===== CAUSALIDADE EM TEOLOGIA ===== As definições e divisões acima concerniam já à verdadeira [[lexico:n:nocao|noção]] [[lexico:o:ontologica|ontológica]] de [[lexico:c:causa|causa]], mas elas a atingiam no [[lexico:p:plano|plano]] da [[lexico:e:experiencia|experiência]] ou da [[lexico:e:explicacao|explicação]] [[lexico:f:fisica|física]]; no [[lexico:e:estudo|estudo]] de [[lexico:d:deus|Deus]] esta mesma noção vai-se encontrar realizada de [[lexico:m:modo|modo]] [[lexico:t:transcendente|transcendente]]. O [[lexico:p:problema|problema]] central é aqui o da [[lexico:d:demonstracao|demonstração]] da [[lexico:e:existencia-de-deus|existência de Deus]]. Sabe-se que [[lexico:a:aristoteles|Aristóteles]] já havia conduzido com rigor essa demonstração nos livros VII e VIII da Física e no livro lambda da [[lexico:m:metafisica|Metafísica]]. É o [[lexico:a:argumento|argumento]] do [[lexico:p:primeiro-motor|primeiro motor]] que, depurado de suas implicações cosmológicas, se encontra na base da demonstração tomista. [[lexico:t:tomas-de-aquino|Tomás de Aquino]] acrescentará outras provas (Ia Pa, q.2, a.3: as cinco vias ou provas clássicas da [[lexico:e:existencia|existência]] de Deus). Deste conjunto de provas consideraremos aqui, [[lexico:a:alem|além]] da demonstração aristotélica pelo [[lexico:m:movimento|movimento]], a [[lexico:p:prova|prova]] pelos graus de [[lexico:s:ser|ser]] (Quarta via), e muito sucintamente a prova pela [[lexico:f:finalidade|finalidade]]. - O argumento do primeiro motor. Para a própria demonstração de Aristóteles, basta se reportar à [[lexico:a:analise|análise]] feita precedentemente do livro VIII da Física. Tomás de Aquino na [[lexico:s:suma|suma]] (Ia Pa, q. 2, a. 3) apenas reteve as linhas metafísicas essenciais da prova. Seu [[lexico:p:ponto|ponto]] de partida é a constatação da existência do movimento no [[lexico:m:mundo|mundo]]. O movimento de que se trata aqui é, em primeira análise, a [[lexico:m:mudanca|mudança]] física observável pelos sentidos; mas [[lexico:t:todo|todo]] [[lexico:d:devir|devir]], toda passagem da [[lexico:p:potencia|potência]] ao [[lexico:a:ato|ato]] pode ser invocada. Ora, primeiro [[lexico:p:principio|princípio]], "tudo [[lexico:o:o-que-e|o que é]] movido por um [[lexico:o:outro|outro]]" - omne [[lexico:q:quod|quod]] movetur [[lexico:a:ab-alio|ab alio]] movetur - a passagem da potência ao ato [[lexico:n:nao|não]] pode se [[lexico:e:explicar|explicar]] senão pela intervenção de uma causa em ato. É a formulação mais comum no [[lexico:a:aristotelismo|aristotelismo]] do [[lexico:p:principio-de-causalidade|princípio de causalidade]]. Segundo princípio: o [[lexico:p:proprio|próprio]] motor exige que seja movido mas "não se pode remontar ao [[lexico:i:infinito|infinito]] na [[lexico:o:ordem|ordem]] dos motores", pois então não haveria primeiro motor, nem, em [[lexico:c:consequencia|consequência]], motor subordinado. Em toda ordem, com [[lexico:e:efeito|efeito]], é preciso um primeiro que para ser princípio da ordem deve transcendê-la, isto é, encontrar-se fora de [[lexico:s:serie|série]]. Em consequência, é [[lexico:n:necessario|necessário]] que se remonte até um primeiro motor que não seja movido por [[lexico:n:nada|nada]] e que todos identificam com Deus. Basta-nos aqui [[lexico:t:ter|ter]] indicado a marcha [[lexico:g:geral|geral]] da prova, reservando-nos o [[lexico:d:direito|direito]] de voltar ao princípio de [[lexico:c:causalidade|causalidade]] que dela é o nervo. Basta-nos igualmente lembrar que a segunda e terceira provas do artigo citado (Secunda e Tertia via) são construídas sobre o mesmo [[lexico:e:esquema|esquema]]. Conforme a segunda via, Tomás de Aquino, tomando como ponto de partida os encadeamentos de [[lexico:c:causas|causas]] eficientes que se podem experimentalmente constatar, remonta até a uma primeira causa eficiente transcendente. Conforme a terceira via, Tomás de Aquino se eleva das contingências observadas nas [[lexico:c:coisas|coisas]] à [[lexico:a:afirmacao|afirmação]] de um primeiro ser necessário. - Prova pelos graus de [[lexico:p:perfeicao|perfeição]]. Esta prova parece fazer apelo a um outro princípio diferente dos precedentes. Eis a concatenação. No ponto de partida constatamos que há nas coisas