===== CRÍTICA DO REALISMO ===== Esta [[lexico:c:critica:start|crítica]] pode [[lexico:s:ser:start|ser]] esquematicamente conduzida a três temas principais. **- Primeiro [[lexico:t:tema:start|tema]]: as objeções dos céticos.** Este é o tema por [[lexico:e:excelencia:start|excelência]] da crítica antiga, ao qual a crítica [[lexico:m:moderna:start|moderna]], com [[lexico:d:descartes:start|Descartes]] e seus sucessores, [[lexico:n:nao:start|não]] cessará de retornar. As dificuldades sobre as quais este tema especula formam uma legião, tão numerosa quanto as ilusões e os erros que lhe servem de [[lexico:a:argumento:start|argumento]]. Tomemos, para nos reportar a um [[lexico:t:texto:start|texto]] [[lexico:c:classico:start|clássico]], a [[lexico:s:serie:start|série]] de argumentos que propõe a primeira das [[lexico:m:meditacoes-metafisicas:start|Meditações Metafísicas]] de Descartes. Os [[lexico:d:dados-dos-sentidos:start|dados dos sentidos]] veem-se aí desde logo atacados como suspeitos; a [[lexico:e:experiencia:start|experiência]] atesta que frequentemente tenho, me enganado a seu [[lexico:r:respeito:start|respeito]], não há, pois, [[lexico:p:prudencia:start|prudência]] em não me fiar inteiramente neles? E se certas sensações, mais imediatas e mais fortes, parecem-me impor de maneira mais vigorosa sua [[lexico:r:realidade:start|realidade]] objetiva, não devo lembrar que por vezes, em [[lexico:s:sonho:start|sonho]], tive sensações semelhantes que, ao despertar, se revelaram ser [[lexico:i:ilusao:start|ilusão]]? Mas o [[lexico:e:erro:start|erro]] não vem somente infirmar o [[lexico:v:valor:start|valor]] de meus conhecimentos sensíveis; ele ataca também minha [[lexico:r:razao:start|razão]] que por vezes se engana, como acontece mesmo nas matemáticas. Enfim, e de uma maneira [[lexico:b:bem:start|Bem]] [[lexico:g:geral:start|geral]], não podemos temer que sejamos o [[lexico:o:objeto:start|objeto]] dos malefícios de algum poder nefasto, de um [[lexico:d:deus:start|Deus]] enganador, que faria com que, mesmo naquilo que temos de mais seguro, estivéssemos irremediavelmente no erro? Sabemos que a [[lexico:d:duvida:start|dúvida]] não conduziu Descartes ao [[lexico:c:ceticismo:start|ceticismo]], e que ele não a prolongou mesmo até o [[lexico:f:fim:start|fim]]; as primeiras evidências da [[lexico:i:intuicao-intelectual:start|intuição intelectual]] foram postas de lado, o que reservará a [[lexico:p:possibilidade:start|possibilidade]] de uma construção positiva. Mas, pouco importa, o que nos interessa presentemente é esta [[lexico:e:evocacao:start|evocação]] dos erros do [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]] que naturalmente me conduzem a duvidar. Se, por vezes, me enganei, mesmo quando acreditava sem dúvida [[lexico:e:estar:start|estar]] na [[lexico:v:verdade:start|verdade]], [[lexico:q:quem:start|quem]] jamais poderá me assegurar que atualmente não me engano? O [[lexico:f:fato:start|fato]] incontestável do erro não coloca em [[lexico:q:questao:start|questão]] o [[lexico:p:proprio:start|próprio]] valor do conhecimento? **- Segundo tema: a [[lexico:i:imanencia:start|imanência]] do conhecimento.** O [[lexico:r:realismo:start|realismo]], afirmam os idealistas, repousa, por [[lexico:o:outro:start|outro]] lado, sobre uma [[lexico:p:pressuposicao:start|pressuposição]] que não se mantém diante dos argumentos de uma crítica [[lexico:m:metafisica:start|metafísica]] sem timidez. Tomemos, a título de [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]], aquela que lhe endereça um idealista [[lexico:m:moderno:start|moderno]], [[lexico:h:hamelin:start|Hamelin]] (Essai sur les éléments principaux de Ia représentation). A base do realismo seria, segundo este [[lexico:f:filosofo:start|filósofo]], a [[lexico:d:dualidade:start|dualidade]] do