===== CAUSALIDADE ===== Este [[lexico:t:termo:start|termo]] significa o [[lexico:i:influxo:start|influxo]] da [[lexico:c:causa:start|causa]] sobre seu [[lexico:e:efeito:start|efeito]] e a [[lexico:r:relacao:start|relação]] fundada em [[lexico:d:dito:start|dito]] influxo. Habitualmente entende-se por causalidade o [[lexico:n:nexo:start|nexo]] causal eficiente, p. ex., quando se contrapõe causalidade a [[lexico:f:finalidade:start|finalidade]]. Causalidade pode designar ainda a [[lexico:r:regularidade:start|regularidade]] com que o efeito depende de uma causa ([[lexico:p:principio-de-causalidade:start|princípio de causalidade]]) ou a causa produz o efeito ([[lexico:l:lei-de-causalidade:start|lei de causalidade]]). [[lexico:c:causalidade-natural:start|causalidade natural]] é a maneira de conexão eficiente [[lexico:c:caracteristica:start|característica]] da [[lexico:n:natureza:start|natureza]] visível. Por causalidade psíquica entende-se o influxo causal de forças e processos psíquicos. Uma conexão causal de [[lexico:e:especie:start|espécie]] inteiramente diferente, com seus problemas próprios, existe, p. ex., entre o [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]] e o [[lexico:a:apetite:start|apetite]], entre os processos sensoriais e os intelectuais, entre a [[lexico:a:atividade:start|atividade]] e o [[lexico:h:habito:start|hábito]], entre as representações por [[lexico:a:associacao:start|associação]] ou conexão [[lexico:l:logica:start|lógica]], entre o [[lexico:c:consciente:start|consciente]] e o [[lexico:i:inconsciente:start|Inconsciente]], entre os processos inconscientes entre si, entre a [[lexico:a:alma:start|alma]] e o [[lexico:c:corpo:start|corpo]]. A [[lexico:r:representacao:start|representação]] da causalidade eficiente [[lexico:m:mecanica:start|mecânica]], como a conhecemos pela [[lexico:c:ciencia-natural:start|ciência natural]], pode [[lexico:n:nao:start|não]] satisfazer à causalidade psíquica. Ao espiritual compete principalmente uma [[lexico:f:forca:start|força]] operativa originária, inexplicável por [[lexico:c:causas:start|causas]] materiais. VIDE [[lexico:a:acao-reciproca:start|ação recíproca]] — Naumann Este [[lexico:t:tipo:start|tipo]] de causalidade é o que corresponde, na [[lexico:l:linguagem:start|linguagem]] filosófica tradicional, à causalidade "eficiente". Trata-se do [[lexico:p:principio:start|princípio]] segundo o qual [[lexico:t:todo:start|todo]] [[lexico:f:fenomeno:start|fenômeno]] sucede um [[lexico:o:outro:start|outro]] do qual procede segundo uma [[lexico:r:regra:start|regra]] (para retomarmos a [[lexico:f:formula:start|fórmula]] de [[lexico:k:kant:start|Kant]]). Segundo [[lexico:e:esse:start|esse]] [[lexico:e:esquema:start|esquema]] de causalidade, as causas precedem necessariamente os efeitos. Nesta [[lexico:p:perspectiva:start|perspectiva]], a causalidade final é, evidentemente, rejeitada, porque, no esquema de causalidade final, o "efeito" precede a "causa"; o efeito é "em vista da" causa, "tende" para ela; e a causa é situada temporalmente diante do efeito. Assim, a [[lexico:m:metafisica:start|metafísica]] da representação comporta um parti-pris em favor da causalidade dos antecedentes e contra a causalidade dos fins. Este [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de vista se encontra vinculado, como já indicamos, ao da [[lexico:a:analiticidade:start|analiticidade]]. Com efeito, se dermos [[lexico:p:prioridade:start|prioridade]] às partes sobre o todo, nos impedimos de [[lexico:p:pensar:start|pensar]] em termos de finalidade, posto que pensar segundo a finalidade significa, ao contrário, dar prioridade ao todo sobre as partes. [Ladrière] (gr. aitia, aition; in. Causality; fr. Causalité; al. Causalität; it. Causalita). Em seu [[lexico:s:significado:start|significado]] mais [[lexico:g:geral:start|geral]], a conexão entre duas [[lexico:c:coisas:start|coisas]], em [[lexico:v:virtude:start|virtude]] da qual a segunda é univocamente previsível a partir da primeira. Historicamente, essa [[lexico:n:nocao:start|noção]] assumiu duas formas fundamentais: 1) A [[lexico:f:forma:start|forma]] de conexão [[lexico:r:racional:start|racional]], pela qual a causa é a [[lexico:r:razao:start|razão]] do seu efeito e este, por isso, é a dedutível dela. Nessa concepção, a [[lexico:a:acao:start|ação]] da causa é frequentemente descrita como a de uma força que gera ou produz indefectivelmente o efeito. 2) A forma de uma conexão empírica ou [[lexico:t:temporal:start|temporal]], pela qual o efeito não é dedutível da causa, mas é previsível com base nela pela constância e uniformidade da relação de [[lexico:s:sucessao:start|sucessão]]. Essa concepção elimina a [[lexico:i:ideia:start|ideia]] de força da relação causal. A ambas essas formas são comuns as noções de previsibilidade unívoca, infalível, do efeito a partir da causa e, portanto, também a de [[lexico:n:necessidade:start|necessidade]] da relação causal. 