===== CLAREZA E DISTINÇÃO ===== As qualidades que, segundo [[lexico:d:descartes|Descartes]], são requeridas por [[lexico:t:todo|todo]] [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]] para [[lexico:s:ser|ser]] válido e indubitável. — A "clareza" é a [[lexico:q:qualidade|qualidade]] que torna urna [[lexico:i:ideia|ideia]] reconhecível no [[lexico:m:meio|meio]] de outras; difere da "[[lexico:d:distincao|distinção]]", pela qual uma ideia é intrinsecamente analisável. (in. Clearness and distinctness; fr. Clarté et distinction; al. Klarheit und Deutlichkeit; it. Chiarezza e distinzionè). Os dois graus da [[lexico:e:evidencia|evidência]], no [[lexico:s:sentido|sentido]] [[lexico:s:subjetivo|subjetivo]] em que foi entendida a partir de Descartes. Diz Descartes: "Chamo de clara a [[lexico:p:percepcao|percepção]] presente e manifesta ao [[lexico:e:espirito|espírito]] de [[lexico:q:quem|quem]] lhe presta [[lexico:a:atencao|atenção]], assim como dizemos que são claras as [[lexico:c:coisas|coisas]] que temos diante do olho que as olha". Chama-se, porém, distinta a percepção que, "sendo clara, é tão desligada e separada de todas as outras que [[lexico:n:nao|não]] contém absolutamente em si [[lexico:n:nada|nada]] [[lexico:a:alem|além]] do que é claro" (Princ. phil, I, 45). Essa distinção cartesiana não é muito precisa, ao menos no que se refere ao [[lexico:c:conceito|conceito]] de distinção; [[lexico:l:locke|Locke]], que a reproduz, não a torna mais precisa (Ensaio, II, 29, § 4). Mas [[lexico:l:leibniz|Leibniz]] tornou-a mais precisa, ao considerar clara a [[lexico:n:nocao|noção]] que permite discernir a [[lexico:c:coisa|coisa]] representada e obscura a que não o permite, como quando nos lembramos de uma flor ou de um [[lexico:a:animal|animal]] que vimos, mas não o suficiente para distingui-lo dos outros e para reconhecê-los. A distinção é um [[lexico:g:grau|grau]] muito [[lexico:s:superior|superior]] de evidência e, além do mais, um grau que pertence especificamente à evidência [[lexico:r:racional|racional]]. Com [[lexico:e:efeito|efeito]], uma noção é confusa quando não permite que se distingam suas notas constitutivas; p. ex., os odores, os sabores, as cores, embora possam ser claramente reconhecidos, não podem ser descritos e definidos com base em seus traços constitutivos; tanto é [[lexico:v:verdade|verdade]] que não podemos [[lexico:e:explicar|explicar]] [[lexico:o:o-que-e|o que é]] uma cor a um cego. Ao contrário, as noções distintas são aquelas para cujos traços podemos [[lexico:t:ter|ter]] a [[lexico:d:definicao|definição]] nominal, isto é, a [[lexico:e:enumeracao|enumeração]] das suas notas suficientes. Assim, o conhecimento que um químico tem do ouro é distinto. O conhecimento distinto é indefinível só quando vem antes, ou seja, não é derivável dos outros (Op., ed. Erdmann, p. 79). A distinção assim estabelecida por Leibniz é muito importante porque é a própria distinção entre o [[lexico:c:conhecimento-sensivel|conhecimento sensível]] e o conhecimento racional. O conhecimento [[lexico:s:sensivel|sensível]] pode chegar à clareza, mas é sempre confuso; o conhecimento racional é o conhecimento distinto. A [[lexico:f:filosofia-alema|filosofia alemã]], de Leibniz a [[lexico:k:kant|Kant]], conservou essa distinção e o [[lexico:p:proprio|próprio]] Kant a aceita embora não a julgue suficiente para estabelecer a [[lexico:d:diferenca|diferença]] entre o conhecimento sensível e o conhecimento racional. Diz ele: "A [[lexico:c:consciencia|consciência]] das próprias representações, quando basta para diferenciar um [[lexico:o:objeto|objeto]] dos outros, chama-se clareza. Aquela pela qual se esclarece a composição das representações chama-se distinção. Só esta última pode fazer que uma [[lexico:s:soma|soma]] de representações se torne um conhecimento no qual seja pensada a [[lexico:o:ordem|ordem]] da [[lexico:m:multiplicidade|multiplicidade]]" (Antr., I, § 6). Essa doutrina da diferença entre [[lexico:c:clareza-e-distincao|clareza e distinção]] como graus da evidência não conservou a mesma importância na [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] contemporânea, que retornou ao antigo conceito objetivista da evidência. Todavia [[lexico:h:husserl|Husserl]] ainda utiliza o conceito de clareza para definir a consciência à qual o objeto é [[lexico:d:dado|dado]] "puramente em [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]], exatamente como é em si mesmo... No caso da plena obscuridade, polo oposto da plena clareza, nada chegou a ser dado, e a consciência é obscura, não mais vidente nem oferente em sentido próprio" (Ideen, I, § 67).