===== CATEGORIAS ÔNTICAS E ONTOLÓGICAS ===== VIDE [[lexico:o:ontico:start|ôntico]] e [[lexico:o:ontologico:start|ontológico]] Na nossa primeira [[lexico:v:visao:start|visão]] de conjunto sobre o [[lexico:c:campo:start|campo]] [[lexico:t:todo:start|todo]] da [[lexico:o:objetividade:start|objetividade]], encontramos [[lexico:q:quatro:start|Quatro]] regiões em que a [[lexico:t:totalidade:start|totalidade]] dos objetos se pode dividir. Numa primeira [[lexico:r:regiao:start|região]] colocamos as [[lexico:c:coisas-reais:start|coisas reais]]; numa segunda região pomos os objetos ideais; na terceira os valores, e na quarta região, os objetos metafísicos, dos quais pelo menos um, a [[lexico:v:vida:start|vida]], está imediatamente em nosso [[lexico:p:proprio:start|próprio]] poder e ao nosso alcance (v. [[lexico:e:estar-no-mundo:start|estar no mundo]]). Essas quatro esferas de objetos são intuídas imediatamente por nós. Imediatamente nos pomos em [[lexico:r:relacao:start|relação]] com as [[lexico:c:coisas:start|coisas]]; também de um [[lexico:m:modo:start|modo]] [[lexico:i:imediato:start|imediato]] com os objetos ideais, como a [[lexico:i:igualdade:start|igualdade]] ou o [[lexico:c:circulo:start|círculo]]; também de um modo imediato com os valores. Com o [[lexico:o:objeto:start|objeto]] fundamental da [[lexico:m:metafisica:start|metafísica]] que é a vida, nossa vida, também estamos num contacto imediato, visto que a vida nos abrange a nós mesmos no [[lexico:m:mundo:start|mundo]]. Assim, esta imediatez de nossa relação com os objetos nos permite facilmente descobrir, numa primeira visão, que entre estas quatro classes de objetividade existe uma [[lexico:d:diferenca:start|diferença]] notória. [[lexico:n:nao:start|Não]] é o mesmo [[lexico:s:ser:start|ser]] [[lexico:c:coisa:start|coisa]] que ser objeto [[lexico:i:ideal:start|ideal]]; não é o mesmo ser objeto ideal ou ser coisa que ser [[lexico:v:valor:start|valor]]. E quando nos referimos diretamente à vida, também advertimos, nessa [[lexico:r:referencia:start|referência]] direta e imediata, que se trata de um objeto de [[lexico:q:qualidade:start|qualidade]] completamente diferente à dos anteriores. Não poderemos por enquanto, assim de início, determinar por [[lexico:m:meio:start|meio]] de [[lexico:c:conceitos:start|conceitos]] aquilo que há de peculiar em cada uma dessas esferas de objetividade; não poderemos, na nossa [[lexico:i:intuicao:start|intuição]] direta de cada um desses grupos de objetividade, encontrar, sem [[lexico:r:reflexao:start|reflexão]] prévia, a [[lexico:c:caracteristica:start|característica]] diferencial de cada um dos grupos. Porém imediatamente notamos que são, na sua própria [[lexico:r:raiz:start|raiz]], distintos. Assim como intuímos diretamente que entre este [[lexico:p:peso:start|peso]] para papéis e esta lâmpada do [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de vista do ser, não há uma diferença radical, intuímos também imediatamente que entre esta folha de papel e a raiz quadrada de três há, do ponto de vista do ser, uma diferença radical. Por conseguinte, apresenta-se-nos [[lexico:a:agora:start|agora]] o [[lexico:p:problema:start|problema]] de tentar determinar conceptualmente, por meio de conceitos, de noções, de [[lexico:p:pensamentos:start|Pensamentos]], em que consistem as diferenças radicais entre essas quatro modalidades da objetividade. Suspeitamos, pois, somente com a intuição dela, que cada uma tem sua [[lexico:e:estrutura:start|estrutura]] própria; que cada região do ser, cada região da objetividade tem sua própria [[lexico:f:forma:start|forma]]. O problema ontológico que se nos apresenta em seguida é o de descobrir e definir, enquanto for [[lexico:p:possivel:start|possível]], essas características próprias de cada região [[lexico:o:ontologica:start|ontológica]]; tem que havê-las, visto que intuitivamente distinguimos entre os objetos de uma e os objetos da outra. Pois [[lexico:b:bem:start|Bem]]; chamaremos [[lexico:c:categorias:start|categorias]] ônticas a essas estruturas próprias de cada região do ser; a essas estruturas que marcam com um [[lexico:t:tipo:start|tipo]] [[lexico:c:caracteristico:start|característico]], com um modo característico do ser, cada uma dessas regiões ontológicas. Dar-lhes-emos o [[lexico:n:nome:start|nome]] de categorias, porque com este nome ressuscitamos o [[lexico:s:sentido:start|sentido]] que seu autor, [[lexico:a:aristoteles:start|Aristóteles]], lhes deu primitivamente. Para Aristóteles as categorias eram, com [[lexico:e:efeito:start|efeito]], os estratos elementares e primários de todo ser. Chamá-las-emos ônticas para sublinhar que estas categorias são as estruturas mesmas das regiões objetivas. A [[lexico:p:palavra:start|palavra]] "[[lexico:c:categoria:start|categoria]]" foi novamente usada por [[lexico:k:kant:start|Kant]], mas num sentido completamente distinto daquele de Aristóteles. Kant usa o [[lexico:t:termo:start|termo]] de "categoria" para designar não a estrutura do próprio ser, mas aquelas condições que tornam o conjunto dos dados das sensações objeto do [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]], aquelas condições que o objeto recebe quando é pensado como objeto de conhecimento. Por conseguinte, já em Kant as categorias não são propriamente ônticas, mas antes ontológicas. A diferença que se deve estabelecer entre estes dois termos é a de que empregamos o termo "ôntico" para designar aquelas propriedades características, estruturas e formas que são dos objetos enquanto seres. Ao contrário, empregamos o termo de objetividade "ontológica" para designar aquelas formas, estruturas ou modalidades que convém aos objetos enquanto que foram incorporados a uma [[lexico:t:teoria:start|teoria]] científica ou filosófica. O objeto, enquanto ser, tem sua estrutura própria; a essa chamamos ôntica. Mas logo o objeto é elaborado de uma certa maneira pelo [[lexico:e:esforco:start|esforço]] do conhecimento; é elaborado pela [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]], pela [[lexico:p:psicologia:start|psicologia]], pelas ciências particulares; e essa elaboração faz sofrer ao objeto algumas modificações; e as modificações que o objeto sofre pelo [[lexico:f:fato:start|fato]] de ingressar na relação específica do conhecimento, essas modificações são as que chamaremos ontológicas. Porém, por debaixo das modificações ontológicas, perduram sempre as estruturas ônticas; porque estas não podem ser modificadas nem transformadas pelo fato de entrar o objeto a formar na relação do conhecimento. Kant vê muito bem que o objeto, ao entrar na relação de conhecimento, tem que sofrer modificações pelo fato de ingressar nessa relação; e a elas chama categorias. Porém o [[lexico:e:erro:start|erro]] de Kant, como o erro do [[lexico:i:idealismo:start|Idealismo]] em [[lexico:g:geral:start|geral]], é acreditar que o objeto não é objeto senão enquanto ingressa na relação de conhecimento; [[lexico:c:como-se:start|como se]] o [[lexico:h:homem:start|homem]] não tivesse uma relação com objetos distinta, anterior e mais profunda que a relação de conhecimento. O homem trata com os objetos, trata com as coisas, tem-nas, deseja-as, rejeita-as, maneja-as, manipula-as, independentemente de conhecê-las, antes de conhecê-las, depois de tê-las conhecido. A relação de conhecimento é somente uma das muitas [[lexico:r:relacoes:start|relações]] em que o homem pode entrar no mundo. Mas o idealismo é uma filosofia que atua desde o [[lexico:c:comeco:start|começo]] com a condicionalidade histórica de procurar um conhecimento indubitável, de iniciar-se numa [[lexico:t:teoria-do-conhecimento:start|teoria do conhecimento]]; por isso assenta como indiscutível um [[lexico:p:principio:start|princípio]] que esteve valendo durante três séculos, e é que a única relação entre o homem e as coisas é a relação de conhecimento. Tanto o idealismo quanto o [[lexico:r:realismo:start|realismo]] exagerados