===== COTIDIANIDADE ===== VIDE [[lexico:q:quotidianidade|quotidianidade]] 24. Mas dramas, rituais ou [[lexico:n:nao|não]], [[lexico:b:bem|Bem]] longe residem da [[lexico:c:compreensao|compreensão]] dos homens que já não possam ou não queiram distrair-se. Demais, dramas propendem, ao que se crê, para o lado da [[lexico:a:acao|ação]], e não para o da compreensão ou da [[lexico:i:intuicao|intuição]]. O Homem-coisa, que viemos a [[lexico:s:ser|ser]], não se afeiçoa à [[lexico:i:ideia|ideia]] de que não seja só a [[lexico:m:mente|mente]] a única responsável pelo [[lexico:p:pensar|pensar]]. [[lexico:q:quem|quem]] arriscará o [[lexico:p:paradoxo|paradoxo]] de [[lexico:p:parmenides|Parmênides]] (frg. 16), deixando-se permear da [[lexico:c:conviccao|convicção]] de que pensar é [[lexico:f:faculdade|faculdade]] do [[lexico:h:homem|homem]] inteiro, com sua [[lexico:c:carne|carne]] e seu [[lexico:s:sangue|sangue]], de [[lexico:t:todo|todo]] o [[lexico:c:corpo|corpo]], com [[lexico:a:alma|alma]] e [[lexico:e:espirito|espírito]] que o complementam, mas não o dispensam? Quem o arrisque passará da [[lexico:d:doxa|doxa]] para o paradoxo e, por isso mesmo, aceitará que o pensar não se dissocia de qualquer [[lexico:m:movimento|movimento]] de qualquer das partes em que se haja dividido o homem. [[lexico:p:pensamento|pensamento]] já está no mudo aceno para o [[lexico:c:ceu|Céu]], nas [[lexico:m:maos|mãos]] postas, antes que se murmure uma prece, no bater com as mãos no solo, para que as [[lexico:e:erinias|Erínias]] despertem, irrompam da [[lexico:t:terra|Terra]] e pelo [[lexico:m:mundo|mundo]] acorram em busca do homicida. E, sendo assim, certo é que todo o nosso agir corrente e comum, tudo quanto fazemos e vemos os outros fazer, o que cada um faz por [[lexico:v:ver|ver]] que outros o fazem — tudo a que se dá o [[lexico:n:nome|nome]] de «[[lexico:v:vida|vida]] quotidiana», com ou sem desenganos e surpresas, também não pode deixar de ser pensamento. Pensamento em nós infuso pelas notas e acordes [[lexico:d:dominantes|dominantes]] da [[lexico:c:cultura|cultura]] a que acedemos com maior ou menor [[lexico:e:esforco|esforço]] limitativo daqueles que, antes de termos nascido, já representavam o mesmo [[lexico:d:drama|drama]]. Não se distinga esta nossa vida rotineira, de [[lexico:c:culto|culto]] que prestamos a uma [[lexico:p:potencia|Potência]] desconhecida, e que nem queremos reconhecer como tal, quando a [[lexico:r:religiao|religião]], expulsa pela porta da frente, ainda não foi readmitida pela porta de trás. É claro que aquela Potência não é assim tão desconhecida. A ação diabólica não pode senão ser o pensamento gesticulado pelo [[lexico:d:diabo|diabo]] em sua [[lexico:e:essencia|essência]] de Grande Separador, e a nossa gesticulação, pensada ou impensada, a mais decisiva das invocações. O Diabo está connosco, a nosso lado, enquanto coagentes da fragmentação de nós e do Mundo em «[[lexico:c:coisas|coisas]]», o que somos durante a maior [[lexico:p:parte|parte]] da nossa vida; e o que assim somos, mais não somos do que os praticantes fervorosos de uma religião irreligiosa: longe de nós a ideia de religare a [[lexico:c:coisa|coisa]] que o Mundo é, e a coisa que o Homem veio a ser, com a sua [[lexico:o:origem|origem]] comum. [EudoroMito:111-112]