===== CIÊNCIA DA LÓGICA ===== Para a maioria dos pensadores a [[lexico:i:inteligencia|inteligência]] é uma [[lexico:f:funcao|função]]. Com [[lexico:h:hegel|Hegel]] ela se torna uma [[lexico:c:coisa|coisa]], e mesmo a única coisa existente. E é com [[lexico:r:razao|razão]] que ele [[lexico:n:nao|não]] a chama "inteligência", mas "[[lexico:e:espirito|espírito]]". Já não é uma mera [[lexico:s:sequencia|sequência]] de operações lógicas; é o [[lexico:p:proprio|próprio]] [[lexico:m:movimento|movimento]] de uma [[lexico:s:substancia|substância]] única que se descobre ao mover-se. Donde essa [[lexico:i:identidade|identidade]] do [[lexico:s:ser|ser]] e do conhecer, a que devemos voltar. Quanto ao fundo, a [[lexico:l:logica|lógica]] de Hegel pouco tem de comum com a [[lexico:l:logica-formal|lógica formal]] ou com a nossa lógica das ciências. Poderá servir-se também da [[lexico:d:deducao|dedução]] e da [[lexico:i:inducao|indução]], mas é acima de tudo [[lexico:i:intuicao|intuição]], [[lexico:a:apreensao|apreensão]] desse ser que se move e que se faz com o seu movimento; tudo nela é, não [[lexico:a:analitico|analítico]] ou dialético, mas [[lexico:s:substancial|substancial]]. O [[lexico:s:saber|saber]] deixou de ser a aquisição de conhecimentos para se tornar a própria marcha do espírito. E não existe [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]] senão do espírito, pois somente o espírito é [[lexico:r:real|real]]. "A lógica é a [[lexico:c:ciencia|ciência]] da [[lexico:i:ideia|ideia]] pura, da ideia no [[lexico:e:elemento|elemento]] [[lexico:a:abstrato|abstrato]] do [[lexico:p:pensamento|pensamento]]... A ideia é o pensamento, não como pensamento puramente [[lexico:f:formal|formal]], mas como [[lexico:t:totalidade|totalidade]] que se desenvolve a si própria nas suas determinações e nas suas leis, e, por conseguinte, não encontra em si essas determinações e essas leis como [[lexico:e:elementos|elementos]] que já estivessem nela e que lhe fossem dados por [[lexico:a:antecipacao|antecipação]], mas é ela própria que os dá a si mesma." Esta passagem dos "[[lexico:p:prolegomenos|Prolegômenos]]" da Lógica deixa entrever o seu espírito e resume-lhe o conteúdo, exprime-lhe o [[lexico:s:sentido|sentido]] e a [[lexico:e:essencia|essência]]. O cognoscível já não é um [[lexico:d:dado|dado]] [[lexico:e:extrinseco|extrínseco]] ao cognoscente; não existe mais um [[lexico:o:objeto|objeto]] e um [[lexico:s:sujeito|sujeito]], mas um sujeito que encontra em [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]] o seu objeto. Donde uma nova [[lexico:f:forma|forma]] de [[lexico:d:dialetica|dialética]], que é propriamente a dialética hegeliana. Compreende ela três tempos ou três movimentos, três momentos: um [[lexico:m:momento|momento]] de lógica pura ou lógica do [[lexico:e:entendimento|entendimento]], em que se trata de definir o [[lexico:t:termo|termo]]; um momento [[lexico:n:negativo|negativo]], que é a passagem de um termo ao [[lexico:o:outro|outro]]; e um momento especulativo ou de ligação, em que se apreende a [[lexico:u:unidade|unidade]] da [[lexico:d:determinacao|determinação]]. Parte-se assim duma essência "enquanto razão de [[lexico:e:existencia|existência]]", isto é, duma essência que se estabelece na existência e se afirma opondo-se e diferenciando-se; passa-se daí ao [[lexico:f:fenomeno|fenômeno]], que é a [[lexico:m:manifestacao|manifestação]] dessa essência, para chegar a uma [[lexico:r:realidade|realidade]] [[lexico:e:essencial|essencial]], que desta vez é um termo e não mais uma passagem. Assim se fecha o ciclo: o ser, o espírito, foi estabelecido, depois percebido e enfim recebido; houve intuição, [[lexico:d:discriminacao|discriminação]] e finalmente [[lexico:n:nocao|noção]]... Esta noção é a própria forma e a substância da ideia. Tal é o [[lexico:e:esquema|esquema]] sobre o qual se exerce a Lógica de Hegel, com variações ou complicações por vezes bastante difíceis. Se desejamos elucidar-nos por [[lexico:m:meio|meio]] de um [[lexico:e:exemplo|exemplo]], tomemos o que nos propõe o próprio [[lexico:f:filosofo|filósofo]]: "Assim... a criança, enquanto [[lexico:h:homem|homem]], é um ser [[lexico:r:racional|racional]]. Apenas, a razão da criança como tal não é, a [[lexico:p:principio|princípio]], senão um elemento interior, isto é, uma [[lexico:d:disposicao|disposição]] [[lexico:n:natural|natural]], uma [[lexico:v:vocacao|vocação]], e [[lexico:e:esse|esse]] elemento puramente interior assume, para a criança, a forma de uma coisa puramente [[lexico:e:exterior|exterior]], enquanto representa a [[lexico:v:vontade|vontade]] dos pais e a doutrina dos mestres, as quais a rodeiam como um [[lexico:m:mundo|mundo]] racional. A [[lexico:e:educacao|educação]] e o [[lexico:d:desenvolvimento|desenvolvimento]] posteriores da criança consistem no [[lexico:f:fato|fato]] de que a sua razão, que antes existia nela apenas em [[lexico:e:estado|Estado]] [[lexico:v:virtual|virtual]] e que existia para os outros, para as pessoas adultas, passa a [[lexico:e:existir|existir]] também para ela. Assim a razão, que não se encontrava na criança senão em estado de [[lexico:p:possibilidade|possibilidade]] interior, se realiza, torna-se exterior pela educação; e reciprocamente a [[lexico:m:moralidade|moralidade]], a [[lexico:r:religiao|religião]] e a ciência, que tinham apenas a forma de uma [[lexico:a:autoridade|autoridade]] exterior, são [[lexico:a:agora|agora]] apreendidas pela [[lexico:c:consciencia|consciência]] como um elemento próprio e interior." É assim que procede a dialética hegeliana. Se se quiser agora surpreendê-la no [[lexico:m:mecanismo|mecanismo]] duma mola essencial do pensamento e da própria forma do pensamento, leia-se o seguinte: "...Quero dizer que o [[lexico:j:juizo|juízo]] é essa [[lexico:d:diferenca|diferença]] que a noção de [[lexico:d:diferenciacao|diferenciação]], que é também uma particularização, estabelece em si mesma e pela sua própria [[lexico:a:atividade|atividade]]." Que significa isto, senão o que temos [[lexico:d:dito|dito]] até agora: que o pensamento se engendra não por uma combinação de regras, mas pelo próprio movimento do pensamento? Igual princípio e iguais resultados na [[lexico:f:fenomenologia|fenomenologia]]. Que é a íenomenologia? O [[lexico:e:estudo|estudo]] das diversas manifestações do espírito na consciência, seja ela individual ou coletiva, na ciência, na [[lexico:a:arte|arte]], na religião... Mas é mister entender [[lexico:b:bem|Bem]] isto: "A fenomenologia é a ciência da consciência", considerada esta como sendo, em [[lexico:g:geral|geral]], o conhecimento de um objeto exterior ou interior. "A consciência, em sentido lato, apresenta pois três graus conforme a [[lexico:n:natureza|natureza]] do seu objeto. O objeto pode ser exterior, o próprio [[lexico:e:eu|eu]], e enfim [[lexico:a:alguma-coisa|alguma coisa]] pertencente ao Eu (o pensamento). A ciência da consciência divide-se portanto em consciência, consciência de si, e razão." É ainda pelo [[lexico:j:jogo|jogo]] da [[lexico:n:negacao|negação]] e pelo movimento interno que o dialético estabelece esta [[lexico:t:triade|tríade]]. A Fenomenologia de Hegel, que não passa de uma aplicação da sua doutrina, é a [[lexico:p:parte|parte]] da sua [[lexico:o:obra|obra]] a que com mais assiduidade se aplica a nossa [[lexico:e:epoca|época]], tirando dela aquilo que se sabe e que teremos [[lexico:o:ocasiao|ocasião]] de [[lexico:v:ver|ver]] melhor. Revela-nos de maneira curiosa o filósofo, filósofo no sentido geral da [[lexico:p:palavra|palavra]], isto é, homem de ciência, esteta, moralista e mesmo crente. Mostra-nos o [[lexico:a:absoluto|absoluto]], o Espírito, não [[lexico:t:transcendente|transcendente]] mas imánente, inerente ao mundo, ao mundo cósmico, ao mundo [[lexico:o:organico|orgânico]] e ao mundo pensante. Coloca-o em face do Estado, num [[lexico:i:individuo|indivíduo]] que encarna a Ideia e submete a si legitimamente os demais indivíduos. Causou [[lexico:a:admiracao|admiração]] ver o [[lexico:m:marxismo|marxismo]] derivar deste [[lexico:a:absolutismo|absolutismo]], mas o próprio marxismo não é [[lexico:a:acaso|acaso]] um absolutismo e não pode o Espírito habitar uma [[lexico:c:classe|classe]] ou uma coletividade? É o que se ouve dizer constantemente. Como moralista, Hegel se relaciona, pelo [[lexico:l:lugar|lugar]] que reserva ao [[lexico:c:coracao|coração]], com [[lexico:r:rousseau|Rousseau]] e com [[lexico:k:kant|Kant]]. Como crente, vê no [[lexico:d:dogma|dogma]] cristão sobretudo uma [[lexico:i:ilustracao|ilustração]] alegórica da sua doutrina. Mas, enfim, admite [[lexico:d:deus|Deus]], chega até Deus, embora Deus não seja o seu "Espírito". Porque, diz ele, "o espírito só é espírito enquanto existe para o espírito; na religião absoluta, ele é o espírito absoluto que já não manifesta momentos abstratos de si mesmo, mas que se manifesta a si mesmo". Vamos ver [[lexico:c:como-se|como se]] pode desculpá-lo, de algum [[lexico:m:modo|modo]], da acusação de [[lexico:p:panteismo|panteísmo]] que somos tentados a levantar contra ele. Pois sabe também exaltar a [[lexico:p:personalidade|personalidade]] do homem em face do Absoluto, dizendo que se o homem se eleva pela sua naturalidade ao [[lexico:e:eterno|eterno]], não mantém todavia com ele senão uma "[[lexico:r:relacao|relação]] exterior".