adotam, pois, um ponto de vista parcial e limitado no conjunto total do ser e da [[lexico:r:realidade:start|realidade]]. [[lexico:e:esse:start|esse]] ponto de vista parcial é o que devemos [[lexico:s:superar:start|superar]] na metafísica [[lexico:a:atual:start|atual]], na [[lexico:o:ontologia:start|ontologia]] atual; e por isso temos de nos colocar ingenuamente diante das diversas regiões do ser, e tentar fixar, com a maior [[lexico:p:precisao:start|precisão]], as estruturas ônticas de cada uma dessas regiões. De outra [[lexico:p:parte:start|parte]], este intento ou ensaio de determinar as estruturas ônticas, essas estruturas que chamamos categorias, tem outra [[lexico:c:consequencia:start|consequência]] de uma importância fundamental. Quando tivermos visto quais são as categorias estruturais próprias de cada região da objetividade, então advertiremos que essas estruturas pertencem aos objetos mesmos, ao [[lexico:g:grupo:start|grupo]] dos objetos mesmos; que impõem suas características aos métodos que o homem, como [[lexico:s:sujeito:start|sujeito]] cognoscente, empregar para tomar conhecimento desses objetos. E checaremos facilmente à conclusão de que cada região ontológica tem suas características ônticas próprias; e que se a [[lexico:i:inteligencia:start|inteligência]] humana, desejosa de conhecer os objetos dessa região, não tomar em conta a estrutura ôntica peculiar dessa região e aplicar a ela métodos que não lhe são próprios ou peculiares, porque são métodos tirados de outras regiões em que há outras estruturas distintas, então, daqui, desta aplicação de métodos inadequados às estruturas peculiares de uma região, nascerão forçosamente equívocos, falhas ou más interpretações, que conduzirão as ciências a erros crassos. Assim, por [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]], poder-se-ia mostrar que durante mais de um século permaneceu o [[lexico:e:estudo:start|estudo]] da [[lexico:b:biologia:start|biologia]] detido nas [[lexico:s:simples:start|simples]] descrições ou [[lexico:e:enumeracao:start|enumeração]] daquilo que se vê e se toca, pelo fato de que, ao iniciar o [[lexico:t:trabalho:start|trabalho]] [[lexico:e:explicativo:start|explicativo]], os biólogos pensavam que não podiam aplicar mais métodos que os próprios métodos da [[lexico:f:fisica:start|física]]. Porém como os métodos da física são métodos que estão adequados a uma determinada região ôntica, a uma determinada região do ser, e se ajustam às estruturas dessa região, resulta que ao serem aplicados sem [[lexico:d:discernimento:start|discernimento]] ao objeto da biologia, tropeçam com impossibilidades que não se puderam evitar até finais do século XIX, quando finalmente os biólogos perceberam que é [[lexico:n:necessario:start|necessário]] aplicar ao [[lexico:m:metodo:start|método]] da biologia métodos adequados às estruturas próprias desse setor ou pedaço da realidade. Isto é o que significa a [[lexico:f:frase:start|frase]], tão frequente na filosofia atual, das "categorias regionais". Os que forem leitores de livros atuais de filosofia terão visto, em [[lexico:h:husserl:start|Husserl]] sobretudo e em muitos outros filósofos, empregado o termo de "categorias regionais". O que isto significa é o que acabo de dizer, ou seja: que cada uma das regiões em que a totalidade dos objetos pode dividir-se tem sua estrutura própria que não é mais do que a [[lexico:e:expressao:start|expressão]], em [[lexico:p:palavras:start|palavras]], da estrutura mesma dessa região ôntica. Pelo contrário, as categorias intelectuais ou categorias ontológicas são aquelas que não respondem à estrutura mesma do objeto que se trata de estudar, antes respondem à [[lexico:t:transformacao:start|transformação]] que esse objeto sofre tão logo entra na [[lexico:t:tarefa:start|tarefa]] especifica do [[lexico:c:conhecimento-cientifico:start|conhecimento científico]]. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}