1) Pode-se dizer que a primeira forma da noção de causa começa com [[lexico:p:platao:start|Platão]], que considera a causa como o princípio pelo qual uma [[lexico:c:coisa:start|coisa]] é, ou torna-se, [[lexico:o:o-que-e:start|o que é]]. Nesse [[lexico:s:sentido:start|sentido]], afirma que a verdadeira causa de uma coisa é aquilo que, para a coisa, é "o melhor", isto é, a ideia ou o [[lexico:e:estado:start|Estado]] [[lexico:p:perfeito:start|perfeito]] da própria coisa; p. ex., a causa do dois é a [[lexico:d:dualidade:start|dualidade]]; do grande, a [[lexico:g:grandeza:start|grandeza]]; do [[lexico:b:belo:start|belo]], a [[lexico:b:beleza:start|beleza]]. De [[lexico:m:modo:start|modo]] geral, o [[lexico:b:bem:start|Bem]] é a causa daquilo que existe de [[lexico:b:bom:start|Bom]] nas coisas e das próprias coisas (Fed., 97 c ss., espec. 101 c). Ao lado dessas causas "primeiras" ou "divinas", Platão admitiu depois as con-causas, que são as limitações encontradas pela [[lexico:o:obra:start|obra]] criadora do [[lexico:d:demiurgo:start|demiurgo]] e que constituem os [[lexico:e:elementos:start|elementos]] de necessidade do [[lexico:p:proprio:start|próprio]] [[lexico:m:mundo:start|mundo]] (Tim., 69 a). Mas a primeira e verdadeira [[lexico:a:analise:start|análise]] da noção de causa encontra-se em [[lexico:a:aristoteles:start|Aristóteles]]. Este afirma, pela primeira vez (Fís., I, 1, 184 a 10), que conhecimento e [[lexico:c:ciencia:start|ciência]] consistem em dar-se conta das causas e [[lexico:n:nada:start|nada]] mais são [[lexico:a:alem:start|além]] disso. Mas, ao mesmo [[lexico:t:tempo:start|tempo]], [[lexico:n:nota:start|nota]] que, se perguntar a causa significa perguntar o porquê de uma coisa, esse porquê pode [[lexico:s:ser:start|ser]] diferente e há, portanto, várias espécies de causas. Num primeiro sentido, é causa aquilo de que uma coisa é feita e que permanece na coisa, como, p. ex., o bronze é causa da [[lexico:e:estatua:start|estátua]] e a prata é causa da taça. Num segundo sentido, a causa é a forma ou o [[lexico:m:modelo:start|modelo]], isto é, a [[lexico:e:essencia:start|essência]] necessária ou [[lexico:s:substancia:start|substância]] de uma coisa. Nesse sentido; é causa do [[lexico:h:homem:start|homem]] a natureza racional que o define. Num [[lexico:t:terceiro:start|terceiro]] sentido, é causa aquilo que dá início à [[lexico:m:mudanca:start|mudança]] ou ao repouso: p. ex., o autor de uma [[lexico:d:decisao:start|decisão]] é a causa dela, o pai é causa do [[lexico:f:filho:start|filho]] e, em geral, o que produz a mudança é causa da mudança. Num quarto sentido, a causa é o [[lexico:f:fim:start|fim]] e, p. ex., a saúde é a causa de se passear (Ibid., II, 3, 194 b 16; Mel, V, 2, 1013 a-b). Causa material, causa [[lexico:f:formal:start|formal]], causa eficiente e causa final são, portanto, todas as causas possíveis, segundo Aristóteles. Três teoremas fundamentais esclarecem essa [[lexico:t:teoria:start|teoria]] aristotélica da causa. São: 1) a contemporaneidade da causa [[lexico:a:atual:start|atual]] e de seu efeito, como, p. ex., da ação construtora do arquiteto e da casa; essa contemporaneidade não se verifica na causa potencial; 2) a [[lexico:h:hierarquia:start|hierarquia]] das causas, pela qual é preciso procurar sempre a causa mais alta: p. ex., o homem constrói porque é construtor, mas é construtor pela [[lexico:a:arte:start|arte]] de construir; essa arte é por isso a causa mais alta; 3) a [[lexico:h:homogeneidade:start|homogeneidade]] da causa e do efeito, pela qual os gêneros são causa dos gêneros, as coisas particulares das coisas particulares, o escultor da estátua, as coisas atuais das coisas atuais, as coisas possíveis das coisas possíveis (Fís., II, 3, 195 b 16 ss.). Mas a advertência fundamental é que as [[lexico:q:quatro:start|Quatro]] causas não estão no mesmo [[lexico:p:plano:start|plano]]: há uma [[lexico:c:causa-primeira:start|causa primeira]] e fundamental, um porquê privilegiado, que é [[lexico:d:dado:start|dado]] pela essência racional da coisa, pela substância (De part. an., I, 1, 639 b 14). A substância é a essência necessária, eternamente atual, princípio de [[lexico:r:realidade:start|realidade]], portanto também do [[lexico:d:devir:start|devir]] enquanto passagem da [[lexico:p:potencia:start|potência]] ao [[lexico:a:ato:start|ato]]. Da substância depende a necessidade causal. "Nas coisas artificiais", diz Aristóteles, "sendo a causa essa tal coisa, é preciso, necessariamente, que essas outras coisas sejam feitas ou existam. Assim também na natureza, se o homem é isto, fará estas coisas, e se faz estas coisas, acontecer-lhe-ão outras" (Fís., II, 9, 200 a 35). Em outros termos, a necessidade pela qual uma causa qualquer (das que Aristóteles distingue) age é a própria necessidade pela qual uma substância (p. ex., o homem como [[lexico:a:animal:start|animal]] racional) é o que é. A necessidade causal é, portanto, a própria necessidade do [[lexico:s:ser-enquanto-ser:start|ser enquanto ser]], do ser [[lexico:s:substancial:start|substancial]]: a necessidade pela qual o que é não pode ser