===== COGITO SUM ===== Segundo J.-L. Marion, a [[lexico:c:critica|crítica]] nietzschiana confirma sua própria [[lexico:i:interpretacao|interpretação]] do [[lexico:c:cogito|cogito]], sum como [[lexico:s:simples|simples]] “[[lexico:e:enunciado|enunciado]] protocolar” (isto é, “[[lexico:n:nao|não]] afirmando nenhuma [[lexico:t:tese|tese]] nem enunciando nenhum [[lexico:p:principio|princípio]]”); confirma também que, com [[lexico:d:descartes|Descartes]], o [[lexico:e:ego|ego]] “ascende ao [[lexico:e:estatuto|estatuto]] metafísico de um princípio, na exata [[lexico:m:medida|medida]] em que o enunciado protocolar cogito, sum é interpretado como identificação do [[lexico:p:pensamento|pensamento]] com o [[lexico:s:ser|ser]], ou como [[lexico:d:deducao|dedução]] pelo pensamento da [[lexico:s:substancia|substância]] ou recondução da substância ao pensamento”. Para Marion, “Substância não se refere aqui ao [[lexico:c:classico|clássico]] debate sobre a ‘substantificação’ do [[lexico:s:sujeito|sujeito]] por Descartes; nessa polêmica, substância tem a [[lexico:v:ver|ver]] com uma interpretação trivial da οὐσία como ὑποκείμενον, substratum, [[lexico:s:suposito|supósito]], portanto, em última [[lexico:a:analise|análise]], [[lexico:m:materia|matéria]]; ao contrário, substância é entendida aqui como no [[lexico:s:sentido|sentido]] de [[lexico:w:wesen|Wesen]], Seiendheit, [[lexico:e:entidade|entidade]] do [[lexico:e:ente|ente]]. Coloca-se então a [[lexico:p:pergunta|pergunta]]: como, a partir do pensamento em [[lexico:a:acao|ação]] sob a [[lexico:f:figura|figura]] do ego no cogito, sum, pode-se formular uma doutrina da substância? Em outras [[lexico:p:palavras|palavras]]: como o ego pode constituir uma [[lexico:o:ontologia|ontologia]]?”. Deixando provisoriamente de lado o debate sobre a “substantificação do sujeito” em Descartes, e o impacto da [[lexico:d:distincao|distinção]] entre os dois sentidos de οὐσία sobre a delimitação da [[lexico:q:questao|questão]] cartesiana autêntica, apoiada na (pela) [[lexico:e:exegese|exegese]] nietzschiana do “enunciado protocolar” , nos preocuparemos mais aqui com aquilo que sugere a [[lexico:d:diferenca|diferença]] ou o [[lexico:j:jogo|jogo]] das traduções do § 17 de Jenseits Gut und Böse [v. isso pensa]: [[lexico:c:como-se|como se]] passa de “alguém” para “sujeito”? De “sujeito” para “[[lexico:a:agencia|agência]]”? Como [[lexico:e:explicar|explicar]] a [[lexico:e:equacao|equação]] formulada pelo gesto tradutor: Einer = sujeito = agency (= [[lexico:e:eu|eu]])? [[lexico:n:nota|nota]]: Voltaremos a [[lexico:e:esse|esse]] [[lexico:p:ponto|ponto]] no volume III, seguindo, particularmente, uma segunda pista traçada por J.-L. Marion: a [[lexico:d:discussao|discussão]] da interpretação dita “canônica” do cogito cartesiano. Em Questions cartésiennes II, Marion afirma de [[lexico:f:fato|fato]] que se, em um primeiro [[lexico:m:momento|momento]], [[lexico:n:nietzsche|Nietzsche]] [[lexico:r:recusa|recusa]] tal interpretação “tanto mais radicalmente” que, ao contrário de “todos seus predecessores” (entre os quais [[lexico:k:kant|Kant]] e [[lexico:h:hegel|Hegel]]), “ele não dirige sua crítica à [[lexico:i:identidade|identidade]] imediata entre [[lexico:e:ego-cogito|ego cogito]] e sum, mas à ligação entre o ego e o cogito”, no final ele não duvida “nenhum [[lexico:i:instante|instante]] que Descartes tenha concebido seu ego cogito, ergo sum como identidade imediata e tautológica do ego e de suas [[lexico:c:cogitationes|cogitationes]]”. Em sua análise do primeiro ponto, J.-L. Marion mostra, no entanto, toda a profundidade (e o impacto [[lexico:h:historico|histórico]]) da contraproposição nietzschiana: o “[[lexico:h:habito|hábito]] gramatical” denunciado em A [[lexico:v:vontade|vontade]] de [[lexico:p:potencia|Potência]] [[lexico:n:nada|nada]] mais é que um “[[lexico:i:idolo|ídolo]] metafísico que supõe uma [[lexico:c:causa|causa]] desde que se possa imaginar um [[lexico:e:efeito|efeito]]”, enquanto “a [[lexico:d:descricao|descrição]] exata do [[lexico:p:processo|processo]] do pensamento estabelece que ele se desenvolve sem ou apesar dos atos (ou ilusões de atos) do pretenso sujeito pensante”. É dessa [[lexico:s:suposicao|suposição]] de uma causa de meus [[lexico:p:pensamentos|Pensamentos]], que não seria senão ego, “eu” ou “eu mesmo”, que se trata de fazer a arqueologia. Contudo, desse ponto de vista, a [[lexico:e:existencia|existência]] de dois modelos cartesianos revelada por Marion, o “[[lexico:m:modelo|modelo]] identitário a = a” do ego cogito, ergo sum “privilegiado pela interpretação canônica” e o “modelo ilocutório, onde o ego só atinge sua existência primordial em [[lexico:v:virtude|virtude]] de um pensamento que o pensa antes”, requer ela própria um duplo traçado: o do modelo identitário e o do modelo ilocutório. O primeiro foi [[lexico:o:objeto|objeto]] de muitos estudos. O segundo está por ser realizado inteiramente. Espera-se mostrar, nos volumes II e III, que a crise averroísta, em grande medida, contribuiu problematicamente para a [[lexico:e:emergencia|emergência]] de alguns de seus traços constitutivos, particularmente a [[lexico:a:afirmacao|afirmação]] de que “o ego não atinge a [[lexico:c:categoria|categoria]] de primeiro pensante, portanto de ‘primeiro princípio’ a não ser na estrita medida em que se descobre como primeiro pensado”. Sobre tudo isso, cf. J.-L. Marion, “L’altérité originaire de l’ego, Meditatio 11, AT VII, 24-25”, em Questions cartésiennes II, pp. 11, 12 e 43-47.