===== COMUNICAÇÃO ENTRE SUBSTÂNCIAS ===== [[lexico:d:deus:start|Deus]] criou o [[lexico:u:universo:start|universo]]. Significa que Deus cria as [[lexico:m:monadas:start|mônadas]], e quando Deus cria as mônadas põe em cada uma delas a [[lexico:l:lei:start|lei]] da [[lexico:e:evolucao:start|evolução]] interna de suas percepções. Por conseguinte, todas as mônadas que constituem o universo estão entre si numa harmônica [[lexico:c:correspondencia:start|correspondência]], correspondência harmônica que foi preestabelecida por Deus no [[lexico:a:ato:start|ato]] mesmo da [[lexico:c:criacao:start|criação]]; no ato mesmo da criação cada [[lexico:m:monada:start|mônada]] recebeu sua [[lexico:e:essencia:start|essência]] individual, sua [[lexico:c:consistencia:start|consistência]] individual, e essa consistência individual é a [[lexico:d:definicao:start|definição]] [[lexico:f:funcional:start|funcional]], [[lexico:i:infinitesimal:start|infinitesimal]], dessa mônada. Quer dizer, que essa mônada, desenvolvendo sua própria essência, sem [[lexico:n:necessidade:start|necessidade]] de que de fora dela entrem [[lexico:a:acoes:start|ações]] nenhumas a influir nela, desenvolvendo sua própria essência, coincide e corresponde com as demais mônadas numa [[lexico:h:harmonia:start|harmonia]] perfeita totalmente [[lexico:u:universal:start|universal]]. Desta maneira, somente com a definição [[lexico:e:essencial:start|essencial]] de cada um desses pontos de [[lexico:s:substancia:start|substância]] [[lexico:m:metafisica:start|metafísica]] que são as mônadas, [[lexico:l:leibniz:start|Leibniz]] resolve o [[lexico:p:problema:start|problema]] formidável que se levantara na metafísica europeia radicado à [[lexico:m:morte:start|morte]] de [[lexico:d:descartes:start|Descartes]]. Era o grande problema, o enorme problema da [[lexico:c:comunicacao:start|comunicação]] entre as [[lexico:s:substancias:start|substâncias]] e principalmente da [[lexico:r:relacao:start|relação]] entre a [[lexico:a:alma:start|alma]] e o [[lexico:c:corpo:start|corpo]]. Recordemos que Descartes tinha estabelecido três substâncias: a substância divina, a substância extensa, ou seja o corpo, e a substância pensante. Trata-se de [[lexico:s:saber:start|saber]] como é [[lexico:p:possivel:start|possível]] que o corpo influa sobre a alma e que a alma influa sobre o corpo. Que existe essa [[lexico:i:influencia:start|influência]] é indubitável, porque um [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]], o pensamento de levantar a mão direita me basta para que levante a mão direita. Por conseguinte, a alma influi sobre o corpo. Que o corpo influi sobre a alma é também indubitável, porque uma modificação qualquer do corpo, produz em mim pelo menos a [[lexico:i:ideia:start|ideia]] confusa da [[lexico:d:dor:start|dor]]. [[lexico:a:agora:start|agora]], como é possível essa comunicação entre as substâncias? Pois para que duas substâncias, dois seres, duas [[lexico:c:coisas:start|coisas]] se comuniquem é preciso que exista entre elas algo de comum; tem que haver algo de comum para que duas coisas se comuniquem; têm que se comunicar por uma via comum. Mas que há de comum entre o [[lexico:p:puro:start|puro]] [[lexico:p:pensar:start|pensar]] e o [[lexico:s:ser:start|ser]] extenso? [[lexico:n:nao:start|Não]] há [[lexico:n:nada:start|nada]] de comum. Como, pois, resolver o problema da [[lexico:c:comunicacao-das-substancias:start|comunicação das substâncias]], da influência do corpo sobre a alma e da influência da alma sobre o corpo? Os metafísicos posteriores a Descartes esforçaram-se para resolver este problema. O [[lexico:p:proprio:start|próprio]] Leibniz, num de seus escritos, estabelece um símile muito instrutivo que compreende todas as possíveis soluções a este problema e que alude aos filósofos que adotaram essas possíveis soluções. O símile é o seguinte: suponhamos num quarto dois relógios; esses dois relógios marcham sempre compassadamente, de [[lexico:m:modo:start|modo]] que quando um assinala as 3:05, o [[lexico:o:outro:start|outro]] também assinala as 3:05. Como é possível que marchem tão compassadamente? Como é possível que as modificações do corpo sejam percebidas pela alma? Como é possível que as modificações da alma produzam efeitos no corpo? Como é possível que os dois relógios andem tão compassadamente? Há várias [[lexico:h:hipoteses:start|hipóteses]] possíveis para [[lexico:e:explicar:start|explicar]] esta coincidência entre as duas substâncias. Primeira [[lexico:h:hipotese:start|hipótese]]: a de uma influência direta de um relógio sobre o outro. Mas não se compreende esta hipótese, que é a de Descartes. Descartes alojava a alma dentro da glândula pineal e imaginava que [[lexico:t:todo:start|todo]] o [[lexico:m:movimento:start|movimento]] dos nervos era como o puxar o cordel de um sinozinho: ao puxar, mecanicamente se transmite o movimento pelo cordel e ao chegar à glândula