diferente do que é. A essa necessidade escapa somente o que é acidental ou causal (v. [[lexico:a:acaso:start|acaso]]). A doutrina de Aristóteles demonstra a estreita conexão entre a noção de causa e a de substância. A causa é o princípio de [[lexico:i:inteligibilidade:start|inteligibilidade]] porque [[lexico:c:compreender:start|compreender]] a causa significa compreender a organização interna de uma substância, isto é, a razão pela qual uma substância qualquer (p. ex., o homem, [[lexico:d:deus:start|Deus]] ou a pedra) é o que é e não pode ser ou agir diferentemente. P. ex., se o homem é "animal racional", o que ele é ou faz depende da sua substância assim definida, que opera como força irresistível para produzir as determinações do seu ser e do seu agir. Os estoicos entenderam a causa como força produtiva, isto é, como "aquilo por cuja ação nasce um efeito". Segundo [[lexico:s:sexto-empirico:start|Sexto Empírico]] (Pirr. hyp., III, 14-15), eles distinguiram as causas sinéticas, concausais e cooperantes. As sintéticas são as causas propriamente ditas que, "quando presentes, está presente o efeito; quando retiradas ou diminuídas, retira-se ou diminui também o efeito". As concausais são as causas que se reforçam mutuamente na produção de um efeito, como no caso de dois bois que puxam o arado. A cooperante é a causa que produz uma pequena força, em virtude da qual o efeito se produz com facilidade: como quando um terceiro vem somar-se a outros dois que carregam um [[lexico:p:peso:start|peso]] com dificuldade, ajudando a sustentá-lo. Mas, para os estoicos, a causa por [[lexico:e:excelencia:start|excelência]] é a sintética e, nesse sentido, Deus é causa e constitui o [[lexico:p:principio-ativo:start|princípio ativo]] do mundo (Dióg. L., VII, 134; [[lexico:s:seneca:start|SÊneca]], Ep., 65, 2). A [[lexico:f:filosofia-medieval:start|filosofia medieval]] em pouco ou nada inovou o [[lexico:c:conceito:start|conceito]] da [[lexico:e:estrutura:start|estrutura]] causal (porque substancial) do mundo. Sua principal contribuição é a elaboração do conceito de causa primeira, em um sentido diferente do aristotélico, isto é, não como tipo de causa fundamental, mas como primeiro elo da cadeia causal. A elaboração desse conceito fora obra da [[lexico:e:escolastica:start|escolástica]] árabe e, em [[lexico:p:particular:start|particular]], de [[lexico:a:avicena:start|Avicena]]. Em [[lexico:l:lugar:start|lugar]] da estrutura substancial do [[lexico:u:universo:start|universo]], cuja causalidade constituiria a necessidade intrínseca, Avicena põe a ordenação hierárquica das causas, que remontam à Causa Primeira. Diz [[lexico:t:tomas-de-aquino:start|Tomás de Aquino]] (S. Th., II, 1, q. 19, a. 4): "Em todas as causas ordenadas, o efeito depende mais da causa primeira do que da causa segunda, porque a causa segunda só age em virtude da causa primeira". O [[lexico:t:teorema:start|teorema]] fundamental que rege essa concatenação [[lexico:u:universal:start|universal]] causal e o seu [[lexico:c:carater:start|caráter]] hierárquico é o que Tomás de Aquino exprime dizendo: "Quanto mais alta é uma causa, tanto mais amplo o seu poder causal" (Ibid., I, q. 65, a. 3): teorema de franca [[lexico:o:origem:start|origem]] neoplatônica, já que os neoplatônicos tinham reconhecido, juntamente com o caráter universal da necessidade causal, a hierarquia das causas a partir da causa primeira ([[lexico:p:proclo:start|Proclo]], Inst. theol, 11). Um [[lexico:p:produto:start|produto]] dessa doutrina pode ser visto no [[lexico:o:ocasionalismo:start|ocasionalismo]], segundo o qual a única e verdadeira causa é Deus, e as chamadas causas segundas ou finitas são apenas ocasiões de que Deus se serve para realizar os seus decretos ([[lexico:m:malebranche:start|Malebranche]], Recherche de la vérité, VI, 2, 3). O conceito aristotélico-árabe de uma [[lexico:o:ordem:start|ordem]] necessária no mundo, no qual todos os eventos encontram seu lugar e sua concatenação causal, é defendido, no [[lexico:r:renascimento:start|Renascimento]], pelos aristotélicos como [[lexico:p:pressuposto:start|pressuposto]] [[lexico:e:essencial:start|essencial]] do seu [[lexico:n:naturalismo:start|naturalismo]]. Assim, Pomponazzi pretende remeter até os acontecimentos mais extraordinários e miraculosos à ordem necessária da natureza e, para isso, utiliza o [[lexico:d:determinismo:start|determinismo]] astrológico dos árabes (De incantationibus, 10). A noção de uma ordem causal do mundo (às vezes remetida a Deus como primeira causa), segundo o conceito neoplatônico e medieval, forma ainda o pressuposto e o [[lexico:f:fundamento:start|fundamento]] dos primórdios da organização da ciência, com Copérnico, Kepler e Galileu. Essas bases são expressas em termos mecanicistas por [[lexico:h:hobbes:start|Hobbes]] e, em termos teológicos, por [[lexico:s:spinoza:start|Spinoza]], mas são sempre as mesmas. Hobbes julga que a relação causal se reduz à ação de um corpo sobre o outro e que, portanto, a causa é o que gera ou destrói certo