===== COMEÇO ===== (lat. inceptio; in. Beginning; fr. Début; al. Anfang; it. Cominciamentó). Propriamente, o início de uma [[lexico:c:coisa|coisa]] no [[lexico:t:tempo|tempo]]: que pode coincidir ou [[lexico:n:nao|não]] com o [[lexico:p:principio|princípio]] ou com a [[lexico:o:origem|origem]] da própria coisa. Essa [[lexico:d:distincao|distinção]] é importante em alguns casos: p. ex., segundo [[lexico:t:tomas-de-aquino|Tomás de Aquino]], a [[lexico:c:criacao|criação]] é [[lexico:m:materia|matéria]] de [[lexico:f:fe|fé]] enquanto começo do [[lexico:m:mundo|mundo]] no tempo, mas não enquanto produção do [[lexico:n:nada|nada]] por [[lexico:p:parte|parte]] de [[lexico:d:deus|Deus]] (5. Th., I, q. 46, a. 2). [[lexico:h:hegel|Hegel]] afirmou que o começo da [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] é [[lexico:r:relativo|relativo]], no [[lexico:s:sentido|sentido]] de que o que aparece como começo é, de [[lexico:o:outro|outro]] [[lexico:p:ponto|ponto]] de vista, resultado (Fil. do dir., § 2, Zusatz). De qualquer [[lexico:m:modo|modo]], segundo Hegel, o [[lexico:a:absoluto|absoluto]] encontra-se mais no resultado do que no começo porque este, "da [[lexico:f:forma|forma]] como era expresso antes e [[lexico:a:agora|agora]], é apenas [[lexico:u:universal|universal]]", e o universal, nesse sentido, é só o [[lexico:a:abstrato|abstrato]] que não pode valer como concretitude e [[lexico:t:totalidade|totalidade]]; p. ex., as [[lexico:p:palavras|palavras]] "todos os animais", que exprimem o universal de que trata a zoologia, não podem valer como toda a zoologia (Phänomen. des Geistes, Intr., II, 1). Apesar disso, a filosofia muitas vezes procurou o começo absoluto para fazê-lo coincidir com o seu [[lexico:p:proprio|próprio]] "princípio", donde a procura do "primeiro princípio" do filosofar. Dessas considerações decorre o que entendemos por origem do mundo, e qual o [[lexico:c:conceito|conceito]] que formamos da [[lexico:r:relacao|relação]] do [[lexico:h:homem|homem]] com o polo inicial. O começo se propõe, portanto, como aurora de um [[lexico:s:sentimento|sentimento]] do [[lexico:d:divino|divino]] e do [[lexico:h:humano|humano]], como o desabrochar gradativo das anteposições axiológicas máximas, como o despertar de uma [[lexico:e:experiencia|experiência]] inédita da [[lexico:v:vida|vida]]. [[lexico:e:esse|esse]] começo, apesar de acontecer no tempo, retroage sobre o seu [[lexico:m:momento|momento]] [[lexico:p:particular|particular]], alargando a [[lexico:p:perspectiva|perspectiva]] para um passado ainda mais remoto. Esse começo se apresenta como contendo em si um passado. Os [[lexico:d:deuses|deuses]] olímpicos gregos reportavam à linhagem teogônica das divindades ctônicas. O cristianismo acrescentou-se ao passado dos livros de Israel. A [[lexico:i:ideia|ideia]] da origem das [[lexico:c:coisas|coisas]], assim compreendida, é um [[lexico:e:elemento|elemento]] [[lexico:e:essencial|essencial]] para a [[lexico:c:compreensao|compreensão]] de nossa [[lexico:r:realidade|realidade]] histórica é cultural. Nesse sentido, podemos dizer que o começo é o [[lexico:v:verdadeiro|verdadeiro]] plasmador do homem [[lexico:h:historico|histórico]] e que o [[lexico:m:mito|mito]] é a [[lexico:p:paideia|paideia]] original da [[lexico:h:humanidade|humanidade]]. Não podemos aceitar a [[lexico:t:tese|tese]] platônica, hostil à fundação poética da [[lexico:e:educacao|educação]] e contra ele vemos em Homero o educador da [[lexico:g:grecia|Grécia]]. Com o começo, entendido não como um ponto espaço-temporal, mas como um [[lexico:c:complexo|complexo]] de pressentimentos e de crenças, como nebulosa mítica, é proposto um [[lexico:d:destino|destino]]. Ser-para-o-começo significa abraçar e identificar-se com os grandes modelos e exemplos de um [[lexico:d:dado|dado]] [[lexico:c:circulo|círculo]] de possibilidades históricas. Não devemos [[lexico:p:pensar|pensar]], entretanto, que num [[lexico:g:grupo|grupo]] histórico-cultural exista uma [[lexico:h:homogeneidade|homogeneidade]] absoluta em relação às normas e valores gerais nele reinantes. Podemos descobrir, na [[lexico:e:evolucao|evolução]] do [[lexico:p:pensamento|pensamento]] [[lexico:g:grego|grego]], concorrentes orientalizantes que prenunciavam os futuros desenvolvimentos neoplatônicos. Nas épocas de maior [[lexico:u:unidade|unidade]] cultural, essas forças heterogêneas e discordantes parecem ter-se apagado diante da luminosidade das grandes ideias-força. São, entretanto, esses fermentos heréticos os pontos sensíveis a partir dos quais poder-se-ão desenvolver novas [[lexico:s:sementes|sementes]] culturais e históricas. [VFSTM:224-225]