===== COGITATIO ===== A incapacidade de controlar o incessante [[lexico:d:discurso:start|discurso]] (a co-agitatio) dos fantasmas interiores está entre os traços essenciais da caracterização [[lexico:p:patristica:start|patrística]] da [[lexico:a:acidia:start|acídia]]. Todas as Vitae patrum (Patrologia latina, 73) ecoam o grito dos monges e dos anacoretas que a [[lexico:s:solidao:start|solidão]] confronta com o monstruoso e proliferante discurso da [[lexico:f:fantasia:start|fantasia]]: “Domine, salvari desidero, sed [[lexico:c:cogitationes:start|cogitationes]] variae non permittunt” [“Senhor, desejo a salvação, mas fantasias várias não o permitem”]; “[[lexico:q:quid:start|quid]] faciam, pater, quoniam nulla opera facio monachi, sed in negligentia constitutus comedo et bibo et dormio, et de hora in horam transgredior de cogitatione in cogitationem...” [“O que farei, pai, pois não realizo obra alguma de monge, mas tomado pela negligência, como e bebo e durmo, e, de hora em hora, passo de fantasia em fantasia”]. Convém esclarecer que cogitatio, na [[lexico:l:linguagem:start|linguagem]] medieval, sempre se refere à fantasia e ao seu discurso fantasmático; só com o ocaso da concepção grega e medieval do [[lexico:i:intelecto:start|intelecto]] soberano, cogitatio começa a designar a [[lexico:a:atividade:start|atividade]] intelectual. Veremos depois que tal hipertrofia da [[lexico:i:imaginacao:start|imaginação]] é uma das características que aproxima a acídia dos Padres à síndrome melancólica e ao amor-enfermidade da medicina humoral; assim como estas, a [[lexico:p:preguica:start|preguiça]] poderia [[lexico:s:ser:start|ser]] definida como vitium corruptae imaginationis [vício da imaginação corrupta]. Sob o [[lexico:e:efeito:start|efeito]] da [[lexico:d:depressao:start|depressão]] melancólica, de uma [[lexico:d:doenca:start|doença]] ou de uma droga, qualquer um que tenha provado essa [[lexico:d:desordem:start|desordem]] da fantasia sabe que o fluxo incontrolável das imagens interiores é, para a [[lexico:c:consciencia:start|consciência]], uma das provas mais árduas e arriscadas. Flaubert, tendo sofrido por toda a juventude de uma desordem atroz da imaginação, representou na sua [[lexico:o:obra:start|obra]] mais pretensiosa a [[lexico:c:condicao:start|condição]] de uma [[lexico:a:alma:start|alma]] às voltas com as “tentações” da fantasia. A [[lexico:d:descoberta:start|descoberta]], familiar à [[lexico:m:mistica:start|mística]] de qualquer localidade, de uma [[lexico:p:possivel:start|possível]] [[lexico:p:polaridade:start|polaridade]] positiva implícita na convivência habitual com os fantasmas foi, como veremos, um [[lexico:a:acontecimento:start|acontecimento]] de grande importância na [[lexico:h:historia:start|história]] da [[lexico:c:cultura:start|cultura]] ocidental. Uma das raríssimas tentativas modernas de se construir algo correspondente à [[lexico:f:fantasmologia:start|fantasmologia]] medieval deve-se àquela [[lexico:s:singular:start|singular]] mescla de genialidade e de idiotismo que foi Léon Daudet (autor muito caro a Walter [[lexico:b:benjamin:start|Benjamin]]), cuja [[lexico:a:analise:start|análise]] dos fantasmas interiores (definidos personimages) proporciona uma verdadeira [[lexico:t:teoria:start|teoria]] biológica do [[lexico:e:espirito:start|espírito]] [[lexico:h:humano:start|humano]] como “[[lexico:s:sistema:start|sistema]] de imagens e de figuras congênitas”, que mereceria ser desenvolvida. Sob essa [[lexico:p:perspectiva:start|perspectiva]], é de grande [[lexico:i:interesse:start|interesse]] a [[lexico:l:leitura:start|leitura]] dos seus Le monde des images (1919) e Le rêve éveillé (1926), obras que já [[lexico:n:nao:start|não]] se encontram mais. [AgambenE:25-26 Nota] {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}