estado de coisas em um corpo (De corp., IX, 1). A causa perfeita, isto é, aquela a que segue infalivelmente o efeito, é o [[lexico:a:agregado:start|agregado]] de todos "os acidentes ativos" que existirem: com ela, o efeito já está dado (Ibid., IX, 3). A concantenação dos movimentos constitui a ordenação causal do mundo. Por sua vez, Spinoza, ao [[lexico:v:ver:start|ver]] em Deus a única substância, também vê nele a única causa da qual todas as coisas e todos os eventos do mundo (os "modos" da Substância) derivam com necessidade geométrica (Et, I, 29). A necessidade causal que, para Hobbes, é uma concantenação dos movimentos, para Spinoza é uma concatenaçào de razões, isto é, de verdades que constituem uma cadeia ininterrupta. Além disso, para Hobbes o caráter [[lexico:m:mecanico:start|mecânico]] da causalidade não diminm’ sua natureza racional, já que, aliás, Hobbes Vê no [[lexico:m:mecanismo:start|mecanismo]] a única [[lexico:e:explicacao:start|explicação]] racional do mundo, no corpo e no [[lexico:m:movimento:start|movimento]] os dois únicos [[lexico:p:principios:start|princípios]] de explicação, não reconhecendo outras realidades fora deles. Isso acontece porque para ele, assim como para Spinoza, prevalece a identificação, aceita por [[lexico:d:descartes:start|Descartes]], entre causa e razão. A causa é o que dá a razão do efeito, demonstra ou justifica sua [[lexico:e:existencia:start|existência]] ou suas determinações. É assim que Descartes a concebe quando, definindo como [[lexico:a:analitico:start|analítico]] o [[lexico:m:metodo:start|método]] que emprega, afirma que ele "demonstra como os efeitos dependem das causas" (Secondes reponses). Isso significa que a causa é o que permite deduzir o efeito. E o significado daquele "[[lexico:p:principio-de-razao-suficiente:start|princípio de razão suficiente]]" formulado por [[lexico:l:leibniz:start|Leibniz]] como base das [[lexico:v:verdades-de-fato:start|verdades de fato]] é que [[lexico:e:explicar:start|explicar]] por [[lexico:m:meio:start|meio]] da causa é "dar a razão" daquilo que existe. "Nada acontece", disse Leibniz (Théod., § 44), "sem que haja uma causa ou pelo menos uma razão determinante, isto é, algo que possa servir para dar a razão [[lexico:a:a-priori:start|a priori]] de por que algo existe ao invés de não [[lexico:e:existir:start|existir]] e de por que existe desse modo e não de outro". Sem [[lexico:d:duvida:start|dúvida]], esse ponto de vista não constituía uma novidade na [[lexico:h:historia:start|história]] da noção de causa; a preeminência, reconhecida por Aristóteles, da substância como essência racional ([[lexico:l:logos:start|Logos]]) ou forma significava, precisamente, a exigência de que a causa constituísse a razão da coisa ou, em outras [[lexico:p:palavras:start|palavras]], que tornasse cognoscível a priori, isto é, deduttvel, a existência e os [[lexico:c:caracteres:start|caracteres]] da própria coisa. Quando Leibniz diz que a natureza de uma "substância individual" basta "para compreender e para permitir a [[lexico:d:deducao:start|dedução]] de todos os [[lexico:p:predicados:start|predicados]] do [[lexico:s:sujeito:start|sujeito]] ao qual é atribuída" (Discours de métaphysique, § 8), está considerando essa natureza como a razão ou a causa dos caracteres e da existência da substância individual, que podem ser conhecidos apriori, isto é, deduzidos a partir dela. Nessas observações de Leibniz exprime-se com toda a clareza a exigência que Aristóteles já havia proposto: de que a causa, e em particular a "causa primeira" (no sentido aristotélico, não no medieval), constitua o princípio da dedução de todos os seus efeitos possíveis (v. fundamento). Esse conceito persiste na [[lexico:f:filosofia-moderna:start|filosofia moderna]], sendo compartilhado tanto pelas doutrinas idealistas ou aprioristas quanto pelas doutrinas materialistas e mecanicistas. [[lexico:f:fichte:start|Fichte]] identifica a causalidade com a atividade criativa do [[lexico:e:eu:start|eu]] [[lexico:i:infinito:start|infinito]] que se explica e se realiza segundo uma necessidade racional absoluta (Wissenschaftslehre, 1794, § 4, causalidade-D). [[lexico:h:hegel:start|Hegel]] considera a causalidade como a própria substância "enquanto refletida em si" (Enc., § 153), isto é, mergulhada em sua necessidade. "A causa perde-se no seu outro, o efeito; a atividade da substância causal perde-se no seu operar", diz ele (Wissenschaftder Logik, III, 2, 1 B). Mas a substância causal é a própria razão, isto é, a realidade em sua essência descerrada. Nessas notas, a causalidade é identificada com a [[lexico:r:racionalidade:start|racionalidade]] substancial do mundo ou é considerada uma [[lexico:p:parte:start|parte]], um [[lexico:m:momento:start|momento]] ou uma [[lexico:m:manifestacao:start|manifestação]] dessa racionalidade. Serve ora para definir a natureza da racionalidade, ora para ser definida por ela. Hegel, tomando como ponto de partida o étimo da [[lexico:p:palavra:start|palavra]] Ursache (causa), vê nela