ser pensado e do ser pensante. Como, então, a [[lexico:i:ideia:start|ideia]] pode ser outra [[lexico:c:coisa:start|coisa]] que a [[lexico:i:imagem:start|imagem]] no segundo do [[lexico:a:atributo:start|atributo]] [[lexico:r:real:start|real]] possuído pelo primeiro? O conhecimento seria, portanto, essencialmente uma duplicação do ser no [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]], [[lexico:s:suposicao:start|suposição]] da qual é bastante cômodo [[lexico:e:explicar:start|explicar]] a [[lexico:o:origem:start|origem]] em uma [[lexico:p:psicologia:start|psicologia]] primitiva, mas que não se ,revela menos à [[lexico:r:reflexao:start|reflexão]] como manifestamente [[lexico:a:absurdo:start|absurdo]], como a [[lexico:p:proposicao:start|proposição]] monstruosa de que a [[lexico:r:representacao:start|representação]] é a pintura de um [[lexico:e:exterior:start|exterior]] em um interior, [[lexico:c:como-se:start|como se]] fosse [[lexico:p:possivel:start|possível]] atingir ou [[lexico:f:falar:start|falar]] de um exterior ao pensamento. O pensamento que é essencialmente a [[lexico:u:unidade:start|unidade]] de um [[lexico:s:sujeito:start|sujeito]] e de um objeto, não pode evidentemente repousar sobre a base da dualidade primitiva do ser pensante e de seu objeto presumido. A [[lexico:e:explicacao:start|explicação]] da origem de nossas [[lexico:i:ideias:start|ideias]] ou da [[lexico:f:formacao:start|formação]] de nosso pensamento não é menos pueril se nos ativermos a esta [[lexico:p:posicao:start|posição]] do realismo. Com [[lexico:e:efeito:start|efeito]], ela somente poderia ser concebida no [[lexico:m:modo:start|modo]] de uma [[lexico:c:causalidade:start|causalidade]] transitiva, de uma transmissão de espécies ou qualidades, como a introdução em nós de imagens, [[lexico:t:teoria:start|teoria]] grosseira que [[lexico:d:democrito:start|Demócrito]] e [[lexico:e:epicuro:start|Epicuro]] aclimataram em [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]] e da qual Descartes fez [[lexico:j:justica:start|justiça]] boa e definitiva na sua acerba crítica das "espécies voltejantes" da psicologia [[lexico:e:escolastica:start|escolástica]]. Seria igualmente vão, para escapar a estas dificuldades, suprimir, como os percepcionistas o tentaram fazer, [[lexico:t:todo:start|todo]] intermediário entre o pensamento e o ser. Resguardamo-nos bem, com isto, do absurdo da transmissão das imagens, mas para cair no [[lexico:m:misterio:start|mistério]] de uma "imediatez" sem [[lexico:j:justificacao:start|justificação]]. Renunciemos, pois, de uma vez por todas, à empresa quimérica de querer, a todo preço, fazer reunir no fato do pensamento uma dualidade primitivamente afirmada e, portanto, a duplicar do exterior por um representado a representação: os representados não são o exterior da representarão. A representação, contrariamente à [[lexico:s:significacao:start|significação]] etimológica da [[lexico:p:palavra:start|palavra]], não reflete um objeto e um sujeito que existiriam sem ela: ela é o objeto e o sujeito, ela é a própria realidade. A representação é o ser, e o ser é a representação. **- [[lexico:t:terceiro:start|terceiro]] tema: a [[lexico:a:atividade:start|atividade]] do conhecimento.