===== CONTÍNUO ===== Segundo [[lexico:a:aristoteles|Aristóteles]], algo é sucessivo de algo quando se encontra depois dele, em algum [[lexico:a:aspecto|aspecto]], sem que haja mais [[lexico:n:nada|nada]] da mesma [[lexico:c:classe|classe]] no [[lexico:m:meio|meio]]. Quando se trata de [[lexico:c:coisas|coisas]], o [[lexico:f:fato|fato]] de [[lexico:e:estar|estar]] uma a seguir à outra produz a continuidade, o [[lexico:s:ser|ser]] contínuo ou contato. Duas coisas estão em contato quando os seus limites exteriores coincidem no mesmo [[lexico:l:lugar|lugar]]. Quando há contato, há contiguidade, mas [[lexico:n:nao|não]] ao contrário (como acontece com os números que são contíguos, mas não estão em contato). A contiguidade é uma [[lexico:e:especie|espécie]] de que a continuidade é um [[lexico:g:genero|gênero]]. Duas coisas são contínuas quando os seus limites são idênticos, ao contrário de duas coisas contíguas, cujos limites estão juntos. Noutro lugar, Aristóteles define o contínuo como aquela [[lexico:g:grandeza|grandeza]] cujas partes estão unidas num [[lexico:t:todo|todo]] por limites comuns. Aristóteles distingue entre vários [[lexico:c:conceitos|conceitos]]: o ser sucessivo, o ser contínuo, o ser contíguo, o fato de se tocar, mas ao mesmo [[lexico:t:tempo|tempo]] tenta examinar quais as [[lexico:r:relacoes|relações]] existentes entre esses conceitos. Os escolásticos que se inspiraram grandemente em Aristóteles, e em [[lexico:p:particular|particular]] S. Tomás, estudaram também estes conceitos com a [[lexico:i:intencao|intenção]] de analisar o seu [[lexico:s:significado|significado]] e os diversos modos do seu significado. Houve na [[lexico:h:historia|história]] aquilo a que poderia chamar-se o debate entre os continuistas e os descontinuistas, isto é, entre os que consideram que a [[lexico:r:realidade|realidade]] - a realidade [[lexico:f:fisica|física]] primeiramente, mas também qualquer realidade como tal - é contínua ou descontínua. No decurso deste debate apresentaram-se, [[lexico:a:alem|além]] disso, muitas opiniões sobre a [[lexico:n:natureza|natureza]] da continuidade. Desde tempos antigos, o [[lexico:p:problema|problema]] do contínuo está essencialmente ligado ao problema da [[lexico:c:compreensao|compreensão]] [[lexico:r:racional|racional]] do [[lexico:r:real|real]], e especialmente do pleno, e por [[lexico:e:esse|esse]] [[lexico:m:motivo|motivo]] apresentou já desde os começos da [[lexico:r:reflexao|reflexão]] filosófica algumas graves dificuldades. As mais conhecidas são as expressas nos paradoxos de [[lexico:z:zenao|Zenão]] de Eleia. A infinita [[lexico:d:divisibilidade|divisibilidade]] do [[lexico:e:espaco|espaço]] requer a anulação do [[lexico:m:movimento|movimento]] e da [[lexico:e:extensao|extensão]]. [[lexico:d:democrito|Demócrito]] tentou encontrar uma solução postulando a [[lexico:e:existencia|existência]] de entes individuais, onde a [[lexico:r:racionalidade|racionalidade]] não penetrava. É célebre a solução de Aristóteles: consiste em mediatizar nesta dificuldade com as noções da [[lexico:p:potencia|potência]] e do [[lexico:a:ato|ato]], as quais solucionam o problema ao permitirem que um ser possa ser divisível em potência e indivisível em ato sem [[lexico:t:ter|ter]] que afirmar univocamente a sua absoluta divisibilidade ou indivisibilidade. Contudo, pode dizer-se que, à excepção de Demócrito e de algumas correntes pluralistas, o [[lexico:p:pensamento|pensamento]] antigo se inclina quase inteiramente para a [[lexico:a:afirmacao|afirmação]] do contínuo. Também se inclinava a favor do contínuo o pensamento medieval, embora neste se insiram concepções que tendem pelo menos para o descontinuismo de [[lexico:t:tipo|tipo]] [[lexico:d:dinamico|dinâmico]]. Pois em nenhum [[lexico:m:momento|momento]] pode prescindir-se , quando se ataca o problema do contínuo, da [[lexico:q:questao|questão]] das partes. A [[lexico:d:definicao|definição]] aristotélica menciona-a, explicitamente. O mesmo acontece na definição de s. Tomás, que assinala que é contínuo o [[lexico:e:ente|ente]] no qual estão contidas muitas partes numa, e se mantêm simultaneamente. Contudo, já desde tempos antigos se suspeitava de que o problema do contínuo oferecia um aspecto distinto consoante se aplicasse à [[lexico:m:materia|matéria]] ou ao [[lexico:e:espirito|espírito]]. E o que oferecia, desde logo, dificuldades era a continuidade primeira, pois, devido à perfeita simplicidade atribuída ao espiritual, podia supor-se que este era a extrema