===== CONHECIMENTO SENSÍVEL ===== Pela [[lexico:s:sensacao|sensação]], o que atingimos das [[lexico:c:coisas|coisas]] exteriores? [[lexico:n:nao|Não]] o seu [[lexico:s:ser|ser]] total certamente. O [[lexico:s:sentido|sentido]], com [[lexico:e:efeito|efeito]], como toda [[lexico:p:potencia|potência]] de [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]], diretamente só pode [[lexico:a:apreender|apreender]] as formas: "Obiectum cuiuslibet potentiae sensitivae est [[lexico:f:forma|forma]] prout in materia corporali existit." Ainda mais, convém precisar que não é a forma [[lexico:s:substancial|substancial]], ou a [[lexico:e:essencia|essência]] das coisas, que é percebida, mas somente as formas acidentais e, talvez mesmo, certas formas acidentais exteriores: "[[lexico:s:sensus|sensus]] non apprehendit essentias rerum sed exteriora accidentia tantum." Em [[lexico:s:suma|suma]], devemos considerar, como [[lexico:o:objeto|objeto]] dos sentidos, o conjunto das qualidades da terceira [[lexico:e:especie|espécie]], denominadas [[lexico:q:qualidades-sensiveis|qualidades sensíveis]], às quais é preciso acrescentar as determinações quantitativas dos corpos. [[lexico:a:aristoteles|Aristóteles]], em um trecho que se tornou [[lexico:c:classico|clássico]], dividiu em três grandes classes os objetos da sensação (cf. [[lexico:d:de-anima|De anima]], II, c. 6). Os sensíveis próprios. São os objetos particulares de cada um dos cinco [[lexico:s:sentidos-externos|sentidos externos]]: cor, som, odor, sabor, e o [[lexico:c:complexo|complexo]] conjunto das qualidades percebidas pelo tacto (calor, frio, [[lexico:p:peso|peso]], pressão, resistência, etc. ...). Estes sensíveis são chamados próprios pelo [[lexico:f:fato|fato]] de se relacionarem só a um sentido que determinam, o que evidentemente pressupõe que sejam especificamente distintos uns dos outros. Cada sentido, portanto, percebe seu sentido [[lexico:p:proprio|próprio]], e não pode ser afetado pelo [[lexico:s:sensivel|sensível]] dos outros sentidos. Os sensíveis comuns. Como o [[lexico:n:nome|nome]] indica, estes sensíveis podem ser apreendidos por vários sentidos. Distinguem-se habitualmente cinco: o tamanho, a [[lexico:f:figura|figura]], o [[lexico:n:numero|número]], o [[lexico:m:movimento|movimento]] e o repouso. A vista, o tacto, e talvez o ouvido, têm uma certa [[lexico:p:percepcao|percepção]] destas coisas. Os sensíveis comuns não constituem um objeto absolutamente [[lexico:i:independente|independente]]; supõem o conhecimento dos sensíveis próprios ao qual conferem uma [[lexico:m:modalidade|modalidade]] original. Assim, quando vejo uma [[lexico:e:extensao|extensão]] colorida, a cor é, nesta sensação, o que especifica propriamente a vista, mas a extensão é igualmente conhecida e poderia ser conhecida por [[lexico:o:outro|outro]] sentido. Os sensíveis "[[lexico:p:per-accidens|per accidens]]". Esta última [[lexico:c:categoria|categoria]] de objetos não é diretamente apreendida pelos sentidos, mas ligada a coisas que são efetivamente sentidas. Vejo uma mancha colorida: acontece que é um [[lexico:a:animal|animal]]; declaro então que vejo um animal. Tais objetos, vê-se claramente, não devem ser levados em consideração na [[lexico:t:teoria|teoria]] especial do conhecimento dos sentidos externos. **O [[lexico:r:realismo|realismo]] do [[lexico:c:conhecimento-sensivel|conhecimento sensível]].** É neste [[lexico:p:ponto|ponto]] que mais radicalmente se opõem a [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] antiga, mais realista, e o [[lexico:p:pensamento|pensamento]] [[lexico:m:moderno|moderno]], mais subjetivista. O [[lexico:m:mundo|mundo]] [[lexico:e:exterior|exterior]] é revelado pelos sentidos tal qual é, ou somente de [[lexico:m:modo|modo]] aproximativo, ou mesmo, puramente [[lexico:s:simbolico|simbólico]]? Precisemos logo que a [[lexico:o:objetividade|objetividade]], aqui colocada em [[lexico:c:causa|causa]], é somente a dos sensíveis próprios e a dos sensíveis comuns, e destes últimos só no caso em que são objeto de um só sentido. Tudo o que diz [[lexico:r:respeito|respeito]] ao sensível "per accidens" ou tudo o que, na percepção, supõe uma certa construção, está fora de nossas vistas. O [[lexico:p:problema|problema]] [[lexico:g:geral|geral]] do realismo do conhecimento deve ser estudado em outro [[lexico:l:lugar|lugar]], a propósito da [[lexico:a:apreensao|apreensão]] do ser, e do ponto de vista da [[lexico:i:inteligencia|inteligência]]. Portanto, aqui está em [[lexico:q:questao|questão]] só o [[lexico:d:dado|dado]] [[lexico:i:imediato|imediato]] de cada um dos nossos sentidos. **O que sobre isso pensaram Aristóteles e [[lexico:t:tomas-de-aquino|Tomás de Aquino]]?