** Se, por outro lado, observamos com [[lexico:a:atencao:start|atenção]] o [[lexico:e:espirito:start|espírito]] que pensa, seremos levados a constatar que ele está longe de se apresentar, segundo a suposição realista, como uma [[lexico:c:capacidade:start|capacidade]] receptiva ou como uma [[lexico:p:potencia:start|potência]] passiva que se submeteria à [[lexico:a:acao:start|ação]] determinante de um objeto exterior. [[lexico:k:kant:start|Kant]] já havia observado que o [[lexico:e:entendimento:start|entendimento]] não é, de modo algum, intuitivo, mas essencialmente atividade sintética; e, levando esta ideia adiante, o [[lexico:i:idealismo:start|Idealismo]] [[lexico:a:absoluto:start|absoluto]] afirmará, com um [[lexico:f:fichte:start|Fichte]] ou com um [[lexico:h:hegel:start|Hegel]], que o pensamento é atividade pura e incondicionada. O [[lexico:e:eu:start|eu]] se põe ele mesmo anteriormente a toda suposição. Os seguidores dessas teses astuciosas não carecem de argumentos. Consideremos, por exemplo, para nos convencer, o caso privilegiado do pensamento científico. Não se tem a [[lexico:i:impressao:start|impressão]] de que, nesse domínio, o espírito só progride na [[lexico:m:medida:start|medida]] em que projete diante de si o seu objeto? Isto é perfeitamente claro nas matemáticas. As figuras ou os números que [[lexico:e:estudo:start|estudo]] foram previamente constituídas por uma atividade de construção ou de [[lexico:s:soma:start|soma]] da qual estou perfeitamente [[lexico:c:consciente:start|consciente]], e a fecundidade do espírito, neste domínio, irá até determinar quantidades, espaços ou números, que sou impotente de me [[lexico:r:representar:start|representar]]. Igual constatação para as ciências experimentais: não encontrarei jamais na experiência senão aquilo que o espírito aí previamente já depositou a título de [[lexico:h:hipotese:start|hipótese]] ou de ideia diretriz. E as teorias gerais, nas quais se resume, em um [[lexico:m:momento:start|momento]] [[lexico:d:dado:start|dado]], o acervo dos conhecimentos científicos, não são um admirável exemplo dessa fecundidade criadora de nossa [[lexico:i:inteligencia:start|inteligência]]? É a ideia pura evidentemente que, neste domínio, vem regular nosso espírito. Se nos detivermos, no momento, naquela [[lexico:o:operacao:start|operação]] intelectual em que estamos ordinariamente de [[lexico:a:acordo:start|acordo]] em considerar, como perfectiva de nossa [[lexico:v:vida:start|vida]] de pensamento, o [[lexico:j:juizo:start|juízo]], não aparece que aqui ainda o espírito é essencialmente construtor? Afirmo [[lexico:a:a-priori:start|a priori]], pelo menos no que concerne às proposições necessárias, liames que não me podem ser dados na experiência: aqui é o espírito que é [[lexico:r:regulador:start|regulador]], como o observara Kant. Ou então, com [[lexico:b:brunschvicg:start|Brunschvicg]], a [[lexico:e:exterioridade:start|exterioridade]] que parece se ligar ao objeto da [[lexico:s:sintese:start|síntese]] judicativa, não se revelará simplesmente como uma [[lexico:m:modalidade:start|modalidade]] subjetiva onde se afirma, como que por um ricochete, a [[lexico:l:limitacao:start|limitação]] de nosso pensamento? De outra [[lexico:p:parte:start|parte]], em que se transforma, na suposição realista do [[lexico:d:determinismo:start|determinismo]] do objeto, [[lexico:e:esse:start|esse]] atributo de [[lexico:l:liberdade:start|liberdade]] que parece bem caracterizar a própria [[lexico:e:essencia:start|essência]] da vida do espírito? Entre o [[lexico:m:materialismo:start|materialismo]] das sequências necessárias e a [[lexico:e:espontaneidade:start|espontaneidade]] sem entrave de um eu autônomo, é preciso, com efeito, fazer uma [[lexico:e:escolha:start|escolha]]? Se vos submeteis inicialmente a um objeto, jamais sereis verdadeiramente livres. O idealismo sozinho se afirma capaz de assegurar à nossa [[lexico:p:personalidade:start|personalidade]] de [[lexico:h:homem:start|homem]] a [[lexico:d:dignidade:start|dignidade]] que devemos reivindicar para ela. Todas essas razões, e outras ainda, convergem pois para esta conclusão: nosso espírito é uma atividade livre e que se determina a si próprio em uma independência total diante de todo objeto [[lexico:t:transcendente:start|transcendente]]. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}