===== COMTE ===== COMTE (Augusto), [[lexico:f:filosofo|filósofo]] francês (Montpellier 1798 — Paris 1857). De [[lexico:f:formacao|formação]] [[lexico:m:matematica|matemática]], aluno da [[lexico:e:escola|escola]] Politécnica, Comte é o filósofo do [[lexico:p:positivismo|positivismo]]. O positivismo representa para ele (Curso de [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] positiva, 1839 — 1842) a ultima etapa da [[lexico:h:humanidade|humanidade]], que se elevou pouco a pouco do "estágio teológico", no qual tudo se explicava de maneira mágica, ao "estágio metafísico", no qual a [[lexico:e:explicacao|explicação]] se contentava com [[lexico:p:palavras|palavras]] (a [[lexico:e:escolastica|escolástica]] da Idade Média: "Por que a dormideira faz dormir? — Porque possui uma [[lexico:v:virtude|virtude]] dormitiva") e, finalmente, ao "estágio [[lexico:p:positivo|positivo]]", no qual [[lexico:e:explicar|explicar]] significa "dar a [[lexico:l:lei|lei]]". [[lexico:n:nao|Não]] conhecemos [[lexico:n:nada|nada]] [[lexico:a:alem|além]] da [[lexico:e:experiencia|experiência]]. "Há somente uma [[lexico:m:maxima|máxima]] absoluta, a de que não há nada [[lexico:a:absoluto|absoluto]]." Comte é o fundador da [[lexico:s:sociologia|sociologia]], que concebia como uma "[[lexico:f:fisica-social|física social]]", pela [[lexico:s:simples|simples]] aplicação dos métodos da [[lexico:f:fisica|física]] à [[lexico:s:sociedade|sociedade]]. Sua [[lexico:m:moral|moral]] reduz-se ao [[lexico:a:altruismo|altruísmo]]. Em 1844, conheceu Clotilde de Vaux, que amou com [[lexico:a:amor|amor]] romântico e platônico. [[lexico:e:esse|esse]] encontro conduziu-o ao [[lexico:m:misticismo|misticismo]] e, depois da [[lexico:m:morte|morte]] de Clotilde, à [[lexico:r:religiao|religião]] da Humanidade. A [[lexico:r:respeito|respeito]] desse [[lexico:u:ultimo|último]] [[lexico:p:ponto|ponto]], Littré se separou de Comte, para escrever desde então sua [[lexico:o:obra|obra]] [[lexico:p:pessoal|pessoal]]. Apesar do [[lexico:e:estilo|estilo]] envelhecido e acadêmico, a Filosofia positiva e principalmente a [[lexico:p:politica|Política]] positiva (1852 — 1854) permanecem ricas de ensinamentos para nós. (V. [[lexico:c:classificacao-das-ciencias|classificação das ciências]], positivismo.) A filosofia de Augusto Comte é o [[lexico:t:termo|termo]] de um [[lexico:m:movimento|movimento]] e o sopé de um declive [[lexico:n:natural|natural]]. Chegou na sua hora, após acontecimentos que haviam transtornado de tal [[lexico:f:forma|forma]] a face das [[lexico:c:coisas|coisas]] que se ficava a indagar como restabelecê-las. A [[lexico:r:razao|razão]], nessa ascensão em que se comprazia demasiadamente, julgava-se capaz de regular tudo e de tudo explicar; por [[lexico:o:outro|outro]] lado, tentava-se aplicar o [[lexico:e:empirismo|empirismo]] aos fatos sociais. Reagia-se contra uma política idealista cuja insuficiência se fizera sentir, procurava-se ensinar o [[lexico:u:universo|universo]] a encontrar a sua lei em [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]] e a prescindir de [[lexico:d:deus|Deus]]. Surgiram Joseph de [[lexico:m:maistre|Maistre]], Louis de Bonald, [[lexico:s:saint-simon|Saint-Simon]] e também Augusto Comte. Era um meridional, nascido em Montpellier no ano 1798, e educou-se numa [[lexico:f:familia|família]] católica ligada aos Bourbons. Não atingira ainda a juventude quando se libertou de suas crenças ou de suas ligações. Mas a lembrança sempre ficará, embora ele não