===== CIDADE ===== A cidade, disse [[lexico:h:hegel|Hegel]], é a [[lexico:s:substancia|substância]] [[lexico:e:etica|ética]] na qual os cidadãos têm sua [[lexico:e:existencia|existência]] espiritual efetiva. Nela eles têm seus valores, seus [[lexico:p:principios|princípios]] e seus fins, a auto-justificação de seus atos. Ela é o [[lexico:e:espirito|espírito]] de seu [[lexico:m:mundo|mundo]], [[lexico:n:nao|não]] uma [[lexico:i:ideia|ideia]] abstrata sobre a qual eles se regram, mas um [[lexico:s:sentido|sentido]] realizado como [[lexico:p:povo|povo]] e [[lexico:c:consciente|consciente]] de si como cidadão do povo. Hegel chama este espírito Gemeinwesen: a [[lexico:e:essencia|essência]] comum ou o [[lexico:s:ser|ser]] comum onde todos só existem na e pela [[lexico:c:comunidade|comunidade]]. Gemein procede da [[lexico:r:raiz|raiz]] mei: mudar, trocar. A comunidade implica a troca cada um contra cada um através de todos, onde todos contam por um e um por todos. Cada um é nomeado no interior de uma [[lexico:p:pluralidade|pluralidade]] interna, cuja [[lexico:u:unidade|unidade]] é o [[lexico:n:numero|número]] numerante – segundo o mais antigo [[lexico:s:sistema|sistema]] do número. A Unidade absoluta é a [[lexico:l:lei|lei]] publicamente reconhecida que existe em si como substância comum de todos os atos e que é para si nos indivíduos onde ela se reflete. A cidade é um [[lexico:v:verdadeiro|verdadeiro]] [[lexico:r:reino-dos-fins|reino dos fins]], mas dos fins realizados e conscientes de si. Assim o espírito da cidade é animado interiormente de um duplo [[lexico:m:movimento|movimento]] centrípeta e centrífugo: do [[lexico:u:universal|universal]] ao [[lexico:s:singular|singular]] e do singular ao Universal. “Na [[lexico:f:forma|forma]] do Universal, ele é a lei pública conhecida e os [[lexico:c:costumes|costumes]] atuais. Na forma da [[lexico:s:singularidade|singularidade]], ele é a [[lexico:c:certeza|certeza]] de [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]] no [[lexico:i:individuo|indivíduo]] em [[lexico:g:geral|geral]]” (Fenomenomogia do Espírito, II, 340). Em geral posto que trocável. Uma cidade é um ajuntamento durável e relativamente denso de população num [[lexico:e:espaco|espaço]] circunscrito: outrora muralhas separavam-na do [[lexico:c:campo|campo]], depois da transição dos arrabaldes; atualmente, os seus limites são muito mais indecisos, obrigando o geógrafo e o sociólogo a complicar a sua nomenclatura: centro, periferia, subúrbios, zona "urbana" (ao mesmo [[lexico:t:tempo|tempo]] cidade e campo), cidade satélite, megalópole, bairro de lata, etc. (Bastié, Dézert 1980). A cidade na sua forma tradicional já não é mais que uma malha, um nó do tecido urbano. Densidade de população significa geralmente (mas nem sempre) acentuação da [[lexico:d:divisao-do-trabalho|divisão do trabalho]], complexidade e [[lexico:c:complementaridade|complementaridade]] das funções econômicas e das ocupações profissionais, diversificação dos estatutos sociais e das [[lexico:r:relacoes|relações]] de [[lexico:c:classe|classe]], acompanhadas muitas vezes de fortes clivagens - ou até de "lutas urbanas" - entre o povo "gordo" e o povo "magro", entre o poder e as minorias ativas. Predominando a urbanização (que quer dizer proliferação do tecido urbano e [[lexico:a:aumento|aumento]] da sua densidade média, especialmente em favor das grandes cidades) no séc. XX mais ainda que no séc. XIX, o sociólogo é tentado, por um lado, a medir o seu impacto sobre as outras dimensões da [[lexico:v:vida|vida]] [[lexico:s:social|social]] ([[lexico:e:economia|economia]], migrações, [[lexico:p:progresso|progresso]] técnico, estabilidade [[lexico:p:politica|política]], [[lexico:r:religiao|religião]], etc.) e, por [[lexico:o:outro|outro]] lado, adotando a postura inversa, a considerá-la não já como a [[lexico:c:causa|causa]] mas como a resultante desses mesmos fenômenos sociais. Nasceu dessa dupla [[lexico:p:preocupacao|preocupação]] uma [[lexico:l:literatura|literatura]] considerável (M. [[lexico:h:halbwachs|Halbwachs]], P. Geddes, W. Sombart, M. [[lexico:w:weber|Weber]], G. [[lexico:s:simmel|Simmel]], R. Park, E. Burgess, etc.). Mantém-se largamente descritiva com dificuldade em delimitar o seu [[lexico:o:objeto|objeto]]: é, de [[lexico:f:fato|fato]], o conjunto do funcionamento social que se pode qualificar de "urbano" nos grandes países industriais, onde o rural tende a reduzir-se e a encolher-se irremediavelmente. Por isso, parece realista atribuir um campo mais restrito à [[lexico:s:sociologia|sociologia]] urbana, limitando-a ao [[lexico:e:estudo|estudo]] dos atores sociais (a sua [[lexico:o:origem|origem]], as suas atitudes, os seus comportamentos, etc.) que desempenham um papel direto na elaboração, funcionamento e crescimento do tecido urbano. Nesta óptica, a maioria dos trabalhos publicados em França desde os anos 60 inspirou-se numa [[lexico:p:problematica|problemática]] marxista (Lefebvre 1968). Apresentando-se doravante a [[lexico:e:especulacao|especulação]] predial e os investimentos imobiliários como um dos domínios mais remuneradores para o capitalismo bancário, o conjunto dos atores interessados pela explosão urbana sofreriam a [[lexico:i:influencia|influência]], direta ou indireta, do capitalismo financeiro e das suas exigências, a todos os níveis da vida social: [[lexico:f:formacao|formação]], carreira, [[lexico:i:ideologia|ideologia]], etc. (Castells 1972). Esta sociologia atribui um [[lexico:l:lugar|lugar]] central aos "movimentos urbanos", nascidos das contradições geradas pela especulação urbana. O urbanismo, [[lexico:e:esforco|esforço]] [[lexico:r:racional|racional]] para adaptar a cidade aos seus habitantes, sofreria igualmente o impacto da ideologia dominante. A partir dos anos 80, este [[lexico:t:tipo|tipo]] de [[lexico:i:interpretacao|interpretação]] esbate-se. A sociologia urbana toma cada vez mais [[lexico:c:consciencia|consciência]] da [[lexico:i:identidade|identidade]] dos desafios urbanos em todos os países industriais, capitalistas ou socialistas. Interroga-se com uma crescente inquietação sobre as dificuldades enfrentadas pelas cidades do [[lexico:t:terceiro|terceiro]] Mundo que conhecem uma demografia galopante.