===== CRIAR ===== Perguntávamos: que [[lexico:s:sentido|sentido]] pode [[lexico:t:ter|ter]] o «e [[lexico:d:deus|Deus]] criou o [[lexico:h:homem|homem]] à sua [[lexico:i:imagem|imagem]] e [[lexico:s:semelhanca|semelhança]]»? Procuramos, primeiro, determinar o [[lexico:s:significado|significado]] de «semelhança», dizendo que A é [[lexico:s:semelhante|semelhante]] a B se, de algum [[lexico:m:modo|modo]], em [[lexico:a:a-se|a se]] vê uma imagem de B. E, então, seguia-se outra [[lexico:p:pergunta|pergunta]]: qual o modo certo, pelo que em A se pode [[lexico:v:ver|ver]] uma imagem de B? Já recusada, de início, como falaciosa [[lexico:a:aparencia|aparência]], propusemos que tal modo podia [[lexico:s:ser|ser]] o de a operosidade humana se fazer imagem da criatividade divina. Mas a [[lexico:p:poiesis|poiesis]] é mais um [[lexico:a:antropomorfismo|antropomorfismo]]. [[lexico:n:nao|Não]] cremos que Deus faça o quer que seja. Não há [[lexico:t:teismo|teísmo]] sem [[lexico:t:transcendencia|transcendência]]. Deus não fez o [[lexico:m:mundo|mundo]]; e [[lexico:f:falar|falar]] de «[[lexico:c:criacao|criação]]» é como querer subir em cima dos próprios ombros para descortinar o que não se vê de pés firmados na [[lexico:t:terra|Terra]]; é maneira de pretender triunfar sobre a inefabilidade da [[lexico:r:relacao|relação]] entre Deus e o mundo, da maneira que menos a prejudique. «Criar», quando não seja determinadamente «cultivar», diz mais do que «fazer», excede o fazer, de um modo [[lexico:i:indeterminado|indeterminado]], e o indeterminado excesso do «criar», em relação ao «fazer», é a [[lexico:m:medida|medida]] sem medida da [[lexico:s:separacao|separação]], daquela que, desde os primeiros alvores da [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] ocidental, pôs na boca de [[lexico:h:heraclito|Heráclito]] as [[lexico:p:palavras|palavras]] de sentido inesgotável do fragmento 108: «De tantos que ouvi falar, nenhum chegou a [[lexico:p:ponto|ponto]] de reconhecer que o [[lexico:s:sabio|Sábio]] [neutro: «coisa sábia»] é Um, de tudo separado.» Seguindo de perto a [[lexico:t:traducao|tradução]] de Snell, vê-se que a [[lexico:b:bem|Bem]] propositado propósito o tradutor, depois do vocábulo decisivo, kekhorismenon, menciona entre parêntesis a tradução literal latina: ab-solutum. «Criação» quer resguardar a absolutidade do [[lexico:a:absoluto|absoluto]], do desligado, do separado. Outra [[lexico:q:questao|questão]] é a que não se deixa, nem dificilmente, questionar por via [[lexico:r:racional|racional]]: se [[lexico:m:mundos|mundos]] não subsistem sem [[lexico:d:deuses|deuses]], e, sem Deus, a mundanidade de todos os mundos, como manter que o Sábio de tudo esteja ou seja separado? [[lexico:a:aristoteles|Aristóteles]] chegou a uma solução do [[lexico:p:problema|problema]], mediante o seu Motor Imóvel, tão separado do Mundo quanto o Sábio de Heráclito, tão separado e tão sábio, pois que é [[lexico:n:noesis|noesis]] noeseos ([[lexico:p:pensamento|pensamento]] do pensamento), mas pô-lo no alegórico: o Separado move o de que se separa, movendo-o como o Amado move (atrai) o que o ama. Em [[lexico:t:todo|todo]] o caso, e seja qual for o [[lexico:m:misterio|mistério]] codificado, a separação mantém-se, de Heráclito a Aristóteles. Subsiste sem que [[lexico:r:razao|razão]] exista. Pois bem; não teria Deus criado o homem à sua imagem e semelhança, porque «[[lexico:e:eu|eu]]» estou separado do «mim mesmo», porque «tu» estás separado do «ti mesmo», porque «ele» está separado do «[[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]]», porque em cada um de nós há uma [[lexico:s:subjetividade|subjetividade]] irredutível, comparável, ao Absoluto? Não é por aí que homem se assemelha a Deus? Se não, não sei; resigno-me a não mais querer averiguar qual seja outra razão de semelhança. Pois, do «eu», também o homem só pode dizer: «eu sou o que sou». [EudoroMito:63-64]