a "coisa originária" (Enc., § 153), isto é, a coisa que é a origem ou o princípio das outras ou de que as outras derivam, ou seja, derivam racionalmente, de tal modo que constituem, junto com ela, o [[lexico:s:sistema:start|sistema]] total da razão. Aqui, o sentido atribuído à causalidade é o de racionalidade pura e o sentido atribuído à racionalidade é o de dedutibilidade necessária. A relação causal é uma relação de dedução. Da causa deve-se poder deduzir o efeito, e se deduz efetivamente. Mais ou menos no mesmo período, os [[lexico:c:cientistas:start|cientistas]] elaboravam, com base na explicação mecânica do mundo, um conceito de causalidade [[lexico:a:analogo:start|análogo]] ao de Hegel, isto é, coincidente com ele na sua natureza de relação de dedutibilidade. O astrônomo Laplace assim exprimia o [[lexico:i:ideal:start|ideal]] da explicação causal na sua Teoria [[lexico:a:analitica:start|analítica]] das probabilidades, de 1812. "Nós devemos considerar o estado presente do universo como efeito do seu estado anterior e como causa do que se seguirá. Uma [[lexico:i:inteligencia:start|inteligência]] que, em dado [[lexico:i:instante:start|instante]], conhecesse todas as forças de que a natureza é animada e a [[lexico:s:situacao:start|situação]] respectiva dos seres que a compõem, se fosse bastante vasta para submeter esses dados ao [[lexico:c:calculo:start|cálculo]], abarcaria na mesma fórmula os movimentos dos maiores corpos do universo e os do átimo mais leve: nada seria incerto para ela e o [[lexico:f:futuro:start|futuro]], assim como o passado, estaria diante de seus olhos". Tais palavras permaneceram como a insígnia da ciência do século XIX e exprimem claramente o estreito nexo que a [[lexico:i:interpretacao:start|interpretação]] racionalista da causalidade estabeleceu, a partir de Descartes, entre a causalidade e a [[lexico:p:previsao:start|previsão]] infalível, e entre a previsão infalível e a dedução apriori. Elas exprimem, de [[lexico:f:fato:start|fato]], um ideal de [[lexico:s:saber:start|saber]] que possa prever qualquer [[lexico:a:acontecimento:start|acontecimento]] futuro, seja ele pequeno ou grande, deduzindo-o por meio de leis imutáveis e necessárias. Alguns decênios mais [[lexico:t:tarde:start|Tarde]], Claude [[lexico:b:bernard:start|Bernard]], em sua Introdução ao [[lexico:e:estudo:start|estudo]] da medicina [[lexico:e:experimental:start|experimental]] (1865), obedecendo ao mesmo ideal, excluía a [[lexico:p:possibilidade:start|possibilidade]] de que a ciência, mesmo na sua exigência radical de [[lexico:c:critica:start|crítica]], viesse a duvidar do princípio causal, por ele [[lexico:c:chamado:start|chamado]] de princípio do determinismo [[lexico:a:absoluto:start|absoluto]]. "O princípio absoluto das ciências experimentais", dizia (Introduction, I, 2, 7), "é um determinismo [[lexico:n:necessario:start|necessário]] e consciente nas condições dos fenômenos. Se ocorre um fenômeno [[lexico:n:natural:start|natural]], seja ele qual for, um experimentador nunca poderá admitir que haja uma variação na [[lexico:e:expressao:start|expressão]] desse fenômeno, sem que, ao mesmo tempo, tenham sobrevin-do condições novas em sua manifestação: além disso, ele tem a [[lexico:c:certeza:start|certeza]] a priori de que essas variações são determinadas por [[lexico:r:relacoes:start|relações]] rigorosas e matemáticas. A [[lexico:e:experiencia:start|experiência]] mostra-nos somente a forma dos fenômenos, mas a relação de um efeito com uma causa determinada é necessária e [[lexico:i:independente:start|independente]] da experiência, e forçosamente [[lexico:m:matematica:start|matemática]] e absoluta". Mas. apesar dessas afirmações tão decididas de um dos maiores cientistas e metodologistas da ciência do séc. XIX, a própria ciência seguiu outro curso, no que se refere à elaboração e ao [[lexico:u:uso:start|uso]] da noção de causalidade. Os progressos do cálculo das probabilidades, de algumas teorias físicas (especialmente a teoria cinética dos gases), e da mecânica quântica foram destinando um [[lexico:e:espaco:start|espaço]] cada vez maior à noção de [[lexico:p:probabilidade:start|probabilidade]]; finalmente, a mecânica quântica tende a substituir a noção de causalidade, que parecia indispensável aos cientistas e metodologistas do século passado, pela de probabilidade. Pode-se dizer que a última manifestação filosófica da teoria clássica da causalidade é a doutrina de Nicolai [[lexico:h:hartmann:start|Hartmann]], que, embora considerando a realidade dividida em planos estratificados, cada um dos quais obedece a um seu determinismo próprio, modela cada tipo ou forma de determinismo sobre a causalidade necessária da [[lexico:f:fisica:start|física]] oitocentista, entendida, na sua forma mais rigorosa, como [[lexico:n:negacao:start|negação]] de qualquer possibilidade ou [[lexico:l:liberdade:start|liberdade]] (Möglichkeit und Wirklichkeit, 1938). 