===== BONDADE ===== (lat. bonitas; in. Goodness; fr. Bonté; al. Gütigheit; it. Bonta). Em [[lexico:s:sentido:start|sentido]] lato, [[lexico:e:excelencia:start|excelência]] de um [[lexico:o:objeto:start|objeto]] qualquer ([[lexico:c:coisa:start|coisa]] ou [[lexico:p:pessoa:start|pessoa]]). Diz, p. ex., [[lexico:t:tomas-de-aquino:start|Tomás de Aquino]]: "A bondade que em [[lexico:d:deus:start|Deus]] está de [[lexico:m:modo:start|modo]] [[lexico:s:simples:start|simples]] e [[lexico:u:uniforme:start|uniforme]], nas criaturas está de modo [[lexico:m:multiplo:start|múltiplo]] e dividido" (S. Th., 1, q. 47, a. 1). As discussões dos sécs. XVII e XVIII a propósito da bondade de Deus como [[lexico:m:movel:start|móvel]] da [[lexico:c:criacao:start|criação]] (cf. [[lexico:l:leibniz:start|Leibniz]], Théod., II, §§ 116 ss.) fundaram-se num [[lexico:s:significado:start|significado]] mais restrito do [[lexico:t:termo:start|termo]], que foi expresso claramente por Baumgarten: "A bondade (benignidade) é a [[lexico:d:determinacao:start|determinação]] da [[lexico:v:vontade:start|vontade]] de fazer [[lexico:b:bem:start|Bem]] aos outros. O benefício é a [[lexico:a:acao:start|ação]] [[lexico:u:util:start|útil]] ao [[lexico:o:outro:start|outro]], sugerida pela bondade" (Met., § 903). Nesse sentido, a bondade identifica-se com o que [[lexico:a:aristoteles:start|Aristóteles]] chamava de [[lexico:b:benevolencia:start|benevolência]] (eunois) (Et. Nic, VIII, 2, 1.155 b 33). Os dois significados desse termo estão vivos no [[lexico:u:uso:start|uso]] comum. A bondade em um sentido [[lexico:a:absoluto:start|absoluto]], em [[lexico:c:contraposicao:start|contraposição]] à “prestabilidade” ou à “excelência” na [[lexico:a:antiguidade:start|antiguidade]] greco-romana, tornou-se conhecida em nossa [[lexico:c:civilizacao:start|civilização]] somente com o advento do cristianismo. Desde então, reconhecemos nas boas obras uma importante variedade entre as [[lexico:a:acoes:start|ações]] humanas possíveis. O notório antagonismo entre o cristianismo [[lexico:p:primitivo:start|primitivo]] e a res publica – tão admiravelmente resumido na [[lexico:f:formula:start|fórmula]] de [[lexico:t:tertuliano:start|Tertuliano]]: nec ulla magis res aliena quam publica (“[[lexico:n:nada:start|nada]] nos é mais alheio que o que tem importância pública”) [Tertuliano, Apologeticus, 38] – é compreendido usualmente e de modo correto como [[lexico:c:consequencia:start|consequência]] de antigas expectativas escatológicas, cuja [[lexico:s:significacao:start|significação]] imediata somente se perdeu depois que a [[lexico:e:experiencia:start|experiência]] havia ensinado que nem mesmo a [[lexico:q:queda:start|Queda]] do Império Romano significava o [[lexico:f:fim:start|fim]] do [[lexico:m:mundo:start|mundo]]. No entanto, a além-mundanidade do cristianismo tem ainda outra [[lexico:r:raiz:start|raiz]], talvez ainda mais intimamente relacionada com os ensinamentos de Jesus de Nazaré, e de qualquer [[lexico:f:forma:start|forma]] tão [[lexico:i:independente:start|independente]] da [[lexico:c:crenca:start|crença]] na perecibilidade do mundo que temos a tentação de [[lexico:v:ver:start|ver]] nela a verdadeira [[lexico:r:razao:start|razão]] interna pela qual a [[lexico:a:alienacao:start|alienação]] cristã