perfeições, [[lexico:b:bem|Bem]], [[lexico:v:verdadeiro|verdadeiro]], realizadas em graus diferentes. Notemos que se trata aqui apenas de perfeições que, ultrapassando o quadro dos gêneros e das espécies, existem analogicamente: eminentemente os [[lexico:t:transcendentais|transcendentais]]. Ora, princípio da prova, não se pode [[lexico:f:falar|falar]] de graus de uma perfeição em diversos sujeitos senão em [[lexico:r:relacao|relação]] a um [[lexico:t:termo|termo]] que possui esta perfeição ao máximo: magis et minus dicuntur de diversis secundum quod appropinquant diversimode [[lexico:a:ad-aliquid|ad aliquid]] quod maxime est. Há, pois, algo que é o mais verdadeiro e o melhor e em consequência o mais ser. Ora, o que é máximo em um certo [[lexico:g:genero|gênero]] de perfeição é causa de todas as perfeições deste gênero que possam [[lexico:e:existir|existir]]. Portanto, existe finalmente, algo que, para todos os seres, é causa do seu próprio ser, de sua [[lexico:b:bondade|bondade]] e de todas as suas perfeições e que chamamos Deus. De início, esta prova, cuja [[lexico:s:significacao|significação]] foi [[lexico:o:ocasiao|ocasião]] de numerosas controvérsias, parece fazer apelo a uma relação diferente daquela de causalidade: dos diferentes graus de uma perfeição remonto por uma [[lexico:i:inferencia|inferência]] imediata ao máximo desta perfeição. Mas, de [[lexico:f:fato|fato]], em Tomás de Aquino, a prova apenas está acabada e culmina propriamente em Deus no [[lexico:m:momento|momento]] em que se tomou [[lexico:c:consciencia|consciência]] de que este máximo em uma ordem dada de perfeição é causa das realizações inferiores desta mesma perfeição. A relação de [[lexico:p:participacao|participação]] de que se trata inicialmente implica pois a de causalidade. Deste modo esta prova pelos graus de ser nos faz [[lexico:v:ver|ver]] as [[lexico:r:relacoes|relações]] das criaturas e de Deus sob uma [[lexico:l:luz|luz]] original, de um modo de alguma maneira mais [[lexico:s:sintetico|sintético]] do que quando nos colocamos no [[lexico:s:simples|simples]] ponto de vista da causalidade. Toda a [[lexico:s:sequencia|sequência]] do tratado de Deus em Tomás de Aquino (Cf. notadamente a demonstração [[lexico:c:capital|capital]] da [[lexico:i:identidade|identidade]] em Deus da [[lexico:e:essencia|essência]] e da existência Ia p.a, q. 3, a. 4) se vê, aliás, inspirada por estas concepções participacionistas nas quais, ainda uma vez, não se deve procurar uma metafísica que viria se opor à da causalidade ou simplesmente suplantá-la. - A prova pela finalidade. O [[lexico:u:ultimo|último]] argumento invocado se apoia sobre a finalidade. Seu ponto de partida está na constatação [[lexico:e:experimental|experimental]] de fatos de finalidade ou de ordenação no domínio do mundo [[lexico:f:fisico|físico]]. Ora, a ordem implica [[lexico:i:intencao|intenção]]; a intenção supõe a [[lexico:i:inteligencia|inteligência]]. Deve haver portanto, em definitivo, algum ser inteligente que ordena ao seu [[lexico:f:fim|fim]] todas as coisas da [[lexico:n:natureza|natureza]]. Nós o denominamos Deus. Sabe-se que em [[lexico:v:virtude|virtude]] da [[lexico:a:aparente|aparente]] facilidade que existe em fazer valer a ordem do mundo, este argumento goza de um favor [[lexico:p:particular|particular]] nos textos correntes [[lexico:r:relativos|relativos]] à existência de Deus. Em [[lexico:r:realidade|realidade]], tal argumento é de uma utilização assaz delicada. - [[lexico:u:unidade|unidade]] na dependência causal das [[lexico:p:provas-de-deus|provas de Deus]]. Cada um dos argumentos supra citados constitui uma prova distinta culminando em demonstrar sob um [[lexico:a:aspecto|aspecto]] particular a existência de Deus, primeira causa. Entretanto, há algo como que um fundo metafísico comum que se reencontra em cada uma delas: a [[lexico:i:ideia|ideia]] do ser [[lexico:c:contingente|contingente]] ou do ser que não tendo sua suficiência por [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]] supõe o ser [[lexico:p:por-si|por si]], o qual se basta a si mesmo, e ao qual o primeiro é reportado por um liame de dependência causal. O ser que não é por si, necessariamente é por um outro, o qual é por si. Toda a [[lexico:t:teologia|teologia]] repousa sobre a inferência causal.