pineal que, com [[lexico:e:efeito:start|efeito]], tem a [[lexico:f:forma:start|forma]] de um badalo de sinozinho, mecanicamente se move e a alma se inteira. Mas [[lexico:c:como-se:start|como se]] inteira? Porque é ao chegar aí que não se compreende; porque não há nada de comum entre um movimento e uma [[lexico:p:percepcao:start|percepção]]. Essa é a primeira hipótese, porém é uma hipótese rejeitável e que rejeitaram todos os filósofos depois de Descartes. Não pode haver comunicação direta entre os relógios. Então, como explicar essa correspondência? Cabe ainda esta outra hipótese: um prudente e hábil [[lexico:a:artesao:start|artesão]] relojoeiro, perito em [[lexico:m:mecanica:start|mecânica]], coloca-se diante dos dois relógios, presta toda a [[lexico:a:atencao:start|atenção]] e quando um dos dois relógios começa a querer adiantar-se ao outro, toca em sua [[lexico:m:maquina:start|máquina]] para que não se adiante; quando o outro começa a querer adiantar-se ao anterior, toca na sua máquina para que não se adiante. Esta é a [[lexico:t:teoria:start|teoria]] de [[lexico:m:malebranche:start|Malebranche]], [[lexico:f:filosofo:start|filósofo]] francês discípulo de Descartes, e que se conhece com o [[lexico:n:nome:start|nome]] de "teoria das [[lexico:c:causas:start|causas]] ocasionais"; segundo a qual Deus seria [[lexico:e:esse:start|esse]] operário; Deus estaria constantemente atento ao que sucede às substâncias, e quando numa substância sucede algo, isto lhe dá [[lexico:o:ocasiao:start|ocasião]] para influir na outra substância para que aconteça na outra o correspondente. Para Malebranche não há outra [[lexico:c:causa:start|causa]] eficiente senão Deus e aquilo que chamamos causas na [[lexico:f:fisica:start|física]] e na [[lexico:n:natureza:start|natureza]] são ocasiões que Deus tem de intervir continuamente na harmonia entre as substâncias no universo. Esta hipótese está sujeita também a críticas muito graves. Cabe outra hipótese, que é a de dizer: pois que não existam dois relógios, mas sim um só [[lexico:m:mecanismo:start|mecanismo]] com duas esferas; um só conjunto de rodas e de peças, porém duas esferas, uma à direita e outra à esquerda. Então, por [[lexico:f:forca:start|força]] têm que andar sempre as duas esferas correspondentes e parelhas, porque como é um só mecanismo aquele que manda nas duas agulhas, não pode haver diferenças entre elas. Esta solução é o [[lexico:p:panteismo:start|panteísmo]] do filósofo holandês Espinosa. O panteísmo nos diz: não há mais que uma substância metafisicamente, que é Deus. Esta substância tem duas faces, dois atributos: a [[lexico:e:extensao:start|extensão]] cartesiana e o pensamento cartesiano. Como se comunicam a extensão e o pensamento? Nem é preciso perguntar. Como a extensão e o pensamento não são mais que dois atributos de uma e a mesma substância universal, as modificações numa e as modificações na outra são modificações na única substância. Diz muito [[lexico:b:bem:start|Bem]] Leibniz, é como se em [[lexico:l:lugar:start|lugar]] de dois relógios fosse um só mecanismo com duas esferas; as duas, naturalmente, marcariam sempre do mesmo modo, porque dependeriam de um [[lexico:u:unico:start|único]] mecanismo. Tampouco pôde satisfazer a Leibniz esta hipótese que conduz diretamente ao panteísmo. O panteísmo produz dificuldades enormes, entre outras, as dificuldades físicas ou mecânicas que vêm adscritas à [[lexico:n:negacao:start|negação]] da [[lexico:e:existencia-de-deus:start|existência de Deus]] na física do século XVII. Assim, pois, Leibniz tem que se socorrer de outra hipótese, que é a sua: que os dois relógios não foram fabricados por um mau relojoeiro, mas por um operário relojoeiro magnífico. Como magnífico? Deus é um relojoeiro tão [[lexico:p:perfeito:start|perfeito]], que uma vez que fez os dois relógios e os pôs em marcha, não há [[lexico:p:possibilidade:start|possibilidade]] nenhuma de que os dois relógios feitos por Deus se afastem nem um milésimo de segundo um do outro, visto que foram feitos perfeitamente por Deus. Esta é a hipótese de Leibniz, que se chama da [[lexico:h:harmonia-preestabelecida:start|harmonia preestabelecida]]. Deus criou as mônadas e o ato de criação das mônadas é o ato de individualização das mônadas; a mônada é criada individualmente, com sua marca individual, com sua essência, com sua substância própria individual, ou seja com a lei íntima funcionai de todo seu [[lexico:d:desenvolvimento:start|desenvolvimento]] ulterior. Mas Deus, ao [[lexico:c:criar:start|criar]] a [[lexico:t:totalidade:start|totalidade]] das mônadas, cada uma com sua lei funcional interna, criou-as em harmonia preestabelecida, e então, sem necessidade de que haja uma intercomunicação das substâncias, de [[lexico:f:fato:start|fato]], seguindo cada uma cegamente sua própria lei, resulta a harmonia universal do todo. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}