em [[lexico:r:relacao:start|relação]] ao mundo pôde sobreviver tão facilmente à óbvia frustração de suas esperanças escatológicas. A única [[lexico:a:atividade:start|atividade]] que Jesus ensinou, por [[lexico:p:palavras:start|palavras]] e atos, foi a atividade da bondade, e a bondade abriga obviamente uma [[lexico:t:tendencia:start|tendência]] de evitar [[lexico:s:ser:start|ser]] vista e ouvida. A hostilidade cristã em relação ao domínio [[lexico:p:publico:start|público]], a tendência pelo menos dos primeiros cristãos de levar uma [[lexico:v:vida:start|vida]] o mais [[lexico:p:possivel:start|possível]] afastada do domínio público, pode também ser entendida como uma consequência evidente da [[lexico:d:devocao:start|devoção]] às boas obras, independentemente de qualquer crença ou [[lexico:e:expectativa:start|expectativa]]. Pois é claro que, no [[lexico:i:instante:start|instante]] em que uma boa [[lexico:o:obra:start|obra]] se torna pública e conhecida, perde o seu [[lexico:c:carater:start|caráter]] específico de bondade, de [[lexico:n:nao:start|não]] [[lexico:t:ter:start|ter]] sido feita por outro [[lexico:m:motivo:start|motivo]] [[lexico:a:alem:start|além]] do [[lexico:a:amor:start|amor]] à bondade. Quando a bondade aparece abertamente já não é bondade, embora possa ainda ser útil como [[lexico:c:caridade:start|caridade]] organizada ou como um [[lexico:a:ato:start|ato]] de [[lexico:s:solidariedade:start|solidariedade]]. Daí: “Não dês tuas esmolas perante os homens, para seres visto por eles. A bondade só pode [[lexico:e:existir:start|existir]] quando não é percebida, nem mesmo por aquele que a faz; [[lexico:q:quem:start|quem]] quer que se veja a [[lexico:s:si-mesmo:start|si mesmo]] no ato de fazer uma boa obra deixa de ser [[lexico:b:bom:start|Bom]]: seria, no máximo, um membro útil da [[lexico:s:sociedade:start|sociedade]] ou zeloso membro da Igreja. Daí: “Que a tua mão esquerda não saiba o que faz a tua mão direita. Talvez seja essa curiosa [[lexico:q:qualidade:start|qualidade]] negativa da bondade, a [[lexico:a:ausencia:start|ausência]] de [[lexico:m:manifestacao:start|manifestação]] fenomênica [[lexico:e:exterior:start|exterior]], o que torna o aparecimento de Jesus de Nazaré na [[lexico:h:historia:start|história]] um [[lexico:e:evento:start|evento]] tão profundamente paradoxal; certamente parece ser por isso que ele pensava e ensinava que nenhum [[lexico:h:homem:start|homem]] pode ser bom: “Por que me chamais de bom? Ninguém é bom a não ser um, isto é, Deus. A mesma [[lexico:c:conviccao:start|convicção]] se expressa no [[lexico:r:relato:start|relato]] talmúdico dos 36 homens justos, em [[lexico:a:atencao:start|atenção]] aos quais Deus salva o mundo, e que também não são conhecidos de ninguém, muito menos de si mesmos. Isso nos lembra a grande [[lexico:p:percepcao:start|percepção]] de [[lexico:s:socrates:start|Sócrates]] de que nenhum homem pode ser [[lexico:s:sabio:start|sábio]], da qual nasceu o amor à [[lexico:s:sabedoria:start|sabedoria]], ou filo-sofia ; [[lexico:t:todo:start|todo]] o relato da vida de Jesus parece atestar o quanto o amor à bondade resulta da [[lexico:c:compreensao:start|compreensão]] de que nenhum homem pode ser bom. [ArendtCH:10] {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}