===== CÁRMIDES ===== No Cármides, ou da [[lexico:s:sabedoria|sabedoria]], [[lexico:s:socrates|Sócrates]] [[lexico:p:pergunta|pergunta]] a Cármides, um [[lexico:b:belo|belo]] aristocrata que se gaba de possuir a sabedoria ([[lexico:s:sophrosyne|sophrosyne]]), [[lexico:o:o-que-e|o que é]] que entende por «sabedoria». Ele responde primeiro que é uma [[lexico:a:ausencia|ausência]] de precipitação (esykiotes tis) feita de moderação e de calma; mas Sócrates mostra imediatamente que a rapidez e a prestreza valem mais, na maioria dos casos, do que a lentidão. Cármides define então a sabedoria como uma [[lexico:e:especie|espécie]] de pudor ([[lexico:a:aidos|aidos]]), e Sócrates responde a isso, citando Homero, que o pudor [[lexico:n:nao|não]] convém a [[lexico:q:quem|quem]] está na miséria. Assim, nem a lentidão nem o pudor são bons em si, são por vezes [[lexico:s:sinal|sinal]] de sabedoria, por vezes também de não sabedoria. Cármides dá então uma terceira [[lexico:d:definicao|definição]] (161 b) e diz que a sabedoria é, para cada um, fazer aquilo que lhe diz [[lexico:r:respeito|respeito]]. Eis aqui um enigma, diz Sócrates; será [[lexico:n:necessario|necessário]] que cada um corte as roupas, fabrique os sapatos, sem nunca [[lexico:p:por|pôr]] o pé nos assuntos do vizinho? [[lexico:c:critias|Crítias]] intervém então lembrando que se deve distinguir entre «fabricar», que tem um [[lexico:s:sentido|sentido]] técnico e utilitário, e «agir», e que a sabedoria deve [[lexico:s:ser|ser]] definida como a [[lexico:a:atividade|atividade]] que se exerce no [[lexico:b:bem|Bem]] (163 e). Mas então, faz notar Sócrates, fizemos uma grande caminhada para chegar a uma banalidade; por [[lexico:o:outro|outro]] lado, quando se diz que os artesãos podem ser sábios, mesmo envolvendo-se nos assuntos dos outros como afirmou Crítias, quer-se dizer que podem ser sábios mas sem o [[lexico:s:saber|saber]]; não sabem de [[lexico:f:fato|fato]] se aquilo que fazem para o outro lhe irá ser [[lexico:u:util|útil]] ou não. O que seria uma sabedoria que não se conhecesse a si própria? Crítias decide então partir de novo do [[lexico:z:zero|zero]] e diz que a sabedoria consiste em conhecermo-nos a nós próprios (164 d) como recomenda a inscrição do [[lexico:t:templo|templo]] de Delfos. Sócrates vai criticar esta concepção da sabedoria; historiadores da [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] admiraram-se com [[lexico:e:esse|esse]] fato e pensaram que [[lexico:p:platao|Platão]] fazia no Cármides o [[lexico:p:processo|processo]] do [[lexico:s:socratismo|socratismo]] (Cf. E. Homeffer, Platon gegen Sokrates (Leipzig, 1904); na [[lexico:v:verdade|verdade]], como muito bem mostra J. Moreau, a quem vamos buscar toda esta [[lexico:i:interpretacao|interpretação]] do Cármides (Cf. J. Moreau, La constrution de l’idéalisme platonicien, pp. 119 e segs), é uma espécie de [[lexico:c:ciencia|ciência]] humana capaz de reconhecer as competências de cada [[lexico:i:individuo|indivíduo]] de [[lexico:m:modo|modo]] a lhe atribuir um [[lexico:l:lugar|lugar]] na [[lexico:c:cidade|cidade]] que lhe permita concorrer à [[lexico:f:felicidade|felicidade]] desta que Crítias espera do «conhece-te a ti [[lexico:p:proprio|próprio]]». Aquilo que Sócrates [[lexico:r:recusa|recusa]] no «conhece-te a ti próprio» é uma pretensão ao [[lexico:i:individualismo|individualismo]] e ao comando. Para Sócrates, o «conhece-te a ti próprio» é um convite à [[lexico:r:reflexao|reflexão]], não acerca do indivíduo, mas acerca da [[lexico:p:pessoa|pessoa]], é uma [[lexico:m:meditacao|meditação]] acerca do [[lexico:c:conhecimento-da-alma|conhecimento da alma]] e do bem. Uma ciência ou uma [[lexico:t:tecnica|técnica]] só nos podem dar um poder utilizável (kresimon) em certos casos, mas não absolutamente útil (ophelimon) . O Cármides não conclui, mas preparou o terreno para reflexões futuras.