** Sua [[lexico:a:atitude|atitude]] sobre este ponto é indubitavelmente realista: para eles os dados imediatos dos sentidos são objetivos. Aristóteles, manifesta-o de início com mais discrição: o que quer precisamente manter, contra [[lexico:p:protagoras|Protágoras]], é que o cessar da sensação não importa no desaparecimento do objeto: "é [[lexico:i:impossivel|impossível]] que os objetos que produzem esta sensação desapareçam só pelo fato de esta ser suprimida, pois a sensação não se radica em si mesma; [[lexico:a:alem|além]] da sensação há outra [[lexico:c:coisa|coisa]] que necessariamente a precede" (Cf. Metaph., c. 5; De [[lexico:a:anima|anima]], III, c. 2 e 3 ) . Existe [[lexico:i:identidade|identidade]] entre o sensível e o senciente no [[lexico:a:ato|ato]] da sensação, repete ele também constantemente; com [[lexico:r:relacao|relação]] ao sensível próprio não pode haver [[lexico:e:erro|erro]] nos sentidos. Tomás de Aquino, por sua vez, expressa-o em fórmulas absolutamente inequívocas; a cor está no fruto que percebemos: "a vista vê, com efeito, a cor do fruto sem o odor; se perguntamos onde está a cor que é vista sem seu odor, é claro que tal cor só poderia [[lexico:e:estar|estar]] no fruto" (S. Th. Ia Pa, q. 85, a. 2, ad. 2). Este realismo, todavia, não é tal que não admita certas mitigações. Antes de tudo, já vimos, diz respeito só aos sensíveis próprios e, de certa maneira, aos sensíveis comuns; e só considera os acidentes exteriores, permanecendo velada a essência mesma das coisas. O sentido, enfim, é, [[lexico:p:por-si|por si]] só, incapaz de apreciar formalmente a objetividade de seu conhecimento. Esta [[lexico:o:operacao|operação]] supõe a [[lexico:r:reflexao|reflexão]] da inteligência. É preciso ir mais longe. Em muitos [[lexico:l:lugares|lugares]], por [[lexico:o:ocasiao|ocasião]] dos erros dos sentidos, Tomás de Aquino abertamente dá mostras de [[lexico:r:relativismo|relativismo]] (cf. sobretudo Metaph., IV, 1-14, n. 694 ss). Algo parece-nos pequeno ou grande conforme visto de longe ou de perto: para julgar objetivamente deve-se fiar na segunda dessas impressões. Os sensíveis comuns, aliás, prestam-se a múltiplas ilusões. Nota-se igualmente que a cor de um objeto pode mudar com a distância: aqui ainda é a [[lexico:v:visao|visão]] próxima que é a certa. Por outra [[lexico:p:parte|parte]], se os órgãos dos sentidos estão doentes, infetados de [[lexico:h:humor|humor]] como nos febricitantes ou nos que têm iterícia, as sensações ver-se-ão perturbadas. A debilidade do [[lexico:s:sujeito|sujeito]] pode, enfim, ser causa de erro: a [[lexico:q:quem|quem]] é fraco um peso leve parece pesado. Impelido pelos fatos, Tomás de Aquino falou em relativismo. Mas não o teria acentuado se se tivesse encontrado diante de uma [[lexico:a:analise|análise]] metodicamente conduzida. Resta, entretanto, que para ele, como para Aristóteles, a potência sensível aparece antes como um receptáculo [[lexico:v:vazio|vazio]]; que toda [[lexico:e:especificacao|especificação]] vem do objeto; e que pelo menos em condições normais percebemos as qualidades sensíveis tais como são na [[lexico:r:realidade|realidade]]. Os comentadores retomaram a precedente doutrina da objetividade da sensação, completando-a em certos pontos. Reteremos aqui apenas os aperfeiçoamentos trazidos por João de [[lexico:s:santo|santo]] Tomás (cf. Cursus Philos., De Anima, 6, a.4: Utrum requiratur necessario [[lexico:q:quod|quod]] objectum exterius sit praesens ut sentiri possit; a. 5: Utrum sensus externi forment idolam, seu speciem expressam ut cognoscant). Este autor esforça-se por precisar em dois pontos principais a teoria do realismo do conhecimento dos sentidos. Declara, antes de tudo, que o conhecimento sensível realiza o [[lexico:t:tipo|tipo]] mesmo do conhecimento [[lexico:e:experimental|experimental]], o qual se opõe ao conhecimento quididativo como a apreensão imediata da realidade concreta à concepção abstrata das [[lexico:e:essencias|essências]], sendo a [[lexico:p:presenca|presença]] do objeto conhecido, na [[lexico:f:faculdade|faculdade]] de