2) A segunda forma que a noção de causalidade assumiu na história é a que a reduz substancialmente à relação de previsibilidade certa. As críticas que, de raro em raro, a noção de causalidade encontrou na [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]] antiga tendem a reduzir essa noção à de sucessão ou de conexão cronológica constante, base de previsibilidade dos eventos. Assim, o [[lexico:f:filosofo:start|filósofo]] árabe Al Gazali (séc. XI), no intuito de reservar o poder causal só para Deus, negando-o nas coisas, observou que o vínculo verificável entre as coisas é certo nexo temporal e que, p. ex., dizemos que a combustão é causada pelo [[lexico:f:fogo:start|fogo]] unicamente porque ocorre junto com o fogo (Averróis, Destructio destructionum, I, dúv. 3). Com outro intuito, Ockham, no séc. XIV, antecipava a crítica de [[lexico:h:hume:start|Hume]] afirmando que o conhecimento de uma coisa nào traz consigo, a nenhum título, o conhecimento de uma coisa diferente, de tal modo que "uma [[lexico:p:proposicao:start|proposição]] como ‘o calor esquenta’ de forma alguma pode ser demonstrada por [[lexico:s:silogismo:start|silogismo]], mas o seu conhecimento só pode ser obtido por experiência, pois se não se experimentar que, em [[lexico:p:presenca:start|presença]] de calor, segue-se o calor em uma outra coisa, não se pode saber que calor produz calor mais do que se sabe que brancura produz brancura" (Summa log., III, 2, 38). Aqui se antecipa claramente o ponto fundamental da crítica de Hume, isto é, a não-dedutibilidade do efeito a partir da causa. Hume começa negando justamente que entre [[lexico:c:causa-e-efeito:start|causa e efeito]] haja tal relação. "Nós nos iludimos", diz Hume, "crendo que, se fôssemos trazidos de repente a este mundo, poderíamos imediatamente deduzir que uma bola de bilhar pode comunicar movimento a uma outra". Mas na realidade, mesmo supondo que nasça em mim, por acaso, o [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]] de que o movimento da segunda bola é resultado do choque entre as duas, eu poderia conceber a possibilidade de outros mil acontecimentos diferentes, como p. ex. que ambas as bolas permanecessem paradas ou que a primeira voltasse para trás em linha reta ou escapasse por um dos lados, em uma direção qualquer. Todas essas suposições são coerentes e concebíveis; e aquela que a experiência demonstra ser verdadeira não é mais coerente nem concebível do que as outras. A conclusão é: "todos os nossos raciocínios apriori não poderão demonstrar nenhum [[lexico:d:direito:start|direito]] a essa preferência"; e "seria inútil tentar predizer qualquer acontecimento, ou inferir alguma causa ou efeito, sem o auxílio da [[lexico:o:observacao:start|observação]] e da experiência" (Inq. Conc. Underst., IV, 1). A observação e a experiência, porém, com a [[lexico:r:repeticao:start|repetição]] de certos acontecimentos similares, isto é, com as uniformidades que revelam, dão origem ao hábito de crer que tais uniformidades se verificarão também no futuro e que, portanto, possibilitam a previsão sobre a qual se baseia a [[lexico:v:vida:start|vida]] cotidiana. Mas essa previsão, segundo Hume, não é justificada por nada. Mesmo depois da experiência vivida, a conexão entre causa e efeito continua arbitrária (já que causa e efeito continuam sendo dois acontecimentos distintos), de tal modo que continua sendo arbitrária a previsão baseada nesse nexo. "O pão que eu comia antes me alimentava; isto é, um corpo com certas [[lexico:q:qualidades-sensiveis:start|qualidades sensíveis]] era dotado de forças secretas naquele tempo; mas então será lícito concluir que um outro pão deve nutrir-me também em outro tempo e que qualidades sensíveis semelhantes devam ser sempre acompanhadas por idênticas forças secretas? A [[lexico:c:consequencia:start|consequência]] não parece absolutamente necessária" (Ibid., IV, 2). A conclusão de Hume é que a relação causal é injustificável e que a [[lexico:c:crenca:start|crença]] nela só pode ser explicada pelo [[lexico:i:instinto:start|instinto]], isto é, pela necessidade de [[lexico:v:viver:start|viver]] que a requer. Essa análise de Hume propôs o [[lexico:p:problema:start|problema]] da causalidade na forma que este mantém ainda na filosofia contemporânea. O [[lexico:c:criterio:start|critério]] usado por Hume, para demonstrar a insuficiência da teoria clássica, é o da previsibilidade. A relação causal deve tornar previsível o efeito, mas nenhuma dedução a priori pode tornar previsível um efeito qualquer; por isso, a dedução é incapaz de fundamentar a relação causal. A repetição, empiricamente observável, de conexão entre dois eventos é, então, o [[lexico:u:unico:start|único]] fundamento para afirmar uma relação causal, e o modo como ela possibilita essa [[lexico:a:assercao:start|asserção]] é o problema que hoje está na base de todas as noções de causalidade, [[lexico:c:condicionamento:start|condicionamento]], [[lexico:i:inducao:start|indução]], probabilidade, etc. Kant acreditou [[lexico:t:ter:start|ter]] respondido à dúvida de Hume sobre o [[lexico:v:valor:start|valor]] da