===== COISA ===== O [[lexico:t:termo|termo]] alemão correspondente "Ding" relaciona-se com "denken": [[lexico:p:pensar|pensar]], e portanto significa: "o pensado". Corresponde-lhe, em latim, "res", que se filia na mesma [[lexico:r:raiz|raiz]] do [[lexico:v:verbo|verbo]] "reor": pensar, crer, e que portanto designa: "o que se pensa ou crê". De [[lexico:f:fato|fato]]. podemos distinguir, no [[lexico:s:significado|significado]] do termo "coisa", três etapas. Em primeiro [[lexico:l:lugar|lugar]], coisa designa o [[lexico:s:ser|ser]] individual [[lexico:c:concreto|concreto]], tópico-temporal, que se nos apresenta na [[lexico:e:experiencia|experiência]] [[lexico:s:sensivel|sensível]]; assim falamos, p. ex., do "[[lexico:m:mundo|mundo]] das [[lexico:c:coisas|coisas]]". Sem [[lexico:d:duvida|dúvida]], pode também o [[lexico:h:homem|homem]] ser denominado coisa; contudo habitualmente opomos o mundo das coisas ao homem, porque, dada a sua [[lexico:q:qualidade|qualidade]] de [[lexico:p:pessoa|pessoa]] espiritual, [[lexico:n:nao|não]] o contamos entre as puras coisas. Em [[lexico:s:sentido|sentido]] mais amplo, coisa denota o [[lexico:o:objeto|objeto]], acerca do qual falamos ou pensamos, formulamos proposições ou emitimos juízos. Assim compreendido, o termo "coisa" é sinônimo de algo, [[lexico:a:alguma-coisa|alguma coisa]]; abarca igualmente o [[lexico:a:abstrato|abstrato]] (o [[lexico:n:numero|número]], a [[lexico:j:justica|justiça]]) e o [[lexico:s:supra-sensivel|supra-sensível]] ([[lexico:d:deus|Deus]]). Neste [[lexico:p:plano|plano]] surge a [[lexico:q:questao|questão]] epistemológica: É-nos acessível a coisa em si ? No mais [[lexico:p:profundo|profundo]] sentido metafísico, "res" (coisa) pertence às determinações fundamentais [[lexico:t:transcendentais|transcendentais]] do ser (Transcendentais) e, portanto, de [[lexico:t:todo|todo]] [[lexico:e:ente|ente]] em [[lexico:g:geral|geral]]. "Coisa", unida tão intimamente quanto [[lexico:p:possivel|possível]] ao "ente", tem como conteúdo a [[lexico:e:essencia|essência]] estática, o "ser tal" do ente, ao passo que "ente" põe em destaque a [[lexico:e:existencia|existência]] [[lexico:d:dinamica|dinâmica]]. — Lotz. Os escolásticos consideraram o [[lexico:c:conceito|conceito]] de coisa como um dos [[lexico:c:conceitos|conceitos]] dos transcendentais. A coisa é um dos cinco modos de ser e o seu [[lexico:m:modo|modo]] de ser corresponde, em geral, ao de todo o ente. O conceito de coisa distingue-se do de ente só por uma [[lexico:d:distincao|distinção]] de [[lexico:r:razao|razão]] raciocinante. Em contrapartida, o conceito de qualquer dos outros transcendentais não é de modo algum sinônimo do conceito de ente. Por vezes, considera-se que as coisas são as entidades individuais, e em [[lexico:p:particular|particular]] as existências materiais individuais. Estas definições têm o inconveniente de ser demasiado vagas (e o conceito de [[lexico:e:entidade|entidade]] individual não é de modo algum preciso) ou demasiado restritas (pois o conceito de coisa enquanto um dos modos de ser do ente tem maior [[lexico:e:extensao|extensão]] do que o conceito de coisa material). Mais aceitável - embora não isento de dificuldades - é ligar o conceito de coisa ao conceito de [[lexico:s:substancia|substância]]. Em muitas ocasiões, ao [[lexico:f:falar|falar]] de uma falamos da outra, como quando se diz, por [[lexico:e:exemplo|exemplo]]: “a coisa com as suas propriedades”. Seja como for, uma vez que se introduziu o conceito de coisa, é mister indicar ainda de que coisas se trata quando se aplica aquele conceito. Um dos modos de entender o conceito de coisa consiste em contrapô-lo ao conceito de pessoa. Segundo alguns autores, esta [[lexico:c:contraposicao|contraposição]] é meramente mental ou conceptual. Certos pensadores (chamados impersonalistas) consideraram, com [[lexico:e:efeito|efeito]], que a [[lexico:n:nocao|noção]] de pessoa pode sempre reduzir-se - [[lexico:o:ontologica|ontológica]] ou metafisicamente - à de coisa. Outros pensadores (chamados personalistas) consideraram que a noção de coisa pode sempre reduzir-se - ontológica e metafisicamente - à de pessoa. Em ambos os casos, só uma das noções corresponde à [[lexico:r:realidade|realidade]]. Os autores impersonalistas eram normalmente metafisicamente realistas; os autores personalistas eram normalmente metafisicamente personalistas. Outros autores inclinam-se para considerar que a noção de coisa não exclui a de pessoa nem a de pessoa a de coisa; ambas se referem a realidades fundamentais cuja [[lexico:r:relacao|relação]] é mister então [[lexico:e:explicar|explicar]]. Do [[lexico:p:ponto|ponto]] de vista [[lexico:h:historico|histórico]], pode considerar-se que nos conceitos de coisa e de pessoa se expressam certas “concepções do mundo” prévias às várias filosofias alojadas em cada uma delas. Em certo sentido, do vocábulo coisa pode dizer-se que o [[lexico:p:pensamento|pensamento]] [[lexico:g:grego|grego]] [[lexico:c:classico|clássico]] se inclinou para o predomínio da coisa. Isto equivale a um pensar do [[lexico:t:tipo|tipo]] “coisista” e substancialista. O conceito de pessoa, em contrapartida, vai-se introduzindo à [[lexico:m:medida|medida]] que se reconhecem tipos de realidade não redutíveis ao fixo, ao estável, ao [[lexico:e:exterior|exterior]], à [[lexico:f:figura|figura]], etc. De entre esses tipos de realidade, destacam aquilo a que se chama “[[lexico:v:vida|vida]] íntima” ou “[[lexico:e:espirito|espírito]]”. O cristianismo contribuiu para destacar esses tipos de realidade. Em geral, pode dizer-se que na medida em que se predomina a [[lexico:i:ideia|ideia]] de ser como ser em si, predomina também a noção de coisa, e na proporção em que predomina a ideia de um ser como ser para si, predomina a noção de pessoa.