o confesse, quer queira quer não. Passou pelo Escola Politécnica e fez [[lexico:a:amizade|amizade]] com Saint-Simon, de [[lexico:q:quem|quem]] se separaria mais [[lexico:t:tarde|Tarde]]. Concebeu um [[lexico:s:sistema|sistema]] derivado da sua formação científica e de 1828 a 1842 publicou o Curso de filosofia positiva, resumido em 1844 no [[lexico:d:discurso|discurso]] sobre o [[lexico:e:espirito|espírito]] positivo. Neste mesmo ano conheceu Clotilde de Vaux e as consequências do encontro são conhecidas: o descrente descobriu na mulher o [[lexico:o:objeto|objeto]] de um [[lexico:c:culto|culto]]. Pelo menos a sua obra se humanizou com isso. Prosseguiu através de publicações diversas e conquistou discípulos da estatura de um Littré. Comte morreu em 1857, cercado de amigos admiradores e piedosos, em Paris, na casa da Rua Monsieur le Prince n.° 10, onde continua ainda viva a sua recordação. Distingue três eras ou três estados na [[lexico:h:historia|história]] do [[lexico:m:mundo|mundo]]: o [[lexico:e:estado|Estado]] teológico ou fictício, o estado metafísico ou [[lexico:a:abstrato|abstrato]], e o estado positivo ou científico. A [[lexico:e:enumeracao|enumeração]] já indica muito [[lexico:b:bem|Bem]] que se tem em vista um [[lexico:p:progresso|progresso]] ou uma [[lexico:s:sucessao|sucessão]] de etapas. Primeiro o espírito [[lexico:h:humano|humano]] atribui a [[lexico:c:causas|causas]] puramente exteriores e imaginárias os acontecimentos ou os fenômenos, depois procura uma explicação na [[lexico:i:ideia|ideia]] abstrata e por [[lexico:f:fim|fim]] se fixa num [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]] certo, que é o da [[lexico:c:ciencia|ciência]]. Desta forma passa de um Deus criador a esse conjunto [[lexico:v:vago|vago]] que é a [[lexico:n:natureza|natureza]], depois ao [[lexico:e:exemplo|exemplo]] ou à [[lexico:d:demonstracao|demonstração]] e à explicação do [[lexico:f:fenomeno|fenômeno]] pelo fenômeno. Esta filosofia, assim resumida e considerada no seu termo e no seu desígnio, afigura-se-nos bem superficial ou ingênua. Veremos acusar-se esta fraqueza em derivações ainda mais simplificadas, tais como o cientificismo. Teve ela o seu [[lexico:v:valor|valor]] na [[lexico:e:epoca|época]] própria e permitiu esclarecer o espírito mediante distinções e classificações necessárias, como também contribuiu com [[lexico:e:elementos|elementos]] úteis para o exame dos problemas sociais: a documentação e o [[lexico:m:metodo|método]]. Desconheceu o valor da [[lexico:t:teologia|teologia]] e da filosofia especulativa tradicionais, e não foi esta a menor das suas lacunas. Assinalou na história do espírito um movimento que se acentuou a partir de então. Além disto, apesar das reservas que se lhe possam fazer, essa [[lexico:s:sintese|síntese]] não deixou de [[lexico:s:ser|ser]] uma [[lexico:o:operacao|operação]] genial. Comte renuncia de antemão a qualquer tentativa de atingir o absoluto ou as causas primeiras e prescinde de Deus, se bem que não chegue a negá-lo expressamente. O que lhe interessa é o [[lexico:a:arranjo|arranjo]] do espírito e, através dele, o arranjo do mundo. A [[lexico:a:anarquia|anarquia]] [[lexico:a:atual|atual]] lhe parece ser o fruto, sob uma forma ou outra, da [[lexico:f:falta|falta]] de coordenação desse espírito. Houve outrora sistemas e sistematizações. A idade teológica e a idade [[lexico:m:metafisica|metafísica]] tiveram os seus [[lexico:p:principios|princípios]] e os seus panoramas do mundo, que não se baseavam