causalidade transformando-a numa [[lexico:c:categoria:start|categoria]], isto é, num conceito apriori do [[lexico:i:intelecto:start|intelecto]], aplicável a um conteúdo [[lexico:e:empirico:start|empírico]] e determinante da conexão e da ordenação objetiva desse conteúdo. Mas, na [[lexico:v:verdade:start|verdade]], essa solução só podia postular, em forma de conceito apriorie, portanto, de "princípio [[lexico:p:puro:start|puro]] do intelecto" (a segunda [[lexico:a:analogia:start|analogia]] da experiência), a solução do problema proposto por Hume sem abolir sua dificuldade. Quando Kant diz que a natureza nunca poderá desmentir o princípio de causa porque, para ser natureza, deve ser pensada como natureza e a causalidade é uma [[lexico:c:condicao:start|condição]] do pensamento (Crít. R. Pura, § 26; Prol, § 36), não faz senão dizer que a natureza, para ser natureza, deve ser organizada pelas relações causais, isto é, apenas dá uma [[lexico:d:definicao:start|definição]] de natureza que já inclui essa relação. Portanto, a solução kantiana, embora obviamente sugerida pela exigência de salvar ou garantir a [[lexico:v:validade:start|validade]] da ciência newtoniana fundada na noção de causa, tem caráter de solução verbal e de [[lexico:d:dogmatismo:start|dogmatismo]] camuflado. Para enfraquecer esse dogmatismo, porém, contribuíram no séc. XIX, o [[lexico:r:reconhecimento:start|reconhecimento]] do caráter antropomórfico do conceito de causa e, a partir do final do séc. XIX, as limitações crescentes que o uso desse conceito foi encontrando no pensamento científico. Quanto ao primeiro ponto, limitar-nos-emos a citar a [[lexico:o:opiniao:start|opinião]] de [[lexico:n:nietzsche:start|Nietzsche]], para [[lexico:q:quem:start|quem]] a noção de causa não é senão a transcrição [[lexico:s:simbolica:start|simbólica]] da [[lexico:v:vontade:start|vontade]] de potência, isto é, do [[lexico:s:sentimento:start|sentimento]] interno de força ou de expressão jubilosa. "Fisiologicamente", diz Nietzsche, "a ideia de causa é o nosso sentimento de potência, naquilo que se chama vontade; e a ideia de efeito é o preconceito de crer que o sentimento de potência seja a própria potência motora. A condição que acompanha um [[lexico:e:evento:start|evento]] e que já é um efeito desse evento é projetada como ‘[[lexico:r:razao-suficiente:start|razão suficiente]]’ deste". Na realidade, para Nietzsche toda a concepção mecânica do mundo não passa de linguagem simbólica para exprimir "a [[lexico:l:luta:start|luta]] e a vitória de certas quantidades de vontade" (Wille zur Macht, ed. 1901, § 296). Essa conexão da noção de causalidade enquanto força produtiva com a experiência interna do homem, ou seja, essa transcrição ou concep-tualização antropomórfica, foi sustentada no séc. XIX por numerosos filósofos, conquanto criticada e rejeitada por Hume (Inq. Conc. Underst., VII, 1). Por isso, procurou-se "purificar" a noção de causalidade de suas referências antropo-mórficas e a tentativa mais importante nesse sentido foi feita por [[lexico:c:comte:start|Comte]]. Ele achava que a própria ideia de causa como força produtiva ou [[lexico:a:agente:start|agente]] era própria de um estado ultrapassado da ciência, isto é, do estado metafísico, e considerava própria do estado [[lexico:p:positivo:start|positivo]] a noção de causa como "relação invariável de sucessão e [[lexico:s:semelhanca:start|semelhança]] entre os fatos". Segundo Comte, essa noção bastava para tornar [[lexico:p:possivel:start|possível]] a [[lexico:t:tarefa:start|tarefa]] essencial da ciência, que é a de prever os fenômenos para poder utilizá-los: a relação constante, uma vez reconhecida e formulada em uma [[lexico:l:lei:start|lei]], possibilita prever um fenômeno quando se verifica aquele ao qual ele está ligado; e a previsão, por sua vez, possibilita agir sobre os próprios fenômenos (Cours de phil. positive, I, cap. I, § 2). Esse conceito da previsão como tarefa fundamental da ciência, que Comte hauria em [[lexico:b:bacon:start|Bacon]], mas que, a partir dele prevaleceu na [[lexico:e:especificacao:start|especificação]] [[lexico:m:moderna:start|moderna]], deveria predominar como critério de validade e eficácia da ciência, portanto, do alcance e do significado do princípio de causalidade. E as noções de causalidade e de previsão foram unidas por Comte e assim permaneceram depois dela. [[lexico:m:mach:start|Mach]], que parte dessa conjunção entre as duas noções, quer substituir o conceito tradicional de causalidade pelo conceito matemático de [[lexico:f:funcao:start|função]], isto é, de "interdependência dos fenômenos ou, mais exatamente, interdependência dos caracteres distintivos dos fenômenos" (Analyse der Empfindungen, 9a ed., 1922, p. 74). Todavia, nem Comte nem Mach põem em dúvida o caráter necessitante da causalidade e o determinismo rigoroso que ela comporta no mundo dos fenômenos naturais. Logo, não põem em dúvida a previsibilidade certa e infalível dos fatos naturais cujas relações causais são conhecidas. Foi só