concentração de toda a continuidade. No caso da matéria, em contrapartida, a dificuldade aumentou quando na [[lexico:e:epoca|época]] [[lexico:m:moderna|moderna]] voltaram a formular-se todas as questões de fundo acerca da sua [[lexico:c:constituicao|constituição]]. [[lexico:d:descartes|Descartes]] defendia uma concepção da matéria contínua e identificava-a com o espaço. Contudo, isso não significava negar um [[lexico:d:dinamismo|dinamismo]] no fundo do material. Dinamismo manifestado na elasticidade. A física cartesiana e a [[lexico:t:teoria|teoria]] dos torvelinhos estão estreitamente ligadas ao problema da continuidade e constituem uma das tentativas para o solucionar. Mais fundamental, todavia, é a [[lexico:i:ideia|ideia]] da continuidade em [[lexico:l:leibniz|Leibniz]], o qual converte aquilo a que chama o [[lexico:p:principio|princípio]] de continuidade ou também a [[lexico:l:lei|lei]] da continuidade num dos [[lexico:p:principios|princípios]] ou leis fundamentais do [[lexico:u:universo|universo]]. Esta lei de continuidade exige que “quando as determinações essenciais de um ser se aproximam das de [[lexico:o:outro|outro]], todas as propriedades do primeiro devem, consequentemente, aproximar-se também das do segundo”. A lei em questão permite [[lexico:c:compreender|compreender]] que as diferenças que observamos entre dois seres (por [[lexico:e:exemplo|exemplo]], entre a semente e o fruto, ou entre diversas formas geométricas, tais como a [[lexico:p:parabola|parábola]], a elipse e a hipérbole) são diferenças meramente externas. Com [[lexico:e:efeito|efeito]], logo que descobrimos classes de seres intermédias que se introduzem entre as diversas diferenças notamos que podemos ir enchendo os vazios aparentes, de tal [[lexico:m:modo|modo]] que chega um momento em que vemos com perfeita clareza que um ser leva continuamente ao outro. O princípio de continuidade garante a [[lexico:o:ordem|ordem]] e a [[lexico:r:regularidade|regularidade]] na Natureza, e é ao mesmo tempo a [[lexico:e:expressao|expressão]] dessa ordem e regularidade. O poder da [[lexico:m:matematica|matemática]] radica no fato de ser capaz de expressar a continuidade da Natureza; a [[lexico:g:geometria|geometria]] é a [[lexico:c:ciencia|ciência]] do contínuo, e “para que haja regularidade e ordem na natureza, o [[lexico:f:fisico|físico]] deve estar em constante [[lexico:h:harmonia|harmonia]] com o geométrico”. Mas Leibniz não se limitou a reiterar a ideia de continuidade, mas afirmou que pode descobrir-se a lei do contínuo. E, em última [[lexico:a:analise|análise]], poderia descobrir-se uma lei que seria a lei da realidade inteira e que, por [[lexico:a:agora|agora]], só podemos expressar assinalando a sua existência no princípio [[lexico:u:universal|universal]] de continuidade. Esta ideia não foi, contudo, aceite por todos os filósofos; muitos pensaram que parece [[lexico:i:impossivel|impossível]] escapar às [[lexico:a:antinomias|antinomias]] que Zenão de Eleia pôs em relevo pela primeira vez. Assim, [[lexico:k:kant|Kant]] tratou o problema do contínuo dentro da segunda [[lexico:a:antinomia|antinomia]] na [[lexico:c:critica-da-razao-pura|CRÍTICA DA RAZÃO PURA]]. A [[lexico:t:tese|tese]] afirma a [[lexico:i:impossibilidade|impossibilidade]] de uma divisibilidade infinita, pois, de contrário, o ser dissolver-se-ia no nada. A [[lexico:a:antitese|antítese]] defende a infinita divisibilidade de uma [[lexico:p:parte|parte]], pois, de contrário, não haveria extensão. Ora, a antinomia deve-se, segundo Kant, a que, na tese, o espaço é considerado como algo em si, e, na antítese, como algo [[lexico:f:fenomenico|fenomênico]]. Assim, parece ter-se descoberto a [[lexico:o:origem|origem]] da dificuldade. Mas ao mesmo tempo a solução baseia-se num [[lexico:s:suposto|suposto]] que não é forçoso aceitar, e que nem sequer é plausível: a [[lexico:d:divisao|divisão]] do real em [[lexico:f:fenomeno|fenômeno]] e [[lexico:n:numeno|númeno]]. Suprimido o suposto, volta a introduzir-se o problema tradicional. Visto isso , alguns pensadores consideraram que não tem solução ou que só a tem adoptando - por convenção ou por [[lexico:c:conviccao|convicção]] - alguma [[lexico:p:posicao|posição]] da física última. É difícil separar o [[lexico:p:problema-filosofico|problema filosófico]] do contínuo dos problemas levantados pela [[lexico:n:nocao|noção]] de continuidade na física e na matemática, e esta última noção foi insistentemente explicada por físicos e matemáticos, durante os últimos séculos.