conhecer, o [[lexico:m:motivo|motivo]] próprio do conhecimento experimental. Se não se admitir para o conhecimento sensível este [[lexico:c:carater|caráter]] de imediato, pensa ele, [[lexico:t:todo|todo]] o realismo de nosso pensamento, que descansa sobre esta base, encontra-se comprometido. Com a mesma [[lexico:p:preocupacao|preocupação]] de garantir o imediato do conhecimento sensível, afirma nosso autor, em segundo lugar, que ao invés do que se passa com a inteligência, um tal conhecimento não atinge seu objeto em uma concepção formada pelo [[lexico:e:espirito|espírito]], ou em uma "[[lexico:s:species|species]] expressa". O conhecimento sensível só tem por [[lexico:t:termo|termo]] a coisa em si mesma, ou suas qualidades objetivas, que são apreendidas diretamente pelo sentido. Que uma "species cxpressa" não seja requerida, isso provém, antes de tudo, da [[lexico:c:condicao|condição]] da coisa concreta que, estando efetivamente presente e em condições de imediação suficiente, pode ser imediatamente captada. E provém ainda do fato de que, sendo do [[lexico:g:genero|gênero]] [[lexico:q:qualidade|qualidade]], a [[lexico:a:acao|ação]] [[lexico:i:imanente|imanente]] não supõe necessariamente a produção de um termo. A coisa concreta tem, no caso presente, tudo [[lexico:o:o-que-e|o que é]] preciso para terminar por si mesma o ato de conhecer e seria supérfluo recorrer, para desempenhar este papel, a um substituto criado pelo espírito. Alguns tomistas modernos, impressionados pelas dificuldades postas por uma [[lexico:c:critica|crítica]] mais avançada da sensação, aplicaram-se em renovar a teoria antiga no sentido da [[lexico:r:relatividade|relatividade]] (cf. por [[lexico:e:exemplo|exemplo]]: Fröbes, Psychologie spéculative, t. I, p. 108) . Uma primeira modificação importante consiste em dar, do ponto de vista da objetividade, um [[lexico:v:valor|valor]] privilegiado às qualidades primeiras (dados quantitativos) sobre as [[lexico:q:qualidades-segundas|qualidades segundas]] (dados qualitativos). A extensão e suas determinações, em principio, encontrar-se-iam na realidade tais como nós as percebemos, mas o [[lexico:a:aspecto|aspecto]] qualitativo da [[lexico:r:representacao|representação]] não é verdadeiramente [[lexico:o:objetivo|objetivo]]. Se a cada qualidade percebida corresponde concretamente uma [[lexico:d:determinacao|determinação]] especial que justifica a especialidade da sensação, não há entre os dois termos verdadeira [[lexico:s:semelhanca|semelhança]]. Vê-se quão profundamente a teoria antiga aqui se encontra transformada. Para Tomás de Aquino, ao contrário, é a percepção da qualidade que apresenta o máximo de [[lexico:g:garantia|garantia]], produzindo-se os erros antes na percepção dos sensíveis comuns. Alguns vão menos longe na sua [[lexico:r:reforma|Reforma]]. O sensível percebido é [[lexico:b:bem|Bem]] imediato e objetivo, mas como tal é realizado apenas ao contato do [[lexico:o:orgao|órgão]] ou da potência sensível. O [[lexico:m:meio|meio]] tanto exterior como interior pode, com efeito, muito bem modificar as condições da sensação. O objeto, em sua realidade, não seria portanto necessariamente [[lexico:i:identico|idêntico]] à representação que dele temos. O que reter de tudo isto? Não é duvidoso que Tomás de Aquino, nas sendas de Aristóteles, tenha reconhecido a objetividade das qualidades sensíveis; aparece igualmente que, quando o fato o constrangia, mitigava com um certo relativismo esta primeira consideração. Pode-se ir mais longe que ele nesta via? Sem [[lexico:d:duvida|dúvida]]. [[lexico:n:nada|nada]] proíbe, em [[lexico:p:particular|particular]], de se levar mais em conta as condições do meio e dos órgãos e de transportar assim, ao nível da faculdade, o objeto tal como nós o percebemos. Poder-se-á progredir até ao ponto de dizer que as qualidades percebidas são apenas [[lexico:s:simbolos|símbolos]] das qualidades reais das coisas, com [[lexico:f:finalidade|finalidade]] sobretudo utilitária? Será sempre praticamente impossível dar a esta questão uma resposta decisiva, porque não têm os sentidos, como a inteligência, o poder de refletir sobre seu ato e, portanto, de julgar de seu [[lexico:e:exato|exato]] valor. Como quer que seja, há uma imediação e um certo realismo fundamental que, no [[lexico:t:tomismo|tomismo]], dificilmente podem ser recusados ao conhecimento sensível.