===== COISAS ===== 2. O [[lexico:d:diabo|diabo]] também iludiu os homens, levando-os a crer que as «coisas» estão a seu dispor, a seu serviço, quando a [[lexico:r:realidade|realidade]] nos diz que somos nós os serviçais, os que estamos à [[lexico:d:disposicao|disposição]] delas. Aqui, somos os servos, [[lexico:n:nao|não]] os usuários. E se não nos apercebemos da nossa [[lexico:s:servidao|servidão]], é porque só incluímos na [[lexico:c:categoria|categoria]] de «coisas» os objetos fabricados, sem nos darmos conta de que a [[lexico:f:fabricacao|fabricação]] envolve [[lexico:t:todo|todo]] o «coisificado», como, por [[lexico:e:exemplo|exemplo]] [[lexico:r:relevante|relevante]], [[lexico:p:palavras|palavras]] que designam «coisas», [[lexico:c:conceitos|conceitos]] que as definem e, portanto, mais inexoravelmente as isolam, [[lexico:i:ideias|ideias]] que lhes vincam o perfil inalterável. O discorrer do [[lexico:i:intelecto|intelecto]] deixa as «coisas» serem o que são e ficarem como estão. Discursos em que não se dissolvem os rígidos contornos das «coisas», decerto não consentem que elas se interseccionem, se entrecruzem, se fundam e se confundam. Poderá, quando muito, fazer que diminua a distância que as separa; mas, por diminuta que seja a distância, nunca ela abolirá o distanciamento [[lexico:n:necessario|necessário]] para que as «coisas» permaneçam «coisas». O intelecto lógico-discursivo nunca trará duas «coisas» à proximidade que faz de uma o lado de fora ou o lado de dentro de outra. Não é o [[lexico:m:meio|meio]] pelo qual as «coisas» se adaptem e harmonizem. No domínio «coisístico», não há coincidência nem sequer [[lexico:o:oposicao|oposição]]. Os opostos, como tão [[lexico:b:bem|Bem]] nos ensinou [[lexico:h:heraclito|Heráclito]], são tais que em qualquer «posto» está o «oposto» — o que, decerto, não acontece com algo que «[[lexico:c:coisa|coisa]]» seja. E não há [[lexico:a:amor|amor]]. Do [[lexico:m:mundo|mundo]] das coisas, o [[lexico:e:eros|Eros]] desertou. As «coisas» residem, todas elas, num deserto da suprema [[lexico:a:afeicao|afeição]]; «coisas» não se afeiçoam, nenhuma quer tomar a feição de outra, de contrário, deixariam de o [[lexico:s:ser|ser]]. No que o Erótico insiste, as «coisas» resistem. Enquanto forem «coisas», sempre dois entes que se amem ou fulgem amar-se permanecerão separados. Uma «coisa» volta-se para si mesma, ou nunca o foi. E para dois «voltar-se para [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]]» não há [[lexico:p:possibilidade|possibilidade]] de [[lexico:e:extase|êxtase]]. E onde o êxtase não tem [[lexico:l:lugar|lugar]], lugar não tem o amor. Nas «coisas» se apartam Eros e [[lexico:s:sexo|sexo]]. O sexo é compatível com o distanciamento entre «coisas», mas não o Eros. Eroticamente ligados, dois entes vivem como um só; ambos se esqueceram de referir-se a si mesmos; referem-se um ao [[lexico:o:outro|outro]], na [[lexico:u:unidade|unidade]] que lhes não consente falarem de «ti» e de «mim». O Diabo nunca amou, não ama, não amará; nem o «[[lexico:d:diabolico|diabólico]]», porque lhe está vedado que seu limes alguma vez se volva em limen. «Diabólico» é o que jamais ultrapassou os limites da «coisa», que não pode deixar de ser o que parece, dentro de seus limites. [eudoroMito:90-91]