia-de-deus|ideia de Deus]] como condição incondicionada de todos os objetos do pensamento em geral. Não se chega a demonstrar teoreticamente que a estas ideias corresponda um ser em si. A tentativa conduz necessariamente a [[lexico:a:antinomias|antinomias]], paralogismos, isto é, a raciocínios falsos (sobretudo na [[lexico:p:psicologia|psicologia]] especulativa, que confunde o sujeito transcendental [[lexico:i:indeterminado|indeterminado]] com a [[lexico:s:substancia|substância]] [[lexico:s:simples|simples]] da [[lexico:a:alma|alma]]) e às [[lexico:p:provas-da-existencia-de-deus|provas da existência de Deus]] (VIDE provas da [[lexico:e:existencia-de-deus|existência de Deus]]) que, segundo Kant, são outrossim falazes. O sentido [[lexico:p:positivo|positivo]] das ideias é apenas o de serem princípios reguladores do conhecimento; isto é, devem incitar-nos a aproximar-nos, mediante um constante [[lexico:p:progresso|progresso]] do pensamento, da unidade incondicionada de um [[lexico:s:sistema|sistema]], embora nunca logremos alcançar esse [[lexico:o:objetivo|objetivo]]. Sem dúvida, a razão [[lexico:t:teoretica|teorética]] ou especulativa não pode descobrir nas ideias qualquer [[lexico:e:especie|espécie]] de [[lexico:c:contradicao|contradição]]; de [[lexico:s:sorte|sorte]] que a ideia de [[lexico:d:deus|Deus]], em especial, continua sendo o "[[lexico:i:ideal|ideal]] da razão pura". Por esta [[lexico:f:forma|forma]] fica patente o [[lexico:c:caminho|caminho]] para uma metafísica irracionalística, que deve mostrar a [[lexico:l:liberdade-da-vontade|liberdade da vontade]], a [[lexico:i:imortalidade-da-alma|imortalidade da alma]] e a [[lexico:e:existencia|existência]] de Deus como postulados da [[lexico:r:razao-pratica|razão prática]]. Para a [[lexico:i:influencia|influência]] histórica do criticismo, idealismo, [[lexico:i:idealismo-alemao|idealismo alemão]], [[lexico:n:neokantismo|neokantismo]]. A crítica do criticismo deve atender principalmente às suas bases e pressuposições: [[lexico:c:consciencia|consciência]], abstração, [[lexico:c:conhecimento-da-essencia|conhecimento da essência]], [[lexico:p:principios-do-conhecimento|princípios do conhecimento]]. — De Vries. (in. Criticism; fr. Criticisme, al. Kritizismus; it. Criticismo). Doutrina de Kant, nos pontos básicos pelos quais agiu na [[lexico:f:filosofia-moderna|filosofia moderna]] e contemporânea, e que podem ser assim resumidos: 1) Formulação crítica do [[lexico:p:problema-filosofico|problema filosófico]] e, portanto, condenação da metafísica como [[lexico:e:esfera|esfera]] de problemas que estão [[lexico:a:alem|além]] das possibilidades da razão humana. 2) [[lexico:d:determinacao|Determinação]] da tarefa da filosofia como reflexão sobre a ciência e, em geral, sobre as [[lexico:a:atividades|atividades]] humanas, a [[lexico:f:fim|fim]] de determinar as condições que garantem (e limitam) a validade da ciência e, em geral, das atividades humanas. 3) [[lexico:d:distincao|Distinção]] fundamental, no domínio do conhecimento, entre os problemas [[lexico:r:relativos|relativos]] à origem e ao [[lexico:d:desenvolvimento|desenvolvimento]] do conhecimento no [[lexico:h:homem|homem]] e o [[lexico:p:problema|problema]] da validade do [[lexico:p:proprio|próprio]] conhecimento, isto é, distinção entre o domínio da psicologia (Kant disse "[[lexico:f:fisiologia|fisiologia]]", Crít. R. Pura, § 10) e o domínio lógico-transcendental ou lógico-objetivo, onde tem lugar a questão de jure da validade do conhecimento, insolúvel no terreno de facto. Essa distinção equivale à [[lexico:d:descoberta|descoberta]] da [[lexico:d:dimensao|dimensão]] lógico-objetiva do conhecimento que deveria inspirar a [[lexico:f:filosofia-dos-valores|filosofia dos valores]], a [[lexico:e:escola-de-marburgo|escola de Marburgo]], o [[lexico:l:logicismo|logicismo]] de Frege e, através de Bolzano, a fenomenologia de Husserl. Em geral, pode-se dizer que a polêmica da matemática e da lógica [[lexico:m:moderna|moderna]] contra o [[lexico:p:psicologismo|psicologismo]] tem origem histórica no criticismo kantiano; 4) Conceito de [[lexico:m:moralidade|moralidade]] fundada no [[lexico:i:imperativo-categorico|imperativo categórico]] e conceito de [[lexico:i:imperativo|imperativo]] [[lexico:c:categorico|categórico]] como forma da razão em seu [[lexico:u:uso|uso]] [[lexico:p:pratico|prático]]. Esses pontos constituem as características comuns de todas as formas de criticismo e de neo-criticismo. Não constituem, porém, traços característicos ou [[lexico:d:dominantes|dominantes]] do criticismo os fundamentos da doutrina kantiana de [[lexico:a:arte|arte]], [[lexico:t:teleologia|teleologia]] e [[lexico:r:religiao|religião]]; sobre eles, v. verbetes correspondentes.