a ciência contemporânea que pôs em dúvida essas duas coisas, provocando, assim, a crise definitiva da noção de causalidade. Na segunda metade do séc. XIX, a formulação matemática da teoria cinética dos gases, devida a Maxwell e a Boltzmann, serviu para interpretar estaticamente o segundo princípio da termodinâmica, segundo o qual o calor passa somente de um corpo de temperatura mais alta para outro corpo de temperatura mais baixa. A teoria cinética interpretava esse fato como um caso de probabilidade [[lexico:e:estatistica:start|estatística]]; pela primeira vez, a noção de probabilidade, que até então ficara limitada ao domínio da matemática, era utilizada no domínio da física. Todavia a teoria cinética dos gases não representava ainda uma infração ao princípio de causalidade, predominante em todo o restante da física. Foi só com o [[lexico:p:progresso:start|progresso]] da física subatômica e com a [[lexico:d:descoberta:start|descoberta]], devida a Heisenberg, do princípio de [[lexico:i:indeterminacao:start|indeterminação]] (1927), que o princípio de causalidade sofreu um golpe decisivo. A [[lexico:i:impossibilidade:start|impossibilidade]], estabelecida por esse princípio, de medir com [[lexico:p:precisao:start|precisão]] uma grandeza, sem prejuízo da precisão na [[lexico:m:medida:start|medida]] de uma outra grandeza coligada, torna [[lexico:i:impossivel:start|impossível]] predizer com certeza o [[lexico:c:comportamento:start|comportamento]] futuro de uma partícula subatômica e só autoriza previsões prováveis do comportamento de tais partículas, com base em verificações estatísticas. Em consequência disso, a física tende hoje a considerar as mesmas relações de previsibilidade no [[lexico:c:campo:start|campo]] dos objetos macroscópicos, que deram origem ao princípio de causalidade, como casos particulares de previsões prováveis. Heisenberg escrevia em 1930: "Nossa [[lexico:d:descricao:start|descrição]] habitual da natureza e, particularmente, o pensamento de uma causalidade rigorosa nos eventos da natureza repousam na [[lexico:a:admissao:start|admissão]] de que é possível observar o fenômeno sem influenciá-lo de modo [[lexico:s:sensivel:start|sensível]]... Na física atômica, porém, toda observação geralmente está ligada a uma perturbação finita e, até certo ponto, incontrolável, o que era de esperar desde o princípio na física das menores unidades existentes. Como, por outro lado, toda descrição espácio-temporal de um evento [[lexico:f:fisico:start|físico]] está ligada a uma observação do evento, segue-se que a descrição espácio-temporal de eventos, por um lado, e a lei causal clássica, por outro, representam dois aspectos complementares, mutuamente excludentes, dos acontecimentos físicos" (Die physikalischen Prinzipien der Quantumtheorie, IV, § 3). Em 1932, Von Neumann assim resumira a [[lexico:q:questao:start|questão]]: "Em física macroscópica, não há nenhuma experiência que prove o princípio de causalidade, porque a ordem causal [[lexico:a:aparente:start|aparente]] do mundo macroscópico não tem outra origem senão a lei dos grandes números e isto de modo totalmente independente do fato de os processos elementares (que são os verdadeiros processos físicos) seguirem ou não leis de causalidade ... É só em escala atômica, nos processos elementares, que a questão da causalidade pode realmente ser discutida; mas, nessa escala, no estado atual de nossos conhecimentos, tudo está contra ela, porque a única teoria formal que se ajusta mais ou menos à experiência é a mecânica quântica, e esta está em pleno conflito [[lexico:l:logico:start|lógico]] com a causalidade ... Não há hoje nenhuma razão que permita afirmar a existência da causalidade na natureza e nenhuma experiência pode dar-nos a [[lexico:p:prova:start|prova]] dela" (Les fondements mathematiques dela mécanique quantique, trad. fr., 1947, pp. 143 ss., 223-224, etc). Alguns anos mais tarde, Reinchenbach (Theory of Probability, 1949, p. 10) afirmou: "O [[lexico:d:desenvolvimento:start|desenvolvimento]] [[lexico:h:historico:start|histórico]] da física leva ao resultado de que o conceito de probabilidade é fundamental em todas as asserções sobre a realidade e que, a rigor, não é possível uma única asserção sobre a realidade, cuja validade possa ser afirmada com algo mais do que probabilidade". Esses progressos da ciência tornaram as inúteis discussões dos filósofos sobre o fundamento, o alcance e os limites do princípio de causa. Esse princípio não é mais usado, nem na sua forma clássica nem na sua forma moderna: o conceito do saber ou da ciência como "conhecimento das causas" entrou em crise e foi praticamente abandonado pela própria ciência. Vai-se formando uma nova [[lexico:t:terminologia:start|terminologia]], na qual os termos condição e condicionamento, definíveis por meio dos procedimentos em uso nas várias disciplinas científicas, tomam o lugar do venerando e [[lexico:a:agora:start|agora]] inservível conceito de causa. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}