em nada de preciso, de sério ou de [[lexico:r:real|real]]. Só a ciência dará uma base sólida a uma construção desse [[lexico:g:genero|gênero]], construção que, ao contrário das outras, terá um [[lexico:c:carater|caráter]] definitivo, e o que pretende ser a filosofia positiva é "uma [[lexico:t:teoria|teoria]] [[lexico:g:geral|geral]] da ciência e das ciências". O que domina na ideia de ciência é a ideia de lei; o que garante a lei e lhe dá solidez é a invariabilidade. As ciências por sua vez abarcam e esgotam o conjunto da [[lexico:a:atividade|atividade]] humana e se hie-rarqui-zam. Há as matemáticas, a [[lexico:a:astronomia|astronomia]], a física, a química, a [[lexico:b:biologia|biologia]] e por fim a sociologia — [[lexico:p:palavra|palavra]] nova e [[lexico:c:coisa|coisa]] nova, que assumirá o [[lexico:n:nome|nome]] [[lexico:c:caracteristico|característico]] de "física [[lexico:s:social|social]]". Esta última ciência, a sociologia, torna-se a ciência suprema destinada a substituir todas as filosofias e todas as religiões. Assenta ou descobre as condições da [[lexico:v:vida|vida]] social e chama-se "estática social"; segue o curso [[lexico:h:historico|histórico]] das sociedades, e chama-se "[[lexico:d:dinamica|dinâmica]] social". O ponto de partida do [[lexico:g:grupo|grupo]] social já não é o [[lexico:i:individuo|indivíduo]], mas a família: o Estado é uma [[lexico:a:associacao|associação]], uma [[lexico:e:estrutura|estrutura]] de famílias. Tal como o concebemos atualmente é nacional, mas deve ultrapassar esta fase primitiva, pois sua [[lexico:v:vocacao|vocação]] é a universalidade. Para chegar a tal bastar-lhe-á tomar [[lexico:c:consciencia|consciência]] da [[lexico:n:nocao|noção]] de "humanidade". Esta humanidade é que faz o [[lexico:h:homem|homem]] e não vice-versa; ela é ideia-princípio e não simples ideia geral; contém em si os germes cujo [[lexico:d:desenvolvimento|desenvolvimento]] favorecem a eclosão do Estado [[lexico:i:ideal|ideal]]. A moral não será também um derivado qualquer do [[lexico:e:egoismo|egoísmo]] pessoal, mas o fruto de um [[lexico:s:sentimento|sentimento]] novo e generalizado: a sociabilidade. Assim será estabelecida ou restabelecida uma sociedade que lembrará a sociedade medieval, isto é, hierarquizada, mas com outros princípios de [[lexico:h:hierarquia|hierarquia]]. Haverá [[lexico:s:separacao|separação]] do poder material e do espiritual, sendo o primeiro exercido pelo [[lexico:g:governo|governo]] e o segundo representado por uma [[lexico:e:especie|espécie]] de igreja em que oficiarão colégios de sábios. Haverá um proletariado de trabalhadores e um patriciado de chefes de indústrias. Haverá mesmo uma religião e uma outra espécie de [[lexico:t:trindade|trindade]]: a religião da Humanidade com o culto do [[lexico:g:grande-ser|Grande Ser]] (que é a própria humanidade), do Grande [[lexico:f:fetiche|fetiche]] (a [[lexico:t:terra|Terra]]) e do Grande [[lexico:m:meio|meio]] (o [[lexico:e:espaco|Espaço]]). Quando tudo houver amadurecido ver-se-ão todas as nações unidas numa só, de forma religiosa, cujo papa residirá em Paris. Tal é o [[lexico:s:sonho|sonho]] de Augusto Comte. Exposto assim em resumo, afigura-se-nos extravagante. Já dissemos que este [[lexico:p:pensamento|pensamento]] teve o seu valor ou a sua [[lexico:n:necessidade|necessidade]]. Coincidiu com outro ou prenunciou-o e preparou-o, e a [[lexico:c:consequencia|consequência]] derradeira deste outro é o [[lexico:d:drama|drama]] em que nos debatemos.