===== CÓDIGO RESTRITO ===== A [[lexico:r:reflexao:start|reflexão]] filosófica [[lexico:p:parte:start|parte]] de uma [[lexico:e:experiencia:start|experiência]] muito [[lexico:s:simples:start|simples]]: do [[lexico:f:fato:start|fato]] de que, em uma primeira aproximação, servimo-nos de dois tipos de [[lexico:l:linguagem:start|linguagem]] para [[lexico:f:falar:start|falar]] do [[lexico:m:mundo:start|mundo]]; o [[lexico:f:filosofo:start|filósofo]] Bernstein (em Douglas, 1970) os distinguiu e chamou de códigos "restrito"e "elaborado". Quando descrevo os objetos que estão sobre a minha escrivaninha, esta lâmpada de [[lexico:l:leitura:start|leitura]], este ditafone, estas flores, estas folhas de papel, descrevo-os sem me preocupar com o alcance dessas descrições. O que me importa é que uma [[lexico:p:pessoa:start|pessoa]] a par das práticas linguageiras de nossa [[lexico:c:cultura:start|cultura]] possa reconhecer a lâmpada de leitura, os livros, a caneta etc. Do mesmo [[lexico:m:modo:start|modo]], se digo que fulano esposou beltrana, normalmente [[lexico:n:nao:start|não]] me lançarei com base nisso em uma reflexão elaborada sobre a [[lexico:s:significacao:start|significação]] do [[lexico:c:casamento:start|casamento]] e do [[lexico:a:amor:start|amor]]. Utilizo então o [[lexico:c:codigo-restrito:start|código restrito]]: a linguagem do dia-a-dia, [[lexico:u:util:start|útil]] na prática e que não leva adiante todas as distinções que se poderia fazer para aprofundar o meu [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]]. Caracteriza-se pelo fato de que aqueles que a utilizam partilham as mesmas pressuposições de base sobre o [[lexico:s:sujeito:start|sujeito]] de que falam; o [[lexico:d:discurso:start|discurso]] científico entra nessa [[lexico:c:categoria:start|categoria]]. Por [[lexico:o:outro:start|outro]] lado, se [[lexico:c:comeco:start|começo]] a colocar-me questões sobre a [[lexico:a:amizade:start|amizade]] a [[lexico:v:vida:start|vida]], a [[lexico:m:morte:start|morte]], a [[lexico:j:justica:start|justiça]] etc, produzirei um outro [[lexico:t:tipo:start|tipo]] de discurso, [[lexico:b:bem:start|Bem]] diferente daquele do [[lexico:c:codigo:start|código]] restrito. Observarei, por [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]], que a [[lexico:n:nocao:start|noção]] de amizade não é clara. Para torná-la mais precisa, contarei histórias, e efetuarei múltiplas distinções. Precisarei ultrapassar a minha experiência de vida cotidiana, a [[lexico:f:fim:start|fim]] de atingir camadas "mais profundas" de minha [[lexico:p:personalidade:start|personalidade]] e da nossa vida em comum. Bernstein chamou de "[[lexico:c:codigo-elaborado:start|código elaborado]]" o tipo de discurso que produzimos quando tentamos [[lexico:s:superar:start|superar]] dessa maneira a linguagem cotidiana e prática (chamada também por vezes de "linguagem da utensilidade"). O que caracteriza o discurso elaborado é que ele é utilizado para falar de sujeitos a [[lexico:r:respeito:start|respeito]] dos quais não partilhamos necessariamente as mesmas pressuposições de base. Em uma primeira aproximação, o código restrito [[lexico:f:fala:start|fala]] do "como" das [[lexico:c:coisas:start|coisas]], do mundo e das pessoas, ao passo que o código elaborado procura dizer algo do "porquê" e do "[[lexico:s:sentido:start|sentido]]". De modo [[lexico:g:geral:start|geral]], as ciências se ocupam com a linguagem restrita. No Ocidente, ainda falando de maneira geral, a [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]] — e por vezes também a [[lexico:r:religiao:start|religião]] — ocupa-se com o código elaborado (não se deve contudo jamais levar demasiado longe as distinções nem as teorias, aliás. Pode haver momentos em que o [[lexico:f:fisico:start|físico]] ou o biólogo se colocam questões "mais elaboradas" sobre a [[lexico:m:materia:start|matéria]] ou a vida. Pode-se dizer que eles começam então a filosofar. Qualquer que seja a maneira pela qual se considera essa [[lexico:t:tendencia:start|tendência]] dos [[lexico:c:cientistas:start|cientistas]] a filosofar, podemos dizer, em uma primeira abordagem, que a [[lexico:d:distincao:start|distinção]] entre os códigos "restrito" e "elaborado" funciona bastante bem). Dentro desta [[lexico:p:perspectiva:start|perspectiva]], o código restrito corresponde ao [[lexico:i:interesse:start|interesse]] que têm os homens e as [[lexico:m:mulheres:start|mulheres]] em colocar [[lexico:o:ordem:start|ordem]] em seu mundo, em controlá-lo e comunicar a outrem a maneira pela qual o vêem. Habermas (1973) falará de um interesse técnico. É um código [[lexico:p:pratico:start|prático]]. [[lexico:a:alem:start|Além]] disso, utiliza-se o código elaborado quando se trata de interpretar os acontecimentos, o mundo, a vida humana, a [[lexico:s:sociedade:start|sociedade]]. Assim, Habermas dirá que [[lexico:e:esse:start|esse]] interesse filosófico está ligado ao interesse hermenêutico ou interpretatório dos seres humanos. Ainda mais, o código elaborado — e a filosofia — é utilizado quando se trata de "criticar" interpretações habitualmente recebidas (ou seja, de emitir uma [[lexico:o:opiniao:start|opinião]] mais refletida que especifique os seus "critérios"; a [[lexico:p:palavra:start|palavra]] "criticar" vem do [[lexico:g:grego:start|grego]] e significa "efetuar um [[lexico:j:julgamento:start|julgamento]]", não tem [[lexico:n:nada:start|nada]] a [[lexico:v:ver:start|ver]] com "denegrir"). Essa [[lexico:s:superacao:start|superação]] das [[lexico:i:ideias:start|ideias]] geralmente admitidas corresponde a um interesse emancipatório. Como somos por vezes prisioneiros de esquemas de interpretações da vida, do mundo e da sociedade, uma linguagem [[lexico:c:critica:start|crítica]] tem por [[lexico:f:finalidade:start|finalidade]] libertar-nos dessa prisão e renovar o nosso olhar. Desse modo, se considero a noção de "mulher", posso primeiramente utilizá-la no código restrito: nesse caso, todos compreendem o que significa. Em um outro [[lexico:p:plano:start|plano]], porém, ultrapassamos essa [[lexico:v:visao:start|visão]] [[lexico:p:pragmatica:start|pragmática]] da noção "mulher" para utilizar uma [[lexico:r:representacao:start|representação]] que dê uma [[lexico:i:interpretacao:start|interpretação]] mais "fundamental" dela; esta se liga evidentemente à cultura de uma [[lexico:c:civilizacao:start|civilização]], de um [[lexico:m:meio:start|meio]] [[lexico:s:social:start|social]], de nossa [[lexico:h:historia:start|história]] [[lexico:p:pessoal:start|pessoal]] etc. (assim, as pessoas verão a mulher de modo diferente na Idade Média e na era industrial -civilizações diferentes -; meios de sociedade diferentes — por exemplo, as classes burguesa ou operária, ou ainda os homens e as mulheres — veicularão uma [[lexico:i:imagem:start|imagem]] que lhes será própria; e cada [[lexico:i:individuo:start|indivíduo]] terá uma representação da mulher influenciada pelas atitudes que tiveram os seus pais). Uma reflexão filosófica tentará fornecer uma representação da mulher (interesse interpretatório ou hermenêutico) que ultrapasse as noções alienantes de feminilidade (interesse emancipatório). O fato de que a noção de mulher é algumas vezes ligada à visão de um [[lexico:s:ser:start|ser]] relativamente indefeso e pouco inteligente, se bem que [[lexico:s:sensivel:start|sensível]], e outras vezes à representação de um parceiro igual ao [[lexico:h:homem:start|homem]], mostra bem que uma certa [[lexico:a:atividade:start|atividade]] "crítica" pode ser necessária para superar visões que aprisionam. Do mesmo modo, uma reflexão crítica pode liberar visões morais demasiado estreitas. Como outro exemplo, consideremos como a noção de "[[lexico:c:ciencia:start|ciência]]" é utilizada no código restrito e no código elaborado. O código restrito é aquele utilizado na maior parte dos cursos de ciências. Supõe-se [[lexico:s:saber:start|saber]] do que se fala, e não se exige reflexão ulterior. Porém, caso se procure fazer uma [[lexico:i:ideia:start|ideia]] do que seja "em definitivo" a ciência, isto é, dar uma interpretação que faça "sentido" para nós, a [[lexico:t:tarefa:start|tarefa]] se torna mais complexa. Todas essas interpretações não são equivalentes. Nesse nível interpretatório, a noção que se tem da ciência será ligada, graças a uma linguagem elaborada, a outros [[lexico:c:conceitos:start|conceitos]], tais como a [[lexico:f:felicidade:start|felicidade]] dos humanos, o [[lexico:p:progresso:start|progresso]], a [[lexico:v:verdade:start|verdade]] etc. Essa linguagem elaborada — essa filosofia da ciência -permitirá uma interpretação daquilo que a linguagem restrita diz a respeito da ciência. Além disso, a palavra "ciência" pode por vezes "aprisionar", por exemplo, quando alguns passam a [[lexico:i:impressao:start|impressão]] de que, uma vez que se falou de cientificidade, não há nada mais a fazer senão se submeter a ela, sem dizer ou [[lexico:p:pensar:start|pensar]] mais nada a respeito. Um filósofo "crítico" ou "emancipatório" da ciência procurará portanto [[lexico:c:compreender:start|compreender]] como e por que as [[lexico:i:ideologias:start|ideologias]] da cientificidade podem mascarar interesses de sociedade diversos. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}